domingo, 8 de outubro de 2017

UMA ROSA DO TÚMULO DE HOMERO - CONTOS DE ANDERSEN

  Todas as poesias do Oriente celebram o amor do rouxinol à rosa. Na noite calma, iluminada pelo brilho das estrelas, o cantor alado entoa a sua serenata à flor cheia de perfume.
  Não longe de Esmirna, à sombra dos altos plátanos, onde o mercador vai abrigar os camelos carregados, que erguem a cabeça orgulhosa e pisam a passos lentos um solo sagrado - vi uma sebe de roseiras em flor. Por entre a ramagem das altas árvores, esvoaçavam as pombas bravas, de asas cintilantes como madrepérola, fulgindo aos raios do sol.
  Na sebe de roseiras havia uma flor mais bela que todas as outras. Para ela cantava o rouxinol suas endechas amorosas. Mas a rosa nada lhe respondia.
   Brilhava sobre uma das suas pétalas uma gota de orvalho, como uma lágrima compassiva. E a rosa inclinava-se, ao sabor do galho, sobre algumas grandes pedras. E diziam:
   - Aqui repousa o maior vate da terra. Vou perfumar o seu túmulo. Quero espalhar sobre esta tumba as minhas pétalas, quando o vento me desfolhar. O poeta de Tróia transformou-se em terra, e dessa terra brotei eu. Eu, uma rosa do túmulo de Homero, sou sagrada demais para florescer para um pobre passarinho!
   E o rouxinol morreu de tanto cantar.
   Chegou o cameleiro, com os animais carregados e os escravos negros. Seu filhinho encontrou o rouxinol morto e sepultou o pequeno cantor no túmulo do grande poeta. A rosa tremia ao sopro da brisa.
   Veio a noite. Ela cerrou as pétalas e sonhou.
   Era um belo e claro dia de sol. Chegou um grupo de forasteiros, que vinha em romaria ao túmulo de Homero. Entre os peregrinos achava-se um poeta do Norte, da terra das brumas e da aurora boreal. Ele colheu a rosa e imprensou-a entre as folhas de um livro. E desse modo levou-a para outro continente, para a sua pátria longínqua. A rosa murchou de mágoa, dentro do livro que o poeta abriu na sua terra, dizendo:
   -É uma rosa do túmulo de Homero.
   Foi esse o sonho da tosa. Ao despertar, tremia ao sopro da brisa.
  Sobre o túmulo do poeta, caiu uma gota de sereno de suas pétalas. Nasceu o sol, e a rosa resplandecia, mais bela do que nunca. O dia que despontava era abrasador, e ela estava ainda na sua Ásia ardente.
   Nesse momento ouviu o ruído de passos. Eram forasteiros francônios que chegavam, tal como os vira em sonho a rosa. Entre eles se achava o poeta do Norte, que colheu a tosa e lhe deu um beijo na linda boca.
   E levou-a para a terra das brumas e da aurora boreal.
  Agora o cadáver da flor jaz dentro da sua Ilíada, como uma múmia. E como num sonho, ela ouve o poeta dizer, quando abre o livro:
   - É uma rosa do túmulo de Homero!
FIM

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