terça-feira, 4 de agosto de 2015

ANDANÇAS DO PEQUENO POLEGAR - CONTOS DE GRIMM

Um alfaiate tinha um filho que não crescera além do tamanho de um dedo polegar. Isso vocês já sabiam como também já sabem que o chamavam de Pequeno Polegar. Mas o que tinha de pequeno tinha de corajoso e um dia disse a seu pai:
   - Pai, eu preciso conhecer o mundo.
   - Está bem, meu filho- respondeu-lhe o velho. E, apanhando uma agulha de cerzir, bem comprida, fez na abertura um nó com lacre e prosseguiu: - Aí tens uma espada para a tua viagem.
   O pequeno alfaiate, querendo comer mais uma vez em casa foi, saltando, até a cozinha para ver o que sua mãe preparava para a despedida. A comida recém havia sido aprontada e a panela ainda estava no fogão. Polegarzinho saltou para cima do fogão e deu uma olhada na panela; mas, como espinchasse demais o pescoço, os vapores da comida o apanharam e o levaram pela chaminé afora. Por algum tempo ficou rebolando no ar até que, enfim, caiu no chão. O alfaiatezinho encontrava-se, agora, na vastidão do mundo e tanto andou de um lado para outro que afinal achou emprego na casa de um mestre. Mas ali a comida não lhe agradou.
 - Senhora patroa - disse ele, - se não me der melhor comida, vou-me embora a amanhã, cedo, escreverei a giz na porta de sua casa: " Batatas, muitas, carne pouca. Adeus, rainha da batatas."
  - E que queres mais, gafanhoto? - retrucou a mulher enraivecida. Pegou um pedaço de pano para bater nele, mas o nosso homenzinho escondeu-se, rapidamente, embaixo do dedal e, metendo para fora a cabeça, mostrou a língua à patroa. Esta levantou o dedal para apanhá-lo, mas o Pequeno Polegar se meteu entre os retalhos e, quando a mulher o procurou ali, ele se escondeu numa fresta da mesa.
   - Ei, ei, senhora patroa! - gritava, pondo a cabeça para fora. Quando ela fazia menção de pegá-lo, saltava para dentro da gaveta. por fim a mulher acabou, mesmo, apanhando-o e correu com ele de casa.
   O alfaiatezinho saiu, pois, andando e chegou a uma floresta muito grande. Lá encontrou um bando de ladrões que pretendiam roubar o tesouro do rei. Ao verem o homenzinho, pensaram: " Um pequerrucho como esse passa pela fechadura e pode servir de gazua."
- Olá, gigante Golias!-- gritou um deles. - Queres vir conosco ate a câmara do tesouro Real?
Podes entrar ali com facilidade e atirar o dinheiro para nós, do lado de fora.
    O Pequeno Polegar pensou um pouco e, por fim, concordou em ir com eles. lá chegando, examinou a porta, em cima e embaixo, procurando uma fresta. Afinal, descobriu uma suficiente para lhe dar passagem. Dispunha-se a entrar, quando um dos guardas que estavam em frente à porta disse ao companheiro:
   - Repara que aranha mais feia! Vou esmagá-la com o pé.
   - Deixa o pobre animalzinho - disse o outro. - Nenhum mal te fez.
   Assim o pequenino pode entrar sem contratempos na câmara do Tesouro e, abrindo a janela embaixo da qual se encontravam os ladrões, começou a atirar-lhes moedas, uma por uma. Estava no melhor do trabalho,quando notou a aproximação do rei, que vinha inspecionar seu tesouro. Escondeu-se, rapidamente. O rei percebe que faltavam muitas moedas, mas não podia imaginar quem as poderia ter roubado, já que as fechaduras e ferrolhos estavam intatos e tudo parecia em perfeita ordem. Ao afastar-se, disse aos guardas:
   - Fiquem alerta. Alguém anda atrás do dinheiro.
   Quando o Pequeno Polegar recomeçou seu trabalho, eles ouviram, lá dentro, o tilintar das moedas - clique- claque, clique-claque. Corram, rápido, para pegar o ladrão, mas o alfaiatezinho, que os vira entrar, foi mais ligeiro que eles. saltou para um canto, tapo-se com uma moeda e ficou completamente oculto. E, lá do seu esconderijo, provocou os guardas, gritando:
   - Estou aqui!
    Os homens correram para onde ele estava, mas, ao chegarem lá, Polegarzinho já havia mudado de lugar e, metendo-se embaixo de outra moeda, gritou novamente:
    - Ei, estou aqui!
    Desse modo os fez de bobos, obrigando-os a correr de um extremo a outro da sala, até que, esfalfados, renunciaram à perseguição e se foram. O Pequeno Polegar, então, continuou a atirar as moedas pela janela. A última , ele arremessou com toda sua força e, saltando-lhe em cima, passou, num vôo, pela janela, indo parar lá fora.
   Os ladrões o acolheram com grandes elogios:
   - És um herói- disseram-lhe. - Queres ser nosso capitão?
    Polegarzinho, entretanto, agradeceu e lhes disse que desejava ver o mundo. Depois repartiram a presa e ele só quis uma pequena moeda, pois não podia carregar mais.
    Cingindo, novamente, sua espada, despediu-se dos ladrões e saiu andando. trabalhou para diversos mestres do seu ofício, mas com nenhum deles se sentiu a gosto. Por fim entrou, como criado, numa hospedaria. Ali as empregadas não gostavam dele, pois sem que elas o vissem, sabia de tudo o que faziam às escondidas e contava ao dono da casa o que roubavam dos pratos e da despensa. Um dia elas comentaram:
   - Ele nos há de pagar!
    E combinaram pregar-lhe uma peça. Pouco depois, estava uma das empregadas a capinar o jardim quando viu Polegarzinho saltando por entre as ervas; rapidamente o colheu junto com um punhado de capim, atou o feixe num pano e atirou tudo para as vacas comerem. Uma delas, preta e grande, o tragou de vez, mas isso não causou dano ao Pequeno Polegar. Em todo caso, aquela nova moradia não lhe agradava, pois era muito escura e não havia luz. Ao ordenharem a vaca, ele se pôs a gritar:
  - Ei, o balde já está cheio?
   Mas, com o ruído do leite que caía, não o ouviram. Logo depois o dono da casa entrou no estábulo e disse:
    - Esta vaca será carneada amanhã.
    Aí sim, Polegarzinho assustou-se mesmo e gritou com toda força:
   - Deixem-me sair primeiro; estou aqui dentro!
   O patrão ouvia a voz, mas não sabia de onde vinha.
   _ Onde estás? -perguntou.
  - Na de pelo preto- retrucou ele, mas o outro, não entendendo o que significava aqui, foi embora.
    Na manhã seguinte mataram a vaca e, por sorte, ao retalharem-na, Polegarzinho não foi atingido, embora fosse parar entre a carne destinada a fazer linguiça. Quando chegou o carniceiro para começar o trabalho, o pequeno  gritou com toda força de seus pulmões:
   - Não cortem mais fundo, não cortem mais fundo que estou aqui dentro!
   Entretanto, com o ruído das talhadeiras de carne, ninguém ouviu coisa alguma. Aí o pobre Polegarzinho se viu metido em maiores apuros! Mas, como os apuros fazem a gente criar pernas, ele começou a saltar tão agilmente entre as facas que nenhuma delas o atingiu e ficou ileso.
   Como não pudesse escapar dali, não teve outro remédio senão deixar que o socassem, juntamente com uns pedaços de toucinho, no meio de uma morcilha. O alojamento era um tanto estreito e, além disso, ainda o penduraram numa chaminé, para ser enfumaçado. O tempo lhe apareceu infindável e ele aborreceu-se enormemente. Afinal, ao chegar o inverno, retiraram a morcilha para oferecê-la a um hóspede. Quando a dona da casa a cortou em rodelas, ele teve de cuidar para não meter fora a cabeça, evitando, assim, que lhe fosse cortado o pescoço. mas afinal teve uma oportunidade e, tomando impulso, saltou para fora.
    Polegarzinho não quis continuar na casa em que tanta coisa desagradável lhe havia acontecido; recomeçou, pois , suas andanças pelo mundo. entretanto, a liberdade foi de curta duração. Achando-se em campo aberto, veio a dar com uma raposa e esta, que estava distraída, o abocanhou no mesmo instante.
   - Ei, senhora raposa - gritou o pequeno alfaiate.- Sou eu que estou na sua goela, solte-me por favor!
   Tens razão- respondeu a raposa.- Não és para mim senão uma migalha. Se me prometes as galinhas de teu pai, eu te soltarei.
    - De todo o coração, prometo- retrucou Polegarzinho. - Terás todas elas, garanto!
   A raposa o deixou em liberdade e ela mesma o levou para casa. Quando o pai tornou a ver seu filhinho querido, com muito gosto deu suas galinhas à raposa.
   - Em compensação, trago-te uma boa quantidade de dinheiro - disse o Pequeno Polegar, entregando-lhe a moeda que ganhara durante suas excursões.
    " E perguntas por que deram as pobres galinhas para a raposa comer? Ora seu tolinho, creio que um pai há de gostar mais de seu filhinho do que de todas as galinhas que tem no galinheiro."
FIM
























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