quinta-feira, 13 de julho de 2017

O PACTO DE AMIZADE - CONTOS DE ANDERSEN

   Mal acabamos de fazer uma pequena viagem, e já pensamos em efetuar outra, maior. Mas onde iremos? A Esparta, a Micenas, a Delfos! Há centenas de lugares, cujos nomes nos fazem arfar o coração, no desejo de viajar. Escalamos trilhas escarpadas, por entre brenhas e matagais. Nesses lugares, um único viajante parece uma caravana inteira. Ele vai à frente, seguido do agojat. Uma besta de carga leva as malas, a barraca e as provisões. Mais atrás alguns guarda-civis, que formam a escolta de proteção.
   Ao fim da jornada fatigante não encontra o viajante nenhuma estalagem, com uma cama macia à sua espera. Na maioria dos casos. O agojat prepara o jantar - um prato de arroz com galinha, temperado com curry e a que chama pilau. Ao redor  da barraca, dançam milhares de mosquitos, de sorte que a noite é desagradável.
    Amanhã teremos de atravessar rios que as chuva engrossaram...Se a gente não se firma na sela, pode até ser  arrastada pela correnteza.
   Procurei mostrar, em diversos esboços, um quadro que represente Atenas e seus arredores. Mas pobre de mim! Que mesquinho é o seu colorido! Como esse quadro mostra mal a Grécia - esse gênio enlutado da beleza, cuja grandeza e cuja dor o forasteiro jamais esquece!
  Talvez aquele pastor solitário que lá está naquele penhasco, com uma simples narrativa da sua vida, possa abrir melhor os olhos a quem quiser ver, em rápidos traços, o país dos helenos.
   - Deixa-o, pois, falar! - diz a minha Musa.
   Vá lá que seja! Um belo e característico costume pode fornecer ao pastor do alto do monte, assunto para o seu conto.

    " O PACTO DE AMIZADE

    " A nossa casa era toda rebocada de barro, mas os umbrais foram construídos de cubos de mármore, das colunas encontradas naquele lugar. O beiral do teto vinha dar quase no chão. Apresentava agora uma cor parda e feia, mas quando a casa foi coberta, via-se que eram ramos frescos de eloendro e de loureuro, colhidos além das montanhas. Pouco era o espaço que ficava ao redor da habitação: erguiam-se junto dela as paredes íngremes, escuras e nuas dos montes, em cujos cimos se viam quase constantemente pairar nuvens semelhantes a vultos esbranquiçados e viventes.
   " Jamais ouvi ali o canto de um passarinho; jamais vi os homens daquela região dançando ao som da gaita de foles; mas o lugar era sagrado, desde os tempos antigos. Até o nome o indica: chamaram-no Delfos.
   " Os graves montes tenebrosos estavam cobertos de neve. O mais alto, aquele que por mais tempo refletia as cintilações vermelhas do sol poente, era o Parnaso. O ribeiro que passava perto de nossa casa, e que também em tempos idos fora sagrado, descia vertiginosamente do seu flanco: turva-o burro com as patas, mas em breve a água torna à limpidez anterior.
   " Como me lembro de cada recanto da sua profunda e sagrada solidão! Acendia-se uma fogueira no meio da cabana, e quando a lenha estava reduzida a brasas, em um montão, cozia-se nelas o pão. E minha mãe parecia mais alegre do que nunca quando via a neve amontoar-se em redor da cabana. Tomava-me então a cabeça entre as mãos, beijava-me na testa e cantavam cantava aquelas canções que não cantava nunca, porque os turcos - nossos senhores - não as toleravam. E ela cantava:

   " No cimo do Olimpo, no bosque de pinheiros anões, havia um velho cervo.
    " Seus olhos estava arrasados de lágrima. Chorava lágrimas vermelhas, verdes, ou de um azul desmaiado. Passou por ele um veado novo:
    " - Por que choras tanto? Por que choras lágrimas vermelhas, verdes, e até de um azul desmaiado?
   " - É que o turco entrou na nossa cidade, e trouxe cães selvagens, uma grande matilha de cães de caça!
   " - Vou persegui-los por essas ilhas - disse o veado novo. - Vou persegui-los por essas ilhas, e pelo mar a dentro, pelo mar profundo!
    " Mas antes de chegar a tarde, o veado estava morto; e antes de cair a noite, o cervo fora perseguido e degolado!

  "E enquanto minha mãe cantava assim, seus olhos se umedeciam, e uma lágrima lhe tremia nos longos cílios. Mas minha mãe a ocultava, e ocupava-se em cozer nas brasas o nosso pão preto.
    " Eu então cerrava o punho e dizia:
   " - Vamos matar os turcos!
   " Mas minha mãe  repetia o estribilho da canção

    "- Vou persegui-los por essas ilhas, e pelo mar a dentro, pelo mar profundo!
     " Mas antes de chegar a tarde, o veado estava morto; e antes de cair a noite, o cervo fora perseguido e degolado.

   " Passamos muitos dias e muitas noites sozinhos na nossa cabana; mas afinal meu pai chegou. E eu tinha certeza de que me trazia conchas do Golfo de Lepanto, ou quem sabe até se um canivetinho, bem lustroso e afiado! Mas daquela vez trouxera uma criança, uma meninazinha nua, que escondera sob o casaco de pele de ovelha. Estava também envolta em uma pele, e, uma vez retirada de dentro da pele, e deitadinha no colo da minha mãe, tudo quanto possuía era três moedas de prata, amarradas nos cabelos pretos.
   "O pai contou-nos que os turcos tinham trucidado os pais da menina; contou tantas coisas, que sonhei com elas a noite inteira.
    Também ele fora ferido, e a mãe pensou-lhe o ferimento, que era profundo; o sangue secara sobre o espesso casaco de pele de ovelha, endurecido-o.
    " A meninazinha ia ser agora minha irmã. E que beleza radiante, a dela! Não eram mais meigos, os olhos de minha mãe! Sim, Anastácia seria minha irmã. Nossos pais tinham-se unido por um velho costume, que ainda conservamos: fizeram o pacto da fraternidade, e escolheram a moça mais bela e mais virtuosa de toda a região para consagrá-lo.
   "Eu ouvira falar muitas vezes desse belo estranho costume. E agora, a pequenina era minha irmã. Ela ficava sentadinha nos meus joelhos, bem quietinha. Eu colhia flores para ela, e penas das aves dos rochedos. Bebíamos juntos a água do Parnaso. Dormíamos lado a lado, sob o teto de loureiros da cabana, enquanto minha mãe cantava, no inverno, o cântico das lágrimas vermelhas, verdes e de um azul desmaiado. Mas eu ainda não compreendia que era as múltiplas preocupações do meu próprio povo que se refletiam nessas lágrimas.
   " Um dia chegaram três homens, vestido de maneira diferente dos nossos. Eram francônios. Traziam no dorso dos  cavalos camas e barracas, e acompanhavam-nos mais de vinte turcos, todos armados de sabres e fuzis; porque os francônios eram amigos do paxá, e traziam salvo-condutos assinados por ele. Só o que desejavam era ver os nossos montes; e escalar o Parnaso, por entre a neve e as nuvens; e galgar os estranhos penedos escuros; e ver de perto a nossa cabana. Nesta não havia acomodação para eles, e como não podiam também suportar a fumaça que se enovelava lá dentro e irrompia pela porta baixa, aramaram suas barracas no espaço estreito que ficava ao lado. Ali assavam cordeiros e aves, e bebiam vinhos doces e fortes, que os turcos não podiam beber.
    " Quando partiram, acompanhei-os até certo ponto, levando minha irmãzinha Anastácia, segura dentro de uma pele de cabra, e pendurada à costas. Um dos cavalheiros francônios desenhou-nos assim, e no desenho parecíamos vivos. A aparência era a de uma única criatura. Nunca me tinha ocorrido essa ideia, mas o fato é que eu e Anastácia éramos mesmo um único ser: ela estava sempre deitada no meu colo, ou pendente de meus ombros; e quando eu dormia, ela estava sempre nos meus sonhos.
   " Dali a dois dias apareceram outros homens na nossa choça; vinham armados de facões e fuzis, e eram albaneses - homens cheios de audácia, como disse minha mãe. Não se demoraram muito. Minha irmã Anastácia esteve sentada nos joelhos de um deles, e quando se retiraram, faltava uma das moedas de prata do seu cabelo. Aqueles homens enrolavam fumo em tiras de papel e fumavam-no. O mais velho indagou do caminho que deviam seguir, porque estava em dúvidas:---
   " Se cuspo para o ar, na cara me cai; se cuspo para baixo, me fica na barba - disse ele.
   "Mas era preciso escolher um caminho. Partiram, e meu pai acompanhou-os. Logo depois ouvimos tiros e grande barulho. entraram na nossa choça alguns soldados, que nos prenderam a todos, porque os salteadores tinham acampado na nossa casa, e meu pai lhes servira de guia. Vi os cadáveres dos salteadores; vi o cadáver de meu pai, chorei tanto, que adormeci, de cansado. Quando acordei estava na prisão - que não era pior que a nossa choça. Derem-me cebola eu um vinho resinoso, que tiraram de um surrão alcatroado. Em casa, também não tínhamos nada melhor para comer.
   " Não sei quanto tempo estivemos presos, mas creio que passamos ali muitos dias. Quando nos libertaram, era pela sagrada festa da Páscoa. Eu levava Anastácia às costas, porque minha mãe estava doente e tinha de andar muito devagar. Foi longa a caminhada, até que alcançássemos o mar - o Golfo de Lepanto. Entramos na igreja, toda resplandecente de imagens - eram anjos, sobre um fundo dourado. Eram muito lindos; contudo não me pareceu que o fossem mais do que a nossa Anastácia. No centro da igreja estava um ataúde cheio de rosas. Minha mãe contou-me que Nosso Senhor Jesus Cristo jazia dentro dele como uma bela flor. E sacerdote anunciou:
    "- Cristo ressuscitou!
   " E todas as pessoas que ali estavam abraçaram-se. Cada uma tinha na mão um círio aceso; eu também recebi um, e igualmente a pequena Anastácia. Ressoaram então as gaitas de fole; e os homens, de mãos dadas, saíram da igreja, dançando. Lá fora as mulheres assavam o cordeiro da Páscoa. Convidaram-nos, e sentei-me junto da fogueira. Um menino mais velho que eu abraçou-me, deu-me um beijo, e disse:
   "- Cristo ressuscitou!
   " E foi assim que nos encontramos pela primeira vez, eu e Aftânides.
    " Minha mãe era entendida na fabricação de redes de pesca; naquele lugar, junto do mar, esse trabalho dava bons lucros. Assim ficamos muito tempo à beira-mar - à beira daquele belo mar, que tinha gosto de lágrimas, e cujas cores lembravam as lágrimas do cervo - ora vermelho, ora verde, ora azul desmaiado.
    "Aftânides sabia remar; eu estava sentado um dia, com a pequena Anastácia, dentro do barco, que ia deslizando sobre a água como uma nuvem pelos ares. Ao por do sol, tingiam-se as montanhas de um azul mais profundo. As cadeias de picos erguiam-se, umas acima das outras, e lá, na mais distante, via-se o Parnaso, coberto de neve. Ao Sol poente o cimo do monte luzia como ferro em brasa; diria que a luz vinha de dentro, pois muito depois que o sol desaparecera ainda rutilava no ar azul. As brancas aves marinhas roçavam as águas com as asas. E era só aquele ruído que quebrava o silêncio, tão profundo como entre os penhascos de Delfos. Eu, deitado no fundo do barco, tinha Anastácia sobre o peito. Acima de nós já brilhava as estrelas, ainda mais claras que as lâmpadas da nossa igreja. Eram as mesmas estrelas, e ficavam no mesmo lugar, acima de mim, como se ainda me achasse em Delfos, à frente da nossa cabana. Já eu tinha a impressão de estar lá...
    " Nesse instante ouvi o som de um baque na água, e o bote deu uma sacudidela e ficou balançando. Soltei um grande grito: Anastácia caíra à água. Mas, com a mesma rapidez, Aftânides mergulhou atrás dela. Num momento, ergueu-se acima da água e entregou-me a menina. Então nós a despimos, torcemos a roupa da criança e Aftânides fez o mesmo com a sua, depois ambos tornaram a se vestir. Ficamos no barco, até que toda a roupa molhada secasse no corpo; e ninguém soube do susto que passamos por causa da minha irmãzinha adotiva, de cuja vida dali em diante Aftânides também participava.
   " Chegou o verão. O sol era tão ardente que a folhagem das árvores murchou. Lembrava-me dos nossos frescos montes e da água tão fria que lá bebíamos. Também minha mãe tinha saudades da montanha, e um belo dia partimos de volta.
   "Que sossego, que silêncio! Atravessamos campos cobertos de tomilho, ainda cheiroso, apesar de crestado pelo ardor sol. Não encontramos nenhum pastor; não vimos  cabana alguma. Tudo era tão calmo e solitário. Apenas uma estrela cadente lembrou-nos que lá no céu a vida continuava. Minha mãe fez fogo e assou cebolas, que levara. Eu e minha irmãzinha dormimos no meio do tomilho,     sem medo algum do temível Smidraki, o papão grego, que deita fogo pela boca, nem do lobo ou chacal. Minha mãe estava sentada a nosso lado, e para mim era proteção suficiente.
   "Chegamos à nossa antiga morada; mas a cabana era um montão de ruínas, e tivemos de reconstruí-la. Algumas mulheres ajudaram minha mãe, e em poucos dias se erguiam as paredes, cobertas pelo teto de eloendro. Minha mãe tecia estojos para garrafas, de peles e cascas de árvores; e eu guardava o rebanho dos sacerdotes. Anastásia e algumas tartarugas pequeninas eram os meus companheiros de brinquedos.
  " Um dia apareceu o nosso caro Aftânides, que vinha visitar-nos Sentira muitas saudades, e resolvera ir passar conosco dois dias.
   " Voltou daí um mês, e contou-nos que queria viajar; seguiria em um navio que ia a Patras e Corfu; mas antes quisera despedir-se de nós. Trouxera um grande peixe para minha mãe; sabia muitas histórias, não só dos pescadores do Golfo de Lepanto, mas de reis e heróis que tinham outrora dominado a Grécia, como os turcos a dominavam agora.
    "Vi como a roseira deita um botão, e como este em alguns dias desenvolve, e se transforma em flor; e a flor desabrocha antes que eu pudesse pensar quão grande, bela e vermelha seria ela. Assim foi com Anastácia. Era agora uma moça, e eu um robusto rapagão. As cobertas da cama de minha mãe e de Anastácia eram peles do lobo que eu arrancara do corpo das feras, depois de matá-las a tiro.
   " Passaram-se anos. Eis que uma tarde aparece Aftânides - esbelto como um caniço, vigoroso e crestado do sol. Beijou-nos a todos; e contou da vastidão do mar, e das fortificações de Malta, e dos esquisitos túmulos dos egípcios. Tudo aquilo nos parecia maravilhoso, como uma lenda dos sacerdotes; e eu o olhava com uma espécie de reverência.
   " - Quanta coisa aprendeste! - disse-lhe eu. - E como sabes contar!
    " - Mas noutro tempo tu me contaste coisa muito melhor do que tudo isso - respondeu ele. - Contaste uma coisa que jamais me saiu da memória: o belo costume antigo, do pacto de amizade. Gostaria de observar esse costume...Meu irmão, vamos à igreja. Anastácia, que é a moça mais bela e mais pura, consagrará a união. Nenhum povo no mundo tem costumes mais lindos do que nós, os gregos!
    "Anastácia ficou corada, como uma rosa fresca, e  minha mãe abraçou Aftânides.
   " A uma hora de caminho da nossa cabana, naquele penedo coberto de terra fofa, onde se estende a sombra de alguma árvores, erguia-se a igrejinha. Uma lâmpada de prata ardia em frente ao altar.
   "Vesti minha melhor roupa; o saio branco caía-me em largas pregas sobre os quadris. O gibão vermelho ajustava-se ao corpo, sem uma ruga. A borla do meu fêz era de prata, e levava no cinturão, facas e pistolas. Aftânides vestia um traje azul, como usam os marinheiros gregos. Pendia-lhe ao peito uma medalha, com a imagem de Nossa Senhora. Cingia-o uma banda de grande valor, daquelas que só usam os grande senhores. Todos sabiam, ao ver-nos, que íamos para alguma cerimonia.
    " Entramos na pequenina igreja solitária. Os raios do sol poente, penetrando pela porta, iluminavam a lâmpada  acesa e as imagens multicolores, postas sobre fundo dourado. Ajoelhamos nos degraus do altar, enquanto Anastácia se colocava à nossa frente. Um longo e amplo vestido leve e solto, cobria-lhe o belo corpo. Adornava-lhe o alvo pescoço, caindo sobre o peito, uma corrente feita de moedas antigas e novas, que formavam uma gargantilha. O cabelo um pequeno toucado de moedas de ouro e de prata, encontradas nos templos antigos. Nenhuma moça grega possuiu jóias mais belas. O rosto resplandecia, e os olhos eram duas estrelas.
   "Rezamos todos, em silêncio; depois ela perguntou:
   " - Quereis ser amigos para a vida e para a morte?
   "- Sim! - respondemos.
   " - Quereis, suceda o que suceder, guardar sempre na lembrança estas palavras: Meu irmão faz parte de mim; minha felicidade, meu segredo são seus; abnegação, resistência, tudo quanto em mim houver, lhe pertence, tanto com a mim próprio?
   " E nós repetimos: SIM.
    " Ela uniu nossa mãos, beijou-nos a fronte, e tornamos a rezar em silêncio. Então entrou o sacerdote, pela porta que fica junto ao altar, e abençoou-nos a todos. E de lá detrás da parede do altar,       ergue-se um hino, cantando por um coro de homens. E estava concluído o pacto de eterna amizade. Quando nos erguemos, vi minha mãe, que soluçava à porta da igreja.
   " Que alegria reinava na nossa cabana, à margem das fontes de Delfos! Na véspera da partida de Aftânides, estava ele sentado, pensativo, a meu lado, na escarpa do rochedo. Seu braço cingia-me o corpo, e eu o abraçava pelo pescoço. Falamos da miséria da Grécia, e dos homens em quem ela poderia confiar. Cada pensamento íntimo aparecia-nos nitidamente a ambos. Por fim peguei na mão Aftânides:
   " - Há ainda outra coisa que deve saber; uma coisa que até agora só eu e Deus conhecíamos. Minha alma inteira está cheia de amor! Um amor mais forte do que o que sinto por minha mãe e por ti!
   " - E a quem é que tu amas? - perguntou Aftânides, que corara intensamente, até as orelhas, até o pescoço.
  "- Amo Anastácia.
   " A mão dele tremia na minha. Ficou pálido como um morto. Vi isso e compreendi tudo. Creio que minha mão também tremia. Curvei-me para ele, beijei-lhe a fronte, e disse baixinho:
   " - Eu nunca lhe disse uma única palavra. Pode ser que ela não me ame...Lembra-te, meu irmão: vejo-a todos os dias; ela se criou a meu lado: é una com a minha alma!
   "- E ela deve ser tua - disse ele. - Tua! Não, não quero mentir-te! Eu também a amo. Mas amanhã partirei. Daqui a um ano, voltarei, e então estarão casados, não é? Tenho comigo algum dinheiro, fica tu com ele; deves aceitá-lo!
   "Em silêncio caminhamos pelos rochedos. Era noite cerrada quando chegamos à choça de minha mãe. Anastácia ergueu a lâmpada, quando entramos. Minha mãe não estava ali. Ela lançou sobre Aftânides um olhar cheio de uma tristeza maravilhosa, dizendo-lhe:
   " - Amanhã nos vais deixar, não é ? Como isso me entristece!
    " - A ti também? - exclamou ele.
   " E pareceu-me que havia naquelas palavras uma dor tão grande como a minha. Achava-me incapaz de falar; mas ele pegou na mão de Anastácia e disse:
   "- Nosso irmão ama-te. Sei o que ele representa para ti. Seu silêncio é prova do seu amor.
   "Anastácia estremeceu, e seus olhos se umedeceram. Naquele momento eu só a ela via, só pensava nela. Cingi-lhe os ombros com os braços, e disse-lhe:
   " - Sim, amo-te!
   " Abraçando-me, ela uniu a sua boca à minha. A lâmpada caíra ao chão. E ao redor de nós pairavam trevas - como no coração do pobre Aftânides.
  " Ergue-se ele do leito ao romper do dia. Deu-nos a todos o beijo de despedida e foi-se.
   "Entregara à minha mãe o dinheiro que nos destina.
  "Anastácia era minha noiva, e poucos dias depois era minha mulher." 
FIm

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