quinta-feira, 27 de junho de 2019

Coelho Neto- Firmo, o Vaqueiro- Coelho Neto

Sentados na soleira da palhoça, em face do verde campo, à hora vesperal em que os rebanhos recolhem, o velho Firmo e eu fumávamos, relembrando passagens alegres da vida de outrora.
   Firmo era meu companheiro quando eu ia passar as férias na roça. O que ele sabia de histórias! e como as contava fazendo a voz enternecida e meiga para imitar as princesas que imploravam arremetendo com vozeirão terrível para que eu tivesse a impressão exata do bradar horrível dos gigantes antropófagos. E não só histórias dos livros, outras sabia que eu jamais em letras vira: a que descrevia a iara branca seduzindo o remador do Itapicuru e o conto do sucupira, com que no bom tempo faziam cessar a minha impertinência. Algumas era inventadas por ele, diziam; outras, o velho Firmo, vaqueano e andejo, aprendera por esses sertões de Deus por onde caminhara.
   Andava pelos oitenta anos, mas quem o visse a cavalo, no campo, não lhe diria tanta idade. O diabo era o reumatismo que lhe não deixava as pernas. No seu tempo ninguém levava a melhor ao Firmo do Curral novo. Raparigas, que uma vez o viam montado no garboso fábrica, o laço em volta da cinta, a guilhada firme sobre a coxa coberta de couto cru, perdiam-se de amor por ele.
  Era um caboclo atirado, musculoso e rijo: grandes olhos negros brilhavam no seu rosto queimado pelos verões e os cachos do seu cabelo rolavam-lhe pelos ombros largos.
  Velho, embora, "ninguém lhe chegava ao pé sem muito jeito", como ele próprio dizia sorrindo com os seus dentes limados, agudo como pontas de flechas. Apesar  de alquebrado e enfermo, andava com arrogância e notava-se-lhe na voz, áspera e forte, o hábito de comando.
 Em tempos de festa, quando vinham para a mesma eira moças do lugar e moças de mais longe, Firmo saltava na roda, sapateando, rasgando na viola o tirana dos campeiros, e quem ousava pegar no verso do caboclo?!
 As tabaroas morenas sorriam com os olhes fascinados e unidas desfaziam-se das flores para que o o cantador as fosse pisando no sapateado.. por isso o  Firmo andava sempre de ponta com os companheiros e, mais de uma vez, o descante acabou varrido a faca; mas quem ficasse do lado do caboclo podia estar descansado- nunca fugiu de arrelia, fosse com um, fosse com dez ou mais.
    Mãezinha, a velha mucama de casa, quando o via passar no caminho, curvado pitando o seu cachimbo de taquara, dizia maliciosa:
    - Isso, ahn! isso, foi o diabo!
    Firmo  "viva encostado  no tempo de dantes", a saudade era o seu conforto. "Hoje em dia que é que a gente vê? má língua e moleza só", dizia e citava o valente de antanho e mostrava as velhas gabando-lhe a beleza que a idade fanara. "Serapíão, homem que nem o diabo!...Ana Rosa, essa curumba...foi mulata de dengue, era um motim aqui em cima por causa dela. Filomena, com essa cara de peixe moqueado, teve o seu luxo e foi gente... Eu também pisei duro, ora!"
    Firmo viva das recordações passava os dias caminhando de um para outro lado, visitando as palhoças, ou à beira do rio para ver e ouvir as lavadeiras, quando não se metia a fazer bodoques para as crianças.
   À tarde sentava-se em um pilão quebrado, à porta da casa, e deixava-se estar inerte, os olhos ao longe: " Estava vivendo..."dizia quando eu lhe perguntava que fazia ali sozinho. Estávamos, às vezes, sentados juntos, ele a contar-me histórias, quando nos chegava, nítido e agudo, o grito do campeiro. Firmo calava-se, um estremecimento agitava-o, os olhos dilatados recobravam o brilho antigo e punha-se de pé, devassando a paisagem triste, à luz crepuscular.
   De repente aparecia a nuvem de poeira anunciando o gado que chegava...uma mancha vermelha, uma mancha negra, outra e logo o magote, os bois juntos, emaranhando os chifres; um mugia, outros imitavam-no levantando os focinhos ou ferravam-se às marradas, sendo às vezes, necessária a intervenção do vaqueiro que aparava os dois a ponta de vara. e a marcha aproximava-se  morosa.
   Firme ficava enlevado acompanhando os movimentos da manada, inclinando-se para um lado, para outro, aspirando sofrego. De repente batia as palmas e juntava, logo em seguida, as mãos na boca à guisa de porta-voz, brandando:
   - Eh! eh! ruma!  ruma! Eh! cou...
  E ficava longo tempo, excitado, a olhar. Não perdia uma só das peripécias e, se um touro espirrava, correndo aos galões pela campina, o velho entrava a bramar do outeiro, tão alto, tão alto que as raparigas, que andava na eira recolhendo a roupa ou socando o arroz, paravam assustadas erguendo os olhos para o lado da palhoça do vaqueiro velho. Mas nínguém o incomodava antes de ser lançado o boi fujão e quando o vaqueiro aparecia, arrastando o animal laçado. Firmo suspirava baixinho:
   - Ah! Nossa Senhora! meu tempo!
   Foi pelo Natal que o vi pela última vez. Começavam os preparativos da festa, quando cheguei ao sítio. Nas casas dos escravos, as vezes, à noite, ensaiavam as crianças. Na eira os rapazolas preparavam jiraus; colhia-se o arroz novo para os presepes e de todos os lados, mal o sol fugia, começavam as toadas das cantigas ao Deus Menino e as falas dos infantes que figuravam no Mistério.
   Firmo estava doente, mal podia mover-se; passava os dias na rede. Subi a vê-lo, uma noite justamente na véspera do grande dia. Encontei-o deitado, fumando, os olhos semicerrados.
   -Eh! vaqueiro velho...Então que é isso?!
  - Estou derrubado, patrãozinho.
  - Mas que diabo tem você?
  - Moléstia má, patrãozinho; parece que desta feita vou mesmo.
 - Ora qual...
  - Eu  é que sei como me sinto, patrãozinho. Se até o pito me faz nojo...
  - Pois eu preparei uma surpresa que te vai  fazer mais bem do que todas as mezinhas de mãe Tude. Quem está aí fora? Adivinha...
   - Ah! patrãozinho. alguma alma boa...Quem há de ser?
   - Raimundinho.
   O velho sacudiu-se novamente na rede e, voltando-se para a porta com um sorriso, perguntou:
   - E onde está esse negro que não entra?
   - Boa noite à gente da casa! disse da porta o cafuzo.
   - Entra, negro!
   O cafuzo, um codoense de fama, atravessou o limiar da porta.
   - Então, tio Firmo, a febre pode mais, hein?
   - Sim, porque eu não vi quando ela entrou....quando não! Então, negro, que é que vamos fazendo?....
   _Vim fazer a minha festa. Dizem que vão queimar fogaréus no Curral Novo....
   - Como vai Noca?
   - Boa.
   - E Ana? está na cidade, mais o pai?
  - Hen hen,afirmou o cafuzo.
   - Negro, você não vai daqui hoje. Ah! patrãozinho, vosmecê vai ver o que é um diabo. Negro, ajunta a madeira ali atrás da arca...
  - Está encordoada?
    - Ò danado! Onde você viu viola sem corda? e afinada, ajunta.
   O codoense agachou-se, apanhou a viola do vaqueiro e logo correu os dedos ágeis pela cordas.
  - Passa pra luz, cafuzo.
   - Lá vou...
   Sentou-se no centro da mesa, cruzou as pernas e tombando a cabeça, gemeu a toada sertaneja
   - Anda com Deus.
  - Lá vai; pigarreou e desferiu:
   "No coraçao de quem ama
    Nasce uma flor que envenena".
    - Eh, gritou o Firmo entusiasmado, concluindo a quadra:
  - Pega, negro...não deixa o verso  no chão!
  De fora, continuo e doce, vinha o coro longínquo das crianças em louvor de Jesus e, de vez em vez, reboava o mugido de um touro.
 Quando o cafuzo descansou a viola, Firmo disse da rede, com esforço, arrastando a voz fraca:
    - Canta, canta, mais, cafuzo...Quem não tem Nosso Pai ouve a cantiga. Canta.
  Era tarde quando desci o outeiro. Raimundo lá ficou cantando.
  No dia seguinte, à hora em que saiu o gado, estava eu debruçado à varanda quando vi o cafuzo que preparava o animal viajeiro:
    - Raimundinho, como vai ele?
   De longe apontou para a palhoça:
   - Sim.
   O braço caiu-lhe, olhou-me algum tempo comovido; depois, saltando para o animal, levou o polegar à boca fazendo estalar a unha nos dentes: "Ás quatro da manhã...Atirei um verso e disse, para bulir com ele; Pega velho! Não respondeu. Tio Firmo, mesmo velho e doente, não era homem, para deixar um verso no chão... Fui ver, coitado! ...estava morto". E deu de esporas para que eu não lhe visse as lágrimas.
   Subi ao outeiro...Pobre Firmo! Lá estava no fundo da rede, cercado de gente. Guardara o sorriso, morrera feliz, ouvindo os cantos do seu tempo e bem perto de casa o mugido dos rebanhos. E bem que o choraram nessa noite os grandes bois, e diziam, entretanto, que eles estavam louvando o Senhor Menino; chorando o companheiro é que eles estavam, os grandes bois que pressentem todas as desgraças e que vêm a Morte passar, à noite, com a foice de rastro, atraves das campinas. Bem que choraram nessa noite os bois: decerto viram a Morte entrar na cabana de Firmo.
               (SERTÂO)
 


Vesperal:  Evento que se realiza no período da tarde 
Tabaroa :mulher acanhada; mulher criada no interior; ...
Curumba;  Pessoa de baixa condição social.
2. Indivíduo que sai do sertão e vai procurar trabalho nos engenhos.
3. Mulher velha.
moqueado : moqueado
adjetivo
BRASILEIRISMOBRASIL
  1. 1.
    assado ou tostado em moquém.
  2. 2.
    posto para secar em moquém.

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