quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O JARDINEIRO - CONTOS DE ANDERSEN

    Apenas a uma curta légua da capital ficava  o castelo. Eram espessas as muralhas; as torres ameiadas tinham teto pontudo.
   Lá residia, somente no verão uma nobre e rica família. De todos os seus domínios, era aquele castelo a pérola, a joia mais preciosa. Tinha sido exteriormente restaurado há pouco, e estava tao belo que parecia ter voltado aos tempos da mocidade. Por dentro, era tão confortável como lindo: nada faltava ali. Acima da porta de entrada estava esculpido o brasão da família. Rosas cinzeladas na pedra cercavam em magníficos festões os animais fantásticos do brasão de armas.
   Diante do castelo estendia-se um vasto relvado. Do meio da grama verde surgiam grupos de pilriteiros, espinheira-branca, canteiros de flores raras, sem falar nas maravilhas encerradas em uma grande estufa bem cuidada.
   A nobre família possuía um jardineiro afamado. Também , era um prazer percorrer o jardim, o pomar, a horta. No estremo da horta existia ainda um resto do jardim de outros tempos. Eram grupo de buxos e de teixos, talhados em forma de pirâmides e de coroas. Por detrás, erguiam-se duas árvores enormes, tão velhas que já quase não brotavam folhas. Dir-se-ia que algum furacão ou tromba as cobrira de lama e de terra de estrumeira; mas eram ninhos de aves que lhe enchiam quase completamente os galhos.
   Ali iam aninhar, desde tempos imemoriais, um grande bando de gralhas e de pêgas. Era como uma cidade. As aves tinham escolhido aquele lugar para seu domicílio antes de mais ninguém: podiam considerar-se os verdadeiros senhores ali. E de fato davam a impressão de desprezar profundamente os homens que tinham vindo usurpar o seu domínio. Todavia, quando essas criaturas de espécie inferior, incapazes de se elevar acima da terra, disparavam alguns tiros na vizinhança, pêgas e gralhas sentiam frio na medula, e fugiam a bom voar, gritando: rac, rac,rac!
   Muitas vezes o jardineiro falava aos amos naquelas árvores velhas, que, na sua opinião estragavam a perspectiva; e aconselhava-os a abatê-las; isso traria ainda a vantagem de livrá-los daquelas aves de gritos tão dissonantes, que veriam assim obrigadas a construir seus ninhos noutro lugar.
   Mas os senhores não pensavam assim. Não queriam que dali desaparecessem nem as árvores nem as gralhas.
  - É um vestígio de antiguidade venerável, que não destruiremos. E repara bem, caro Larsen, que estas árvores são a herança das aves, e faríamos muito mal se lhas tirássemos.
   E, para convencer o jardineiro, ainda diziam:
   - Pois não possuis espaço bastante para dar largas a teus talentos? Tens um grande jardim, uma vasta estufa, uma horta enorme. Para que queres mais terresno?
   De fato, não era a terra que lhe faltava. E ele a cultivava com tanto zelo como habilidade: bem o reconheciam os amos. Mas também é certo que não deixavam de lhe dizer muitas vezes que tinham visto e provado, em outras casas, flores e frutos melhores que os que viam na sua.
   É claro que essas observações entristeceram o pobre homem, que fazia o mais que podia: ele não tinha outro pensamento que não o de satisfazer em tudo seus patrões, e conhecia a fundo o seu ofício.
    Um dia mandaram chamá-lo à sala e disseram-lhe, com a maior polidez, que na véspera, jantando no castelo vizinho, tinham comido peras e maças tão perfumadas, tão saborosas, tão deliciosas, que haviam provocado a admiração de todos os convidados. E explicaram:
   - Aquelas frutas não são, certamente, da terra; devem ter vindo do estrangeiro. Mas deves tratar de indagar de que espécie são, e aclimar essas árvores aqui. Foram compradas, ao que nos informaram, no principal fruteiro da cidade. Monta pois a cavalo e vai saber dele de onde tirou aquelas frutas. mandaremos vir os enxertos, e a tua habilidade fará o resto.
   Conhecia o jardineiro perfeitamente o fruteiro; era precisamente aquele a que, costumava vender as frutas que lhe sobravam do pomar.
   Lá se foi, pois, a cavalo, e indagou do fruteiro de onde provinham aquelas peras e maças deliciosas que seus amos tinham comido no castelo vizinho.
  - Eram do teu pomar- respondeu o homem.
   E mostrou-lhe peras e maças iguais, que o jardineiro reconheceu imediatamente: eram das suas . Pode-se lá imaginar quanto se alegrou com aquela notícia! Correu o mais depressa que pode, e contou a seus patrões que aquelas famosas maçãs e aquelas peras deliciosas tinham sido produzidas no seu pomar. Mas os amos não queriam dar-lhe crédito.
  - Não, meu bom Larsen, isso não é possível. Vamos, eu aposto que o fruteiro não há de querer dar um atestado por escrito...
 No dia seguinte o jardineiro entregou-lhe um atestado assinado pelo fruteiro:
   - Pois é a coisa mais extraordinária! - declararam eles.
   Daquele dia em diante não faltavam na sua mesa cestas cheias daquelas maças e daquelas peras. Mandavam-nas de presente aos amigos da cidade e do campo, até a alguns amigos estrangeiros as remetiam. Aqueles presentes davam grande prazer a quem os recebia, e também a quem os dava. Mas para que não se exaltasse muito o orgulho do jardineiro, tinham sempre o cuidado de observar diante dele que o verão tinha sido muito favorável às frutas, e estas em toda aparte estava magníficas.
   Passou-se algum tempo. A nobre família foi convidada para um jantar na corte. No dia seguinte foi o jardineiro de novo chamado à sala. É que na mesa do rei tinham sido servidos melões de gosto e perfume maravilhosas.
   - Provém das estufas de Sua Majestade. É preciso, caro Larsen, que obtenhas do jardineiro do rei algumas sementes daquelas frutas incomparáveis!
   - Mas fui eu quem forneceu ao jardineiro a semente daqueles melões! - respondeu alegremente o homem.
   - Nesse caso - retrucou o senhor - esse homem soube aperfeiçoá-los singularmente pela cultura, porque nunca comi melões tão saborosos. Só de me lembrar deles, vem-me água à boca...
   - Pois bem - disse o jardineiro - é motivo para encher de me encher de orgulho. Tenho de declarar a Vossa Senhoria que o jardineiro do rei não foi feliz este ano com seus melões; ele veio aqui há poucos dias, viu que os meus estavam com muita boa aparência, e, depois de provar um, pediu-me que enviasse três deles para a mesa de Sua Majestade.
   - Não, não, meu bom Larsen! Não vás pensar agora que aquelas frutas divinas que comemos ontem vieram do teu pomar, não!
   - Estou absolutamente certo disso - respondeu Larsen. - E vou mostrar-lhe a prova.
   Foi ter com o jardineiro do rei e obteve dele um certificado, no qual declarava que os melões que tinham figurado no jantar da corte provinham realmente das estufas dos patrões de Larsen.
   E eles não voltavam a si de surpresa. E não fizeram mistério do caso. Bem longe disso, mostravam o papel a quem quisesse vê-lo.
   E era agora cada qual mais depressa a lhes pedir sementes daqueles melões, e enxertos daquelas árvores. Os enxertos pegavam bem por toda a parte. As frutas que deles provieram recebiam o nome dos donos do castelo, de sorte que esse nome se espalhou na Inglaterra, na Alemanha e na França.
    Quem o teria dito?...
    Mas os amos comentavam ainda:
    - Contanto que nosso  jardineiro não vá formar agora uma ideia muito elevada de si!
   Mas era mal fundada a sua apreensão. Em vez de se orgulhar e de se deitar a dormir sobre a fama, Larsen redobrada cada vez mais de zelo e de atividade. Dedicava-se todos os anos a produzir alguma nova obra-prima. E quase sempre o conseguia. Mas nem por isso deixava de ouvir dizer muitas vezes que as maças e as peras daquele ano famoso eram as melhores frutas que ele jamais obtivera. Os melões continuavam a aparecer, é certo; mas já não tinham aquele perfume. Os morangos eram excedentes, é verdade, mas não melhores que os do conde Z. E quando aconteceu um ano que faltaram os rabanetes, não se falava mais noutra coisa senão naqueles detestáveis rabanetes. Dos outros legumes, que eram perfeitos, nem uma palavra. Dir-se-ia que os senhores sentiam verdadeiro alívio quando podiam gritar:
   - Que rabanetes intragáveis! Na verdade, este ano foi péssimo: nada deu bem!
    Duas ou três vezes por semana o jardineiro levava para ornar a sala. Tinha ele uma arte particular para formar ramalhetes; dispunha as cores de tal modo que umas faziam valer as outas, e obtinha assim efeitos encantadores.
  - Tens muito gosto, Larsen - diziam os amos. - Muito bom gosto mesmo. Contudo não esqueças que isso é um dom de Deus. A gente o recebe ao nascer : não podemos de um azul brilhante.
   - É soberba! -gritou Sua Senhoria, encantada. - Parece o famoso lótus indiano!
    Durante o dia colocaram-na em lugar onde recebia a luz do sol, e a flor resplandecia; à noite fizeram convergir sobre ela a luz artificial, por meio de um refletor. Mostrava-na a todo o mundo, todo o mundo a admirava. Declaravam todos que não tinham jamais visto flor como aquela; devia ser das mais raras.
   Foi esse o parecer, entre todos os outros, da moça mais nobre do país, que estava de visita no castelo: era princesa, era filha do rei. Tinha , além disso, espirito e coração, mas, em tão alta posição como a sua, isso é apenas um detalhe ocioso.
   Fizeram questão os donos do castelo de lhe oferecer a magnifica flor: mandaram levá-la ao palácio real. Depois foram ao jardim, em busca de outra para por no salão. Procuraram-na em vão, até nos menores recantos do jardim: não a encontraram em parte alguma, nem lá nem na estufa. Chamaram então o jardineiro, para indagar onde colhera aquela flor. E ouviram dele esta resposta:
   - Não era no jardim, mas na horta, que ela seria encontrada. Não é uma flor que tenha muita pretensão, aquela, mas é muito bonita, ainda assim: é apenas uma flor de alcachofra.
   - Justos céus! Uma flor de alcachofra! - bradaram Suas Senhorias. - Mas devias ter prevenido!..
Que vai agora pensar a princesa? Que nos divertimos á sua custa! Eis-nos agora comprometidos na corte...  A princesa viu a flor no salão, tomou-a por uma flor rara e exótica; é certo que ela é instruída em botânica, justamente: mas a ciência  não se ocupa das hortaliças, é o que é. Que ideia a tua, Larsen, de levar para a nossa sala uma flor que não vale nada! E, por tua culpa, passaremos por impertinentes ou ridículos!
   Tiveram cuidado, é claro, de não levar para o salão uma daquelas flores da horta. Os castelões apressaram-se em pedir toda a sorte de desculpas à princesa, lançando toda a culpa às costas do jardineiro, que tivera aquela estranha fantasia - mas que já recebera severa reprimida!
   - Pois foi um erro e uma injustiça - respondeu a princesa. - Como! Ele atrai nossos olhares para uma flor magnífica que não sabíamos apreciar; leva-nos a descobrir a beleza onde não tínhamos a menor ideia de ir procurá-la- e é censurado! Pois todos os dias, enquanto a alcachofra florescer, eu lhe peço que me traga ao palácio uma dessas flores.
    Assim se fez. Os amos de Larsen apressaram-se, de seu lado, em reinstalar a flor azul no salão, e em a colocar num lugar evidente  como da primeira vez. E diziam:
   - Sim, é magnífica; não se pode negá-lo. mas é curioso: uma flor de alcachofra!
   E o jardineiro recebeu cumprimentos.
  - Ah! Os cumprimentos, os elogios - é disso que ele gosta - diziam os amos. - É tal qual uma criança mimada.
   Veio o outono. Um dia estalou uma tempestade tremenda, que durante toda a noite não fez senão aumentar de intensidade. Na orla do bosque uma fila de árvores foram arrancadas com as raízes. E as duas árvores cobertas de ninhos de aves também ruíram. Até pela manhã se ouviam gritos  penetrantes, os pios agudos das gralhas desorientadas, que batiam com as asas nas vidraças.
   - Estás agora satisfeito, Larsen - disseram os amos. - As pobres árvores velhas estão no chão. Agora já não resta aqui traço algum dos tempos antigos: tudo foi destruído, como desejavas. Mas isso nos causa muita pena!
   O jardineiro não respondeu: refletia já no que faria daquele novo pedaço de terra bem exposto ao sol. As árvores, ao cair , tinham estragado os buxos talhados em forma de pirâmide, que foram retirados dali. Larsen substitui-os por arbustos tirados dos matos e dos campos dos arredores. Jamais jardineiro algum tivera aquela ideia. Reuniu ali o zimbro dos brejos da Jutlândia, que se assemelha ao ciprestre da Itália, o azevinho sempre verde. Pelo chão alastravam-se lindas flores dos prados e da matas. E tudo aquilo formava um conjunto encantador. No sítio onde tinham estado as velhas árvore foi plantado um grande mastro, em cujo topo flutuava o estandarte do Danebrog; estava o mastro todo cercado de poleiros, onde, no verão, subia o lúpulo. No inverno, pelo Natal, conforme um antigo costume, foi suspenso a um dos poleiros um molho de aveia, para que os passarinhos também tivessem a sua festa.
   - Vai ficando sentimental, agora na velhice, este bom Larsen - diziam os amos. - Mas nem por isso deixa de ser um servidor fiel e devotado.
   No dia de Ano Bom uma das folhas ilustradas da capital publicou uma gravura representando  velho castelo. Via-se o mastro com o Danebrog, e o molho de aveia, na ponta de uma das varas. No texto o jornalista chamava a atenção para o que havia de tocante naquele costume antigo, de fazer as avezinhas de Deus tomarem parte na alegria geral das festas de Natal. E eram muito louvados os que lhe tinham restaurado a prática.
  - Em verdade, tudo quanto este Larsen faz é imediatamente apregoado - diziam os amos. - é um sujeito de sorte! Quase que devemos sentir-nos orgulhosos de querer ele ficar a nosso serviço...
   Isso era apenas um modo de falar, é claro; não tinham orgulho nenhum disso, e não esqueciam que eram os senhores, e que podiam, se bem lhes parecesse, despedir o jardineiro - o que teria sido a morte dele, tanto amor tinha ao seu jardim.
  Mas os amos não o despediram. Eram bons amos. Contudo, aquele gênero de bondade não é muito raro - o que é uma felicidade para as pessoas como Larsen.
FIM

 Pilriteiro é o nome popular de uma árvore da família das Rosáceas, originária da Europa. Produz flores brancas, muito vistosas)

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