quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O POBRE E O RICO - CONTOS DE GRIMM

Há muitíssimos anos, quando Nosso Senhor andava pela Terra, aconteceu que certa vez, ao entardecer, sentiu-se cansado e a noite veio surpreendê-lo antes de chegar a uma hospedaria. Encontrou em seu caminho duas casas, uma em frente à outra: a da esquerda era grande e luxuosa; a da direita era pequena e humilde. A primeira pertencia a um homem rico  e a segunda a um pobre. Pensou Nosso Senhor: " Se me hospedo na casa do rico, isso não lhe saíra pesado; vou passar a noite ali."
      Quando o homem ouviu que batiam à porta, abriu  a janela e perguntou ao forasteiro o que desejava. Respondeu-lhe Nosso Senhor:
     - Peço pousada por uma noite.
    O rico fitou o viajante dos pés à cabeça. Viu que trajava modestamente e não tinha a aparência de pessoa com os bolsos cheios de dinheiro. Sacudiu a cabeça, dizendo:
   - Não posso acolher-te ; todas a peças estão  repletas de plantas e sementes e, se fosse abrigar todos os que batem à minha porta, em breve teria eu mesmo de pegar num bastão e mendigar. terás de pedir hospedagem noutra parte.
     Fechou a janela e deixou parado Nosso Senhor. Este, voltando-se, encaminhou-se para a outra casa. Mal havia batido, o pobre abriu a porta e o convidou a entrar.
    - Passa aqui a noite- disse-lhe o dono da casa.- Já escureceu e hoje não poderás ir adiante.
    Tal acolhida agradou a Nosso Senhor e ele entrou. A mulher do pobre estendeu-lhe a mão, deu-lhe as boas-vindas e lhe disse que se considerasse como em sua casa; pouco tinham , mas de bom grado lhe ofereciam. Em seguida pôs a cozinhar umas batatas e nesse meio tempo ordenhou a cabra, para terem, também, um pouco de leite. Quando a mesa estava posta, Nosso Senhor sentou-se e comeu com eles. A refeição frugal agradou-lhe muito , pois a satisfação refletia-se no rosto dos que o cercavam. Terminada a janta e sendo já hora de deitar, a mulher chamou o marido à parte e lhe disse:
    - Escuta, marido: esta noite poderíamos dormir na palha para que  o pobre forasteiro possa descansar em nossa cama. Caminhou todo o dia e deve estar exausto.
    - Estou plenamente de acordo - respondeu ele.- Vou dizer-lhe.
     E, aproximando-se do Senhor, ofereceu-lhe a cama onde poderia descansar comodamente. Nosso Senhor não quis tirar o conforto dos dois velhos e recusou a oferta, mas eles tanto insistiram que, por fim, teve de aceitar. O casal, então, ajeitou um leito na palha e ali dormiram.
    Na manhã seguinte, bem cedo, prepararam uma refeição, a melhor possível, para o forasteiro. E quando o sol entrou pela janela, Nosso Senhor despertou, comeu de novo, com eles e se dispôs a seguir seu caminho . Na porta, voltou-se e disse:
    - Já que se mostraram tão compassivos e piedoso, podem fazer três pedidos que eu os atenderei.
    - Que outra coisa poderíamos desejar senão a salvação eterna e que, enquanto vivermos, não nos falte saúde e um pedaço de pão?
     E disse Nosso Senhor:
   - Não lhes agradaria ter uma casa nova em lugar desta velha?
     - Oh, sim! - exclamou o homem. - Se isso fosse possível, é claro que me agradaria.
     E Deus Nosso Senhor satisfez os seus desejos; transformou a casa velha em nova e partiu, depois de dar-lhes a benção.
    O sol já estava alto quando o rico se levantou. Foi à janela e viu em frente uma linda casa nova, coberta de telhas vermelhas, no lugar onde antes estava uma velha choupana. Arregalou bem os olhos e foi chamar a mulher, exclamando:
    - Não podes me dizer o que houve? Ontem à noite ainda havia uma choupana velha e miserável, e hoje vejo uma casa bonita, completamente nova. corre lé e indaga como isso aconteceu.
     A mulher saiu para indagar do pobre e este lhe contou:
   - Ontem à noite chegou um viajante à procura de albergue e esta manhã, ao despedir-se, atendeu a três pedidos que nos concedeu: a salvação eterna, saúde e o pão de cada dia; além disso, transformou nossa choupana nesta bela casa.
    A mulher do rico correu a relatar ao marido o que ouvira, este exclamou desesperado;
    - Gostaria de me arrancar os cabelos e de me esbofetear a mim mesmo! O forasteiro esteve aqui, pedindo-me que o deixasse passar a noite em nossa casa, e eu o mandei embora!
    - Pois não perca tempo,- disse-lhe a mulher.- Monta a cavalo e ainda alcançarás o homem. Faz com que também te conceda três graças.
    O rico seguiu o bom conselho da mulher e partiu a cavalo, Não tardou em alcançar Nosso Senhor e, dirigindo-se a ele, com toda a lisura e cortesia, pediu que não levasse a mal não tê-lo acolhido logo, mas que, enquanto entrara para apanhar a chave, ele se havia ido. Portanto, se quisesse dar volta , o acolheria, de muito bom grado, em sua casa.
   - Bem- disse-lhe Nosso Senhor- se algum dia eu voltar a estas terras, assim farei.
    O rico, então, perguntou se não poderia formular três desejos, como o seu vizinho. Nosso Senhor respondeu-lhe que sim , mas aconselhou que não o fizesse, pois seria para o seu mal. Mas o rico disse-lhe que não se preocupasse porque escolheria algo que, na certa, o tornaria feliz, contanto que lhe fosse concedido.
    - Pois então volta à tua casa e verás realizados teus três desejos- falou o Senhor.
   O rico, tendo conseguido a promessa, deu volta e começou a pensar sobre o que poderia  pedir. Mergulhado em seus pensamentos, soltou as rédeas e o cavalo pôs-se a dar pinotes, fazendo-o perder, a cada instante, o fio de seus pensamentos.
     - Calma! Calma! - disse, batendo no pescoço do animal; mas este seguiu com suas travessuras. O homem acabou perdendo a paciência e esbravejou:
    - Tomara que quebre o pescoço!
     Mal havia pronunciado essas palavras- pluft!- foi jogado ao chão e o cavalo caiu morto a seu lado. Com isso o seu primeiro desejo estava cumprido. Avarento como era, ele não quis abandonar ali a sela. Tirou-a do animal, colocou-a nos ombros e seguiu a pé. " Ainda te  restam dois desejos" - pensou, consolando-se com essa ideia. Caminhava, devagar, pela areia, pois o sol estava a pino e já era meio-dia, o calor começou a tornar-se insuportável e ele a sentir-se cada vez  mais impaciente. Pesava-lhe a sela e, por outro lado, não acertava com que seria mais conveniente pedir. " Ainda que desejasse todos os tesouros e riquezas da terra" - dizia para os seus botões- " sei que depois me ocorreriam outras mil coisas. Devo, pois, arranjar tudo de maneira que, ao formular meus desejos, não possa ambicionar mais nada. " E , suspirando, disse me voz alta:
     - Sim, se eu fosse aquele camponês que um dia , podendo também pedir três graças, desejou; primeiro beber muita  cerveja; depois tanta cerveja quanta fosse capaz de beber , e finalmente mais um barril de cerveja...
   As vezes creditava haver encontrado algo que pedir, mas logo aquilo lhe parecia muito pouco. Então, de repente, lhe veio o pensamento de que, enquanto ele se cansava daquele jeito, sua mulher, bem instalada em casa, numa sala fresca, estava passando muito bem! A idéia o enfureceu tanto que, sem dar-se conta, resmungou:
     - Tomara que ela estivesse montada nesta sela não pudesse desmontar , em vez de estar eu carregando este trambolho às costas.
     No que acabou de pronunciar a última palavra , a sela desapareceu de seus ombros e o homem compreendeu que acabava de se realizar seu segundo desejo. Aí mesmo é que começou a sentir mais calor. Deitou a correr para chegar  rapidamente em casa e meter-se numa sala a fim de pensar, com calma, em algo bem importante para o seu terceiro pedido. Mas quando lá chegou  e abriu a porta, a primeira coisa que viu foi sua mulher montada nas sela, gritando e chorando porque não podia descer. Disse-lhe o marido:
    - Acalma-te ; eu te conseguirei todas as riquezas do mundo, mas fica sentada aí.
     A mulher , porém, chamou-o de idiota e gritou:
    - De que me servirão todas as riquezas do mundo se não posso descer desta sela? Já que me puseste aqui, tira-me agora.
    O marido, quisesse ou não, teve de formular o terceiro desejo, para que sua esposa pudesse apear da sela. No mesmo instante o pedido foi satisfeito. Como resultado de tudo isso, o rico não teve mais que aborrecimentos, fadiga, insultos e um cavalo perdido. Os seus vizinhos pobres, ao contrário, viveram felizes e tranquilos até o fim da vida.
   FIM

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