quinta-feira, 13 de agosto de 2015

OS MÚSICOS DE BREMEN - CONTOS DE GRIMM


         Um homem tinha um burro que, durante anos e anos, havia transportado os sacos para o moinho, sem se cansar nunca. Mas, por fim, as forças do animal foram diminuindo e ele cada dia se tornava mais inútil para o trabalho. O dono, então, pensou em desfazer-se dele, mas o burro, notando que o vento não lhe era favorável, fugiu e tomou o caminho da cidade de Bremem.                  Imaginava que lá talvez pudesse tornar-se músico da banda municipal. Depois de ter andado por algum tempo , encontrou um cão de caça estendido na estrada, todo ofegante, como alguém cansado de correr muito.
       - Por que está sem folego, amigo? - Indagou o burro.
       - Ah! - suspirou o cão. - Porque estou velho e cada dia mais fraco; como não sirvo mais para caçar, meu dono quis matar-me e tratei de me largar no mundo. Mas agora não sei como ganhar a vida.
        - Sabes de uma coisa? - falou o burro.- Vou até Bremem para tornar-me músico da cidade. Vem comigo e entra também na banda. Tocarei o alaúde e tu os timbales.
        A proposta agradou ao cachorro e os dois foram seguindo estrada afora. Não demorou muito, encontraram um gato sentado à beira da estrada, com uma cara de quem comeu e não gostou.
      - Que mal te aconteceu, bigodudo? - perguntou o burro.
       - Quem terá vontade de rir com a corda no pescoço? - respondeu o bichano.- Estou envelhecendo; meus dentes já não são tão agudos e prefiro ficar atrás do fogão em vez de caçar  ratos. Por isso minha dona quis afogar-me. Escapei em tempo, mas que será de mim, agora ? Para onde irei?
        - Vem conosco para Bremen, pois entendes de serenatas e lá poderás ser músico da cidade.
       O gato achou esplêndida ideia e acompanhou os dois. Mais tarde os três fugitivos chegaram a um pátio, onde havia um galo encarapitado no alto do portal, cantando com toda a força que tinha.
        - Por que gritas tanto? - perguntou o burro. - Que pretendes com isso?
      - Anunciar bom tempo, - respondeu o galo. - Hoje Nossa Senhora lavou as camisinhas do Menino Jesus e pretende secá-las. Mas como amanhã é domingo e haverá convidados, a dona da casa, que não tem entranhas, disse à cozinheira que me queria ver na sopa e que hoje à noite me torcesse o pescoço. por isso estou aproveitando para cantar bastante, enquanto posso.
      - Deixa de bobagens, crista vermelha! - disse o burro. - Farás melhor vindo conosco a Bremem. Em qualquer parte hás de encontrar alguma coisa melhor que a morte. Tens boa voz e, se fizermos um conjunto musical, vai ser uma maravilha.
        O galo se agradou do plano e os quatro seguiram adiante. Como não era possível alcançar naquele dia a cidade de Bremem, os novos amigos, só chegarem a um mato, resolveram pernoitar ali mesmo. O burro e o cão deitaram-se embaixo de uma árvore bem grande; o gato e o galo subiram para os galhos, mas o galo foi além, até alcançar o ramo mais alto. Antes  de pegar no sono, o galo deu uma olhadela em redor; pareceu-lhe ver, a certa distância, uma luzinha. Gritou para os companheiros que, não muito longe, parecia haver uma casa, pois avistara uma luz. Disse, então, o burro:
       - Será melhor irmos até lá, pois aqui o nosso albergue não é lá muito confortável.
       O cão manifestou-se, dizendo que uns ossos e um pouco de carne não lhe fariam mal e, assim, todos se puseram a caminho em direção da luz. À medida que se aproximava, a claridade ia aumentando. Chegaram finalmente, a um albergue de ladrões, profusamente iluminado. O burro, que era o maior , acercou-se da janela e espiou para dentro.
   - O que estás vendo? - indagou o galo.
   - O que vejo? - respondeu o burro. - Uma mesa cheia de boa comida e bebida e um bando de ladrões que estão se fartando.
    - Isso seria esplêndido para nós - disse o galo.
    - Sim, sim, que bom se pudéssemos estar ali! - exclamou o burro.
    Os animais então, começaram a pensar num modo de afugentar os bandidos e, por fim, descobriram: o burro pôs as patas dianteiras no peitoril da janela; o cão saltou-lhe às costas, o gato trepou no cão e, finalmente, o galo, num vôo, foi colocar-se sobre a cabeça do gato. Feito isso, a um sinal convencionado, romperam todos na sua música: o burro zurrando, o cão ladrando, o gato miando e o galo cantando; e, num zás, lançaram-se pela janela para o interior da sala, espatifando os vidros. Ao ouvirem aquele barulho infernal, os bandidos erguera-se de um salto e, certos de que um bando de fantasmas entrara pela janela, deitam a correr espavoridos pelo mato a dentro. Os quatro companheiros, então, sentaram-se à mesa e serviram-se à vontade daquilo que sobrara. Comeram como se fossem jejuar durante as próximas quatro semanas.
          Terminada refeição, os quatro músicos apagaram a luz e foram procurar um leito, cada qual de acordo com sua natureza e comodidade. O burro deitou-se sobre sobre um monte de estrume, o cão atrás da porta, o gato nas cinzas quentes  do fogão e o galo empoleirou-se numa viga, E como estivessem casados, logo adormeceram.
          Passada a meia-noite, os bandidos viram, de longe, que não havia mais luz a casa e, como tudo parecesse tranquilo, disse o capitão;
        - Não deveríamos assustar-nos tão facilmente! - E ordenou que um dos da quadrilha fosse até a casa para examiná-la. O homem encontrando tudo em paz, foi à cozinha para acender  a luz. Ali, tomando os olhos brilhantes e fogosos do gato por brasas acesas, encostou neles um fósforo para prender a chama. O bichano, porém, não estava para brincadeiras. Saltou-lhe ao rosto, bufou e arranho-o todo. O bandido levou um susto tremendo e quis disparar pela porta dos fundo. Lá porém, estava o cão, que saltou e o mordeu na perna. Ao passar, correndo, pelo monte de estrume, o burro ainda aplicou-lhe um coice violento. O galo, que acordara com o barulho e já estava bem desperto, gritou do alto da sua viga: " Cocorocò!"O bandido, então, deitou a correr  o mais que pode até onde estava o seu capitão e disse-lhe:
   - Céus! Na casa há uma bruxa, medonha, que me assoprou e arranhou a cara com suas unhas compridas; atrás da porta está um homem que cravou uma faca na minha perna; no pátio, encontrei um monstro que me assaltou e me bateu com um porrete, enquanto, no alto do telhado, o juiz gritava: " Tragam-me esse bocò! " Tratei de escapar o mais depressa possível.
       Desse dia em diante os bandidos não se atreveram  mais a entrar na casa e os músicos de Bremen se sentiram tão bem ali que nem quiseram mais abandoná-la. E quem não quiser acreditar, que vá até lá certificar-se, pessoalmente.

                                  FIM


























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