terça-feira, 14 de julho de 2015

A PALHA, A BRASA E O FEIJÃO - CONTOS DE GRIMM

    Numa aldeia vivia uma velha, muito pobre, que um dia conseguiu um pouco de feijão branco e resolveu cozinhá-lo. Fez, pois, um fogo e, para que ardesse mais depressa, ela o acendeu com um punhado de palha. Ao derramar o feijão na panela, não percebeu que um dos grãos caiu e foi parar no assoalho, ao lado de uma palha. Pouco depois, uma brasa saltou, também, do fogão, até o lugar onde estavam os outros dois. A palha, então, começou a conversar;
   -Amigos de onde vem vocês?
   E a brasa respondeu;
 - Por sorte escapei do fogo e, se não tivesse sido tão arrojada, minha morte era certa; teria queimado até me tornar cinza.
   Disse o feijão:
  - Também eu consegui salvar a pele. Se a velha me metesse na panela, eu seria transformado em papa, como os meus companheiros, sem dó nem piedade.
    - E por acaso, o meu destino teria sido melhor? - disse então a palha. - A velha jogou todas as minhas irmãs ao fogo, pegou sessenta de uma vez só e acabou com elas. Por sorte lhe escorreguei de entre os dedos.
   - O que faremos agora? - indagou a brasa.
   - Sou de parecer - respondeu o feijão - que, visto termos escapado à morte por felicidade, continuaremos os três juntos, como bons amigos e, para evitar que nos ocorra um novo desastre, procuremos outras terras.
     A proposta agradou aos demais e eles se puseram a caminho. Pouco depois chegaram a um pequeno arroio. Mas não havia ponte ou prancha por ali e ficaram sem saber como passar para o outro lado. Nisto, a palha teve uma ideia e disse:
    - Vou me deitar, atravessada sobre a água e, desse jeito, formo uma ponte por onde vocês poderão passar.
    Estendeu-sem, então, de uma margem do arroio à outra e logo a brasa, que era de natureza fogosa, se aventurou a caminhar sobre a ponte. Mas, quando chegou à metade do caminho e ouviu o barulho das águas a seus pés, parou e não teve coragem de seguir adiante. A palha, porém, começou a arder, partiu-se em dois pedaços e caiu no arroio, arrastando consigo a brasa. Esta, ao tocar a água, expirou com um chiado. O feijão, por sua vez, que ficara prudente na margem, achou graça do acontecido e começou a rir que não podia mais parar. Tanto riu, que acabou arrebentando. Também ele findado ali sua existência, se não fosse um alfaiate que ia passando e que se deteve à margem do arroio para descansar. O homem, que tinha bom coração, pegou agulha e linha e costurou a rasgadura. O feijão agradeceu-lhe muito, mas, como o alfaiate empregara linha preta, daquele dia em diante todos os feijões passaram a apresentar no corpo uma costura preta.
Fim 
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segunda-feira, 13 de julho de 2015

AS TRÊS FOLHAS DA SERPENTE - CONTOS DE GRIMM

                             
 Era uma vez um homem tão pobre que não podia mais sustentar seu único filho. Este, então, lhe disse: - Querido pai, reconheço que estou sendo uma carga muito pesada para o senhor. É bom que eu saia a correr mundo e ver se me sustento sozinho.
  O pai deu-lhe a benção e, tristemente, se despediu do filho.
   Naquela época estava em guerra o soberano de um reino poderoso. O rapaz alistou-se em seu exército e saiu para os campos de batalha. Ao chegar diante do inimigo, houve uma luta feroz em que o perigo era grande e chovia tanta bala que seus companheiros iam tombando a seu lado. Quando também o general sucumbiu, os restantes desanimaram e puseram-se em fuga. O rapaz, porém, postou-se à frente deles, dizendo:
   - Não vamos consentir numa derrota!
   Diante disso, os outros resolveram segui-lo; e ele, lançando-se à luta, venceu o inimigo. O rei, ao tomar conhecimento de que devia a vitória somente a ele, prestou-lhe honrarias públicas, deu-lhe grandes riquezas e nomeou-o ministro do reino.
   O soberano possuía uma filha que era belíssima, mas um tanto caprichosa. A jovem fizera o voto de jamais aceitar, como esposo e senhor, a quem não prometesse, solenemente- caso ela viesse a morrer primeiro - deixar-se enterrar, vivo, na mesma sepultura. " Se me ama verdadeiramente -dizia ela- de que lhe serve então a vida?"
   De sua parte, comprometia-se a fazer o mesmo se o marido morresse antes. Essa estranha promessa afugentara, até então, todos  os pretendentes. O rapaz, porém, impressionado com a beleza da moça, não hesitou um só instante e a pediu em casamento.
   - Sabes da promessa que terás de fazer?- perguntou-lhe o rei.
   - Se eu sobreviver-lhe, devo baixar com ela à sepultura; mas o meu amor é tão grande que não me importa o perigo.
    O rei consentiu no casamento, que foi celebrado com grande pompa.
  Durante algum tempo os jovens viveram felizes e contentes, até que um dia a princesa adoeceu gravemente e nenhum médico a pode salvar. Quando ela morreu, o jovem, lembrando-se da promessa que fizera, horrorizou-se com o pensamento de ser sepultado em vida. Mas não havia escapatória; o rei tinha mandado guardar todas as portas e era impossível fugir ao horrível destino. No dia em que levaram o corpo da princesa à cripta real, também ele foi conduzido para lá. A seguir, a porta foi fechada e aferrolhada.
   Junto ao caixão havia uma mesa e, sobre ela, quatro velas, quatro pães e quatro garrafas de vinho. Assim que essas provisões terminassem, ele morreria de fome e sede.
    Cheio de tristeza e de dor, comia todos os dias um só pedacinho de pão e bebia em só gole do vinho; no entanto, bem sabia que a morte se aproximava cada vez mais. Certa vez, estava ele ali, de olhos fixos na parede, quando viu sair de um canto uma serpente, que deslizava em direção ao cadáver. E como pensasse que pretendia devorá-lo, puxou da espada e exclamou:
  - Enquanto eu for vivo, não lhe tocarás!
   Com alguns golpes, partiu a cobra em três partes. Passado algum tempo, outra serpente surgiu, mas, ao ver sua companheira morta e aos pedaços, deu volta. Pouco depois reapareceu, trazendo na boca três folhas verdes. Apanhou os três pedaços da outra cobra e, juntando-os devidamente, colocou uma das folhas em cada ferida. Imediatamente as partes se uniram, a serpente moveu-se e, tendo recuperado a vida, retirou-se com a companheira. As folhas ficaram no chão e o infeliz, que a tudo assistira, teve a ideia de que a força milagrosa das folhas, que tinham devolvido a vida à serpente, talvez fizesse o mesmo com as pessoas.
    Recolheu, pois, as folhas; colocou uma delas na boca da morta e as outras duas sobre as suas pálpebras. Mal terminou de fazer isso, o sangue começou a circular nas veias da princesa, restituindo a cor aquele rosto pálido. A morta respirou e, abrindo os olhos, disse:
    - Meus Deus, onde estou?
   - Estás comigo, querida! - respondeu ele e contou tudo o que acontecera e como lhe restituíra a vida.
    Deu-lhe, a seguir, um pouco de vinho e pão e, tendo ela recuperado as forças, levantou-se e foram ambos até a porta. Ali bateram e gritaram tão alto que os guardas os ouviram e informaram ao rei. Este veio à catacumba e, encontrando o casal cheio de vida, alegrou-se com eles por terem escapado à morte. O jovem príncipe apanhou as três folhas da serpente e, dando-as a seu criado, disse-lhe:
   - Guarda-as com todo carinho e traze-as sempre contigo. Quem sabe se algum dia não iremos necessitar delas!
     Mas aconteceu que houve uma grande transformação na esposa ressuscitada. Todo o amor que dedicara ao marido parecia ter desaparecido de seu coração.
    Tempos depois o príncipe resolveu fazer uma viagem, por mar, para visitarem seu velho pai, e os esposos embarcaram num navio. Ali, então, a princesa esqueceu o grande amor e fidelidade que seu marido demonstrara, salvando-lhe a vida. Apaixonou-se pelo capitão do navio. E, um dia, quando o príncipe estava dormindo, ela chamou o homem, segurou o marido pela cabeça e, obrigando o outro a segurá-lo pelos pés, ambos o jogaram ao mar. Consumado o crime, ela disse:
    - Regressemos, agora; vamos dizer que ele morreu durante a viagem. Eu te elogiarei tanto a meu pai que ele acabará me casando contigo e te fará herdeiro da coroa.
   O criado fiel, porém, que a tudo assistira, baixou ao mar um dos botezinhos do navio e, sem que ninguém visse, remou até o lugar  onde seu amo caíra na água, deixando que os traidores seguissem seu caminho.
   Retirou o corpo do mar e, com auxilio das três folhas da serpente, as quais sempre trazia consigo, restitui-lhe a vida, colocando-as sobre os olhos e a boca do afogado.
     Os dois, então, puseram-se a remar dia e noite, com todas as forças. E o bote andou com tal rapidez que chegaram à presença do rei ainda antes dos outros. Admirado de os ver chegar sozinhos, perguntou-lhes o que sucedera. E, quando soube da perversidade de sua filha, disse:
   - Não posso acreditar que ela tenha procedido tão mal, mas a verdade logo será descoberta.
   Mandou que entrassem para uma sala secreta e que não se deixassem ver por ninguém.
   Pouco depois, o navio chegou e a mulher perversa apresentou-se diante do pai, com a fisionomia muito triste. Este perguntou-lhe:
   - Por que voltas sozinhas? Onde está teu marido?
   - Ah, meu pai querido! - respondeu ela.- Eu volto com o coração cheio de dor. Meu marido adoeceu repentinamente e morreu durante a viagem. Se não fosse o bom capitão, eu também teria passado muito mal. Ele assistiu à sua morte e poderá contar-lhe tudo.
   Então o rei disse:
   - Vou ressuscitar o morto! - E abriu a sala, mandando sair os dois homens.
   A mulher, ao ver o marido, ficou como se fosse atingida por um raio e, caindo de joelhos, implorou misericórdia. Mas o rei sentenciou;
   - Não haverá perdão. Ele estava disposto a morrer contigo e te restituiu a vida; tu, porém, o assassinaste durante o sono e vais receber a paga que te cabe.
    Embarcaram-na junto com o seu cúmplice em um navio furado, que levaram até alto mar, onde, pouco depois, foram tragados pelas águas. Fim

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sexta-feira, 10 de julho de 2015

O ALFAIATEZINHO VALENTE- CONTOS DE GRIMM

  Um dia de verão, estava um pequeno alfaiate sentado sobre sua mesa, junto à janela. Satisfeito da vida, cosia e cosia com grande entusiamo. Nisso uma camponesa desceu a rua, apregoando:
   - Marmelada! Quem quer marmelada?
   Aquilo soou bonito aos ouvidos do alfaiatezinho, que meteu a delicada cabecinha fora da janela e chamou:
   - Ei, boa mulher! Venha, que aqui ficará livre da mercadoria!
   A camponesa com seu cesto pesado, subiu as três escadas e o homenzinho a fez abrir todos os potes. Examinou-os, cheirou-os um por um, e afinal acabou dizendo:
  - Parece-me boa essa marmelada. Sirva umas quatro colheradas, boa mulher, e, se forem cinco, também não fará diferença para mim.
   A mulher, que esperava realizar um bom negócio, deu-lhe o que havia pedido, mas retirou-se aborrecida e resmungando.
  - Bem ! - disse o pequeno alfaiate- que Deus abençoe este doce, para que me de forças e ânimo.
    Foi ao armário, tirou de dentro um pão e, cortando um bom pedaço, passou nele a marmelada.
   - Não há de ter mau gosto- disse consigo- mas antes de provar, quero ver se termino este gibão.
    Pôs o pão a seu lado e continuou costurando, sentia-se tão feliz que ia fazendo pontos cada vez maiores.
   Nesse meio tempo, o doce aroma da marmelada subiu até o teto, onde havia moscas em quantidade. Estas, sentindo-se atraídas pelo bom cheiro, foram pousar no pão, aos montes.
   - Ei! Quem convidou vocês? - disse o alfaiatezinho, espantando as hóspedes indesejadas.
   As moscas, que não entendiam sua linguagem, nem fizeram caso. Ao contrário, apresentaram-se em  número cada vez maior. Aí, então, o homenzinho ficou por aqui, como se costuma dizer, e, passando a mão num retalho de fazenda, gritou:
    - Esperem, que terão o que merecem!
    E bateu com toda força nelas. Quando levantou o pano, viu que nada menos de sete estavam ali mortas, de perna esticada.
   - Como és valente! disse a si mesmo, admirando sua bravura - a cidade toda deverá ficar sabendo!
    Mais que depressa, cortou e costurou um cinto, bordando nele os seguintes dizeres em letras bem grandes: "Sete de um golpe só!"
    - Qual cidade, qual nada ! -prosseguiu monologando- o mundo inteiro precisa ficar sabendo!
    E, de tanta alegria, seu coração se agitava como o rabinho de cordeiro. Colocou o cinto, resolvido a correr mundo, pois achava que a alfaiataria se tornara pequena demais para sua coragem. Antes, porém, deu uma busca na casa para ver se havia qualquer coisa que pudesse levar consigo, mas só encontrou um queijo velho que enfiou no bolso. Em frente ao portão, viu um pássaro que se enredara nos arbustos; apanhou-o e também o guardou no bolso, para que fizesse companhia ao queijo.
   Iniciou, então, corajosamente,  sua jornada, como era leve e ágil, não sentiu cansaço. O caminho o levou a uma montanha e, ao chegar no ponto mais elevado, viu, de repente, um gigante, enorme, sentado no chão a olhar, tranquilamente, a seu redor. Cheio de valentia, o pequeno alfaiate aproximou-se dele e falou:
    - Bom dia, companheiro! Contemplando a imensidão do mundo, não? É para lá, exatamente, que me dirijo, a fim de tentar a sorte. Queres acompanhar-me?
     O gigante olhou-o com desprezo e respondeu:
     - Ora só quem está falando! Que sujeitinho mais miserável!
     - Alto lá! -disse o nosso homenzinho e, desabotoando o casaco, exibiu o seu cinto.- Aí podes ler que espécie de homem sou eu!
     O gigante leu: "Sete de um golpe só!" E como pensasse tratar-se de pessoas, mostrou um pouco mais desrespeito ao alfaiate; Em todo caso, quis experimenta-lo antes; apanhou uma pedra e tanto a espremeu com uma das mãos que fez correr dela algumas gotas de água.
   - Imita-me- disse o gigante- se tiveres força.
    - Se é só isso- retrucou o pequeno- não passa de um brinquedo de criança para gente como eu.
     Enfiou a mão no bolso, tirou o queijo, que era mole, e o apertou até sair o sumo.
     Que tal? -disse ele. - Um pouquinho melhor, não é?
    O gigante ficou sem o que dizer, pois a força de homenzinho o desconcertara. Apanhou outra pedra e atirou-a tão alto que mal se podia distingui-la a olho nu.
   - E daí, seu valentão? Imita-me!
    - Boa jogada! - concordou o alfaiate.- Mas a pedra caiu de volta ao chão e eu vou atirar uma que não voltará.
    E, tirando o pássaro do bolso, jogou-o no espaço. A Ave, satisfeita com a liberdade, ergueu-se em voo rápido e desapareceu no ar.
   - Que me dizes dessa jogada, companheiro? - perguntou o alfaiate.
   - Sabes atirar- retrucou o gigante- mas, agora, vejamos se és capaz de carregar um peso razoável.
  E conduzindo o alfaiatezinho até um carvalho muito grande que estava, cortado, no chão, disse-lhe:
   - Se tiveres força suficiente, ajuda-me a carregar esta árvore para fora do mato.
     - Com muito prazer- respondeu o homenzinho.- Vai pondo o tronco nos ombros que eu me encarrego dos galhos e ramos, que são a parte mais pesada.
    O gigante colocou o tronco nos ombros, enquanto o alfaiatezinho se acomodou num dos galhos. E, como o primeiro não podia voltar-se  para vê-lo, carregou a árvore inteira e, ainda por cima, o alfaiate. Este, muito alegre, assobiava a canção: " Três alfaiates saíram a trote..." - como se carregar uma árvore fosse brinquedo de criança. O gigante, depois de ter arrastado por algum tempo o pesado fardo, não aguentou mais e gritou:
   - Atenção! Vou deixar cair a árvore!
    O  alfaiatezinho saltou logo para baixo, agarrou o carvalho com ambos os braços, como se estivesse a carregá-lo e disse ao gigante:
    És grandalhão, mas incapaz de carregar essa árvore!
    Continuaram juntos o caminho e chegaram ao pé de uma cerejeira. O gigante meteu a mão na copa onde estavam as frutas mais doces, curvou os galhos e, pondo-os nas mãos do alfaiate, o convidou a comer cerejas. Mas o homenzinho era fraco demais para segurar a árvore e, quando o gigante soltou os galhos, a cerejeira voltou à sua posição primitiva, levando aos ares o nosso heroi. Este, sem sofrer dano algum, caiu no chão e o gigante logo perguntou:
    - Como? Não tens força para segurar essa árvore tão pequena?
   - Não se trata de força- respondeu o outro. Acreditas que isso significa algo para quem matou sete de um golpe só? Saltei de propósito sobre a árvore porque os caçadores andam atirando lá em baixo, no matagal. Imita-me se és capaz!
     O gigante tentou, mas não conseguiu pular a árvore, ficando preso nos galhos. E, com isso, também desta vez o pequeno alfaiate ficou com a vitória. Disse, então, o gigante:
    - Se és tão valente mesmo, acompanha-me à nossa caverna e passa a noite conosco.
     O nosso homenzinho aceitou a proposta e o seguiu. Chegaram à caverna, onde havia vários outros gigantes, cada um deles comendo uma ovelha assada que tinha nas mãos. O alfaiatezinho olhou em redor e pensou: "Isso aqui é  bem maior do que minha alfaiataria."O gigante mostrou-lhe uma cama e o convidou a deitar-se e dormir. Ele, porém, achou grande demais o leito e, em vez de se deitar nele, foi acomodar-se num canto. Pela meia-noite, o gigante, imaginando o alfaiatezinho em sono ferrado, levantou-se, apanhou uma barra de ferro e desfechou tamanho golpe na cama que julgou ter acabado, de uma vez por todas, com a vida daquele gafanhoto. De madrugada, bem cedo, os gigantes foram ao mato e já nem se lembravam mais do alfaiate, quando de repente, este lhes veio ao encontro, bem alegre e satisfeito. Levaram um susto danado e, receando que ele fosse matá-los, fugiram espavoridos.
    Continuou o nosso herói a viagem, seguindo sempre o seu nariz arrebitado. Depois de uma longa jornada, chegou ao jardim de um palácio real e, sentindo-se cansado, espichou-se na relva e adormeceu. enquanto estava ali deitado, chegou gente. Aproximaram-se dele e puseram-se a examiná-lo por todos os lados. Nisso, leram o seu cinto: " Sete de um golpe só!"
    - Céus! - exclamaram o grupo todo- que estará fazendo aqui este grande herói, agora, em tempos de paz?
Deve ser cavaleiro famoso!
    E saíram para avisar o rei, dizendo-lhe que, se houvesse guerra, seria um homem importante e útil que não se deveria deixar escapar. O rei gostou de conselho enviou um dos seus cortesões ao alfaiate, para contratar os seus serviços logo que ele despertasse. O mensageiro assim fez e, quando o homenzinho se espreguiçou e abriu os olhos, transmitiu-lhe o recado.
   - Vim aqui, justamente, para isso, - disse o pequeno alfaiate. - Estou disposto a entrar a serviço do rei.
    Receberam-no, então, com todas as honras e deram-lhe uma moradia especial.
    Os soldados do rei, no entanto, o olhavam com maus olhos e desejavam que ele estivesse a mil léguas de distância.
 - Que será de nós quando tivermos uma briga e ele, com cada golpo, derrubar sete de nossa gente? - diziam entre si.- Desse jeito não viveremos muito,
    E resolveram ir ao rei para pedir que os despedisse.
    - Não estamos preparados- disseram - para viver perto de um homem que matou sete de um só golpe.
    O rei entristeceu-se por ter de renunciar a todos os seus soldados por causa de um só; já estava arrependido de tê-lo contratado e desejou que seus olhos nunca o tivessem visto. Entretanto, não se animou a despedi-lo, porque receava que ele o matasse junto com todo o seu povo e fosse depois apoderar-se do trono. Pensou durante muito tempo e, afinal, descobriu um meio. Mandou dizer ao alfaiate tão famoso, queria fazer-lhe uma proposta. Na floresta do país havia dois gigantes que provocavam grandes prejuízos, com roubos, assassinatos, incêndios e outro crimes mais. Ninguém podia aproximar-se deles sem arriscar a vida. Se ele vencesse e matasse os dois gigantes, dar-lhe-ia sua filha única para esposa e ainda a metade de seu reino como dote; teria, também, o auxilio de cem cavaleiros. "Seria algo para um homem como tu" -pensou o alfaiatezinho - " e não é todos os dias que oferecem uma bela princesa para esposa e meio reino como dote".
  - Aceito! - foi a sua resposta.- Vencerei os dois gigantes e não preciso dos cem homens para essa tarefa; quem matou sete de um golpo só, não se amedronta com dois.
  Pôs-se a caminho e os cem cavaleiros o seguiram. Quando chegou à beira do bosque, dirigiu-se a seus acompanhantes, dizendo:
   - Fiquem por aqui; eu, sozinho, sou suficiente para acabar com os gigantes.
    E embrenhou-se no mato, olhando para direita e para esquerda. Passado algum tempo, avistou os gigantes. Deitados embaixo de uma árvore, estavam dormindo e roncando tão alto que faziam balançar os galhos. Sem perda de tempo, o pequeno alfaiate encheu os bolsos de pedra e foi trepando na árvore. Assim que chegou na metade, escorregou para a ponta de um galho, de modo a ficar bem em cima dos dois adormecidos e começou a jogar as pedras, uma a uma, no peito de um dos gigante. Durante muito tempo o homenzarrão não notou coisa alguma, mas, por fim, acordou, deu um empurrão no companheiro e disse:
    - Por que estás me batendo?
   - Batendo coisa nenhuma! Tu é que estás sonhando- disse o outro.
     Recomeçaram a dormir, e o alfaiate jogou uma pedra no segundo.
    - Que significa isso?!- gritou o outro gigante.- Por que estás me atirando pedras?
   - Não estou atirando nenhuma pedra- resmungou o primeiro.
    Discutiram ainda por algum tempo, mas, como estavam cansados, cessaram a discussão e voltaram a dormir. O nosso alfaiatezinho então recomeçou o jogo; escolheu a pedra mais pesada e arremessou-a com toda força, no peito do primeiro gigante.
    - Isso agora é demais!- gritou este e, erguendo-se de um salto, como um louco, jogou seu companheiro com tal força contra a árvore que a fez estremecer. O outro pagou-lhe na mesma moeda e tão furiosos ficaram que se puseram a arrancar as árvores ao redor, e com elas tanto se bateram que caíram mortos, ao mesmo tempo, no chão. Só aí é que o alfaiatezinho desceu de seu posto.
    - Uma sorte - disse ele- não terem arrancado a árvore onde eu estava, senão teria sido obrigado a saltar para outra, que nem esquilo. Ainda bem que sou ligeiro!
    Tirou a espada da bainha e deu diversos golpes no peito do gigantes. Em seguida foi ao encontro dos cavaleiros e lhes disse:
    - O trabalho foi feito; dei cabo dos dois. Custou-me algum esforço porque se defenderam com troncos de árvores que iam arrancando, mas nada disso adianta quando surge alguém como eu que mata sete de um golpe só.
     - E não está ferido? - perguntaram os homens.
    - Era só o que faltava! - respondeu o alfaiate.- Não perdi um único fio de cabelo!
    Os cavaleiros não lhe quiseram dar crédito e foram ao bosque; lá encontraram os gigantes banhando em sangue e, ao redor, as árvores arrancadas.
     O pequeno alfaiate apresentou-se ao rei para exigir a recompensa prometida. Mas este já se arrependera da promessa e começou a imaginar como livrar-se do herói.
     - Antes de receberes minha filha e metade do reino - disse-lhe- terás de realizar outra façanha. Anda por um unicórnio a causar prejuízos graves. Deves, primeiro capturá-lo.
    Um unicórnio me assusta menos ainda que dois gigantes. Minha divisa é : "Sete de um golpe só."
    Pegou uma corda e um machado e saiu para a floresta. Novamente ordenou a seus acompanhantes que o emperrasse fora do bosque. Não teve de procurar muito. O animal veio saltando em sua direção, como se quisesse espetá-lo sem maiores rodeiros,
     - Calma!Calma!- exclamou o alfaiatezinho.- Não corramos tanto!
     Ficou parado e esperou que o bicho chegasse bem perto; depois, num gesto rápido, colocou-se atrás de uma árvore. O unicórnio, que vinha direto a ele, disparando com toda fúria, cravou o corno com tanta força no tronco que não conseguiu mais retirá-lo e ali ficou aprisionado.
    - Apanhei o pássaro! - disse o homenzinho, saindo de trás da árvore. Colocou, primeiro, a corda no pescoço do bicho e depois retirou, a golpes de machado, o côrno do tronco. A seguir, levou o animal para o rei.
     Ainda assim o soberano não quiz conceder-lhe o prêmio e deu-lhe uma terceira incumbência. Antes do casamento, o alfaiate deveria capturar um javali que causava grandes danos na floresta. Os caçadores lhe prestariam auxílio.
    - Com muito prazer- disse o alfaiate- isso é brincadeira de criança.
    Deixou os caçadores à beira do mato e eles ficaram bem satisfeitos com isso, pois o javali, muitas vezes, os recebera de um modo que lhes tirara toda a vontade de o enfrentar novamente.
    Logo que o javali avistou o alfaiate, correu-lhe ao encontro com a boca espumando, cheia de dentes aguçados, e pronto para derrubá-lo. O ágil herói, porém, correu  a refugiar-se numa capelinha que havia ali e, em seguida, saiu pela janela que ficava ao alto. O javali, que o seguia de perto, entrou também na capela e, então, o homenzinho, dando volta por fora, correu a fechar o pórtico, prendendo assim a fera, pesada e desajeitada demais para sair pela janela. Feito isso, chamou os caçadores para eles vissem o prisioneiro com seus próprios olhos. O valente foi, então, apresentar-se ao rei, o qual, quisesse ou não, foi obrigado a cumprir sua promessa, dando-lhe a filha e metade de seu reino.Mas teria ficado ainda mais aborrecido se imaginasse tratar-se de um simples alfaiate e não de um guerreiro famoso. O casamento foi, pois, celebrado com grande pompa, mas pouca alegria, e de um alfaiate se fez rei.
     Passado algum tempo, numa noite, a jovem rainha ouviu quando seu marido falava em sonhos:
     - Rapaz, apronta esse gibão e me remenda as calças ou te medirei as costas com esta vara!
      Compreendeu aí a rainha qual era a origem se seu jovem esposo. Na manhã seguinte, queixou-se ao pai, pedindo-lhe que a libertasse do homem que não passava de um alfaiate. O rei consolou-a, dizendo:
      Deixa a porta de teu quarto aberta esta noite. Meus criados ficarão do lado de fora e, quando ele estiver dormindo, será atado e levado para um navio que o conduzirá para bem longe.
    A filha deu-se por satisfeita, mas o escudeiro ouvira tudo e, como gostasse de seu amo, revelou-lhe toda a trama.
     - Vou por um pequeno empecilho a esse plano- disse o alfaiate- zinho.
     À noite deitou-se como de costume, na cama, com sua mulher. Quando o viu adormecido, ela levantou-se, abriu a porta e tornou-se a deitar. O alfaiate, que só estava fingindo, começou a gritar com voz bem forte:
    - Rapaz, apronta o gibão e remenda minhas calças ou te medirei as costas com esta vara! Atingi sete com um golpe só, matei dois gigantes, apanhei um unicórnio, capturei um javali e haveria de temer a esses que estão do lado de fora da porta?
    Os homens, quando o ouviram falar daquele jeito, assustaram-se e deitaram a correr como se um  exército inteiro estivesse em seu encalço e nenhum deles se atreveu a enfrentá-lo. E foi assim que o alfaiatezinho ficou sendo rei por toda vida.
 FIM
 
 
 










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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Irmãos Grimm por Mario Quintana.

  Era uma vez.... os Irmãos Grimm. Que forma eles? Nada mais, nada menos que contadores de histórias. Foi assim que o seu nome chegou até nós, embora o mais velho seja considerado o introdutor do método histórico no estudo da gramática e o fundador da filologia germânica, com sua edição crítica de textos arcaicos. Professores da Universidade de Goettingen, Jacob, nascido em 1785, e Wilhelm, em 1786, viram-se ambos destituídos em consequência de mudanças políticas da época. Começaram então a percorrer a Alemanha, recolhendo as histórias que viviam na tradição oral. No prefácio de sua primeira coletânea, aludem eles à mulher de um criador de gado, que guardava na memória todas  as velhas histórias, repetindo-as invariavelmente com as mesmas palavras e cujo retrato foi publicado na mesma edição(1812). Contudo, revela o filho de Wilhelm que muitas histórias, como de Joãozinho e Mariazinha, uma das primeiras a se tornar famosa, foram contadas a seu pai pela namorada deste, Dorotéia,  e que, após se casarem, continuou sendo uma das fontes informativas de seu curioso marido. Como se vê, tanto como gostavam de contá-las, eram os Irmãos Grimm uns incansáveis ouvidores de histórias. Essas histórias constavam, desde lendas cheias de poesia como a dos Doze Apóstolos, de caricaturas de tipos encontradiços na vida real, como a do ranzinza mestre Sola, que nem no Céu achava nada bom, até simples anedotas, casos, facécias, histórias de bichos, ou apólogos morais e religiosos; mas, antes de mais nada, esses estranhos contos, de uma imprevista fantasia, como o de "Um Olhinho, Dois Olhinhos, Três Olhinhos", e outros, que não tem outra razão de ser senão o mistério dos sonhos infantis; ou "  O Sapo Encantado", de tamanho sabor folclórico, e tantas outras, que saíram a correr mundo.
   Propriamente falando, essas histórias já andava a correr mundo, na boca das velhas amas e das avózinhas. Estas não fizeram mais que dar o que os seus pequenos ouvintes lhe pediam. Era o caso de se perguntar quem era mesmo que inventava as histórias. Os Irmãos Grimm, por sua vez, com uma fidelidade muito anterior à época em que foi inventada a palavra "folclore" ou " populário". (digamos entre parênteses, mais compreensível internacionalmente, criada por Apolinário Porto Alegre e adotada por Simões Lopes Neto) colheram da boca de mulheres e crianças umas duzentas dessas histórias. Essa carinhosa pesquisa se estendeu por treze anos, enquanto  comparavam e decantavam as diferentes  versões, dando-lhes a necessária unidade de estilo.
   As histórias assim ouvidas e tão habilmente recontada ( coube a Wilhelm a redação definitiva de uma edição completa em três volumes , 1819) saíram à luz a partir de 1812, sob o título de Histórias da Criança e do lar- título este que bem explica a origem delas, dizendo por quem, para quem e onde foram contadas. É claro que essas histórias, na sua viagem ao redor de mundo, foram sofrendo aqui e ali certas adaptações ao meio ambiente dos pequenos ouvintes, embora todas se passem no País dos Sonhos.

VERDURINHA - CONTOS DE GRIMM

    Era uma vez um homem e uma mulher que viviam sós e tristes por não terem filhos. Um dia, a mulher teve a esperança que o bom Deus iria afinal satisfazer o seu maior desejo. A casa onde viviam tinha, na parede dos fundos, uma pequena janela de onde se avistava um jardim maravilhoso, cheio de lindas flores e plantas. Era cercado por um alto muro e ninguém se atrevia a entrar, pois pertencia a uma feiticeira muito poderosa, de quem todos tinham medo.
      Certa ocasião a mulher, parada à janela, olhando o jardim, avistou um canteiro com as mais belas hortaliças, tão frescas e verdes que teve um grande desejo de as comer.                          
       À medida que os dias iam passando, seu desejo aumentava e, como ela sabia ser impossível consegui-las, foi empalidecendo e definhando a olhos vistos. O marido, notando aquilo, assustou-se e perguntou:
       - Querida, o que se passa contigo?
       - Ah!- respondeu ela- se eu não comer daquelas verduras que crescem no jardim, atrás da nossa casa, na certa morrerei.
      O homem, que amava sua mulher, pensou: "Em vez de deixar que ela morra, hei de conseguir as verduras, custe o que custar."
     Quando anoiteceu, saltou o muro do jardim da feiticeira, arrancou depressa um punhado de verduras e as levou à esposa. Esta logo preparou uma salada e comeu-a com verdadeiro gosto; e tanto lhe agradou o prato que no dia seguinte sentiu um desejo três vezes maior. Para que ela ficasse em paz, o marido deveria ir mais uma vez ao jardim. Ao anoitecer, o homem repetiu a façanha; mal, porém, desceu do muro, levou um susto enorme, pois de súbito a bruxa surgiu à sua frente.
     - Como te atreves  - disse ela, com olhar furioso- a entrar como um ladrão no meu jardim e roubar as minhas verduras? Hás de pagar bem caro!
      - Ai! Tenha dó de mim! - implorou o homem.- Só fiz isso por necessidade; Minha mulher avistou da janela as suas verduras e tanto as desejou que morreria se não as comesse.
    A feiticeira deixou-se abrandar e assim lhe falou:
     - Se é como dizes, permitirei que leves tanto quanto quiseres; só imponho uma condição: terás de me dar a criança que tua mulher trouxer ao mundo. Será bem tratada e cuidarei dela como se fosse a sua mãe.
     Amedrontado, o homem concordou com tudo e, quando nasceu a criança, uma menina, a feiticeira logo se apresentou. Deu-lhe o nome de Verdurinha e levou-a consigo.----
    Verdurinha era a criança mais linda que o sol já vira. Ao completar doze anos, a feiticeira a encerrou em uma torre no meio de um bosque, a qual não tinha porta nem escada, mas apenas uma janelinha bem ao alto.
   Quando a feiticeira queria entrar, postava-se ao pé da torre e gritava:
                  - Verdurinha, Verdurinha!
                   - Solta essa tua trancinha!
    "Trancinha" era um modo de dizer, pois a moça tinha os cabelos longos, finos e louros como se fossem tecidos de ouro. Quando ouvia a voz  da feiticeira, soltava as tranças, prendia-as em volta de um gancho da janela e os cabelos, do comprimento de cem palmos, iam tocar no solo. Por elas a bruxa subia ao alto da torre.
      E aconteceu que um dia o filho do rei, andando a cavalo pelo bosque, passou junto à torre. Dali partia uma canção tão maravilhosa que ele parou  a escutá-la. Era verdurinha que, em sua solidão, se entretinha cantando. O príncipe quis subir até onde ela estava e procurou uma porta na torre; como, no entanto, não achou nenhuma, voltou ao palácio. Mas o canto lhe tocara de tal maneira o coração que todos os dias ele ia ao bosque e se punha a escutar. Certa vez, estando assim parado atrás de uma árvore, viu que uma feiticeira se aproximava e a ouviu chamar:
               - Verdurinha, Verdurinha!
               - Solta essa tua trancinha!
   Verdurinha soltou suas tranças e a bruxa subiu até o alto da torre.
  " Se é esta a escada por onde se sobe, - pensou o príncipe- também eu tentarei a minha sorte." E no dia seguinte, quando começou a escurecer, dirigiu-se à torre e chamou:
                 - Verdurinha, Verdurinha!
                 - Solta essa tua trancinha!
  Em seguida as tranças foram jogadas para baixo e o príncipe subiu por elas.
  No primeiro momento, Verdurinha assustou-se ao ver um homem à sua frente, pois ela nunca tinha visto um homem em toda a sua vida. Mas o príncipe começou a falar-lhe amavelmente, dizendo que suas canções haviam impressionado de tal modo o seu coração que não descansara enquanto não a tinha visto em pessoa. Verdurinha então perdeu o medo e, quando o príncipe perguntou se o aceitaria como esposo e ela viu que era moço e bonito, pensou: "Este há de gostar mais de mim do que a velha" e, pondo sua mão na dele, respondeu:
     - Com muito prazer irei contigo, mas não sei como sair daqui. Sempre que vieres, traze uma meada de seda e eu irei tecendo uma escada. Quando estiver pronta, descerei por ela e me levarás contigo no teu cavalo.
   Combinaram que até lá ele a visitaria todas as noites, porque de dia a velha era quem ia à torre. A feiticeira nada havia percebido até o dia em que Verdurinha lhe perguntou:
   - Diga-me, D. Gothel, por que será que faço um esforço muito  maior para puxar a senhora do que o jovem príncipe?
    - Ah, desgraçada! - exclamou a bruxa. - Que acabo de ouvir? Pensei que te havia isolado do mundo inteiro e mesmo assim me enganaste!
  Furiosa, pegou as lindas tranças de Verdurinha, enrolou-as na mão esquerda, apanhou uma tesoura com a direita e, num zás, cortou-as, atirando os lindos cabelos ao chão. E foi tão maldosa que conduziu a pobre Verdurinha a um deserto, onde teve de viver na maior tristeza e miséria.
   - No mesmo dia em que expulsara a jovem, a feiticeira, de noite, prendeu no gancho da janela as tranças cortadas. Quando o príncipe apareceu e chamou:
           - Verdurinha, Verdurinha!
            Solta essa tua trancinha!
    A bruxa soltou os cabelos e o filho de rei subiu por eles. Mas, em vez de encontrar Verdurinha, encontrou a feiticeira, que o recebeu com uns olhos fuzilando de ódio e maldade.
    - Ah! gritou ela- vieste buscar tua amada, mas o belo pássaro não está mais na gaiola, nem tornará a cantar. O gato o comeu, e a ti te arrancará os olhos. Verdurinha não será tua, nunca tornarás a vê-la.
    O príncipe, fora de si, de dor e desespero, atirou-se da torre. Salvou a vida, mas os espinhos, entre os quais caiu, lhe arranharam as vistas. Daí em diante passou a vagar, cego, pelo bosque; só comia raízes e frutos silvestres e não fazia outra coisa senão lamentar a perda da sua amada esposa. Vagou assim, alguns anos, até que um dia foi dar no deserto onde vivia Verdurinha, miseravelmente, com seus dois filhos gêmeos, um menino e uma menina. Ouvindo uma voz que lhe pareceu familiar, ele se aproximou; Verdurinha o reconheceu e logo se jogou, chorando, a seus braços. Duas de suas lágrimas foram umedecer os olhos do marido e no mesmo instante ele recuperou a visão, passando a enxergar como antes. O príncipe os conduziu ao seu reino, onde foi recebido com grande alegria e todos viveram, ainda por muito tempo, felizes e satisfeitos.FIM






quinta-feira, 11 de junho de 2015

OS DOZE IRMÃOS - CONTOS DE GRIMM

                     Os Doze Irmãos
 
Era uma vez um rei e uma rainha que viviam em boa paz e tinham doze filhos, todos eles varões. Um dia, o 
rei disse à sua esposa:
  - Se o décimo-terceiro filho que esperas for menina, os doze rapazes deverão morrer, para que a herança se torne maior e o reino inteiro pertença somente a ela.
    - E mandou fazer doze caixões, enchê-los com serragem e colocar em cada um deles uma pequena almofada. Depois mandou que os guardassem numa sala fechada e, dando a chave à rainha, proibiu-a de falar nisso a qualquer pessoa.
    A mãe passava os dias em profunda tristeza até que certa vez, seu filho menor, que nunca se separava dela, a quem dera o nome de Benjamim, como na Bíblia, lhe perguntou:
   - Por que estás tão triste, mãezinha querida?
   - Ah, meu filho! - respondeu ela.- Não posso dizer-te.
    Mas  o menino não lhe dava sossego com suas indagações. Ela, então, abriu a porta da sala fechada e, mostrando-lhe os doze caixões cheios de serragem, disse:
    - Meu querido Benjamim, teu pai mandou fazer estes caixões para ti e teus onze irmãos. Se eu trouxer ao mundo uma menina, todos vocês serão mortos e sepultados dentro deles.
    E como ela chorasse enquanto falava, o filho quis consolá-la:
    - Não chores, querida mãe. Nós nos salvaremos, indo embora a tempo.
     - A rainha, então, ordenou-lhe:
     - Vai ao bosque com teus onze irmãos e que um de vocês fique sempre de guarda em cima da árvore mais alta que encontrarem, observando a torre do palácio. Se nascer um menino, içarei uma bandeira branca e vocês todos poderão voltar. Mas, se for uma menina, hastearei uma bandeira vermelha. Nesse caso, fujam o mais depressa possível e que Deus os proteja. Todas as noites me levantarei para rezar por vocês pedindo que no inverno tenham fogo para se aquecerem e no verão não sintam calor demais.
    Depois, tendo abençoado seus filhos, estes partiram para o bosque.
    Um após outro ficava de guarda, sentado no carvalho mais alto, olhando para a torre. Ao fim de onze dias, chegou a vez de Benjamim, que viu içarem uma bandeira; mas não era branca e sim vermelha como sangue, avisando-os de que deveriam morrer. Quando os irmãos ouviram a notícia, ficaram cheios de raiva e disseram:
   - Íamos morrer por causa de uma menina! Juremos vingança! Onde encontrarmos uma menina, o seu sangue será derramado.
    A seguir embrenharam-se mais ainda pelo bosque e, no lugar mais espesso e escuro, encontraram uma cabana encantada que estava deserta.
   - Vamos ficar morando aqui- disseram - Benjamim, tu que és o menor e o mais fraco, ficarás cuidando da casa enquanto nós iremos procurar alimento,
   E saíram a caçar lebres, veados, pombas e tudo o que havia para comer. Mais tarde Benjamim preparava a comida, para saciar a fome dos irmãos. Assim viveram juntos durante dez anos, e o tempo não lhes pareceu longo.
   Enquanto isso, nesse meio tempo, a menina que a rainha dera à luz, havia crescido; era linda e de bom coração. Trazia na testa uma estrela dourada. Certo dia em que se acostumava lavar roupa no palácio, ela viu doze camisas de homem e perguntou à sua mãe:
   A quem pertencem essas doze camisas? São  pequenas demais para serem de meu pai.
  A rainha repondeu-lhe com o coração angustiado:
    - Querida filha, elas pertencem a teus doze irmãos.
    - E onde estão meus doze irmãos? Nunca ouvi falar neles.
     - Só Deus sabe onde estão. Andam errando pelo mundo afora.
     E conduzindo sua filha até a sala  fechada, abriu a porta e mostrou-lhe os doze caixões, cheios de serragem e com as almofadas.
    - Estes caixões- disse-lhe- eram destinados a teus irmãos, mas eles fugiram para o bosque antes de nasceres.- E passou a contar tudo o que havia acontecido. A menina, então, consolou-a:
    Não chores, querida mãe! Vou sair à procura de meus irmãos.
    Apanhou as doze camisas e, pondo-se a caminho, foi diretamente para o interor do vasto bosque. Andou o dia inteiro e, ao anoitecer, chegou à casinha encantada. Entrou e ali encontrou um rapazinho, que lhe perguntou:
  -  De onde vens e para onde vais?
   - Encantou-se com sua beleza, seu régio vestido e com a estrela que brilhava em sua fronte.
    - Sou uma princesa- respondeu ela- e ando à procura de meus doze irmãos. Estou disposta a caminhar sob o céu azul até encontrá-los.
    Mostrou-lhe então, as doze camisas e Benjamim, reconhecendo que era sua irmã, disse:
    - Sou Benjamim, teu irmão mais moço.
     A menina começou a chorar de alegria e ele também; os dois se abraçaram e beijaram com grande afeto. Depois o rapaz falou:
    - Querida irmã, existe, ainda um impedimento. Havíamos combinado matar qualquer menina que encontrássemos, porque fomos obrigados a abandonar nosso reino por causa de uma manina.
     Ao que ela respondeu:
    Morrerei com gosto se assim puder salvar meus irmãos!
    - Não, não! - retrucou Benjamim- Não morrerás!Oculta-te debaixo deste tonel até chegarem os onze irmãos, que irei entender-me com eles.
     A menina assim fez.
     Quando anoiteceu, os demais regressaram à casa e sentaram-se à mesa. Enquanto comiam, perguntaram a Benjamim:
    - Quais são as novidades?
    - Vocês não sabem de alguma?
     - Não- responderam eles.
     - Estiveram no bosque e eu, que fiquei em casa, sei mais do que vocês- comentou o rapaz.
      -Pois conta-nos! - exclamaram eles.
      - Prometem-me não matar a primeira menina que encontrarem?
      - Sim-responderam todos- havemos de poupá-la; mas conta-nos o que sabes.
     E Benjamim contou:
     - Nossa irmã está aqui.
     - Levantou o tonel e a princesinha surgiu de baixo dele, linda e delicada, com sua vestimenta régia e a estrela dourada na fronte. Houve grande alegria entre todos e os irmãos a abraçaram e beijaram com ternura.
     A menina ficava em casa com Benjamim para ajudá-lo nos afazeres domésticos. Os outros saíam ao bosque para caçar corças e pombas, a fim de terem o que comer; depois Benjamim e a irmã preparavam os pratos. Ela procurava lenha, ervas e punha as panelas ao fogo para que a comida estivesse pronta quando os onze regressassem. Trazia a casinha em ordem, a roupa de cama bem branca e limpa e os irmãos estavam satisfeitos com ela. Viviam, assim, em grande união e harmonia.
     Certa vez, os dois que ficavam em casa prepararam um prato muito saboroso e, reunidos todos, sentaram-se à mesa, comendo e bebendo com grande prazer. Havia, porém, um pequeno jardim na casa encantada e nele cresciam doze lírios. A menina, querendo fazer uma surpresa a seus irmãos, cortou as doze flores para dar um a cada um deles após o almoço. Entretanto, mal acabara de cortá-laa, os doze irmãos se transformaram em doze corvos que saíram voando sobre o bosque e, ao mesmo tempo, a casa e o jardim desapareceram. A pobre menina ficou sozinha na mata escura e, ao voltar-se para olhar em redor, viu uma velha a seu lado. Esta lhe falou:
   - Que fizeste, minha filha? Por que não deixaste no seu lugar as doze flores? Eram teus irmãos. que, agora, foram transformados, para sempre em corvos.
    A menina respondeu chorando:
    - Não existe algum meio de salvá-los?
    - Não - disse a velha- não há senão um único meio, mas tão difícil que com ele não poderás libertar teus irmãos. terias de passar sete anos muda, sem falar e sem rir. Uma só palavra tornaria inútil todo o teu sacrifício, ainda que faltasse apenas uma hora para findarem os sete anos. Pronunciada essa única palavra, os teus irmãos morreriam.
     Confiante em seu amor, a menina pensou: "Estou certa de que salvarei meus irmãos". Procurou uma árvore bem alta, subiu nela e ali ficou, tecendo, sem pronunciar uma palavra e sem rir jamias.
    Sucedeu, porém, que um rei, caçando, entrou no bosque. Trazia consigo um grande galgo, que correu até a árvore onde morava a princesinha e ali se pôs a ladrar. O rei aproximou-se e viu a linda menina com a estrela dourada na fronte. Maravilhou-se tanto com sua formosura que lhe perguntou se seria sua esposa. Ela não respondeu uma só palavra; fez, apenas, um leve sinal afirmativo com a cabeça. O rei, então, subiu na árvore, tomou a princesa em seus braços e, montando com ela no cavalo, levou-a ao palácio. Ali celebraram o casamento com grande pompa e regozijo, mas a noiva não falou nem riu uma só vez.
     Ao fim de alguns anos em que viveram felizes, a mãe do rei, que era uma mulher malvada, começou a falar da jovem rainha, dizendo a seu filho:
    É uma mendiga vulgar que trouxeste para casa. Sabe lá que malvadeza não estará ela maquinando em segredo! Se é muda e não pode falar, poderia ao menos rir, mas quem nunca ri não tem a consciência limpa.
    A princípio o rei não quis dar-lhe ouvidos, mas tanto a velha insistiu e de tantas maldades a acusou que, finalmente, o rei se deixou convencer e a condenou à morte.
     Acenderam uma fogueira bem grande no pátio, onde a rainha deveria morrer queimada. O rei estava parado numa janela que ficava ao alto e assistia, chorando, à execução, porque ainda a  amava muito, E quando já estava atada ao poste e as chamas começaram a lamber-lhe o vestido, escoou-se o último segundo dos sete anos de sua penitência. No mesmo instante, ouviu-se um grande ruído de asas no ar, e apareceram doze corvos que pousaram no chão.Nem bem o haviam tocado, transformaram-se nos doze irmãos, salvos pelos sacrifício da princesa. Apressaram-se logo a apagar o fogo, libertando sua irmã, e a abraçaram e beijaram carinhosamente. E ela, que então pode abrir a boca e falar, contou ao rei por que motivo estivera muda todo o tempo e por que nunca havia rido. O rei alegrou-se muito ao ver  que sua esposa era inocente e todos eles passaram a viver juntos, em boa paz. A sogra perversa foi forçada a comparecer ante um tribunal e, depois, metida dentro de um barril cheio de azeite fervente. E assim morreu.
FIM










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Um beijo
Um abraço
e um aperto de mão.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O FIEL JOÃO - CONTOS DE GRIMM

  Era uma vez um velho rei que, sentindo-se enfermo, refletiu: "Encontro-me, sem dúvida, no leito da morte." E ordenou:                - Tragam-me o fiel João! Era este o seu criado favorito e era assim chamado porque durante toda a vida fora fiel a seu amo. Chegando aos pés da cama, o rei lhe falou:
   - Meu fidelíssimo João, sinto que a morte se aproxima e nada mais me preocupa agora a não ser meu filho. É ainda muito jovem e nem sempre sabe como portar-se. Promete-me instruí-lo em tudo de que necessite saber e que serás para ele como um segundo pai; caso contrário, não fecharei meus olhos em paz.
     - Prometo não abandoná-lo, - respondeu o fiel João. Vou servi-lo com fidelidade, ainda que isso me custe a vida.
    - Então morrerei tranquilo. - E, prosseguindo, disse o velho monarca; - Após a minha morte, tu lhe mostrarás o castelo inteiro, todos os aposentos, salões, subterrâneos e todos os tesouros que ali estão, exceto a última sala da longa galeria, onde se encontra o quadro com o retrato da Princesa do Telhado de Ouro. Se o meu filho chega a vê-lo, sentirá por ela um amor tão profundo que perderá os sentidos e, por sua causa, irá expor-se a graves perigos. Deves preservá-lo disso.
      Tendo o criado fiel, mais uma vez, apertado a mão do rei, este calou-se, reclinou a cabeça no travesseiro e exalou o último suspiro,
      Sepultado o velho soberano, João contou ao jovem rei a promessa que fizera a seu pai no leito de morte e acrescentou:
     - Cumprirei a minha palavra e te serei fiel como fui a teu pai, embora me custe a vida.
      Findo o luto, dirigiu-se ao rei e lhe disse:
      - Chegou a hora de veres tua herança; vou mostrar-te o castelo de teu pai.
     E andou com ele por todo o palácio, acima e abaixo, mostrando-lhe os tesouros e as salas magníficas. Mas conservou fechada aquela em que se encontrava o quadro perigoso, já que este era visto ao abrir-se a porta. Sua perfeição era tal que a princesa parecia estar respirando e a gente não acreditava que pudesse haver coisa mais bela no mundo inteiro.
     Mas o jovem rei, percebendo que o fiel João passava sempre por uma das portas sem abri-la, indagou:
    - Por que não abres essa porta?
    - Porque nesse aposento existe algo que te amedrontaria, - retrucou o criado.
    Dirigiu-se à porta e começou a forçá-la; mas o fiel João deteve-o, dizendo:
    - Antes de teu pai morrer, prometi-lhe que não verias o que está neste quarto; poderá ser tua desgraça e a minha.
   - Ao contrário- respondeu o jovem- esta proibição é que será minha ruína. Não descansarei dia e noite se não vir, com meus próprios olhos, o que há aí dentro. - E daqui não saio antes de me abrires a porta.
     João compreendeu que era inútil opor-se e, com o coração pesado e muitos suspiros, retirou a chave do molho grande. Aberta a porta, entrou primeiro, tentando encobrir o quadro com seu próprio corpo para que o rei não visse. Mas que  adiantou? O jovem ergueu-se na ponta dos pés e olhou por cima dos seus ombros.
    Assim que viu o retrato da princesa, resplandescente de ouro e pedras preciosas, caiu ao chão sem sentidos. O fiel João levantou-o e, enquanto o levava nos braços para a cama, pensou angustiado: "A desgraça aconteceu! Meu Deus, que será agora?
    Deu-lhe uns goles de vinho, para fazê-lo voltar a si. Quando o jovem rei conseguiu falar novamente, suas primeiras palavras foram:
    - De quem é aquele retrato tão lindo?
    - É da Princesa do Telhado de Ouro, - respondeu o fiel João.
    - Meu amor por ela é tão grande - continuou o rei - que, se todas as folhas das árvores fossem línguas, mesmo assim não seriam capazes de expressá-lo! Darei a minha vida para conquistá-la e tu, que és meu criado fiel, terás de ajudar-me.
     Durante muito tempo João ficou meditando como isso seria possível, uma vez que só o fato de chegar à presença da princesa já era dificílimo. Finalmente, descobriu um meio e disse ao rei;
    - Tudo o que cerca a princesa é de ouro: mesas, cadeiras, bacias, taças, tigelas, enfim, todos os pertences de uma casa. Tua fortuna consta de 5 toneladas de ouro. Manda distribuir uma tonelada aos ourives do reino para que a transformem na mais diversas classes de vasos e objetos, em toda a espécie de pássaros, animais selvagens e bichos fabulosos. Com essas peças, nós nos poremos a caminho para tentar a sorte, pois a princesa se agradará delas.
    O rei, então, mandou chamar todos os ourives do país. Estes se puseram a trabalhar dia e noite até que aprontaram os mais maravilhosos objetos. Depois de transportado tudo aquilo para um navio, o fiel João e o rei vestiram roupas de mercadores, com o propósito de se tornarem irreconhecíveis. Logo após se fizeram ao mar e navegaram até a cidade onde morava a Princesa do Telhado de Ouro.
    O fiel João pediu ao rei que permanecesse no barco e esperasse a sua volta.
   - Talvez - disse ele- eu consiga trazer a princesa. Trata, pois, de deixar tudo em ordem; manda por à vista as peças de ouro e enfeitar o navio todo.
   A seguir, reuniu certa quantidade daqueles objetos, colocou-os no cinturão, desembarcou e encaminhou-se diretamente para o palácio real. Entretanto no pátio, viu uma linda jovem ocupada em encher dois baldes de ouro em um poço. A moça, ao voltar-se para levar a água, notou o homem e perguntou quem era.
   Sou um mercador,- respondeu este e, abrindo o cinturão, mostrou o que continha.
   - Que maravilha!- exclamou a jovem. Pôs o balde no chão e passou a examinar as peças, uma por uma.- A princesa precisa vê-los, -continuou- ela aprecia os objetos de ouro e com certeza vai comprar tudo.
   Levou o homem pela mão ao interior do palácio, pois era a camareira. A princesa, quando viu a mercadoria, alegrou-se imensamente e disse:
  - É um trabalho tão perfeito que vou comprar tudo!
   O fiel João, porém, esclareceu:
  - Sou, apenas, o criado de um comerciante muito rico e o que tenho aqui nada significa comparado ao que meu amo guarda em seu navio; é o que há de mais artístico e precioso trabalhado em ouro.
   Imediatamente a princesa quis que lhe trouxessem tudo , mas João foi logo dizendo:
  A quantidade é tão grande que seria preciso muitos dias e mais salas do que existem no vosso palácio.
   Essas palavras aumentaram a curiosidade e a cobiça da jovem.
   - Leva-me até o navio. Pretendo ir, pessoalmente, ver os tesouros do teu amo.
    Satisfeito, João conduziu a princesa ao barco. E o rei, ao vê-la, achou-a ainda mais bela em pessoa do que no retrato. E seu coração pulsou com tanta violência que parecia quer saltar-lhe do peito. A princesinha subiu na embarcação e o rei a acompanhou ao seu interior. O criado, então, aproximando-se do piloto, deu-lhe ordem de partida.
    - Faça içar todas as velas para que o navio ande tão depressa como pássaro nos ares.
   Enquanto isso, o rei mostrava à princesa os pratos de ouro, cada um isoladamente; as bacias, taças, tigelas, pássaros, animais selvagens e lendários. Passaram-se, assim, muitas horas e a jovem absorta em olhar tudo, não notou, na sua alegria, que o navio estava em movimento. Depois de ter olhado o último objeto, agradeceu ao comerciante, pretendendo regressar ao  palácio. Quando, porém, subiu ao convés, percebeu que estava bem longe da terra, navegando em alto mar.
   - Ai de mim! - exclamou, cheia de susto.- Fui enganada! Raptaram-me e estou em poder de um comerciante. Mil vezes a morte!
   Mas o rei, pegando-lhe a mão, disse:
    - Não sou comerciante, sou um rei e a minha origem não é inferior à tua. Se te raptei, usando de astúcia, foi porque te amo a mais não poder. A primeira vez que vi teu retrato, perdi os sentidos.
    A Princesa do Telhado de Ouro, ouvindo essas palavras, sentiu-se conformada e seu coração não se mostrou ingrato, de modo que consentiu em ser sua esposa.
    Enquanto navegavam, o fiel João, sentado à proa do navio, tocava um instrumento. De repente viu no ar três corvos que se aproximavam. Parou a música e ficou a escutar o que eles conversavam, pois entendia sua linguagem. Dizia um deles:
    - Vejam! Ele está levando para seu castelo a Princesa do Telhado de Ouro.
    - Sim- respondeu o segundo- mas ainda não lhe pertence.
    - Disse o terceiro:
    - Como não? Se está aí no barco!
    - De que lhe adianta? Quando chegarem à terra, um cavalo alazão virá correndo a seu encontro; o rei vai querer montá-lo e o animal saíra a galope e desaparecerá com ele pelos ares. Assim, jamais voltará a ver a princesa.
    - Disse o segundo:
    - E não há um meio de salvá-lo?
    - Oh, sim. Se outra pessoa montar rapidamente e, com uma pistola que esta no coldre, matar o cavalo, o rei se salvará. Mas quem sabe disso? E se alguém souber e lhe contar, há de transformar-se em pedra:
    E o segundo continuou falando:
    - Sei mais ainda. Mesmo que o cavalo seja morto, o rei não ficará com sua noiva. Quando chegarem juntos ao palácio, encontrarão uma camisa de bodas numa bandeja, que parecia tecida em ouro e prata mas não passa de enxofre e breu. Se vestir, ficará queimado até os ossos.
   Perguntou o terceiro;
    - E não há meio de salvá-lo?
    - Oh, sim! - retrucou o segundo.- Se alguém pegar, de luvas, a camisa e a atirar ao fogo para que se queime, o rei estará a salvo. Mas de que adianta? A pessoa que souber disso e contar, há de transformar-se em pedra, da cintura até o coração.
     E o terceiro prosseguiu dizendo:
     - Pois eu ainda sei mais. Embora a camisa seja queimada, o rei não terá sua noiva. Quando começar o baile depois do casamento e a jovem rainha estiver dançando, ficará pálida de repente e cairá ao chão morta. Se alguém não a levantar e sorver três gotas de sangue do seu seio direito, cuspindo-as em seguida, ela morrerá. Entretanto, quem souber disso e contar, há de transformar-se em pedra desde a sola dos pés até a cabeça.
     Depois de terem falado assim, os corvos continuaram seu voo e o fiel João, que tudo entendera, daí por diante se foi tornando silencioso e triste. Se ocultasse o que ouvira, desgraçaria o seu amo e, se falasse, pagaria com a própria vida. Depois de muito pensar decidiu-se: " Salvarei meu amo, ainda que isso me custe a vida!"
    Quando chegaram à terra e desembarcaram, aconteceu aquilo que o corvo havia anunciado. Um magnífico alazão aproximou-se a galope.
    - Ótimo!- exclamou o rei- Este cavalo me levará a meu castelo.
     Dispo-se a montá-lo, mas o fiel João, antecipando-se, saltou sobre o animal, tirou a arma do coldre e matou o cavalo de um tiro.
     Vendo isso, os outros criados, que não gostavam dele, começaram a gritar:
       - Que horror! Matar este belo animal que deveria levar o rei a seu castelo!
      O rei no entanto, lhes disse:
      - Calem-se! Ele é o mais fiel dos meus criados e quem sabe por que razão procedeu assim!
       A seguir, dirigiram-se ao palácio. Lá estava, numa das salas, a bandeja com a camisa de bodas. Parecia toda de ouro e prata. O jovem rei quis apanhá-la, mas o fiel João, pegando-a com um par de luvas, jogou-a, rapidamente, no fogão, onde foi consumida pelas chamas. Os demais criados recomeçaram a resmungar, dizendo:
       Vejam; agora queimou a camisa de bodas do rei!
       O soberano, porém, observou:
      - Quem sabe por que agiu assim? Deixem-no! Ele é o mais fiel dos meus criados!
      - O casamento foi celebrado e começou o baile. A noiva saiu dançando e o fiel João não a perdia de vista, observando-lhe o rosto. De repente, ela empalideceu e caiu ao chão como morta. João saiu correndo, ergueu numa cama. A seguir, ajoelhando-se perto dela, sorveu-lhe três gotas de sangue do seio direito, cuspindo-as em seguida. Pouco depois a jovem começou a respirar novamente e recuperar os sentidos. O rei, porém, que a tudo assistira e ignorava as razões por que o fiel criado agira daquela maneira, gritou encolerizado:
      - Joguem-no ao cárcere!
       Na manhã seguinte, João foi condenado à morte e levado à forca. Quando já se encontrava no patíbulo, disse:
       Todo condenado tem o direito de falar antes de morrer. Cabe-me, também, esse direito?
       - Sim- respondeu o rei.
       Aí, então, o servo fiel começou a falar:
      Fui condenado injustamente, pois sempre te fui fiel.
     E passou a contar a conversa dos corvos, que ouvira durante a viagem e como, para salvar seu amo, fora obrigado a agir daquela maneira. O rei, então, exclamou:
      Oh, meu fidelíssimo João! Perdoa-me! Tirem -no, imediatamente, daí!
      João, porém ao pronunciar a última palavra, caíra ao chão, transformando numa estátua de pedra.
      O rei e a rainha comoveram-se profundamente e o soberano falou:
      - Se pudesse devolver-te a vida, meu fiel João!
      - Ai de mim! Como retribuí mal a sua grande fidelidade! - E, mandando carregar a estátua de pedra, ordenou que a colocassem em seu quarto, junto ao leito. Cada vez que a contemplava, não podia conter as lágrimas de dizia:
     - Se pudesse devolver-te a vida, meu fidelíssimo João!
    Passado algum tempo, a rainha deu a luz dois gêmeos, que foram crescendo e eram a alegria dos pais. Certa vez, quando a rainha se encontrava na igreja e as duas crianças brincavam perto do pai, este olhou, de novo, cheio de amargura, para a estátua de pedra, suspirou e disse:
   - Oh, se eu pudesse devolver-te a vida, meu fidelíssimo João!
      E eis que, de repente, a estátua começou a falar:  
      - Sim, podes devolver-me a vida se fores capaz de sacrificar o que te é mais caro.
       - O rei respondeu logo:
       - Tudo que possuo neste mundo eu sacrificarei por ti.
       - Bem- prosseguiu a estátua- se com tuas próprias mãos cortares a cabeça de teus filhos e passares o seu sangue no meu corpo, recuperarei a vida.
       O rei estremeceu ao ouvir que deveria, ele mesmo matar seus filhos queridos, mas, lembrando-se da grande fidelidade de João, que por ele morrera, desembainhou a espada e cortou a cabeça aos dois meninos. Depois passou o sangue delas na pedra, que logo se animou, e o criado fiel reapareceu à sua frente, vivo e são. Dirigiu-se ao rei, dizendo:
     - Tua lealdade será recompensada.
     - Apanhou as cabeças das crianças e, colocando-as nos respectivos corpos, untou os ferimentos com o sangue delas. No mesmo instante os meninos reviveram e, saltando, felizes, continuaram a brincar como se nada lhes houvesse acontecido.
      O rei alegrou-se imensamente e, ao ver que a rainha se aproximava, escondeu o fiel João e as crianças dentro de um armário bem grande. Quando ela entrou na sala, perguntou-lhe:
      - Rezaste na igreja?
      - Sim- respondeu ela- Mas estive pensando, o tempo todo, no fiel João, que sacrificou a vida por nós.
      - Disse -lhe, então, o rei:
       - Querida, poderemos fazê-lo viver novamente, mas isso nos custará a vida de nossos dois filhos.
       A rainha empalideceu e sentiu uma forte dor no coração. Entretanto, disse:
      - Devemos-lhe isso, pela grande lealdade que ele nos devotou.
      - Vendo que a rainha pensava como ele, o rei foi ao armário e fez sair de dentro as duas crianças e o fiel João. Depois exclamou:
      - Graças a Deus, ele está salvo e o nossos filhos também!
      - E contou-lhe o que havia acontecido. Desde então viveram juntos e felizes até a morte.
FIM

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sábado, 23 de maio de 2015

O LOBO E OS SETE CABRITINHOS -CONTOS DE GRIMM

   Apoio: chave: silasmr.contato@gmail.com   













  O amor de uma velha cabra por seu sete cabritinhos era igual ao amor de uma boa mãe pelos seus filhos. Um dia a cabra resolveu ir ao mato buscar comida. Chamou todos os sete e lhe disse:
    - Vou ao mato, meus filhinhos; tenham muito cuidado com o lôbo. Se ele entrar em casa, vai devorar vocês, com pele osso e tudo. O malvado costuma disfarçar-se, mas podem reconhecê-lo porque a voz dele é rouca e suas patas são negras.
    Os cabritinhos responderam:
    - Teremos bastante cuidado, mãezinha.
    A  cabra despediu-se e, confiante, seguiu seu caminho.
    Não demorou muito, alguém bateu à porta e uma voz disse;
    - Abram meus filhinhos, que sua mãe chegou e trouxe uma coisa boa para cada um de vocês.
    Mas os cabritinhos perceberam, pela voz rouca, que era o lôbo.
    - Não abriremos - gritaram- Não és nossa mãe. Ela tem a voz suave e agradável; a tua é rouca. Tu és o lôbo.
       Então ele foi ao vendeiro e comprou um pedaço de gesso. Engoliu-o para tornar sua voz mais fina e depois voltou à casa, tornando a bater.
      - Abram, meus fililhos, sua mãe chegou e trouxe uma coisa boa para cada um de vocês.
      Mas o lôbo tinha apoiado uma das patas negras na vidraça e os cabritinhos gritaram:
       - Não abriremos; a nossa mãe não tem a pata negra como tu. És o lôbo.
      A fera correu, então, ao padeiro e falou-lhe:
      - Olha, machuquei uma das minhas patas; esfrega nela um pouco de massa.
      - Depois que o padeiro lhe passou a massa no pé, o lobo foi procurar o moleiro e pediu-lhe:
      Derrama um pouco de farinha na minha pata.
     O moleiro, porém, pensou: "o lobo anda querendo enganar alguém" e negou-se a fazer-lhe a vontade. A fera, no entanto, o ameaçou:
      - Se não me atenderes, devoro-te.
       Amedrontado, o homem braqueou-lhe a pata.
       Pela terceira vez o malvado foi à casa da cabrita, bateu à porta e disse:
       - Abram, meus filhinhos, que sua mãezinha chegou e trouxe uma coisa boa para cada um de vocês.
         Mas os cabritinhos responderam:
         - Mostra-nos primeiro a tua pata para sabermos se és mesmo a nossa querida mãezinha.
         O lobo pôs o pé na janela e, quando viram que era branco, acreditaram nas suas palavras e abriram a porta. Mas quem entrou foi o lobo. Os cabritinhos, assustados, correram a esconder-se. Um deles meteu-se embaixo da mesa, o outro na cama, o terceiro no fogão, o quarto na cozinha, o quinto na armário, o sexto debaixo da bacia emborcada, e o sétimo na caixa do relógio de parede. Mas o lôbo foi encontrando todos eles e, sem mais cerimônias, os devorou um por um. Só não encontrou o menorzinho dentro da caixa do relógio. Farto e satisfeito, o lobo saiu e foi deitar-se embaixo de uma árvore, onde logo pegou no sono.
       Pouco depois a cabra voltou. Santo Deus! O que viu! A porta escancarada: mesa,cadeiras e bancos virados; a bacia em cacos; cobertas e travesseiros espalhados pelo chão. Procurou os filhos, mas não estavam em parte alguma. Pôs-se a chamá-los pelo nome e nenhum respondeu. Por fim, quando chegou a vez do último, ouviu uma vozinha fraca:
      - Mãezinha, estou aqui dentro da caixa do relógio!
       A cabra tirou o pequenino dali e ele lhe contou que o lobo tinha vindo e devorado os demais. Bem podem imaginar com que desespero a mãe chorou a perda de seus pobres filhinhos!
        Quando não lhe restavam mais lágimas, saiu acompanhada do pequenino. Chegando ao campo. Lá encontraram o lobo escarrapachado embaixo da árvore, roncando tão alto que até os galhos tremiam. A cabra examinou-o de perto e viu que algo se movia e agitava em sua barriga estufada, "Meu Deus! - pensou- será que meus pobres filhos, que ele devorou, ainda estão vivos? Mandou o cabritinho, correndo, à casa, trazer uma tesoura, agulha e linha. A seguir, começou a abrir a pança do lobo e, mal tinha dado o primeiro corte, apareceu a cabeça de um dos cabritinhos e, à medida que ia cortando, todos os seis saltaram para fora, sem terem sofrido o menor dano, pois a fera, na sua esganação, os engolira inteiros. Que alegria da turma! Com quanto carinho abraçaram sua mãezinha, saltando contentes como numa festa de casamento. Mas a cabra falou-lhes:
          - Agora saiam a procurar pedras; com elas encheremos a pança deste excomungado enquanto estiver dormindo.
            Os sete cabritinhos apressaram-se a trazer as pedras, que foram metendo na barriga do lobo, tantas quantas cabiam lá dentro. Depois a cabra costurou-lhe a pele tão rapidamente que a fera não notou coisa alguma, nem fez o menor movimento.
        Terminada a sesta, o lobo levantou-se e, como as pedras na barriga lhe davam uma grande sede, foi ao poço beber água. Mas quando se movimentou, as pedras começara-se a chocar-se e fazer barulho, ao que a fera exclamou:
                    " Que sons esquisitos
                        Nas tripas minhas!
                        Serão cabritos
                         Ou serão pedrinhas?"
          Quando chegou ao poço e se debruçou para beber, o peso das pedras fê-lo perder o equilíbrio e ele foi cair no fundo, onde se afogou miseravelmente. Os sete cabritinhos, que tinham visto tudo, vieram correndo e gritando contentes:
          - O lobo morreu! O lobo morreu!
           E de tão alegres ficaram que se puseram a dançar, junto com à mãe, à roda do poço.
FIM




Visite meu canal no You Tube ; Silvana Carvalho  Eu conto esta história.
Um beijo
um abraço 
e um aperto de mão!