quinta-feira, 5 de maio de 2016

O TICO-TICO E O URSO - CONTOS DE GRIMM

    Certa vez, num belo dia de verão, um urso e um lobo saíram a passear pela floresta. ouvindo o canto de uma ave, o urso disse:
    - Irmão lobo, que pássaro é esse que canta bonito?
     - É o rei das aves, -disse o lobo, - diante dele temos de nos curvar.
     O passarinho era um tico-tico.
     - Sendo assim, - falou o urso - gostaria de ver o palácio real. Leva-me até lá.
     - Isso não é tão fácil assim, - respondeu-lhe o lobo. - Terás de esperar até que venha Sua Majestade a rainha.
    Pouco depois apareceu a a rainha, seguida do rei, trazendo no bico a comida para seus filhinhos.
     O urso teria gostado de ir logo atrás, mas o lobo segurou-o pelo braço e lhe disse:
    - Não; agora terás de esperar até que o senhor rei e a senhora rainha tenham saído.
    Tomaram nota do lugar onde estava o ninho e se afastaram. Mas o urso não se conformou com a espera. Queria ver, o quanto antes, o palácio real e, pouco depois, voltaram lá novamente. o rei e a rainha estavam fora e ele resolveu dar uma espiada no ninho. Viu lá entro uns cinco ou seis filhotes.
     - Ah! então é este o palácio real?! - exclamou o urso. - Mas que palácio mais à toa! E vocês também não são príncipes; não passam de uns embromadores!
     Quando os tico-tiquinhos ouviram aquilo, ficaram furiosos e gritaram:
    - Não, não somos nenhuns embromadores! Nossos pais são gente muito direita. Você vai nos pagar, seu urso mentiroso!
     O urso e o lobo deram volta, assustados, e foram sentar-se nas suas cavernas.
    Os pequenos tico-ticos, porém, continuaram gritando, fazendo uma algazarra dos diabos. Quando seus pais trouxeram a comida, eles declararam:
     - Não tocaremos nem numa perninha de môsca, estamos dispostos até a morrer de fome, enquanto não ficar provado se somos ou não uns embromadores. O urso esteve aqui e nos disse uma porção de desaforos.
     - Fiquem descansados, - disse o velho rei, - que eu vou tirar isso a limpo.
      Ele e a senhora rainha saíram voando até à entrada da caverna do urso e o rei gritou:
    - Velho resmungão! Por que insultaste meus filhos? Isso te saíra caro. vai dar numa guerra tremenda!
     E assim ficou declarada a guerra ao urso. E ele então chamou em seu auxílio todos os quadrúpedes: o boi, o burro, o veado, o tigre e todos os demais que andam de quatro pés por este mundo em fora. O tico- tico, por sua vez,convocou tudo o que voa. Não só os pássaros grandes e pequenos, mas também os mosquitos, marimbondos, abelhas e moscas tiveram de acudir.
    Quando chegou a data em que a guerra deveria começar, o tico-tico enviou seus espias para descobrir quem era o general comandante das tropas inimigas. O mosquito, que era o mais esperto, saiu pelo mato onde estavam reunidos os adversários e escondeu-se entre as folhagens da árvore a cuja sombra os inimigos discutiam os planos de guerra. Ali estava o urso, que chamou a raposa e lhe disse:
      - Raposa, tu és o mais esperto de todos os bichos. Quero que sejas o nosso general. É preciso que no guies durante a batalha.
       - Bem, - disse a raposa, - mas que senha combinaremos, para eu dar as ordens a vocês?
     Ninguém atinava com uma senha que o inimigo não pudesse descobrir. Aí a raposa continuou falando:
     - Tenho uma bela cauda  comprida e bem peluda, que se parece com um penacho vermelho. Se eu a  mantiver em pé, sera sinal de que tudo corre bem, e vocês deverão continuar avançando. Mas se eu abaixar a cauda, saiam disparando o mais depressa possível.
    Quando o mosquito ouviu aquela combinação, regressou voando e contou tudo, direitinho, ao tico-tico.
     Na madrugada em que seria travada a batalha, via-se, de longe, o exercito dos quadrúpedes correr em grande velocidade, fazendo um barulhão que estremecia a terra. O tico-tico, por sua parte, vinha pelo ar, à frente de seu exército, em tremenda algazarra; era um gritar  e um zumbir que dava medo. E os dois exércitos investiram com furor.
     Aí então o tico-tico enviou o marimbondo, com ordem de ficar embaixo do rabo da raposa e de picá-la com toda a força que tinha. Na primeira ferroada a raposa estremeceu e levantou uma perna. Mas resistiu, mantendo a cauda de em pé. A segunda picada a obrigou a abaixá-la um momento e, à terceira, não podendo mais aguentar a dor soltou um berro e meteu o rabo entre as pernas . Quando os animais viram o sinal, acreditaram que tudo estava perdido e começaram a fuga, procurando cada qual esconder-se em suas covas. E assim as aves ganharam a batalha.
     O senhor rei e a senhora rainha voaram, então, ao ninho dos seus filhotes e lhes disseram:
     - Alegrem-se, pequenos; comam e bebam à vontade. Ganhamos a guerra!
      Mas os filhotes replicaram:
    - Não comeremos até que o urso venha ao nosso ninho pedir desculpas e reconheça que não somos impostores.
      O tico-tico voou até a gruta do urso e gritou na entrada:
    - Urso resmungão, tens de ir até o ninho de meus filhos, pedir-lhes perdão e dizer que são crianças direitinhas; do contrário, teremos de quebrar todos esses teus ossos!
     O urso, assustado, apresou-se em ir apresentar desculpas. Só então os pequenos tico-ticos ficaram satisfeitos, comeram e beberam como nunca e ficaram festejando até uma hora em que as crianças já deviam estar deitadas.  FIM
   

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