domingo, 5 de novembro de 2017

CONTOS DE ANDERSEN - A AGULHA DE CERZIR

  Era uma vez uma agulha de cerzir, tão cheia de si, que se supunha uma agulha de bordar.
    - Cuidado - dizia ela aos dedos que a manejavam.- Segurem-me bem! Não me deixem cair! Se eu cair ao chão, vocês nunca mais me acharão, porque sou tão fininha!
   - Faz-se o que se pode -diziam os dedos, perfurando-a com  toda a força.
   - Vejam, que grande comitiva trago!
   E dizendo isto, a agulha  de cerzir puxava um fio comprido, mas sem nó na ponta.
   Os dedos dirigiam a agulha para o chinelo da cozinheira. Rompera-se a gáspea, e era preciso costurá-la. Mas a agulha de cerzir disse logo:
   - Isto é um trabalho muito grosseiro! Eu não vou passar por esse couro! Eu me quebro! Eu me quebro! 
    E quebrou-se mesmo.
   - Não disse? Sou tão fina!
   - Agora não presta mais - disseram os dedos.
   Mas tiveram de segurá-la, e com força, ainda algum tempo; porque a cozinheira a pingou umas gotas de lacre na agulha e pregou-a no peito, segurando o fichu.
    - Então! Agora sou um alfinete de gravata! Eu bem sabia que havia de ter honras: quando a pessoa é alguma coisa, chega a alguma coisa mesmo!
  ----E ria - mas ria à socapa, porque a gente nunca pode ver uma agulha rir-se. E lá ficou ela espetada, tão enfunada, como se estivesse sentada em uma carruagem real, e olhando para todos os lados.
     Afinal disse a um alfinete, seu vizinho:
   - Com licença...Desejava saber se és de ouro...
 Tens uma bela aparência, e tua cabeça é interessante, mas tão pequenina! Deves procurar crescer, porque não é todo o mundo que se pinga lacre!
   E a agulha de cerzir esticou-se tanto ao dizer isso, de puro orgulho, que caiu do fichu e foi parar direito no cano de esgoto, que a cozinheira estava lavando.
   - Agora vamos de viagem - disse a agulha. - Contanto que eu não me perca!
    Mas perdeu-se mesmo.
   - Sou muito fina para este mundo aqui - dizia ela, deitada no cano de esgoto. - Mas eu sei quem sou, e isso sempre serve de consolo!
   E ela não mudou de proceder, nem perdeu o bom humor.
   Por cima dela navegavam coisas de toda a espécie: aparas de papel, palhas, e restos dos jornais velhos.
    - Olhem só como navegam! - dizia a agulha de cerzir. - Nem sonham o que está debaixo deles! Eu estou aqui, e aqui fico firme. Olhem, lá vai uma apara de papel, que não pensa em mais nada no mundo senão em si própria - uma apara de papel! Agora é uma palha. Como se vira  e revira! Como gira! Não corras assim, pensando só em ti mesma, senão podes ir de encontro a uma pedra! Agora vem nadando em pedaço de jornal. O que está escrito nele há muito tempo que foi esquecido, e ainda assim ele se dá uns ares...Eu aqui fico, sossegada e tranquila. Sei bem quem sou, e permanecerei o que sou!
   Um dia veio parar ao lado dela uma coisa que brilhava esplêndidamente. A agulha pensou que havia de ser uma diamante; mas era apenas um caco de garrafa. E como brilhava assim, a agulha apresentou-se-lhe, dizendo que era uma alfinete de gravata. E observou:
     - Suponho que és um diamante.
      - Mas sim...pouco mais ou menos.
    Cada um atribuía ao outro um grande valor, e começaram a conversar; falavam do orgulho deste mundo.
   - Eu morava no estojo de uma dama -disse a agulha de cerzir - e a dama era cozinheira. Tinha cinco dedos em cada mão, e nunca vi nada tão arrogante com aqueles dedos. E contudo seu único destino neste mundo era tira-me da caixinha e tornar a colocar-me lá dentro.
    - Eram então de alto nascimento? - perguntou o caco de garrafa.
   - Não, não; mas eram muito orgulhosos. Eram cinco irmãos, todos da família dos dedos. Viviam todos sempre juntos, apesar de serem de comprimentos diversos: o de fora, por exemplo, o polegar, era gordo e curto; andava em frente da fila, e só tinha uma única junta nas costas e não podia fazer mais que uma curvatura. Mas dizia que se fosse arrancado da mão de um homem, este não poderia ir par ao exército! O vizinho, um guloso, metia-se em tudo, fosse doce ou azedo, apontava para o Sol e para a Lua, e formava as letras, quando escreviam, todos juntos por sinal. Mestre Comprido, que é o de meio, olhava por cima do ombro para todos os outros. O quarto, Gola de ouro, usava um círculo em volta do corpo, e o pequeno, o Brincalhão, esse nada fazia, e tinha muito orgulho disso! Eram uma súcia de fanfarrões, e por isso abandonei-os.
   - E agora aqui estamos brilhando! - disse o caco.
   Naquele instante derramaram mais água no cano, que transbordou, e o caco de garrafa foi arrastado na corrente. 
   - Ora, ele foi embora! - disse a agulha. - Eu, eu aqui fico; sou muito fina. Mas essa é mesmo a razão da minha altivez, e isso tem muita importância.
   E ela ficou, altivamente, onde estava, sempre com a mais alta ideia de si.
   - Eu acho mesmo que nasci de um raio de sol - sou tão delicada! Parece até que os raios do sol estão  sempre me procurando debaixo d'água. Ah! Sou na verdade tão delicada, que nem minha mãe era capaz de me achar! Se eu ainda tivesse meu velho olho, que se quebrou, creio bem que choraria...Mas isso  não é fino, chorar!
    Um dia andavam dois moleques patinhando na água do cano, onde achavam de vez em quando pregos velhos, moedinhas de cobre e outros tesouros semelhantes. Era um trabalho pouco asseado, mas pareciam gostar daquilo. De repente, um deles sentiu uma picada da agulha de cerzir e gritou logo:
    - Olha quem está aqui! Olha este sujeito!
    - Eu não sou sujeito; sou uma dama! - disse a agulha.
   Mas ninguém a ouviu. A cabeça de lacre tinha desaparecido, e ela estava  negra; mas como a  cor negra faz a gente parecer mais delgada, julgava-se mais fina do que nunca.
   - Olha! lá vem uma casaca de ovo navegando! - disseram os meninos.
   E eles espetaram a agulha de cerzir na casca de ovo.
  - Paredes brancas e vestido preto combinam muito bem - disse a agulha - agora posso ser bem vista! Tomara que não enjoe! Era capaz de me quebrar!
   Mas a agulha não enjoou, e não se quebrou.
  - Para não enjoar é bom a gente ter um estômago de aço, e também não esquecer que é alguma coisa mais que uma criatura comum! Acabou-se o meu enjoo de mar! Quanto mais fina é a pessoa, mais força tem para resistir.
   - Craque!- disse a casca de ovo.
  Um carro lhe passara por cima.
   - Justos céus! Que peso! - exclamou a agulha de cerzir. - Estou ficando mareada! Já estou com enjoo de mar! Assim eu me quebro!
   Mas aquilo não era enjoo de mar; nem ela se quebrou. Ficou ali estendida na estrada, de todo o comprimento - e deixem-na ficar! 
FIM

3 comentários:

  1. Olá Silvana, parabéns pelo seu blog! Eu vim parar aqui pesquisando sobre o termo "cerzir", depois de ouvir essa palavra em um vídeo no youtube. Me dediquei a ler esse conto, que gostei muito, e também a explorar o teu blog. Tens um conteúdo muito bacana aqui e certamente será um local onde vou afugentar minha leitura nesses tempos difíceis que estamos vivendo. Parabéns, mais uma vez por manter esse espaço maravilhoso.

    Um grande abrarço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que honra receber um comentário tão bonito,obrigada mesmo, faço com carinho. Sigamos juntos;

      Excluir
  2. Linda postagem com um conto tão sutil deste maravilhoso escritor. Cheguei aqui através de uma postagem no face sobre o Chris Anderson.

    ResponderExcluir