domingo, 8 de janeiro de 2017

HOLGER. O DINAMARQUES - CONTOS DE ANDERSEN






                                                    
 

  "Existe na Dinamarca um velho castelo chamado Kronborg; ficava perto do Estreito de Oeresund, onde se viam diariamente passar grandes navios ingleses, russos e prussianos. E nunca deixavam de saudar o velho castelo com seus canhões: " Buuum! E o castelo respondia: !Buuum!
    " E a como se dissessem: " Bom dia! e " Obrigado!"Mas durante o inverno não passava nenhum barco a vela, porque o Sund está nesse tempo coberto de gelo, e transforma-se em uma larga estrada que vai da Dinamarca à Suécia; as bandeiras dinamarquesa e sueca flutuam bem alto, e dinamarqueses e suecos por ali vão e vem, a pé e de carro; encontram-se e trocam cumprimentos: ! "Bom dia! " e "Obrigado!" Não com tiros de canhão, mas com uma aperto de mão, caloroso e amável. E compram pão de trigo e biscoitos uns dos outros - porque a gente sempre pensa que o pão estrangeiro é melhor.
     "Mas a glória da paisagem ainda é o velho Kronborg; e lá embaixo, naquelas cavernas escuras e temerosas, das quais homem algum pode aproximar-se, está sentado Holger, o Dinamarques. Vestido de ferro e aço, descansa a cabeça nos braços vigorosos; a longa barba cai sobre a mesa de mármore, na qual parece ter-se enraizado. Ali ele dorme e sonha, e nos seus sonhos vê que tudo continua bem na Dinamarca. Na véspera de Natal desce ali um anjo de Deus, e diz-lhe que sonhou com a verdade, e que pode continuar a sonhar, porque a Dinamarca não corre perigo. Mas se alguma coisa a ameaçar, então Holger, o Dinamarquês, se levantará em       toda a sua força; e  quando ele desprende a barba, a mesa de mármore se parte em duas! Então ele sairá à frente, e combaterá de tal modo que a sua fama há de reboar por todos os países do mundo!"

    Tudo isto ouviu uma noite um meninozinho, da boca do seu avô; e o menino tinha certeza de que tudo o que o avô dizia era verdade. Acontece que o velho era entalhador, desses que tem por ofício esculpir figuras de madeira para enfeitar a proa dos navios, e enquanto falava com a criança, ia cortando uma grande figura, que pretendia representar Holger, o Dinamarquês. Lá estava ele com sua longa barba, altivo de combate, e tendo a outra apoiada na cota d'armas dinamarquesa.
    E o velho avô contou tantas anedotas a respeito de vários homens e mulheres célebres na História da Dinamarca, que afinal o menino começou a imaginar que ele devia saber tanto como o próprio Holger, o Dinamarquês - porque não sonhava senão com aquelas coisas. E já na cama, o menino pensava nas histórias que tinha ouvido, e apertando o queixo contra a colcha, imaginava que também ele tinha uma longa barba, e que ela se tinha enraizado na cama.
   Mas o velho avô ainda estava sentado ao trabalho esculpindo a cota d'armas dinamarquesa; quando a viu terminada, olhou para a figura inteira e pôs-se a pensar em tudo quanto tinha ouvido, e lido, e contado naquela noite ao rapazinho. Inclinando a cabeça, limpou os óculos e tornou a colocá-los sobre o nariz, dizendo:
   - Sim, Holger, O Dinamarquês, não virá, certamente, no meu tempo; mas aquele menino que lá está na cama, esse talvez o veja, e se ponha ao seu lado na hora da necessidade.
   E o velho avô tornou a agitar a cabeça; e quanto mais olhava para o seu Holger, mais se persuadia de que era uma boa figura, a que tinha feito. Chegava quase a imaginar que tinha cor, e que a armadura brilhava como aço e ferro verdadeiros; os corações nas armas dinamarquesas iam ficando cada vez mais vermelhos, e mais vermelhos, e os leões, com suas coroas de ouro, saltavam para a frente com fúria - assim lhe parecia - enquanto olhava para eles. E o homem dizia:
    - É esta certamente a mais bela cota d'armas do mundo! Os leões significam força, e os corações simbolizam amor e humildade.
   Olhou para o leão de cima e lembrou-se do Rei Canuto, que submeteu a orgulhosa Inglaterra ao trono da Dinamarca. Olhou para o segundo leão e lembrou-se de Valdemar, que reuniu os Estados dinamarqueses em um só, e venceu os Vendos. Olhou para o terceiro leão e pensou em Margarida. Olhou para os corações vermelhos, que lhe pareceram ainda mais resplandecentes do que nunca; tinham-se transforado em chamas movediças, e seus pensamentos foram seguindo essas chamas, uma por uma.
     A primeira levou-o a uma masmorra estreita e escura, onde jazia uma prisioneira - uma formosa mulher. Era Eleonora Ulfeld, a filha de Cristiano IV; a chama descansou-lhe no peito, e brotou em uma rosa sobre o coração da mais nobre e melhor de todas as dinamarquesas.
   - Sim - disse o velho avô - isto é um coração no estandarte da Dinamarca!
  E seus pensamentos seguiram a segunda chama, que o levou ao mar, onde troavam os canhões, e os navios estavam envoltos em nuvens de fumaça; e a chama descansou, como a insígnia de uma ordem de cavalaria, sobre o peito de Hvitfeldt, justamente no momento em que, para salvar a frota, ele fazia explodir o navio, perecendo com ele.
   E a terceira chamam levou-o as miseráveis cabanas da Groenlândia, onde estava o Pe. Hans Egede, que tinha amor nas palavras e as ações; e a chama brilhou como uma estrela sobre o seu peito, mostrando o terceiro coração do pavilhão dinamarquês.
  E os pensamentos do avô precederam a quarta chama, porque ele bem sabia onde ia dar aquela tocha suspensa. No aposento solitário da camponesa estava Frederico VI, escrevendo seu nome com giz nos barrotes; a chama tremulou ao redor do seu peito, tremulou no
 seu coração - foi naquela cabana de camponês que o seu coração se tornou um coração para as armas da Dinamarca. E o velho avô enxugou os olhos, porque tinha conhecido e servido o Rei Frederico, de cabeleira branca e olhos azuis cheios de bondade; e cruzou as mãos e ficou olhando para a frente, em silêncio. Nesse momento entrou a nora do velho, para lhe lembrar que era tarde, que ele devia descansar, e que a mesa da ceia estava posta.
   - Mas que linda figura o senhor esculpiu! Holger, o Dinamarquês, e a nossa velha cota d'armas completa! Parece-me que já vi este rosto!
   - Não, não o viste - replicou o velho - mas eu o vi, e procurei esculpi-lo na madeira, exatamente conforme o tenho de memória. Foi no dia dois de abril, quando a frota inglesa estava fora da costa, e nós provamos que éramos verdadeiros dinamarqueses da velha raça! Eu era do esquadrão de Stteen Bille; estava no convés do Dinamarca. A meu lado estava um homem - pois parecia, na verdade, que as balas de canhão o temiam e evitavam!

          
                                    



 E ele cantava os antigos e lindos cantos da batalha e atirava e combatia com tamanha alegria, que não parecia um ser mortal. Ainda  me lembro do seu rosto até hoje; mas de onde veio ou para onde foi, não o sei; em verdade, ninguém o sabia. Tenho pensado muitas vezes que devia ser o próprio Holger, o Dinamarquês, que veio nadando de Kromborg para nos ajudar na hora do perigo. É talvez somente ilusão minha...seja como for, aqui está a sua imagem.
    E a figura projetou sua sombra enorme na parede, e foi até o teto; e a sombra parecia mover-se, como se o verdadeiro Holger estivesse vivo, ali no quarto...A mulher de seu filho beijou-o, e levou-o para a grande poltrona ao pé da mesa; e ela e o marido - que era filho do velho e pai do menorzinho que estava na cama - sentaram-se para cear. E o velho falou todo o tempo dos leões dinamarqueses, e dos corações dinamarqueses e da força e cavalheirismo que eles simbolizavam. E explicou como havia outra espécie de força, inteiramente diferente da que repousa na espada; e apontava para a estante onde estavam alguns livros velhos; muito lidos e usados, entre os quais as comédias de Holberg - aquelas comédias que a gente lê e relê, e ainda torna a ler, porque são escritas com tal encanto que os caracteres nelas descritos nos parecem pessoas com quem temos vivido a vida toda.
    - Vocês vêem, pois, que também ele sabia esculpir - observou o velho. - Podia esculpir o humor e os caprichos das pessoas.
    E, acenando com a cabeça para o espelho, sobre o qual se achava o almanaque com a " Torre Redonda" na capa o velho continuou:
   - Tycho Brahe também...também era um dos que usaram a espada - não para cortar carne e ossos humanos, mas para abrir uma larga estrada entre todas as estrelas do céu! E então aquele cujo pai era de meu ofício, o filho do velho entalhador, aquele que tinha ombros  largos e cabeleira branca, aquele que eu mesmo vi, aquele cuja fama se espalhou por todos os cantos da terra! Esse, tão certo como estar eu aqui, podia esculpi  na pedra...eu posso apenas esculpir na madeira. Ah! Sim! Holger, o Dinamarquês, nos auxiliou por muitos meios, para  que o mundo inteiro possa ouvir falar na força da Dinamarca! E agora...vamos beber à saúde de Bertel Thorwaldesen?
    Mas o rapazinho que estava na cama tinha distintamente diante dos olhos o antigo Castelo de Kronborg, pairando isolado acima do Estreito de Oeresund, e via o verdadeiro Holger, o Dinamarques, nas cavernas subterrâneas, com a barba firmemente enraizada na mesa da mármore, e sonhando com tudo o que acontece no mundo acima dele. E Holger, entre outras coisas, sonhou com o quartinho estreito e modestamente mobiliado, onde estava o entalhador; ouviu o que ali se disse, e, em sonhos, acenou com a cabeça, dizendo:
    - Sm, meu bom povo dinamarquês! Lembra-te sempre de mim! Estou contigo em espírito! Não deixarei de vir quando chegar a tua hora de necessidade!
    E o sol rutilava nas torres do Kronborg,e  o vento levava as notas das trompas dos caçadores pelos países vizinhos, e os navios passavam e saudavam o castelo -" Buuum! Buuum! - e o Kronborg respondia -- " Buuum! Buuum!"
   Mas por mais alto que os canhões digam coisa muito diferente, para que ele acorde; mas ele acordará quando for necessário, porque em Holger, o Dinamarquês, residem o valor e a força!

FIM







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