sábado, 19 de março de 2016

O ELFO - CONTOS DE ANDERSEN

No centro de um jardim havia um roseira; estava coberta de rosas e na mais linda de todas morava um elfo. Era tão pequenino, tão pequenino, que olhos humanos não podiam vê-lo. Tinha um ninho bem abrigado dentro de cada pétala de rosa. Era tão bem-feito, tão primoroso como uma criancinha humana; e tinha asas, que lhe chegavam até os pezinhos. E que perfume delicioso o do seu quartinho! Que lindas eram as paredes translúcidas! Eram pétalas de um rosado muito pálido. O dia inteiro ele brincava nos raios  de sol, voava de flor em flor, dançava nas asas flutuantes das borboletas. Depois tomava medidas para ver quantos passos teria de dar para percorrer todas as estradas e atalhos de uma folha de tília. Eram esses caminhos o que nós chamamos nervuras, mas para o elfo era estradas sem fim. Porque antes que ele chegasse ao fim entrava o sol, pois sempre começava muito tarde.
    Esfriou muito; caía o orvalho e soprava. Era mais que tempo de ir para casa! O elfo andou o mais depressa que podia, mas a rosa já se fechara, e ele não pode entrar - não havia uma única rosa aberta! O coitadinho estava muito assustado: nunca se vira assim fora de casa à noite; sempre dormira tão resguardado, atrás das pétalas agasalhadoras da rosa! Ah! Agora certamente ia morrer!
    Sabia que no outro extremo do jardim havia um caramanchão coberto de madressilvas deliciosas, aquelas flores que pareciam lindas trombetinhas pintadas. Podia entrar em uma delas e dormir até amanhecer. Voou para lá. Mas...oh! Já lá dentro estavam duas pessoas : um moço e uma moça - ambos muito bonitos. Estavam sentados ao lado um do outro e não queriam separar-se, porque se amavam muito ternamente. Amavam-se mais do que o melhor dos filhos pode amar a seus pais.
    - E, contudo, temos de nos separar! - dizia o moço,
    - Teu irmão não é nosso amigo, senão não me mandaria para tão longe, a viajar por montes e mares. Adeus, minha noiva - porque bem sabes que assim te considero!
     Beijaram-se então; a moça chorou e deu-lhe uma rosa; mas antes de entregar a flor abriu as pétalas. Então o elfo voou para dentro dela e deitou a cabecinha sobre as pétalas perfumadas, e anida ouviu os noivos dizerem:
     - Adeus! Adeus!
     E o moço guardou a rosa sobre o coração. E como batia aquele coração!  O pequenino elfo não pode  dormir com aquelas pulsações.
     Mas a rosa não ficou muito tempo quieta sobre o coração  ansioso: quando ia andando pela mata escura, o moço tirou-a dali e beijou-a apaixonadamente, muitas, muitas vezes. E o pequeno alfo já temia ser esmagado. Sentia, através das pétalas, o calor dos lábios do moço, e a rosa desabrochou como o faria ao calor do sol do meio-dia.
      Apareceu então, por detrás dele, um homem moreno, que vinha furioso; era o irmão da linda jovem. Puxou uma faca longa e aguçada, e, enquanto o outro beijava a rosa, o malvado matou-o. Cortou-lhe fora a cabeça e enterrou-a, com o corpo, na terra fofa, debaixo de uma tília.
     - Agora está morto e acabou-se! - pensou o mau irmão. - Nunca mais voltará. Tinha de fazer uma longa viagem pelas montanhas e através do oceano, andar por lugares onde é muito fácil perder a vida - e ele perdeu-a! Nunca mais voltará e minha irmã não ousará pedir notícias dele.
      Amontoou então, com o pé , folhas secas sobre a terra revolvida, e voltou para casa, no meio da escuridão da noite. Não ia, porém, sozinho, como pensava: ia com ele o pequenino elfo. Este se escondera em uma folha seca de tília, que tinha caído da árvore sobre a cabeça do homem mau, enquanto ele cavava a cova. Cobria-a o chapéu agora; lá dentro estava muito escuro e o elfo tremia de medo e de ódio do malvado. O homem mau chegou à casa de manhã cedo; tirou o chapéu e foi para o quarto da irmã; a moça, linda e feliz, dormia, sonhando com o bem-amado, que julgava longe, por montes e matos. O malvado curvou-se  sobre ela, com um riso mau, um riso de inimigo. A folha seca caiu-lhe do  cabelo sobre a colcha; mas ele nem sequer notou isso e retirou-se para dormir. O elfo deixou a folha morta e foi se arrastando, entrou na orelha da moça adormecida e contou-lhe, como em um sonho, toda a história do bárbaro assassínio. Descreveu o lugar onde seu irmão cometera o crime e onde ele enterrara o corpo; falou-lhe na tília florida e disse:
     - E, para que não penses que tudo isso foi um mero sonho teu, acharás uma folhinha seca na coberta da cama.
       E ela achou a folha, quando acordou! Como a moça chorou! E que doloroso pranto! Mas não ousou contar a ninguém sua aflição.
     A janela do quarto ficou aberta o dia inteiro. O elfo podia descer facilmente para o jardim, para as rosas e as outras flores; mas desejava  acompanhar a triste noiva. Junto da janela vicejava uma roseira de todo o ano e ele se aninhou em uma flor onde podia ver a pobre moça. Seu irmão entrou muitas vezes no quarto; vinha alegre, de uma alegria má; ela, entretanto, não dizia uma só palavra sobre a tristeza do seu coração.
   À noite ela saiu de casa sem ser vista e foi  à floresta, em direção ao lugar onde estava a tília. Afastou as folhas secas do chão e cavou  a terra, achando aquele que fora assassinado. E chorou muito a pobre noiva! E como chorou a Deus pedindo que a levasse também depressa! Se pudesse conduzir  para casa o corpo do morto ficaria mais consolada: não podendo, porém, fazê-lo, pegou na pálida cabeça de olhos já fechado, beijou os lábios frios e sacudiu a terra que se apegara aos lindos cabelos, dizendo\\\\\\\\\\\\\\\\\\;
   - Isto me pertence?
   Tornou a cobrir o corpo com terra e folhas secas. Depois levou para a cabeça e um raminho do jasmineiro que florescia junto à cova.
   Chegando ao seu quarto pegou no maior vaso de barro que achou em casa, meteu dentro a cabeça do morto , cobriu-a com terra e plantou  nela o galho de jasmim.
   - Adeus, adeus! murmurou o elfo.
    E, não podendo mais suportar a vista de tamanha dor, voou para o jardim à procura da sua rosa; ela porém estava murcha  e apenas algumas pétalas fanadas ainda se apegavam ao cálice verde.
     - Como  passam depressa o bem e a beleza! - suspirava ele.
     Afinal achou outra rosa e estabeleceu nela o seu lar. Podia viver a salvo entre as suas pétalas perfumadas.
           Todas as manhãs voava para a janela da moça e via-a a sempre ali, chorando ao pé do vaso. Suas lágrima amargas caíam sobre o jasmineiro; e, ao passo que ia ficando cada dia mais pálida, o galinho ia ganhando força e vigor. Foram aparecendo as folhinhas, uma após outra, e por fim pequeninos botoes alvos, que ela beijava; mas o malvado irmão ralhava com ela, perguntando-lhe se estava louca. É que ele não gostava de ver - sem saber por que - a irmã sempre debruçada sobre aquele vaso, a chorar. Não sabia que olhos estavam escondidos lá dentro, fechados para sempre, nem que lábios vermelhos se tinham reduzido a pó, na profundeza daquele vaso.
     Um dia ela ela inclinou a cabeça sobre o vaso do jasmim e o pequenino elfo foi achá-la ali adormecida. Ele entrou na orelha da moça, e falou-lhe, num sussurro, daquela noite, no caramanchão de madressilva, no perfume das rosas e no amor dos elfos. Ela ia sonhando aqueles sonhos suaves, e,  enquanto sonhava, sua vida extinguiu-se. Estava morta. Tivera uma morte suave e fora para o céu, onde estava o seu bem-amado! O jasmineiro abriu suas alvas flores que espalharam o mais suave perfume. Não tinham outra maneira de chorar a morta.
     O irmão malvado viu a linda planta florescida e levou-a consigo, como lembrança. Pôs o vaso no seu quarto, perto da cama, porque eram tão lindas as flores e exalavam um perfume tão suave e tão fresco...O pequeno elfo também foi e voava de flor em flor; em cada uma vivia um elfo pequenino, e a cada um ele foi contando a história do assassinado, cuja cabeça repousava agora debaixo da terra. Contou-lhes a história do irmão malvado e da irmã infeliz,
    - Nós sabemos de tudo - diziam as criaturinhas.- Nós sabemos. Pois não foi daqueles olhos e daqueles lábios assassinados que nós nascemos? Nós sabemos, nós sabemos disso!
     E sacudiam a cabecinha de uma maneira estranha...
    Não compreendia o elfo com os outros podiam ficar tão calmos; e voou para as abelhas que andavam sugando mel. Contou-lhes a história do irmão malvado; as abelhas contaram tudo à sua rainha, e esta ordenou-lhes que na manhã seguinte matassem o assassino.
      Mas durante a noite, a primeira noite depois da morte da irmã, quando o irmão estava adormecido na cama, perto do jasmineiro perfumado, todas as flores abriram bem as pétalas. De cada uma delas saiu um dos pequeninos espíritos invisíveis  da flor - e todos iam armados, levando suas pequeninas lanças envenenadas.Alojaram-se-lhe primeiro nas orelhas e lhe insinuaram sonhos terríveis. Depois voaram-lhe sobre a boca e picaram-lhe a língua com seus dardos envenenados. E diziam:
    - Agora sim, vingamos a morta!
     E voltaram para as alvas flores do jasmineiro.
    Quando o dia clareou, a janela abriu-se toda de repente: o elfo e todo o enxame de abelhas com sua rainha entraram voando para matá-lo.
   Mas ele já estava morto; havia gente parada ao pé da cama e todos diziam:
   - Foi o cheiro do jasmineiro que o matou!
     Então o elfo compreendeu a vingança das flores e disse-a à rainha das abelhas. Ela e todo o seu povo zumbiam ao redor do vaso; e as abelhas não queriam ir embora.
     Um homem tirou dali o vaso do jasmineiro, mas uma abelha fincou-lhe o ferrão na mão e ele deixou cair o vaso, que ficou em cacos.
     E todos viram então o crânio já todo branco e compreenderam que o morto que jazia no leito era um assassino. A rainha das abelhas zumbia no ar, e cantava, cantava para o elfo, contando-lhe a vingança das flores; dizia que atrás de cada pétala, mesmo das mais miudinhas, vive escondido um ser que pode descobrir e vingar todas as más ações.
FIM

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