Um alfaiate tinha um filho que não crescera além do tamanho de um dedo polegar. Isso vocês já sabiam como também já sabem que o chamavam de Pequeno Polegar. Mas o que tinha de pequeno tinha de corajoso e um dia disse a seu pai:
- Pai, eu preciso conhecer o mundo.
- Está bem, meu filho- respondeu-lhe o velho. E, apanhando uma agulha de cerzir, bem comprida, fez na abertura um nó com lacre e prosseguiu: - Aí tens uma espada para a tua viagem.
O pequeno alfaiate, querendo comer mais uma vez em casa foi, saltando, até a cozinha para ver o que sua mãe preparava para a despedida. A comida recém havia sido aprontada e a panela ainda estava no fogão. Polegarzinho saltou para cima do fogão e deu uma olhada na panela; mas, como espinchasse demais o pescoço, os vapores da comida o apanharam e o levaram pela chaminé afora. Por algum tempo ficou rebolando no ar até que, enfim, caiu no chão. O alfaiatezinho encontrava-se, agora, na vastidão do mundo e tanto andou de um lado para outro que afinal achou emprego na casa de um mestre. Mas ali a comida não lhe agradou.
- Senhora patroa - disse ele, - se não me der melhor comida, vou-me embora a amanhã, cedo, escreverei a giz na porta de sua casa: " Batatas, muitas, carne pouca. Adeus, rainha da batatas."
- E que queres mais, gafanhoto? - retrucou a mulher enraivecida. Pegou um pedaço de pano para bater nele, mas o nosso homenzinho escondeu-se, rapidamente, embaixo do dedal e, metendo para fora a cabeça, mostrou a língua à patroa. Esta levantou o dedal para apanhá-lo, mas o Pequeno Polegar se meteu entre os retalhos e, quando a mulher o procurou ali, ele se escondeu numa fresta da mesa.
- Ei, ei, senhora patroa! - gritava, pondo a cabeça para fora. Quando ela fazia menção de pegá-lo, saltava para dentro da gaveta. por fim a mulher acabou, mesmo, apanhando-o e correu com ele de casa.
O alfaiatezinho saiu, pois, andando e chegou a uma floresta muito grande. Lá encontrou um bando de ladrões que pretendiam roubar o tesouro do rei. Ao verem o homenzinho, pensaram: " Um pequerrucho como esse passa pela fechadura e pode servir de gazua."
- Olá, gigante Golias!-- gritou um deles. - Queres vir conosco ate a câmara do tesouro Real?
Podes entrar ali com facilidade e atirar o dinheiro para nós, do lado de fora.
O Pequeno Polegar pensou um pouco e, por fim, concordou em ir com eles. lá chegando, examinou a porta, em cima e embaixo, procurando uma fresta. Afinal, descobriu uma suficiente para lhe dar passagem. Dispunha-se a entrar, quando um dos guardas que estavam em frente à porta disse ao companheiro:
- Repara que aranha mais feia! Vou esmagá-la com o pé.
- Deixa o pobre animalzinho - disse o outro. - Nenhum mal te fez.
Assim o pequenino pode entrar sem contratempos na câmara do Tesouro e, abrindo a janela embaixo da qual se encontravam os ladrões, começou a atirar-lhes moedas, uma por uma. Estava no melhor do trabalho,quando notou a aproximação do rei, que vinha inspecionar seu tesouro. Escondeu-se, rapidamente. O rei percebe que faltavam muitas moedas, mas não podia imaginar quem as poderia ter roubado, já que as fechaduras e ferrolhos estavam intatos e tudo parecia em perfeita ordem. Ao afastar-se, disse aos guardas:
- Fiquem alerta. Alguém anda atrás do dinheiro.
Quando o Pequeno Polegar recomeçou seu trabalho, eles ouviram, lá dentro, o tilintar das moedas - clique- claque, clique-claque. Corram, rápido, para pegar o ladrão, mas o alfaiatezinho, que os vira entrar, foi mais ligeiro que eles. saltou para um canto, tapo-se com uma moeda e ficou completamente oculto. E, lá do seu esconderijo, provocou os guardas, gritando:
- Estou aqui!
Os homens correram para onde ele estava, mas, ao chegarem lá, Polegarzinho já havia mudado de lugar e, metendo-se embaixo de outra moeda, gritou novamente:
- Ei, estou aqui!
Desse modo os fez de bobos, obrigando-os a correr de um extremo a outro da sala, até que, esfalfados, renunciaram à perseguição e se foram. O Pequeno Polegar, então, continuou a atirar as moedas pela janela. A última , ele arremessou com toda sua força e, saltando-lhe em cima, passou, num vôo, pela janela, indo parar lá fora.
Os ladrões o acolheram com grandes elogios:
- És um herói- disseram-lhe. - Queres ser nosso capitão?
Polegarzinho, entretanto, agradeceu e lhes disse que desejava ver o mundo. Depois repartiram a presa e ele só quis uma pequena moeda, pois não podia carregar mais.
Cingindo, novamente, sua espada, despediu-se dos ladrões e saiu andando. trabalhou para diversos mestres do seu ofício, mas com nenhum deles se sentiu a gosto. Por fim entrou, como criado, numa hospedaria. Ali as empregadas não gostavam dele, pois sem que elas o vissem, sabia de tudo o que faziam às escondidas e contava ao dono da casa o que roubavam dos pratos e da despensa. Um dia elas comentaram:
- Ele nos há de pagar!
E combinaram pregar-lhe uma peça. Pouco depois, estava uma das empregadas a capinar o jardim quando viu Polegarzinho saltando por entre as ervas; rapidamente o colheu junto com um punhado de capim, atou o feixe num pano e atirou tudo para as vacas comerem. Uma delas, preta e grande, o tragou de vez, mas isso não causou dano ao Pequeno Polegar. Em todo caso, aquela nova moradia não lhe agradava, pois era muito escura e não havia luz. Ao ordenharem a vaca, ele se pôs a gritar:
- Ei, o balde já está cheio?
Mas, com o ruído do leite que caía, não o ouviram. Logo depois o dono da casa entrou no estábulo e disse:
- Esta vaca será carneada amanhã.
Aí sim, Polegarzinho assustou-se mesmo e gritou com toda força:
- Deixem-me sair primeiro; estou aqui dentro!
O patrão ouvia a voz, mas não sabia de onde vinha.
_ Onde estás? -perguntou.
- Na de pelo preto- retrucou ele, mas o outro, não entendendo o que significava aqui, foi embora.
Na manhã seguinte mataram a vaca e, por sorte, ao retalharem-na, Polegarzinho não foi atingido, embora fosse parar entre a carne destinada a fazer linguiça. Quando chegou o carniceiro para começar o trabalho, o pequeno gritou com toda força de seus pulmões:
- Não cortem mais fundo, não cortem mais fundo que estou aqui dentro!
Entretanto, com o ruído das talhadeiras de carne, ninguém ouviu coisa alguma. Aí o pobre Polegarzinho se viu metido em maiores apuros! Mas, como os apuros fazem a gente criar pernas, ele começou a saltar tão agilmente entre as facas que nenhuma delas o atingiu e ficou ileso.
Como não pudesse escapar dali, não teve outro remédio senão deixar que o socassem, juntamente com uns pedaços de toucinho, no meio de uma morcilha. O alojamento era um tanto estreito e, além disso, ainda o penduraram numa chaminé, para ser enfumaçado. O tempo lhe apareceu infindável e ele aborreceu-se enormemente. Afinal, ao chegar o inverno, retiraram a morcilha para oferecê-la a um hóspede. Quando a dona da casa a cortou em rodelas, ele teve de cuidar para não meter fora a cabeça, evitando, assim, que lhe fosse cortado o pescoço. mas afinal teve uma oportunidade e, tomando impulso, saltou para fora.
Polegarzinho não quis continuar na casa em que tanta coisa desagradável lhe havia acontecido; recomeçou, pois , suas andanças pelo mundo. entretanto, a liberdade foi de curta duração. Achando-se em campo aberto, veio a dar com uma raposa e esta, que estava distraída, o abocanhou no mesmo instante.
- Ei, senhora raposa - gritou o pequeno alfaiate.- Sou eu que estou na sua goela, solte-me por favor!
Tens razão- respondeu a raposa.- Não és para mim senão uma migalha. Se me prometes as galinhas de teu pai, eu te soltarei.
- De todo o coração, prometo- retrucou Polegarzinho. - Terás todas elas, garanto!
A raposa o deixou em liberdade e ela mesma o levou para casa. Quando o pai tornou a ver seu filhinho querido, com muito gosto deu suas galinhas à raposa.
- Em compensação, trago-te uma boa quantidade de dinheiro - disse o Pequeno Polegar, entregando-lhe a moeda que ganhara durante suas excursões.
" E perguntas por que deram as pobres galinhas para a raposa comer? Ora seu tolinho, creio que um pai há de gostar mais de seu filhinho do que de todas as galinhas que tem no galinheiro."
FIM
Os contos que estou transcrevendo são de livros muito antigos que ganhei de meu querido pai. Quando percebi que eles estavam ficando velhos e amarelados, fiquei com medo de perdê-los. Resolvi então salvá-los para sempre, digitando letra por letra e me envolvendo em cada história. Obrigada pai e mãe, amo vocês! E um obrigada às novas tecnologias que me permitirão salvar meus livros e dar a outras pessoas a oportunidade de se emocionarem com Os Contos de Grimn e Andersen como eu me emocionei.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
A NOIVA DO BANDIDO- CONTOS DE GRIMM
Era uma vez um moleiro que tinha uma filha muito bonita e que, depois de moça, ele quis deixar bem casada e amparada. " Se um rapaz bom e distinto se apresentar - pensava o pai- eu a darei em casamento."
Pouco tempo depois, apareceu em pretendente que parecia muito rico e, como o moleiro nada soubesse contra a sua pessoa, prometeu-lhe sua filha. Mas a moça não sentia por ele o amor que uma noiva deve sentir pelo noivo; e nem confiança lhe inspirava o rapaz. Sempre que o via ou pensava nele, uma estranha angústia se apossava do seu coração. Certa vez lhe disse o pretendente:
- És minha noiva e nunca me fizeste uma visita.
- Não sei ondes moras - respondeu-lhe a moça.
- Minha casa fica no meio da floresta escura - falou o noivo.
Ela, então, começou a inventar os mais variados pretextos, dizendo-lhe, também,que não acharia o caminho. Um dia, no entanto, o rapaz lhe disse com energia:
- No próximo domingo tens de ir à minha casa. Já convidei meus amigos e, para que encontres o caminho na floresta, espalharei cinzas.
Quando chegou domingo em que a moça devia ir à casa do noivo, sentiu, sem saber por que um temor estranho e, para assegurar-se de que na volta não iria perder-se, encheu seus dois bolsos com ervilhas e lentilhas.
Ao chegar à entrada da floresta, viu as cinzas espalhadas e seguiu o rastro; a cada passo, porém, ia jogando ao chão, à direita e à esquerda, um pouco das ervilhas. Andou quase o dia inteiro até alcançar o centro da floresta, onde ela era mais escura. Então chegou a uma casa solitária e sinistra que lhe deu muito medo. Entrou, mas não viu ninguém lá dentro. Em toda parte reinava profundo silêncio. De repente, uma voz gritou:
Pouco tempo depois, apareceu em pretendente que parecia muito rico e, como o moleiro nada soubesse contra a sua pessoa, prometeu-lhe sua filha. Mas a moça não sentia por ele o amor que uma noiva deve sentir pelo noivo; e nem confiança lhe inspirava o rapaz. Sempre que o via ou pensava nele, uma estranha angústia se apossava do seu coração. Certa vez lhe disse o pretendente:
- És minha noiva e nunca me fizeste uma visita.
- Não sei ondes moras - respondeu-lhe a moça.
- Minha casa fica no meio da floresta escura - falou o noivo.
Ela, então, começou a inventar os mais variados pretextos, dizendo-lhe, também,que não acharia o caminho. Um dia, no entanto, o rapaz lhe disse com energia:
- No próximo domingo tens de ir à minha casa. Já convidei meus amigos e, para que encontres o caminho na floresta, espalharei cinzas.
Quando chegou domingo em que a moça devia ir à casa do noivo, sentiu, sem saber por que um temor estranho e, para assegurar-se de que na volta não iria perder-se, encheu seus dois bolsos com ervilhas e lentilhas.
Ao chegar à entrada da floresta, viu as cinzas espalhadas e seguiu o rastro; a cada passo, porém, ia jogando ao chão, à direita e à esquerda, um pouco das ervilhas. Andou quase o dia inteiro até alcançar o centro da floresta, onde ela era mais escura. Então chegou a uma casa solitária e sinistra que lhe deu muito medo. Entrou, mas não viu ninguém lá dentro. Em toda parte reinava profundo silêncio. De repente, uma voz gritou:
" Volta, volta, noiva gentil,
Que de assassinos estás no covil"
A moça, levantando os olhos, notou que a voz provinha de um pássaro dentro de uma gaiola, pendurada na parede. Esta repetiu:
A linda jovem continuou percorrendo toda a casa de uma sala a outra. Mas todas as salas estavam desertas,.Por fim, desceu ao porão e lá deu com uma mulher muito velinha, que sacudia constantemente a cabeça.
- Poderia dizer-me - indagou a moça - se o meu noivo vive aqui?
- Ah minha pobre menina! - exclamou a velha. - Onde te meteste! Estás num covil de assassinos. Acreditas ser uma noiva que em breve se casará, mas é a morte que irás desposar. Olha o que fui obrigada a preparar para ti. Esta caldeira grande com água. Quando chegarem, vão te matar, cortar-te em pedaços sem dó nem piedade e depois te cozinharão para te comer, pois eles se alimentam de carne humana. Se não tenho pena de ti e não te salvo, estarás perdida.
Ditas essas palavras , a velha conduziu a moça para trás de um barril grande, onde ela não poderia ser vista.
- Fica calma como um ratinho - disse-lhe - e não faças o menor movimento; do contrário estarás perdida. À noite quando os bandidos estiverem dormindo, fugiremos: faz tempo que espero uma oportunidade.
Momentos depois, apareceu a quadrilha de bandidos. Traziam outra moça raptada, estavam bêbados e não faziam caso de seus gritos e lamentações. Deram-lhe de beber três copos de vinho: um branco, outro tinto e o terceiro, dourado. Depois que a moça os bebeu, seu coração parou. Arrancaram-lhe, então, os vestidos preciosos, estenderam-na sobre uma mesa. cortaram seu belo corpo em pedaços e derramaram sal em cima. A infeliz noiva, escondida atrás do barril, tremia de horror, pois via o destino que os bandidos lhe haviam reservado. Nisto, um deles notou que a moça assassinada usava um anel de ouro no mindinho direito e, não conseguindo logo tirá-lo, pegou um machado e cortou o dedo de um golpe. Este saltou para o ar, por cima do barril e foi cair no colo da noiva. O bandido pegou uma vela e pôs-se a procurá-la por todos os lados. Não encontrando, um dos assassinos lhe disse:
- Já olhaste atrás do barril grande?
Aí a velha interveio, depressa:
- Venham comer e procurem amanhã. O dedo não lhe escapará.
- A velha tem razão - disseram os outros; e foram sentar-se à mesa.
A velhinha, então, derramou um pozinho no vinho que eles iam tomar e pouco depois todos dormiam e roncavam, estendidos no chão. Ao percebê-lo, a noiva saiu detrás do barril e, tendo de passar por cima dos bandidos deitados, quase morreu de medo ao pensar que pudesse despertá-los. Mas Deus a ajudou e nada aconteceu. A velinha subiu com ela, abriu a porta e as duas se afastaram o mais depressa possível daquele antro de assassinos.
O vento espalhara as cinzas, mas as ervilhas e as lentilhas haviam germinado e os brotos mostravam agora o caminho sob a luz da lua. As duas mulheres andaram toda a noite até chegarem ao moinho. Na manhã seguinte, a jovem contou ao pai tudo o que havia acontecido.
Na data em que devia ser celebrado o casamento, o noivo apresentou-se. O moleiro convidara todos os seus parentes e conhecidos e, quando estavam à mesa, pediu que cada um contasse algo para entreter os presentes. Como a jovem permanecesse calada, disse-lhe o rapaz:
- E tu, meu amor, não sabes nada? Conta-nos alguma coisa.
- Pois então vou contar um sonho que tive - respondeu ela. - Andava eu, sozinha, numa floresta, e fui dar, depois de algum tempo, a uma casa completamente vazia. Encontrava-se ali, somente, dentro de uma gaiola pendurada à parede, um pássaro que gritou para mim:
' Volta, volta, noiva gentil,
que de assassinos estás no covil!
Gritou isso duas vezes. - Meu querido, foi apenas um sonho! - Percorri, então, todas as salas e vi que estavam vazias. Por fim, desci até o porão, onde encontrei uma mulher, muito velha, que sacudia, sem cessar a cabeça. Perguntei-lhe: " Meu noivo mora nesta casa? " E ela me respondeu: " Ah, minha pobre filha, caíste num covil de assassinos! Teu noivo mora aqui, mas pretende te matar, cortar-te em pedaços e, depois de te cozinhar, ele te comerá. " - Meu bem, foi apenas um sonho! - Mas a velha mandou que eu me escondesse atrás de um barril grande e, mal me havia ocultado, entraram os bandidos. Traziam uma moça a quem obrigaram a beber três tipos de vinhos: branco, tinto e dourado, o que lhe fez parar o coração. - Meu bem, isso foi apenas um sonho! - Um dos bandidos viu que ela conservava, ainda um anel de ouro e, como custasse a tirá-lo, pegou um machado e lhe cortou o dedo que, saltando por cima do barril, foi cair no meu colo. Aqui está o dedo, com o anel!
O bandido, que durante essa narrativa se havia tornado branco como cera, levantou-se de um salto e quis fugir, mas os convidados o pegaram e entregaram à justiça. Ele e todo o seu bando foram condenados à morte.
FIM
Que de assassinos estás no covil"
A moça, levantando os olhos, notou que a voz provinha de um pássaro dentro de uma gaiola, pendurada na parede. Esta repetiu:
"Volta, volta, noiva gentil,
Que de assassinos estás no covil"
Que de assassinos estás no covil"
A linda jovem continuou percorrendo toda a casa de uma sala a outra. Mas todas as salas estavam desertas,.Por fim, desceu ao porão e lá deu com uma mulher muito velinha, que sacudia constantemente a cabeça.
- Poderia dizer-me - indagou a moça - se o meu noivo vive aqui?
- Ah minha pobre menina! - exclamou a velha. - Onde te meteste! Estás num covil de assassinos. Acreditas ser uma noiva que em breve se casará, mas é a morte que irás desposar. Olha o que fui obrigada a preparar para ti. Esta caldeira grande com água. Quando chegarem, vão te matar, cortar-te em pedaços sem dó nem piedade e depois te cozinharão para te comer, pois eles se alimentam de carne humana. Se não tenho pena de ti e não te salvo, estarás perdida.
Ditas essas palavras , a velha conduziu a moça para trás de um barril grande, onde ela não poderia ser vista.
- Fica calma como um ratinho - disse-lhe - e não faças o menor movimento; do contrário estarás perdida. À noite quando os bandidos estiverem dormindo, fugiremos: faz tempo que espero uma oportunidade.
Momentos depois, apareceu a quadrilha de bandidos. Traziam outra moça raptada, estavam bêbados e não faziam caso de seus gritos e lamentações. Deram-lhe de beber três copos de vinho: um branco, outro tinto e o terceiro, dourado. Depois que a moça os bebeu, seu coração parou. Arrancaram-lhe, então, os vestidos preciosos, estenderam-na sobre uma mesa. cortaram seu belo corpo em pedaços e derramaram sal em cima. A infeliz noiva, escondida atrás do barril, tremia de horror, pois via o destino que os bandidos lhe haviam reservado. Nisto, um deles notou que a moça assassinada usava um anel de ouro no mindinho direito e, não conseguindo logo tirá-lo, pegou um machado e cortou o dedo de um golpe. Este saltou para o ar, por cima do barril e foi cair no colo da noiva. O bandido pegou uma vela e pôs-se a procurá-la por todos os lados. Não encontrando, um dos assassinos lhe disse:
- Já olhaste atrás do barril grande?
Aí a velha interveio, depressa:
- Venham comer e procurem amanhã. O dedo não lhe escapará.
- A velha tem razão - disseram os outros; e foram sentar-se à mesa.
A velhinha, então, derramou um pozinho no vinho que eles iam tomar e pouco depois todos dormiam e roncavam, estendidos no chão. Ao percebê-lo, a noiva saiu detrás do barril e, tendo de passar por cima dos bandidos deitados, quase morreu de medo ao pensar que pudesse despertá-los. Mas Deus a ajudou e nada aconteceu. A velinha subiu com ela, abriu a porta e as duas se afastaram o mais depressa possível daquele antro de assassinos.
O vento espalhara as cinzas, mas as ervilhas e as lentilhas haviam germinado e os brotos mostravam agora o caminho sob a luz da lua. As duas mulheres andaram toda a noite até chegarem ao moinho. Na manhã seguinte, a jovem contou ao pai tudo o que havia acontecido.
Na data em que devia ser celebrado o casamento, o noivo apresentou-se. O moleiro convidara todos os seus parentes e conhecidos e, quando estavam à mesa, pediu que cada um contasse algo para entreter os presentes. Como a jovem permanecesse calada, disse-lhe o rapaz:
- E tu, meu amor, não sabes nada? Conta-nos alguma coisa.
- Pois então vou contar um sonho que tive - respondeu ela. - Andava eu, sozinha, numa floresta, e fui dar, depois de algum tempo, a uma casa completamente vazia. Encontrava-se ali, somente, dentro de uma gaiola pendurada à parede, um pássaro que gritou para mim:
' Volta, volta, noiva gentil,
que de assassinos estás no covil!
Gritou isso duas vezes. - Meu querido, foi apenas um sonho! - Percorri, então, todas as salas e vi que estavam vazias. Por fim, desci até o porão, onde encontrei uma mulher, muito velha, que sacudia, sem cessar a cabeça. Perguntei-lhe: " Meu noivo mora nesta casa? " E ela me respondeu: " Ah, minha pobre filha, caíste num covil de assassinos! Teu noivo mora aqui, mas pretende te matar, cortar-te em pedaços e, depois de te cozinhar, ele te comerá. " - Meu bem, foi apenas um sonho! - Mas a velha mandou que eu me escondesse atrás de um barril grande e, mal me havia ocultado, entraram os bandidos. Traziam uma moça a quem obrigaram a beber três tipos de vinhos: branco, tinto e dourado, o que lhe fez parar o coração. - Meu bem, isso foi apenas um sonho! - Um dos bandidos viu que ela conservava, ainda um anel de ouro e, como custasse a tirá-lo, pegou um machado e lhe cortou o dedo que, saltando por cima do barril, foi cair no meu colo. Aqui está o dedo, com o anel!
O bandido, que durante essa narrativa se havia tornado branco como cera, levantou-se de um salto e quis fugir, mas os convidados o pegaram e entregaram à justiça. Ele e todo o seu bando foram condenados à morte.
FIM
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sábado, 1 de agosto de 2015
OS DUENDES -CONTOS GRIMM]
Um sapateiro tinha ficado muito pobre, sem que lhe coubesse a culpa. E por fim só lhe restava um pedaço de couro, para um único par de sapatos. Cortou-o à noite, a fim de aprontá-lo na manhã seguinte e, como tinha a consciência tranquila, deitou-se calmamente, fez as sua orações e adormeceu. No outro dia, depois da prece matinal, quando ia sentar-se para iniciar o trabalho, viu os sapatos, prontinhos, em cima da mesa. Ficou assombrado, sem encontrar explicação para aquilo. Tomo-os na mão e examinou-os cuidadosamente. Haviam sido feitos com tal capricho, sem nenhum ponto errado, que pareciam uma verdadeira obra de arte.
Logo depois entrou um freguês e, como os sapatos lhe agradassem muito, pagou mais por eles. Com esse dinheiro, o sapateiro pode comprar couro para dois pares. Cortou-os à noite, disposto a trabalhar neles no dia seguinte. Mas não foi preciso: ao levantar-se, lá estavam eles, prontinhos da silva. E também não faltaram os compradores, que lhe deram dinheiro suficiente para que adquirisse couro para quatro pares. Também a esses ele encontrou terminados no outro dia. E assim continuou acontecendo. O calçado que cortava à noite, encontrava concluído na manhã seguinte. Começou a ter boa renda e, por fim, tornou-se um homem rico.
Certa noite, pouco antes do Natal, o sapateiro, que já havia cortado o couro para o próximo dia, antes de deitar-se, disse à mulher:
- Que tal se esta noite ficássemos acordados para ver quem nos presta tão grande auxílio?
A mulher concordou e foi acender uma vela. Depois o casal escondeu-se num canto da sala, atrás de umas roupas ali penduradas.
Ao soar a meia-noite, apareceram dois ágeis e graciosos homenzinhos, muito pequeninos e sem roupa alguma, que se sentaram à mesa do sapateiro. Apanharam todo o couro cortado e, com seus dedinhos, se puseram a costurar , bater e puxar o foi com tanta ligeireza que o sapateiro, assombrado, mal podia acreditar nos seus olhos. Não cessaram até que tudo estivesse pronto e depois desapareceram rapidamente.
No dia seguinte, a mulher disse:
- Os anõezinhos nos tornaram ricos e devemos mostrar-lhes a nossa gratidão. Com certeza sentem muito frio, andando assim nuzinhos, sem nada em cima do corpo. Sabes de uma coisa? Farei para cada um deles uma camisinha, um casaco, colete e calça, e um par de meias de tricô. Tu poderás fazer-lhes uns sapatos.
Ao que lhe respondeu o homem:
-Parece-me boa idéia!
E, à noite. em vez de couro cortado, puseram os presentes sobre a mesa; depois esconderam-se para ver o que fariam os homenzinhos.
À meia-noite chegaram eles, saltitando, e logo se dispuseram a começar o trabalho. Quando porém, em vez de couro cortado, encontraram as graciosas peças de roupas, ficaram no princípio admirados, mas logo mostraram imensa alegria. Vestiram-se com incrível rapidez e, alisando as roupas no corpo, puseram-se a cantar:
Não somos rapazes bonitos e elegantes?
Por que continuarmos sapateiros como antes?
Depois saltaram e dançaram, brincando em cima de cadeiras e bancos. Por fim saíram dançando porta fora. Desse dia em diante, nunca mais apareceram. Mas o sapateiro viveu bem pelo resto de sua vida e sempre teve sorte em todos os negócios que fez.FIM
Logo depois entrou um freguês e, como os sapatos lhe agradassem muito, pagou mais por eles. Com esse dinheiro, o sapateiro pode comprar couro para dois pares. Cortou-os à noite, disposto a trabalhar neles no dia seguinte. Mas não foi preciso: ao levantar-se, lá estavam eles, prontinhos da silva. E também não faltaram os compradores, que lhe deram dinheiro suficiente para que adquirisse couro para quatro pares. Também a esses ele encontrou terminados no outro dia. E assim continuou acontecendo. O calçado que cortava à noite, encontrava concluído na manhã seguinte. Começou a ter boa renda e, por fim, tornou-se um homem rico.
Certa noite, pouco antes do Natal, o sapateiro, que já havia cortado o couro para o próximo dia, antes de deitar-se, disse à mulher:
- Que tal se esta noite ficássemos acordados para ver quem nos presta tão grande auxílio?
A mulher concordou e foi acender uma vela. Depois o casal escondeu-se num canto da sala, atrás de umas roupas ali penduradas.
Ao soar a meia-noite, apareceram dois ágeis e graciosos homenzinhos, muito pequeninos e sem roupa alguma, que se sentaram à mesa do sapateiro. Apanharam todo o couro cortado e, com seus dedinhos, se puseram a costurar , bater e puxar o foi com tanta ligeireza que o sapateiro, assombrado, mal podia acreditar nos seus olhos. Não cessaram até que tudo estivesse pronto e depois desapareceram rapidamente.
No dia seguinte, a mulher disse:
- Os anõezinhos nos tornaram ricos e devemos mostrar-lhes a nossa gratidão. Com certeza sentem muito frio, andando assim nuzinhos, sem nada em cima do corpo. Sabes de uma coisa? Farei para cada um deles uma camisinha, um casaco, colete e calça, e um par de meias de tricô. Tu poderás fazer-lhes uns sapatos.
Ao que lhe respondeu o homem:
-Parece-me boa idéia!
E, à noite. em vez de couro cortado, puseram os presentes sobre a mesa; depois esconderam-se para ver o que fariam os homenzinhos.
À meia-noite chegaram eles, saltitando, e logo se dispuseram a começar o trabalho. Quando porém, em vez de couro cortado, encontraram as graciosas peças de roupas, ficaram no princípio admirados, mas logo mostraram imensa alegria. Vestiram-se com incrível rapidez e, alisando as roupas no corpo, puseram-se a cantar:
Não somos rapazes bonitos e elegantes?
Por que continuarmos sapateiros como antes?
Depois saltaram e dançaram, brincando em cima de cadeiras e bancos. Por fim saíram dançando porta fora. Desse dia em diante, nunca mais apareceram. Mas o sapateiro viveu bem pelo resto de sua vida e sempre teve sorte em todos os negócios que fez.FIM
OS SETE CORVOS - CONTOS DE GRIMM
Um homem tinha sete filhos e nenhuma filha. E isso lhe dava muito pesar, pois era uma filha o que ele mais desejava. Certo dia sua mulher tornou a dar-lhe novas esperanças e, quando nasceu a criança, era, finalmente , uma menina. A alegria foi grande, mas a recém-nascida era fraquinha e pequena, e por ser assim tão débil, decidiram batizá-la em seguida. O pai mandou um dos filhos à fonte trazer água para o batismo e os outros seis o acompanharam; lá chegados, todos quiseram encher o jarro em primeiro lugar e este acabou caindo na água. Os sete ficaram sem saber o que fazer, não se atrevendo a voltar para casa. Com a demora, o pai impacientou-se e disse:
- Na certa esses malandros estão brincando e não se lembram mais da água!
Amedrontado, e receoso de que a menina morresse sem batismo, gritou num acesso de raiva;
- Tomara que todos ele se tornem corvos!
Mal tinha dito essas palavras, ouviu um zumbido no ar e, erguendo os olhos viu sete corvos, negros como a noite que se afastavam voando.
Os pais não puderam desfazer a maldição e, apesar de muito tristes com a perda dos sete filhos, consolaram-se um pouco com a menina que logo foi ficando mais fortinha e cada dia mais formosa. Durante muito tempo ela não soube que tivera irmãos, pois os pais evitaram falar neles. Um dia, porém, ouviu quando umas pessoas diziam que ela era muito bonita mesmo, mas que nem por isso deixava de ser culpada da desgraça dos seus sete irmãos. Daí por diante, não teve um momento de sossego até que um dia, sem dizer nada a ninguém, saiu pelo mundo em busca de seus irmãos e disposta a salvá-los, custasse o que custasse. Só levou como lembrança um anelzinho que era de seus pais; um pedaço de pão para matar a fome; um jarrinho de água para saciar a sede e uma cadeirinha para descanso.
E andou longe, muito longe, até o fim do mundo. Passado o fim do mundo, chegou ao sol, mas ele era terrível e quente demais: devorara crianças pequenas. Fugiu correndo e chegou à lua que era fria, muito fria, e também cruel. Quando notou a presença da menina, a lua foi logo dizendo:
_ Estou sentindo cheiro de carne humana!
A pequena, então, afastou-se mais que depressa e foi ter às estrelas, que a receberam amavelmente e com carinho, cada uma delas sentada em suas cadeirinha. A estrela d'alva levantou-se, deu-lhe um ossinho de perna de galinha e disse:
- Sem isto não poderás abrir a montanha de cristal onde estão os teus irmãos.
A menina pegou o ossinho, guardo-o bem num lenço e saiu andando até chegar à montanha de cristal. Como a porta estivesse fechada, procurou o ossinho de galinha, mas, ao abrir o lenço, viu que estava vazio. Tinha perdido o presente das boas estrelas! Que fazer agora? Queria salvar seus irmãos, mas não tinha a chave que abria a porta da montanha. Então a dedicada irmãzinha pegou uma faca, cortou seu dedo mindinho e depois o introduziu na fechadura, que logo se abriu. Assim que entrou, um anãozinho veio-lhe ao encontro, perguntando:
- Que procuras, minha filha?
- Procuro meus irmãos, os sete corvos- respondeu ela.
- Os senhores corvos não estão em casa - disse o anão -mas, se quiseres, espera aqui por eles. Entra!
Logo depois o anãozinho trouxe a comida dos corvos em sete pratinhos e em sete copinhos e cada pratinho a irmãzinha comeu um pequeno bocado e de cada copinho bebeu um pequeno gole. No último deixou cair o anel que levava consigo. De repente percebeu no ar o rumor de asas batendo e o anãozinho lhe falou:
- Os senhores corvos vêm chegando!
E, de fato, eles entraram cheios de fome e sede, procurando seus pratinhos e copinhos. Logo cada um exclamou:
- Quem comeu do meu pratinho? Quem bebeu do meu copinho? Foi boca de gente!
E quando o sétimo esvaziou seu copo, apareceu o anel. Olhou-o bem e, reconhecendo que era de seus pais, disse:
- Deus queira que nossa irmãzinha tenha vindo, pois só assim ficariámos livres do encanto!
A menina, que estava escutando atrás da porta, ouviu o seu irmão. Apresentou-se a eles. E, naquele mesmo instante, todos os corvos voltaram à forma humana. E, depois de se abraçarem e beijarem, regressaram muito felizes para casa.FIM
- Na certa esses malandros estão brincando e não se lembram mais da água!
Amedrontado, e receoso de que a menina morresse sem batismo, gritou num acesso de raiva;
- Tomara que todos ele se tornem corvos!
Mal tinha dito essas palavras, ouviu um zumbido no ar e, erguendo os olhos viu sete corvos, negros como a noite que se afastavam voando.
Os pais não puderam desfazer a maldição e, apesar de muito tristes com a perda dos sete filhos, consolaram-se um pouco com a menina que logo foi ficando mais fortinha e cada dia mais formosa. Durante muito tempo ela não soube que tivera irmãos, pois os pais evitaram falar neles. Um dia, porém, ouviu quando umas pessoas diziam que ela era muito bonita mesmo, mas que nem por isso deixava de ser culpada da desgraça dos seus sete irmãos. Daí por diante, não teve um momento de sossego até que um dia, sem dizer nada a ninguém, saiu pelo mundo em busca de seus irmãos e disposta a salvá-los, custasse o que custasse. Só levou como lembrança um anelzinho que era de seus pais; um pedaço de pão para matar a fome; um jarrinho de água para saciar a sede e uma cadeirinha para descanso.
E andou longe, muito longe, até o fim do mundo. Passado o fim do mundo, chegou ao sol, mas ele era terrível e quente demais: devorara crianças pequenas. Fugiu correndo e chegou à lua que era fria, muito fria, e também cruel. Quando notou a presença da menina, a lua foi logo dizendo:
_ Estou sentindo cheiro de carne humana!
A pequena, então, afastou-se mais que depressa e foi ter às estrelas, que a receberam amavelmente e com carinho, cada uma delas sentada em suas cadeirinha. A estrela d'alva levantou-se, deu-lhe um ossinho de perna de galinha e disse:
- Sem isto não poderás abrir a montanha de cristal onde estão os teus irmãos.
A menina pegou o ossinho, guardo-o bem num lenço e saiu andando até chegar à montanha de cristal. Como a porta estivesse fechada, procurou o ossinho de galinha, mas, ao abrir o lenço, viu que estava vazio. Tinha perdido o presente das boas estrelas! Que fazer agora? Queria salvar seus irmãos, mas não tinha a chave que abria a porta da montanha. Então a dedicada irmãzinha pegou uma faca, cortou seu dedo mindinho e depois o introduziu na fechadura, que logo se abriu. Assim que entrou, um anãozinho veio-lhe ao encontro, perguntando:
- Que procuras, minha filha?
- Procuro meus irmãos, os sete corvos- respondeu ela.
- Os senhores corvos não estão em casa - disse o anão -mas, se quiseres, espera aqui por eles. Entra!
Logo depois o anãozinho trouxe a comida dos corvos em sete pratinhos e em sete copinhos e cada pratinho a irmãzinha comeu um pequeno bocado e de cada copinho bebeu um pequeno gole. No último deixou cair o anel que levava consigo. De repente percebeu no ar o rumor de asas batendo e o anãozinho lhe falou:
- Os senhores corvos vêm chegando!
E, de fato, eles entraram cheios de fome e sede, procurando seus pratinhos e copinhos. Logo cada um exclamou:
- Quem comeu do meu pratinho? Quem bebeu do meu copinho? Foi boca de gente!
E quando o sétimo esvaziou seu copo, apareceu o anel. Olhou-o bem e, reconhecendo que era de seus pais, disse:
- Deus queira que nossa irmãzinha tenha vindo, pois só assim ficariámos livres do encanto!
A menina, que estava escutando atrás da porta, ouviu o seu irmão. Apresentou-se a eles. E, naquele mesmo instante, todos os corvos voltaram à forma humana. E, depois de se abraçarem e beijarem, regressaram muito felizes para casa.FIM
quinta-feira, 30 de julho de 2015
O PEQUENO POLEGAR - CONTOS DE GRIMM
Era uma vez um pobre campônio que, certa noite, acomodado junto ao fogão, avivava o fogo, enquanto sua mulher fiava, a seu lado.
- Que tristeza não termos filhos! - disse ele.- O silêncio reina em nossa casa, enquanto na dos outros é vida e alegria!
- Sim, - respondeu a mulher, suspirando - mesmo que fosse apenas um e pequenino como um polegar, eu já me daria por satisfeita; gostaríamos dele de todo o coração.
Em seguida a mulher sentiu-se indisposta e, passados sete meses, deu à luz um filho que, embora tivesse os membros perfeitos, não era maior do que um dedo polegar. O casal comentou:
- Aconteceu como desejávamos e nós o amamos de todo coração.
Tomando em conta o seu tamanho, deram-lhe o nome de Pequeno Polegar. Embora cuidassem bem de sua alimentação, a criança não cresceu e continuou pequenina como ao nascer. Tinha, no entanto, o olhar vivo e logo se revelou um menino inteligente e esperto, que fazia bem tudo o que queria.
Certa vez o pai aprontava-se para ir ao mato cortar lenha. Gostaria que alguém me levasse o carro - disse ele a meia-voz, para si mesmo.
- Ora, pai! - exclamou o Pequeno Polegar - posso levar-lhe o carro!
O homem riu e respondeu-lhe:
- De que maneira? És pequeno demais para manejar as rédeas.
- Não importa, pai. Se mamãe atrelar o cavalo, eu me sentarei na orelha dele e o vou orientando.
- Bem - retrucou o camponês - não custa experimentarmos.
Quando chegou a hora combinada, a mãe atrelou o animal e sentou Pequeno Polegar na orelha dele. O pequeno começou a dar-lhe ordens: "Êi! Vamos! Anda! Anda!" e o cavalo pô-se a puxar tão bem como se fosse guiado pelo seu dono, seguindo o caminho que conduzia ao mato. em certo momento, quando o Pequeno Polegar dobrava uma curva gritando "Êi! Êi!, surgiram dois homens na estrada.
- Olha só! - disse um deles.- Que é isso? Ali vai um carro e o carroceiro dá ordens ao cavalo, mas não se vê o homem em parte alguma.
- Aí tem mistério! - respondeu o outro. - Vamos segui-lo para ver aonde vai.
O carro continuou mato a dentro até chegar ao lugar em que estava sendo cortada a lenha. Quando o Pequeno polegar avistou seu pai, gritou-lhe:
-Pai, cá estou com o carro! Agora tira-me daqui! O pai pegou as rédeas com a esquerda e com a direita tirou seu filhinho da orelha do cavalo. Pequeno Polegar, feliz e contente, sentou-se sobre um ramo de capim. Quando os dois homens avistaram o pequeno, ficaram tão admirados que não sabiam o que dizer. Um deles chamou o outro para um lado e cochichou:
- Ouve! Esse pirralho aí poderá fazer nossa fortuna se o exibirmos, por dinheiro, numa cidade grande. Vamos comprá-lo.
E, dirigindo-se ao camponês, lhe propuseram:
- Venda-nos esse homenzinho; irá passar bem conosco.
- Não - respondeu o pai - ele é o meu tesouro e não o vendo por nenhum dinheiro do mundo!
O pequeno Polegar, porém, que ouvira a proposta, trepou pelas dobras do casaco do pai e, chegando aos seus ombros, lhe disse, baixinho, ao ouvido:
- Pai, podes me vender, que voltarei.
O lenhador, diante disso, cedeu e o entregou aos dois homens por boa quantia em dinheiro.
- Onde queres sentar-se? - perguntaram-lhe.
- Ponham-se na aba de seus chapéus que aí poderei andar à vontade e admirar a paisagem, sem perigo de cair.
Os homens lhe fizeram a vontade e, depois de se despedirem do pai, partiram levando o Pequeno Polegar. Caminharam até ao anoitecer, quando o pequeno disse:
- Ponham-me no chão que preciso fazer uma necessidade.
- Fica onde estás! - retrucou o homem em cujo chapéu viajava o anãozinho- não me importarei; os pássaros de vez em quando também deixam cair alguma coisa.
- Não- retrucou o Pequeno Polegar. - Tenho boas maneiras. Desçam-me, depressa!
O homem tirou o chapéu e pôs o pequerrucho sobre o campo, à beira da estrada. Ali ficou a andar por algum tempo entre os torrões da terra; de repente, meteu-se na toca de um rato.
- Boa noite, senhores! Sigam adiante, sem mim! - gritou ele, rindo-se a valer.
Os homens vieram correndo e começaram a enfiar paus no buraco, mas em vão. Quando o Pequeno Polegar notou que se haviam ido embora, saiu do esconderijo subterrâneo.
" Que perigo andar no campo nessa escuridão!" - pensou ele. - "É fácil quebrar o pescoço!" - Nisto, encontrou um caracol vazio. - Graças a Deus! - exclamou. Aqui posso passar a noite! - E sentou-se lá dentro.
Não demorou muito, notou que passava dois homens. Um deles dizia:
- Como havemos de fazer para tomar o dinheiro e a prata daquele padre rico?
- Pois eu sei como! - gritou o Pequeno Polegar, metendo-se na conversa.
- Que foi isso? - perguntou, assustado, um dos ladrões. - Ouvi alguém falar.
Pararam à escuta e o Pequeno Polegar, então, prosseguiu:
- Levem -me com vocês, que os ajudarei.
- Ondes estás?
- Procurem no chão e observem de onde vem a voz - respondeu ele.
Finalmente, os ladrões o encontraram e o levantaram do chão.
- Pobre anãozinho! De que maneira poderás ajudar-nos?
- Ouçam! - respondeu ele. - Meto-me entre as grades de ferro, no quarto do cura, e lhes alcanço tudo o que quiserem.
- Pois bem! - disseram. - Vamos ver do que és capaz.
Quando chegaram à casa do padre, o Pequeno Polegar meteu-se no quarto, mas logo principiou a gritar:
- Vocês querem tudo o que tem aqui?
Os ladrões assustaram-se e o preveniram:
- Fala baixo, senão vais acordar meio mundo.
O Pequeno Polegar fez como se não os tivesse ouvido e gritou, novamente:
- O que é que vocês querem? Tudo o que está aqui dentro?
A cozinheira, que dormia no quarto ao lado, ouviu os gritos e, sentando-se na cama, pô-se a escutar. Assustados, os ladrões haviam desaparecido, mas, passado um tempinho, voltaram a criar coragem, pensando que o pequeno parceiro só lhes queria pregar uma peça. Voltaram então e lhe disseram, baixinho:
- Andam deixa de brincadeiras bobas e alcança-nos alguma coisa.
Aí o Pequeno Polegar pela terceira vez se pôs a gritar com toda força de seus pulmões;
- Darei tudo a vocês, é só abrirem as mãos!
A criada, que estava alerta, ouviu claramente essas palavras e, saltando da cama, precipitou-se no quarto. Os ladrões saíram correndo e a mulher, não tendo visto nada de suspeito, foi acender uma vela. Quando ela entrou com o castiçal, Pequeno Polegar conseguiu escapar, sem ser visto, e dirigiu-se ao celeiro. A criada, depois de revistar todos os cantos, acabou voltando para a cama, convencida de ter sonhado de olhos abertos.
Pequeno Polegar meteu-se entre os talinhos de feno e encontrou um bom lugar para dormir. Ali pretendia descansar até o dia seguinte e depois voltar junto de seus pais. Mas quantas aventuras ainda lhe estavam reservadas! Sim, este mundo está cheio de contratempos! A raiar do dia, a criada saltou da cama para dar pasto aos animais. Encaminhou-se, em primeiro lugar, ao celeiro e apanhou uma braçada de feno, justamente aquele onde dormia o Pequeno Polegar. Ele estava tão ferrado no sono que nada percebeu e só acordou dentro da boca da vaca, que o havia apanhado junto com um feixe de pasto.
- Meu Deus!- gritou.- Como é que fui parar neste moinho?
Mas logo notou onde se encontrava e teve de se cuidar para não ser triturado pelos dentes do animal; no entanto, apesar de seu cuidado, escorregou para o estômago da vaca.
Esqueceram-se de pôr janelas neste quartinho- disse ele. Aqui não entra um só raio de sol e nem ao menos trazem uma luzinha.
Ademais, não estava se agradando nada daquele aposento e o pior era que cada vez ia entrando mais feno pela porta e o espaço ia diminuindo cada vez mais. Por fim, assustado, começou a gritar o mais alto que pode:
- Não me tragam mais pasto! Não me tragam mais pasto!
A criada, que estava ordenhando a vaca, ao ouvir falar, sem ver ninguém, e notando que era a mesma voz que ouvira durante a noite, assustou-se tanto que caiu do banquinho e entornou todo o leite. Depressa, correu até onde estava seu amo e disse-lhe:
- Céus, senhor padre, a vaca está falando!
- Enlouqueceste, mulher! - respondeu-lhe o cura.- Em todo caso, foi ao estábulo para ver o que se passava. Mal pusera os pés ali, o Pequeno Polegar tornou a gritar:
- Não me tragam mais pasto! Não me tragam mais pasto!
Quem se assustou, então, foi o cura, pensando que um espírito mau se apossara da vaca e ordenou que a matassem. Assim fizeram, e o estomago, onde se encontrava Polegarzinho, foi jogado sobre um monte de estrume. O pequeno teve de fazer um esforço muito grande para arranjar passagem, mas afinal conseguiu achar a saída. No mesmo momento, quando ia meter para fora a cabeça, sobreveio uma nova desgraça. Um lobo faminto, que andava por ali, tragou, de uma só vez o estômago inteiro. O Pequeno Polegar não perdeu a coragem. "Talvez possa entender-me com o lobo" - Pensou e de dentro da barriga da fera, começou a falar:
- Amigo lobo, sei de um lugar onde encontrarás um banquete maravilhoso!
- Onde? - perguntou o lobo.
- Em tal e tal casa. terás de entrar pelo cano da sarjeta e encontrarás bolo, toucinho e linguiça à vontade.
Passou, então, a descrever-lhe, com precisão, a casa de seu pai. O lobo não esperou segundo conselho e, durante a noite, espremeu-se pelo cano do esgoto, indo parar na despensa onde comeu a não poder mais. Depois quis ir embora, mas a sua barriga se tornara tão grande que ele não conseguiu sair pelo mesmo caminho. O menino, que contara com aquilo, começou, então , a fazer uma barulhada infernal, gritando com toda a força de seus pulmões.
- Cala-te! - disse o lobo. - Vais acordar o pessoal.
- Que nada! - respondeu o pequeno. - Comeste até não poder mais e agora sou eu que vou me divertir.
E recomeçou a gritaria. Todo aquele berreiro acabou acordando seu pai e sua mãe, que foram correndo até a despensa e espiaram lá para dentro por uma fresta. Quando viram o lobo. saíram depressa para buscar, ele um machado e ela uma foice.
- Fica para trás - disse o homem, ao entrarem na despensa. - Se ele não morrer depois que eu o atingir com o machado, tu lhe abrirás a barriga com a foice.
Naquele momento o Pequeno Polegar ouviu a voz de seu pai e gritou:
- Querido pai, estou aqui na barriga do lobo!
E o pai, cheio de alegria, exclamou:
- Graças a Deus, nosso amado filho está de volta!
E, dirigindo-se à mulher, mandou que pusesse a foice de lado, para não ferir o pequeno. Depois levantou o braço e deu um golpe na cabeça do lobo, fazendo-o cair morto no chão. A seguir, trouxeram uma faca e uma tesoura e, abrindo a barriga do animal com todo cuidado, tiraram lá de dentro o seu filhilho.
- Quanta preocupação nos causaste! - exclamou o lenhador.
- Sim, pai, andei muito por este mundo afora.
- E onde estiveste?
- Ah! Estive na toca de um rato, no estômago de uma vaca e na barriga de um lobo. Agora ficarei, sempre , com vocês.
- E nós jamais te venderemos, nem por todos os tesouros do mundo! - disseram os pais, acariciando e beijando seu querido filhinho. Deram-lhe boa comida e bebida e mandara fazer-lhe roupas novas, porque as suas estava rôtas com as aventuras daquela viagem. FIM
- Que tristeza não termos filhos! - disse ele.- O silêncio reina em nossa casa, enquanto na dos outros é vida e alegria!
- Sim, - respondeu a mulher, suspirando - mesmo que fosse apenas um e pequenino como um polegar, eu já me daria por satisfeita; gostaríamos dele de todo o coração.
Em seguida a mulher sentiu-se indisposta e, passados sete meses, deu à luz um filho que, embora tivesse os membros perfeitos, não era maior do que um dedo polegar. O casal comentou:
- Aconteceu como desejávamos e nós o amamos de todo coração.
Tomando em conta o seu tamanho, deram-lhe o nome de Pequeno Polegar. Embora cuidassem bem de sua alimentação, a criança não cresceu e continuou pequenina como ao nascer. Tinha, no entanto, o olhar vivo e logo se revelou um menino inteligente e esperto, que fazia bem tudo o que queria.
Certa vez o pai aprontava-se para ir ao mato cortar lenha. Gostaria que alguém me levasse o carro - disse ele a meia-voz, para si mesmo.
- Ora, pai! - exclamou o Pequeno Polegar - posso levar-lhe o carro!
O homem riu e respondeu-lhe:
- De que maneira? És pequeno demais para manejar as rédeas.
- Não importa, pai. Se mamãe atrelar o cavalo, eu me sentarei na orelha dele e o vou orientando.
- Bem - retrucou o camponês - não custa experimentarmos.
Quando chegou a hora combinada, a mãe atrelou o animal e sentou Pequeno Polegar na orelha dele. O pequeno começou a dar-lhe ordens: "Êi! Vamos! Anda! Anda!" e o cavalo pô-se a puxar tão bem como se fosse guiado pelo seu dono, seguindo o caminho que conduzia ao mato. em certo momento, quando o Pequeno Polegar dobrava uma curva gritando "Êi! Êi!, surgiram dois homens na estrada.
- Olha só! - disse um deles.- Que é isso? Ali vai um carro e o carroceiro dá ordens ao cavalo, mas não se vê o homem em parte alguma.
- Aí tem mistério! - respondeu o outro. - Vamos segui-lo para ver aonde vai.
O carro continuou mato a dentro até chegar ao lugar em que estava sendo cortada a lenha. Quando o Pequeno polegar avistou seu pai, gritou-lhe:
-Pai, cá estou com o carro! Agora tira-me daqui! O pai pegou as rédeas com a esquerda e com a direita tirou seu filhinho da orelha do cavalo. Pequeno Polegar, feliz e contente, sentou-se sobre um ramo de capim. Quando os dois homens avistaram o pequeno, ficaram tão admirados que não sabiam o que dizer. Um deles chamou o outro para um lado e cochichou:
- Ouve! Esse pirralho aí poderá fazer nossa fortuna se o exibirmos, por dinheiro, numa cidade grande. Vamos comprá-lo.
E, dirigindo-se ao camponês, lhe propuseram:
- Venda-nos esse homenzinho; irá passar bem conosco.
- Não - respondeu o pai - ele é o meu tesouro e não o vendo por nenhum dinheiro do mundo!
O pequeno Polegar, porém, que ouvira a proposta, trepou pelas dobras do casaco do pai e, chegando aos seus ombros, lhe disse, baixinho, ao ouvido:
- Pai, podes me vender, que voltarei.
O lenhador, diante disso, cedeu e o entregou aos dois homens por boa quantia em dinheiro.
- Onde queres sentar-se? - perguntaram-lhe.
- Ponham-se na aba de seus chapéus que aí poderei andar à vontade e admirar a paisagem, sem perigo de cair.
Os homens lhe fizeram a vontade e, depois de se despedirem do pai, partiram levando o Pequeno Polegar. Caminharam até ao anoitecer, quando o pequeno disse:
- Ponham-me no chão que preciso fazer uma necessidade.
- Fica onde estás! - retrucou o homem em cujo chapéu viajava o anãozinho- não me importarei; os pássaros de vez em quando também deixam cair alguma coisa.
- Não- retrucou o Pequeno Polegar. - Tenho boas maneiras. Desçam-me, depressa!
O homem tirou o chapéu e pôs o pequerrucho sobre o campo, à beira da estrada. Ali ficou a andar por algum tempo entre os torrões da terra; de repente, meteu-se na toca de um rato.
- Boa noite, senhores! Sigam adiante, sem mim! - gritou ele, rindo-se a valer.
Os homens vieram correndo e começaram a enfiar paus no buraco, mas em vão. Quando o Pequeno Polegar notou que se haviam ido embora, saiu do esconderijo subterrâneo.
" Que perigo andar no campo nessa escuridão!" - pensou ele. - "É fácil quebrar o pescoço!" - Nisto, encontrou um caracol vazio. - Graças a Deus! - exclamou. Aqui posso passar a noite! - E sentou-se lá dentro.
Não demorou muito, notou que passava dois homens. Um deles dizia:
- Como havemos de fazer para tomar o dinheiro e a prata daquele padre rico?
- Pois eu sei como! - gritou o Pequeno Polegar, metendo-se na conversa.
- Que foi isso? - perguntou, assustado, um dos ladrões. - Ouvi alguém falar.
Pararam à escuta e o Pequeno Polegar, então, prosseguiu:
- Levem -me com vocês, que os ajudarei.
- Ondes estás?
- Procurem no chão e observem de onde vem a voz - respondeu ele.
Finalmente, os ladrões o encontraram e o levantaram do chão.
- Pobre anãozinho! De que maneira poderás ajudar-nos?
- Ouçam! - respondeu ele. - Meto-me entre as grades de ferro, no quarto do cura, e lhes alcanço tudo o que quiserem.
- Pois bem! - disseram. - Vamos ver do que és capaz.
Quando chegaram à casa do padre, o Pequeno Polegar meteu-se no quarto, mas logo principiou a gritar:
- Vocês querem tudo o que tem aqui?
Os ladrões assustaram-se e o preveniram:
- Fala baixo, senão vais acordar meio mundo.
O Pequeno Polegar fez como se não os tivesse ouvido e gritou, novamente:
- O que é que vocês querem? Tudo o que está aqui dentro?
A cozinheira, que dormia no quarto ao lado, ouviu os gritos e, sentando-se na cama, pô-se a escutar. Assustados, os ladrões haviam desaparecido, mas, passado um tempinho, voltaram a criar coragem, pensando que o pequeno parceiro só lhes queria pregar uma peça. Voltaram então e lhe disseram, baixinho:
- Andam deixa de brincadeiras bobas e alcança-nos alguma coisa.
Aí o Pequeno Polegar pela terceira vez se pôs a gritar com toda força de seus pulmões;
- Darei tudo a vocês, é só abrirem as mãos!
A criada, que estava alerta, ouviu claramente essas palavras e, saltando da cama, precipitou-se no quarto. Os ladrões saíram correndo e a mulher, não tendo visto nada de suspeito, foi acender uma vela. Quando ela entrou com o castiçal, Pequeno Polegar conseguiu escapar, sem ser visto, e dirigiu-se ao celeiro. A criada, depois de revistar todos os cantos, acabou voltando para a cama, convencida de ter sonhado de olhos abertos.
Pequeno Polegar meteu-se entre os talinhos de feno e encontrou um bom lugar para dormir. Ali pretendia descansar até o dia seguinte e depois voltar junto de seus pais. Mas quantas aventuras ainda lhe estavam reservadas! Sim, este mundo está cheio de contratempos! A raiar do dia, a criada saltou da cama para dar pasto aos animais. Encaminhou-se, em primeiro lugar, ao celeiro e apanhou uma braçada de feno, justamente aquele onde dormia o Pequeno Polegar. Ele estava tão ferrado no sono que nada percebeu e só acordou dentro da boca da vaca, que o havia apanhado junto com um feixe de pasto.
- Meu Deus!- gritou.- Como é que fui parar neste moinho?
Mas logo notou onde se encontrava e teve de se cuidar para não ser triturado pelos dentes do animal; no entanto, apesar de seu cuidado, escorregou para o estômago da vaca.
Esqueceram-se de pôr janelas neste quartinho- disse ele. Aqui não entra um só raio de sol e nem ao menos trazem uma luzinha.
Ademais, não estava se agradando nada daquele aposento e o pior era que cada vez ia entrando mais feno pela porta e o espaço ia diminuindo cada vez mais. Por fim, assustado, começou a gritar o mais alto que pode:
- Não me tragam mais pasto! Não me tragam mais pasto!
A criada, que estava ordenhando a vaca, ao ouvir falar, sem ver ninguém, e notando que era a mesma voz que ouvira durante a noite, assustou-se tanto que caiu do banquinho e entornou todo o leite. Depressa, correu até onde estava seu amo e disse-lhe:
- Céus, senhor padre, a vaca está falando!
- Enlouqueceste, mulher! - respondeu-lhe o cura.- Em todo caso, foi ao estábulo para ver o que se passava. Mal pusera os pés ali, o Pequeno Polegar tornou a gritar:
- Não me tragam mais pasto! Não me tragam mais pasto!
Quem se assustou, então, foi o cura, pensando que um espírito mau se apossara da vaca e ordenou que a matassem. Assim fizeram, e o estomago, onde se encontrava Polegarzinho, foi jogado sobre um monte de estrume. O pequeno teve de fazer um esforço muito grande para arranjar passagem, mas afinal conseguiu achar a saída. No mesmo momento, quando ia meter para fora a cabeça, sobreveio uma nova desgraça. Um lobo faminto, que andava por ali, tragou, de uma só vez o estômago inteiro. O Pequeno Polegar não perdeu a coragem. "Talvez possa entender-me com o lobo" - Pensou e de dentro da barriga da fera, começou a falar:
- Amigo lobo, sei de um lugar onde encontrarás um banquete maravilhoso!
- Onde? - perguntou o lobo.
- Em tal e tal casa. terás de entrar pelo cano da sarjeta e encontrarás bolo, toucinho e linguiça à vontade.
Passou, então, a descrever-lhe, com precisão, a casa de seu pai. O lobo não esperou segundo conselho e, durante a noite, espremeu-se pelo cano do esgoto, indo parar na despensa onde comeu a não poder mais. Depois quis ir embora, mas a sua barriga se tornara tão grande que ele não conseguiu sair pelo mesmo caminho. O menino, que contara com aquilo, começou, então , a fazer uma barulhada infernal, gritando com toda a força de seus pulmões.
- Cala-te! - disse o lobo. - Vais acordar o pessoal.
- Que nada! - respondeu o pequeno. - Comeste até não poder mais e agora sou eu que vou me divertir.
E recomeçou a gritaria. Todo aquele berreiro acabou acordando seu pai e sua mãe, que foram correndo até a despensa e espiaram lá para dentro por uma fresta. Quando viram o lobo. saíram depressa para buscar, ele um machado e ela uma foice.
- Fica para trás - disse o homem, ao entrarem na despensa. - Se ele não morrer depois que eu o atingir com o machado, tu lhe abrirás a barriga com a foice.
Naquele momento o Pequeno Polegar ouviu a voz de seu pai e gritou:
- Querido pai, estou aqui na barriga do lobo!
E o pai, cheio de alegria, exclamou:
- Graças a Deus, nosso amado filho está de volta!
E, dirigindo-se à mulher, mandou que pusesse a foice de lado, para não ferir o pequeno. Depois levantou o braço e deu um golpe na cabeça do lobo, fazendo-o cair morto no chão. A seguir, trouxeram uma faca e uma tesoura e, abrindo a barriga do animal com todo cuidado, tiraram lá de dentro o seu filhilho.
- Quanta preocupação nos causaste! - exclamou o lenhador.
- Sim, pai, andei muito por este mundo afora.
- E onde estiveste?
- Ah! Estive na toca de um rato, no estômago de uma vaca e na barriga de um lobo. Agora ficarei, sempre , com vocês.
- E nós jamais te venderemos, nem por todos os tesouros do mundo! - disseram os pais, acariciando e beijando seu querido filhinho. Deram-lhe boa comida e bebida e mandara fazer-lhe roupas novas, porque as suas estava rôtas com as aventuras daquela viagem. FIM
terça-feira, 28 de julho de 2015
A MESINHA, O BURRO E O BORDÃO - CONTOS DE GRIMM
Existiu, há muitos anos, um alfaiate que tinha três filhos e uma só cabra. Esta alimentava a família inteira com seu leite e, portanto, necessitava de bom pasto. Todos os dias era preciso levá-la a pastar. Disto se encarregavam os filhos, cada um por sua vez. Certo dia o mais velho a conduziu ao cemitério, onde cresciam as melhores ervas, e aí a deixou comer e saltar à vontade. À noite, na hora de voltar para casa, ele perguntou:
- Cabrita, estás satisfeita?E o animal lhe respondeu:
Tão farta estou assim
Que não quero um só capim.
Béé! Béé!
- Pois vamos para casa! - disse o rapaz e, pegando-a pela corda, a levou ao estábulo, onde a amarrou.
- E então? - indagou o velho alfaiate.- A cabra comeu o suficiente?
- Acredito que sim - respondeu o filho. - Está tão farta que não quer mais um só capim.
O pai, querendo certificar-se pessoalmente, desceu ao estábulo e, acariciando o animal, perguntou:
- Cabrita, estás satisfeita?
E o animal lhe respondeu:
De que me vou satisfazer
Se só saltei sobre valos
Sem nenhum capim comer?
Béé! Béé!
- Que estás a dizer? - exclamou o alfaiate e, voltando sem mais tardança, falou ao rapaz:
- Mentiroso! Disseste que a cabra estava farta quando a deixaste passar fome!
Encolerizado, pegou a vara que estava na parede e, abaixo de golpes, o expulsou de casa.
No dia seguinte chegou a vez do segundo filho. Este escolheu um bom lugar junto à cerca do jardim, onde cresciam ervas suculentas, e a cabra comeu tanto que deixou o local pelado. Quando anoiteceu e ele quis voltar para casa, indagou:
- Cabrita, estás satisfeita?
E o animal lhe respondeu:
Tão farta estou assim
Que não quero um só capim
Béé! Béé!
- Então vamo-nos! - disse o rapaz e, chegando em casa, prendeu-a no estábulo.
- A cabra ficou satisfeita? - perguntou o velho.
- Creio que sim - retrucou o filho. - Esta tão farta que não quer mais um só capim.
O alfaiate, não se fiando nas palavras do rapaz, desceu ao estábulo e perguntou:
- Cabrita, estás satisfeita?
E o animal lhe respondeu:
De que me vou satisfazer
Se só saltei sobre valos
Sem nenhum capim comer?
Béé! Béé!
- Oh, miserável ! O malvado! - gritou o velho. - Deixar passando fome este santo animal!
E, correndo de volta, expulsou o filho a golpes de vara.
Chegou, então, a vez do terceiro e este querendo fazer a coisa às direitas, foi a um campo onde havia do melhor capim e deixou a cabra regalar-se. Ao entardecer, à hora de voltar, perguntou;
- Cabrita, estás farta?
E ela respondeu:
Tão farta estou assim
Que não quero um só capim.
Béé! Béé!
- Então vem para casa - disse o rapazinho e, conduzindo-a ao estábulo, lá a prendeu.
- A cabra comeu bem? - perguntou o velho.
- Acredito que sim - respondeu o rapaz .- Estás tão farta que não quer mais um só capim.
O alfaiate, não lhe dando crédito, desceu e indagou:
O maldoso animal respondeu-lhe:
De que me vou satisfazer
Se só saltei sobre valos
Sem nenhum capim comer?
Béé! Béé!
- Corja de mentirosos! - berrou o alfaiate. - Um é tão mau e descuidado quanto o outro. Mas daqui por diante não me farão mais de palhaço!
E, exasperado de raiva, subiu às pressas e tanto deu no rapaz que este saiu de casa em corrida desabalada.
O velho alfaiate ficou, assim sozinho com sua cabra. Na manhã seguinte desceu ao estábulo, acariciou o animal e disse-lhe:
- Vem, meu bichinho, que hoje eu mesmo te levarei ao pasto. - E, segurando a cabra pela corda, a conduziu a cercas verdes onde cresciam ervas de que as cabras mais gostam. - Aqui poderás fartar-se à vontade - disse-lhe e a deixou pastar até a noite. Depois perguntou:
- Cabrita, agora estás farta?
E ela respondeu:
Tão farta estou assim
Que não quero um só capim.
Béé! Béé!
- Pois voltemos para casa, - falou o alfaiate e, levando-a até o estábulo, ali amarrou. Ao afastar-se, virou para trás e indagou:
- Ficaste satisfeita, desta vez?
A cabra, no entanto, também com ele não fez exceção e retrucou:
de que me vou satisfazer
Se só saltei sobre valos
sem nenhum capim comer?
Béé Béé!
Ouvindo aquilo, o velho ficou perplexo e se deu conta de que havia expulsado seus três filhos sem motivo algum.
- Espera, criatura ingrata! - berrou ele. - Correr-te daqui, ainda é pouco. Vou marcar-te para que jamais te possas apresentar diante de um alfaiate honrado!
Correu para dentro de casa, apanhou a navalha e, depois de ensaboar a cabeça da cabra, raspou-lhe a cara até ficar tão lisa como a palma de suas mãos. E como a vara de medir lhe parecesse demasiado honrada, foi apanhar o chicote e deu uma surra tal no bicho que este, mal se viu solto, saiu fugindo e dando os maiores saltos da sua vida.
O alfaiate, vendo-se sozinho em casa, sentiu uma tristeza muito grande e um imenso desejo de ter seus filhos de volta. Mas ninguém sabia dizer-lhe para onde havia ido.
O mais velho entrara como aprendiz para os serviços de um marceneiro. Trabalhou com tanta aplicação que, ao terminar sua aprendizagem e quando chegou a hora de correr mundo, o mestre presenteou-lhe uma mesinha, de aspecto comum e de e de madeira barata, mas que possuía uma bela qualidade. Quando a punham no chão e lhe diziam: " Mesinha, cobre-te!', ela imediatamente se cobria com uma toalha branca, muito limpa, e sobre ela apareciam um prato, uma faca e um garfo; além disso surgiam travessas cheias de cozidos e assados, tantas quantas cabiam na mesa, e um copo grande de vinho tinto que chegava a alegrar o coração. O jovem pensou: " Com isso terei o suficiente por toda a vida." E seguiu seu caminho, animado e feliz, sem se preocupar jamais em saber se os albergues eram bons ou maus, se encontraria ou não o que comer. Conforme a disposição, ele às vezes nem se hospedava; ia procurar uma lareira no mato ou então um campo que melhor lhe agradasse, tirava a mesinha das costas e, colocando-a diante de si, dizia:
- Mesinha, cobre-te! - e, num momento, aparecia tudo o que mais lhe apetecesse.
Passado algum tempo, veio-lhe a idéia de voltar para casa; a ira de seu pai, naturalmente, já se teria aplacado e, se lhe apresentasse a mesinha mágica, ele, na certa, o receberia novamente de bom grado. Aconteceu, então, que, certa noite, a caminho de casa, entrou numa estalagem repleta de hóspedes. Receberam-no muito bem e o convidaram à sua mesa, para jantar com eles, pois já era muito tarde e de outro modo dificilmente conseguiria, ainda, algo para comer.
- Não - disse o carpinteiro, - não vou privá-los dessa janta frugal. Ao contrário, eu é que os convido!
Todos desandaram a rir, pensando que se tratasse de uma brincadeira. Mas o rapaz clocou sua mesinha de madeira bem no centro da sala e disse:
- Mesinha, cobre-te!
No mesmo instante a mesa se cobriu de manjares tão apetitosos como jamais o estalajadeiro teria sido capaz de apresentar e que exalavam um cheiro tão agradável que fez vir água à boca de todos os hóspedes.
- Sirvam-se, amigos! - disse o carpinteiro, e os convidados, vendo que ele falava sério, não se fizeram de rogadas; aproximaram-se, puxaram suas facas e serviram a mais não poder. E o que muito os admirava era o fato de que, mal terminavam um prato , este era logo substituído por outro igual e repleto. O estalajedeiro estava parado num canto, observando o que acontecia e sem saber o que dizer; entretando, pensava com seus botões: " Um cozinheiro desses me prestaria bons serviços na estalagem."
O carpinteiro e seu grupo divertiram-se até altas horas da noite e afinal foram dormir. O jovem tam bém foi deitar-se e colocou sua mesinha mágica junto à parede. O dono da estalagem, no entanto, não teve sossego; lembrou-se de que na despensa havia uma mesinha velha justamente igual à de seu hóspede. Levantou-se e, pé ante pé, foi buscá-la e a trocou pela mágica. Na manhã seguinte o carpinteiro pagou a conta e, colocando a mesa às costas sem notar que era outra, seguiu seu caminho. Ao meio-dia, chegou à casa do pai, que o recebera com grande alegria.
- Então, meu filho, que aprendeste? - perguntou o velho.
- Tornei-me carpinteiro, meu pai.
- Bom ofício. E o que trouxeste de tuas viagens?
- Pai, o melhor que eu trouxe, foi esta mesinha.
O alfaiate examinou-a por todos os lados e observou:
- Pois não parece uma obra de arte; é uma mesinha velha e em mau estado.
- Mas é uma mesinha mágica - respondeu o filho.
- Quando eu coloco no chão e lhe digo que se cubra, imediatamente fica repleta de iguarias saborosas e apresenta um vinho que alegra o coração. Convide a todos os parentes e amigos que venham comer e beber à vontade; a mesinha irá satisfazer a todos.
Reunido o grupo inteiro, o rapaz colocou a mesa em meio da sala e disse:
- Mesinha, cobre-te!
A mesa, porém, não fez caso e permaneceu tão vazia como qualquer outra que não entendesse essas falas. Aí, então, o pobre rapaz notou que a mesinha fora trocada e envergonhou-se por parecer um mentiroso. Os parentes riram-se dele e tiveram de retirar-se famintos e sedentos como haviam chegado. O pai pegou, de novo, os seus retalhos para costurar; e o rapaz entrou para os serviços de um mestre carpinteiro.
O segundo filho foi à casa de um moleiro para com ele aprender a profissão. Ao terminar o tempo de aprendizagem, disse-lhe o mestre;
- Como sempre te portaste bem, vou presentear-te um burro especial; não puxa carro nem carrega sacos.
- E para que serve então? - quis saber o jovem.
Cospe ouro - retrucou o moleiro. - Basta que entendas uma toalha em baixo dele e digas: " briquelebrit!" que o bom animal deitará moedas de ouro pela frente e por trás.
É formidável! - excalmou o jovem e, agradecendo ao moleiro, saiu a correr mundo.
Quando necessitava de ouro, era só dizer ao burrinho: " briquelebrit!" e, em seguida, choviam as moedas sem que ele tivesse outro trabalho senão juntá-las do chão. Onde quer que fosse, só se dava por satisfeito com o melhor que havia. Que lhe importava o preço, se tinha sempre o bolso cheio? Depois de ter andado algum tempo pelo mundo, pensou: " Devo ver meu pai; quando me apresentar com o burro de ouro, esquecerá seu rancor e me receberá bem."
Aconteceu que foi parar na mesma estalagem onde haviam trocado a mesinha de seu irmão. Conduzia ele próprio o burro pelo cabresto. O hospedeiro quis levar o animal para atá-lo, mas o jovem disse-lhe:
- Não se incomode que eu mesmo o levarei à cocheira e lá o atarei, pois preciso saber o lugar onde vai ficar.
O dono da estalagem achou estranho aquilo e pensou que um hóspede que cuidava, pessoalmente, de seu burro não podia ter lá grandes posses. Mas, quando viu que o forasteiro meteu a mão no bolso e, tirando duas moedas de ouro,o encarregou de lhe preparar o melhor que havia, arregalou os olhos e saiu correndo para satisfazer-lhe os desejos. Após a refeição, o jovem perguntou quanto devia. O estalajadeiro, querendo logo tirar proveito, pediu-lhe mais duas moedas de ouro. O rapaz meteu a mão no bolso, mas seu dinheiro havia terminado.
- Espere um momento, senhor estalajadeiro- disse ele.- Vou buscar o ouro.
E, ao sair, levou a toalha da mesa. O outro, intrigado e curioso, seguiu-o cautelosamente para não ser visto e, como o hóspede fechasse a porta do estábulo, espiou por um olho de madeira. O forasteiro estendeu a toalha em baixo do burro e disse: " briquelebrit" e, no mesmo instante, o animal começou a deitar moedas pela frente e por trás, que até parecia uma chuva de ouro.
- Vejam só! - disse o dono da estalagem. - Desse modo é fácil cunhar moedas! Um bolso assim não é nada mau!
O hóspede pagou a conta e deitou-se a dormir. À noite o estalajadeiro desceu, pé ante pé, até a cocheira, levou dali o mestre cunhador e, em seu lugar,amarrou outro burro.
Na manhã seguinte, bem cedinho, o rapaz seguiu viagem, levando o animal, na boa crença de que era o seu burrinho de ouro. Ao meio-dia, chegou à casa de seu pai. O velho alegrou-se ao revê-lo e o recebeu muito bem.
- Que é feito de ti, meu filho?- perguntou.
- Tornei-me moleiro, querido pai - respondeu ele.
- E que trouxeste de tuas viagens?
- Nada mais que um burro.
- Por aqui existem burros em quantidade -disse o pai. - Teria preferido uma cabra.
- Sim -retrucou o filho. - Mas este não é do tipo comum. è um burro de ouro. Basta dizer-lhe "briquelebrit" e o bom animal deita uma toalha cheia de moedas de ouro. Chame todos os parentes, que farei deles gente rica.
- Isto sim, me agrada - disse o alfaiate.- Não preciso mais apoquentar-me com o trabalho de agulha.
E saiu correndo a chamar seus parente.
Assim que chegaram todo, o moleiro os dispôs em círculo e, depois de estender uma toalha no chão, foi buscar o burro.
- Agora prestem atenção! - disse primeiro e, logo após: " briquelebrit"
Mas o que caiu não foram precisamente moedas de ouro e ficou claro que o bicho nada entendia da arte de cunhar dinheiro, pois nem todos os burros chegam a essa perfeição. O pobre moleiro, desapontado, notou o logro e pediu desculpas aos parentes, que retornaram a suas casas tão pobres quanto antes. Ao velho alfaiate não restou outra coisa senão pegar, novamente, na agulha e o rapaz empregou-se num moinho.
O terceiro irmão havia entrado como aprendiz na oficina de um torneiro e, sendo esse um ofício difícil, levou mais tempo para aprender. Seus irmãos, escrevendo--lhe uma carta, contaram o que lhes havia acontecido e como o estalajadeiro lhes roubara seus belos tesouros mágicos na véspera de chegarem em casa. Depois que o rapaz terminou sua aprendizagem e quis correr mundo, o mestre, em recompensa a seu bom comportamento, presentou-lhe um saco e disse:
- Há um bordão aí dentro.
- O saco posso colocar nos meus ombros e poderá servir-me- disse o rapaz- mas que farei com o bordão? Será apenas um peso para mim.
- Direi para que serve - respondeu-lhe o mestre. - Se alguém te maltratar, é suficiente que digas: " Bordão, sai do saco! " e logo o verás saltar para fora e dançar nas costas da pessoa, com tanto vigor e entusiamo que durante oito dias não poderá mover-se. Nada o fará parar enquanto não lhe ordenes: " Bordão, entra no saco."
- O jovem agradeceu, pôs o saco aos ombros e, quando o atacavam para brigar, dizia: " Bordão, sai do saco" e logo o cacete tratava de passar a roupa dos atacantes sem esperar que as tirassem primeiro; e agia com tal ligeireza, passando de uma outro, que nem ao menos notavam quando chegava a sua vez.
Ao anoitecer, o jovem torneiro chegou à hospedaria onde seus irmãos haviam sido logrados. Colocou a mochila sobre a mesa, à sua frente, e principiou a contar as maravilhas que vira pelo mundo afora.
- Sim - disse ele - a gente encontra mesas encantadas, burros de ouro e coisas semelhantes. Tudo isso são maravilhas que não desprezo; entretanto, nada significam em comparação com o tesouro que adquiri e levo dentro de saco.---------
O estalajadeiro aguçou os ouvidos. " Que diabo poderá ser? " pensou ele. " saco, na certa, está cheio de pedras preciosas. Devo pensar em como apossar-me dele, pois todas as coisas andam, sempre, em número de três. A mesa e o burro já tenho; agora só me falta o saco."
Quando chegoy a hora de dormir, o hóspede deitou-se no banco, fazendo o saco de travesseiro. O dono da estalagem, acreditando que ele estivesse dormindo profundamente, aproximou-se e começou a puxar o saco, devagar e cautelosamente, para ver se era possível retirá-lo dali e substituí-lo por outro. O torneiro, porém, estava esperando por aquilo há muito tempo. No momento em que o dono da estalagem deu um puxão mais forte, ele gritou: " Bordão, sai do saco." Imediatamente o cacete se pôs a medir as costas do hospedeiro que dava gosto se ver. O homem gritava de fazer só, mas quanto mais berrava mais cacetadas recebia, até que caiu no chão, exausto. O torneiro, então, disse-lhe:
- A dança continuará se não entregares a mesinha mágica e o burro de ouro.
- Em seguida! Em seguida! - exclamou o homem, extenuado. - Entregarei tudo, contando que faças esse maldito mostro entrar, de novo novo, no saco.
- Serei clemente, - disse o rapaz - mas que te sirvão de lição. E, gritando: " Bordão, entra no saco", ele o deixou em paz.
Na manhã seguinte o torneiro partiu, levou a mesinha mágica e o burro de ouro e pôs-se a caminho da casa de seu pai. O alfaiate alegrou-se ao vê-lo e também a ele perguntou o que aprendera.
- Querido pai - respondeu o jovem- aprendi a ser torneiro.
Um ofício que exige muita arte- retrucou o pai - mas que trouxeste de tuas viagens,
- Uma peça preciosa, querido pai -disse o filho. - Um bordão dentro de um saco.
- O que?! - exclamou o velho - um bordão? Ah, vale mesmo a pena! Poderias cortar um de cada árvore!
- Não um como este, meu pai! Se eu disser: " Bordão, sai do saco," ele salta para fora e inicia um baile com apessoa mal-intencionada que acaba deixando-a estendida no chão até pedir misericórdia. Veja, com este bordão consegui readquirir a mesinha mágica e o burro de ouro que o estalajadeiro ladrão roubou de meus irmãos. Agora vá chamar os dois e convide todos os parentes, que lhes darei de comer e beber e ainda encherei seus bolsos de ouro.
Embora desconfiado, o velho alfaiate saiu a convidar os parente. Em seguida, o torneiro foi estender uma toalha no chão da sala e depois, entrando ali com o burro, disse a seu irmão:
- Agora, entende-te com ele.
E o moleiro pronunciou a palavra: " brinquelebrit!"
No mesmo instante caíram moedas de ouro como se fosse uma verdadeira chuva e o burro não parou até que todos haviam recolhido tanto que ja´não podiam mais carregar.( Pela tua cara, vejo que gostaria de tomar parte!) Depois o torneiro foi buscar a mesinha mágica e disse:
- Querido irmão, agora fala tu com ela.
E mal o carpinteiro disse: "Mesinha, cobre-te!" - já estava cheia dos mais belos quitutes. Saborearam, então, um banquete com o bom alfaiate ainda naõ vira em sua casa e toda a parentela permaneceu reunida até alta noite em plena festa de regozijo. O alfaiate guardou no ármario a agulha e linha, a vara de medir e o ferro de engomar e viveu rico e feliz em companhia de seus três filhos.
Mas que fim levou a cabra, culpada de ter o alfaiate expulsado seus filhos? Vou te contar. Cheia de vergonha por estar coma cabeça pelada, ela foi se esconder na toca da raposa. Esta, ao voltar para casa, enxergou no escuro uns olhos grandes, chamejantes, e, assustando-se, deitou a correr. Encontrou-se com ela o urso e, vendo que estava toda alvorotada, indagou:
- Que há, irmã raposa, que cara é essa?
- Ah! - responde a outra- um monstro se meteu na minha toca e me olhou com olhos de fogo!
Ora! Logo o espantaremos! - falou o urso. Foi à toca e espiou para dentro. Mas quando enxergou os olhos chamejantes, ficou igualmente apavorado e, não querendo se ver às voltas com o monstro, saiu também em disparada.
A abelha, encontrando-se come ele, percebeu que algo estranho se passava e indagou:
- Urso, pareces aborrecido. Onde está teu bom humor?
- Para ti é fácil falar! - respondeu o urso.- Há um monstro com olhos de fogo na casa da raposa e não conseguimos enxotá-lo!
Respondeu-lhe, então, a abelha:
- Tenho pena de ti, urso. Sou uma pobre e débil criatura que vocês nem se dignam olhar , mas acho que poderia auxiliá-los.
Voou até a toca da raposa, sentou-se na cabeça pelada da cabra e meteu-lhe o ferrão com tanta força que ela saiu a correr pelo mundo afora, gritando: Bééé! Bééé! E desde esse momento ninguém mais soube que rumo tomou.FIM
quinta-feira, 23 de julho de 2015
JOÃOZINHO E MARIAZINHA - CONTOS DE GRIMM
Perto de uma enorme floresta vivia um lenhador com sua segunda mulher e dois filhos do seu primeiro casamento. O menino se chamava Joãozinho e a menina Mariazinha. Pouco tinham para comer e, certa vez, quando houve uma grande miséria no país, o homem não conseguia mais ganhar nem o pão de cada dia.
Uma noite em que, cheio de preocupações, ele se revolvia na cama sem poder dormir, disse, suspirando, à mulher:
- Que será de nós? Como iremos sustentar meus pobres filhos se nem para nós resta coisa alguma que comer?
- Sabes que mais? -respondeu a mulher.- Amanhã cedo, levaremos as crianças a um lugar bem espesso da floresta. Ali acenderemos uma fogueira; daremos um pedacinho de pão a cada um e vamos tratar do nosso trabalho, deixando-os sozinhos. Não saberão encontrar o caminho de volta e ficaremos livres deles.
- Não, mulher! - disse o lenhador.- Não farei uma coisa dessas! Como poderia cometer a maldade de abandonar meus filhos no bosque? Em pouco tempo seriam devorados pelas feras.
- Oh, seu tolo! - exclamou ela. - Não compreendes que então morreremos os quatro de fome? Já podes ir serrando as tábuas para os caixões!
E não deixou o marido em paz até que ele, por fim, cedeu.
- Mas tenho muita pena dessas pobres crianças! - dizia.
Os dois irmãozinhos que, de fome, também não tinham podido dormir, havia escutado tudo o que a madrasta aconselhara a seu pai. Entre lágrimas amargas, Mariazinha disse a Joãozinho:
- Estamos perdidos!
- Não chores - consolou o menino- e não te aflijas, que saberei como agir.
Depois que os velhos adormeceram, ele se levantou, pôs o seu casaquinho e saiu pela porta dos fundos. A lua brilhava muito e as pedrinhas no chão, em frente à casa, reluziam que nem moedinhas de prata. Joãozinho abaixou-se e meteu tantas nos bolsos quantas cabiam. Feito isto, voltou para junto de Mariazinha e disse-lhe:
- Coragem, irmãzinha, e dorme sossegada. Deus não nos abandonará.
E deitou-se novamente. Pela madrugada, antes de sair o sol, a mulher foi acordar as criança.
- Levantem-se, preguiçosos! Temos de ir à floresta buscar lenha!
E, dando um pedacinho de pão a cada um deles, prosseguiu:
- Tomem isso para o almoço, mas não comam antes, porque nada mais lhe darei.
Mariazinha guardou os pedaços de pão no avental, já que Joãozinho tinha os bolsos cheios de pedras. depois todos se encaminharam para o bosque. Fazia algum tempo que andavam quando o menino, de trecho em trecho, passou a diminuir a marcha e a olhar para a casa. Disse-lhe o pai:
- Joãozinho, que tanto olhas para trás? Anda, não te esqueças de caminhar!
- Estou olhando meu gatinho branco que está lá no telhado me dizendo adeus - repondeu o menino.
A mulher, porém, retrucou:
- Idiota! Aquilo não é um gato; é o sol da manhã que se reflete no cano da chaminé!
Mas Joãozinho não estava olhando gato nenhum; o que fazia era tirar do bolso as pedrinhas brancas que ia jogando ao longo do caminho.
Quando chegaram ao meio da floresta, disse o pai:
- Agora, meninos procurem lenha. Vou acender um fogo para que não sintam frio.
Joãozinho e Mariazinha juntaram um monte bem grande de lenha miúda. A seguir, foi acessa a fogueira e, depois que as chamas começaram a arder bem vivas, a mulher recomendou:
- Fiquem perto do fogo, crianças, e descansem. Nós iremos adiante para cortar lenha. Quando estivermos prontos, viremos buscá-los.
Os dois irmãozinhos sentaram-se junto à fogueira e, ao meio-dia, cada um comeu seu pedacinho de pão. Como estavam ouvindo golpes de machado, pensaram que seu pai andava ali perto. na verdade, o que ouviam não era o machado, mas um galho que o lenhador atara a uma árvore seca e que o vento fazia chocar contra o tronco. Depois de estarem sentados ali, por algum tempo, cansaço os obrigou a fechar os olhos e eles adormeceram profundamente.
Quando acordaram, era noite fechada. Mariazinha começou a chorar e perguntou:
- Como vamos sair da floresta?
Mas Joãozinho a consolou:
- Espera um pouco, até aparecer a lua, que logo encontraremos o caminho.
E assim surgiu a lua cheia, o menino, tomando a mão de sua irmãzinha, foi seguindo as pedrinhas que, brilhando como prata batida, lhes indicaram o rumo. Andaram toda noite e, ao despontar da aurora, chegaram à casa de seus pais. Bateram à porta e a madrasta, que abriu, exclamou ao vê-los:
- Meninos maus! Por que ficaram dormindo tanto tempo no mato? Pensamos que nem quisessem voltar mais!
Mas o pai alegrou-se com o regresso deles, pois sentia um peso na consciência por havê-los abandonado.
Tempo depois houve outra época de fome no país e, certa noite , os meninos ouviram quando a madrasta, na cama, dizia ao marido:
- Acabaram-se os alimentos. a não ser a metade de um pão, nada mais nos resta. É preciso nos desfazermos das crianças. Vamos levá-las mais para o fundo do mato, para que não possam encontrar o caminho de volta; do contrário, não haverá salvação para nós.
O pai, desesperado, começou a discutir. Mas a mulher não quis ouvir suas razões e passou a insultá-lo e a censurá-lo. E como quem diz "A", diz "B", o marido, tendo cedido uma vez, teve de ceder novamente. Os meninos, que ainda estavam acordados, ouviram toda a conversa, e, quando os velhos adormeceram, Joãozinho levantou-se para ir juntar pedrinhas, como da outra vez; mas nada pode fazer porque a mulher tinha trancado a porta. E ele tratou de consolar a irmã, dizendo:
- Não chores, Mariazinha. Dorme sossegada, que Deus Nosso Senhor há de nos ajudar.
De madrugada, a mulher foi ao quarto tirá-los da cama. Deu a cada um deles um pedacinho de pão menor ainda que o da última vez. Pelo caminho, Joãozinho ia esmigalhando o pão no bolso e, detendo-se de vez em quando, deixava cair um pedacinho no chão.
- Joãozinho, por que estás parado, olhando para trás?
- indagou o pai. - Vamos, não te distraias!
- Olho a minha pombinha que está lá no telhado me dizendo adeus!
- Tolo! - disse a mulher. - Não é a sua pombinha, é o sol da manhã no alto da chaminé!
- Joãozinho, porém, continuou semeando migalhas pelo caminho.
A madrasta conduziu os meninos ainda mais para o fundo da floresta, a um lugar onde jamais haviam estado. Ali acenderam uma grande fogueira e a mulher disse-lhes:
- Fiquem aí, crianças! Se cansarem, durmam um pouco enquanto nós vamos cortar lenha. À tarde voltaremos aqui para buscá-los.
Ao meio-dia, Mariazinha repartiu seu pão com Joãozinho, pois o seu ele espalhara na estrada. Depois adormeceram e, quando chegou a tarde, ninguém foi buscar os pobrezinhos. Só acordaram quando já era noite fechada. Joãozinho consolou a irmã, dizendo-lhe:
- Espera, Mariazinha, até que saia a lua; então veremos as migalhas de pão que espalhei e que nos mostrarão o caminho de volta.
Quando a lua apareceu, eles se dispuseram a voltar, mas não encontraram ao menos uma migalhinha. Os passarinhos, que voam, aos milhares, pelos matos e pelas campinas, tinham comido tudo. Disse Joãozinho à Mariazinha:
- Havemos de encontrar o caminho.
Mas não o encontrara. Durante toda a noite e todo o dia seguinte andaram na madrugada até anoitecer, sem conseguirem sair da floresta imensa. Sentiam muita fome, pois, apenas tinham para comer umas poucas frutinhas silvestres que achavam pelo chão. estavam por fim tão cansados que as pernas se negavam a sustenta-los. Sentaram -se então ao pé de uma árvore e adormeceram.
E amanheceu o terceiro dia, desde que haviam saído de casa. Começaram a andar, de novo. Entretanto, cada vez se perdiam mais. E se alguém não os socorresse, estariam condenados a morrer.
Quando chegou ao meio-dia, viram um lindo pássaro, branco como a neve, pousado no galho de uma árvore. Cantava tão suavemente que os dois se detiveram a escutá-lo. Ao terminar sua canção, abriu as asas e saiu voando, mas Joãozinho e Mariazinha o seguiram até chegarem a uma cabana em cujo telhado ele pousou. De perto, viram que era toda feita de pão e coberta de bolos, e que as janelas eram de puro açúcar.
- Olha! - exclamou Joãozinho- Vamos matar a nossa fome! Eu comerei um pedaço do telhado e tu, Mariazinha, a janela, que é doce.
O menino foi ao telhado e tirou um pedacinho para provar o gosto, enquanto sua irmãzinha experimentava os cristais da janela. De repente, ouviram uma vozinha suave, vinda do interior da casa:
- Será, por acaso, um ratinho.
Que rói a minha casinha?
E as crianças responderam:
- É o vento, é o vento,
Que sopra neste momento.
E continuaram comendo sem se deixarem estorvar. Joãozinho, que achou o telhado muito saboroso, arrancou um bom pedaço e Mariazinha tirou toda a vidraça e, sentando-se no chão, a saboreou com gosto.
Subitamente a porta se abriu e uma mulher muito velha, apoiada a uma muleta, saiu da cabana. Joãozinho e Mariazinha se assustaram de tal modo que soltaram o que tinham nas mãos; a velha, porém ,sacudiu a cabeça, e lhes disse:
- Olá, crianças! Quem as trouxe aqui? Entrem. Entrem e fiquem comigo, que não lhes farei mal.
E, pegando a ambos pelas mãos, os introduziu na cabana. Ali serviu-lhes boa comida, leite com panquecas açucaradas, maças, nozes. Depois os levou a duas caminhas com lençóis brancos e Joãozinho e Mariazinha se deitaram nelas pensando estar no céu.
Mas a velha estava apenas fingindo toda aquela gentileza, pois na realidade era uma feiticeira maldosa,acostumada a espreitar crianças, e só construíra a casinha de bolo para atraí-las. Se caíam em seu poder, ela as matava, cozinhava e comia. Era um dia de festa para ela! As bruxas tem olhos vermelhos enxergam pouco, mas, em compensação, seu olfato é muito desenvolvido, como o dos animais, e sentem de muito longe a presença das pessoas. Na véspera, enquanto Joãozinho e Mariazinha se aproximava, a velha dizia com um riso maldoso:
- Já são meus, não hão de escapar!
Levantou-se bem cedo, antes de as crianças despertarem e, ao vê-las descansar tão calmamente, com suas faces cheias e rosadas, murmurou:
- Vai ser um prato gostoso!
E pegando Joãozinho, com suas mãos secas, o levou a um pequeno estábulo e lá o encerrou atrás de uma porta de grades. O menino gritou com todas as suas forças, mas em vão.
Depois a bruxa foi a cama de Mariazinha e, sacudindo-a, rudemente, gritou:
- Levanta-te, preguiçosa! Vai buscar água e cozinha uns petiscos para teu irmão, que ficou no estábulo, para engordar. Depois se bem cevado, eu o comerei.
Mariazinha começou a chorar amargamente, o que de nada lhe adiantou.
Teve de cumprir o que a bruxa malvada ordenara. Daí por adiante, Joãozinho passou a comer pratos deliciosos, enquanto Mariazinha recebia, apenas, cascas de caramujo. Todas as manhãs, a velha aproximava-se do estábulo e dizia:
- Joãozinho, mostra-me o teu dedo, que quero ver se já estás gordo.
O menino, porém, mostrava-lhe um ossinho, e a velha, que não enxergava bem, pensava ser o seu dedo e muito se admirava por não haver jeito de ele engordar.
Depois de quatro semanas, vendo que Joãozinho continuava magro , a bruxa perdeu a paciência e não quis esperar mais:
- Ei, Mariazinha! - disse à menina.- Depressa, traz água. Gordo ou magro, amanhã vou matar e comer o teu irmão.
Que aflição para a pobre pequena ao ver-se obrigada a trazer água! E como as lágrimas lhe corriam pelas faces!
- Meu Deus, ajuda-nos! - rogava ela. - Antes as feras nos tivessem devorado; assim, ao menos teríamos morrido juntos.
Para com esse choro! - gritou a velha.- De nada te adianta!
De madrugada, Mariazinha teve de sair para encher de água a caldeira e acender o fogo.
- Primeiro faremos pão - disse a feiticeira. - Já aqueci o forno e preparei a massa.
E, abaixo de empurrões, levou a pobre menina até o forno, de onde saíam chamas.
- Entra e verifica se o calor é suficiente para metermos o pão - ordenou a velha.
O que ela tencionava era fechar a porta do forno quando a menina estivesse dentro, assá-la e comê-la também. Mas a Mariazinha lhe adivinhou o pensamento e disse:
- Não sei como fazer para entrar aí.
Criatura idiota! - replicou a bruxa. - A abertura é bastante grande. Vê, até eu passaria por ela.
E, para demostrá-lo, adiantou-se e meteu a cabeça na boca do forno. Nesse momento Mariazinha deu-lhe um empurrão tão forte que a precipitou lá dentro e, fechando a porta de ferro, correu depressa o ferrolho.
Puxa! Como a velha berrou! Era horrível de se ouvir! Mas a menina saiu correndo e a bruxa miserável morreu queimada!
Mariazinha foi logo ao estábulo onde estava Joãozinho e lhe abriu a porta, exclamando:
- Estamos salvos, Joãozinho! A bruxa velha está morta!
O rapazinho saiu como pássaro ao qual se abre a gaiola. Que alegria sentiram os dois e como se jogaram aos braços um dos outro, beijando-se de contentamento! Como não precisassem mais temer coisa alguma, entraram na casa da bruxa, onde encontraram, por todos os cantos, caixas cheias de pérolas e pedras preciosas.
Essas valem mais do que as pedrinhas! - exclamou Joãozinho, enchendo os bolso com quanto cabia neles. Mariazinha manifestou-se:
- Eu também quero levar algo para casa.....
E, por sua vez, encheu bem seu aventalzinho.
- Vamos agora! - disse o menino. - Devemos sair desta floresta enfeitiçada!
Depois de terem andando alguma horas, chegaram a um rio muito grande.
- Não podemos atravessá-lo - observou Joãozinho. Não tem uma ponte ao menos.
- E nem um barco- acrescentou Mariazinha. - Mas ali está andando um pato branco; se lhe pedirmos, ele nos ajudará a passar o rio. E gritou:
Patinho, patinho!
Aqui estão Mariazinha e Joãozinho.
Não há ponte para passar.
Nas tuas costas brancas queres nos levar?
O patinho aproximou-se e o menino subiu nele, convidando sua irmã a fazer o mesmo.
- Não respondeu ela, - seria pesado demais para o patinho; que leve um, depois o outro.
Assim fez o bom animalzinho e, quando já tinham alcançado a margem oposta e caminhando um pequeno trecho, a floresta lhes pareceu cada vez mais familiar. Até que enfim descobriram, ao longe, a casa de seu pai. Começaram, então a correr, e entrando como um pé- de- vento pela porta, atiraram-se os dois ao pescoço dele, abraçando-o. O pobre homem não havia tido uma hora só de de descanso, desde o dia em que abandonara seus filhos na floresta. Quanto à madrasta, havia morrido nesse meio tempo. Mariazinha esvaziou o avental, fazendo as pérolas e as pedras preciosas saltarem pelo chão e Joãozinho também, terminaram-se as preocupações e os três viveram muito felizes. Minha história acabou e um ratinho por ali passou! Quem conseguir pegá-lo, poderá fazer dele um grande casaco de peles.
FIM
FIM
segunda-feira, 20 de julho de 2015
O ALFAIATE NO CÉU - CONTOS DE GRIMM
Certa ocasião, como o dia estivesse muito bonito, Deus nosso Senhor resolveu passear pelos jardins celestiais e se fez acompanhar de todos os apóstolos e santos. Somente São pedro ficou no seu posto. Ordenou-lhe o Senhor que não deixasse entrar ninguém durante Sua ausência e São Pedro ficou bem atento, junto à porta. Pouco depois alguém bateu. Pedro perguntou quem era e o que desejava.
- Sou pobre e honrado alfaiate - respondeu uma vozinha suave - que pede para entrar.
- Sim- disse Pedro- honrado como ladrão na forca! Bem que soubeste furtar o pano a teus fregueses. Não entrarás no céu. O Senhor proibiu a entrada de qualquer pessoas durante Sua ausência.
- Tem dó de mim! -suplicou o alfaiate. - Pequenos retalhos não representam furto. Nem vale a pena falar nisso! Vê, estou rengueando em consequência da caminhada e com pés cheios de bolhas; não posso voltar. Deixa-me entrar e eu farei todo o serviço pesado: carregar as crianças, lavar fraldas, limpar os bancos onde brincaram e remendar a roupa rasgada.
São Pedro compadeceu-se e abriu uma frestinha, o suficiente para deixar passar o esquelético alfaiate. Depois disse-lhe que ficasse sentado, quietinho, num canto atrás da porta, afim de que o Senhor, ao voltar, não o visse e se zangasse. O alfaiate obedeceu. entretanto, quando São Pedro se afastou por um momento, ele levantou-se cheio de curiosidade, foi bisbilhotar todos os recantos do céu. Chegou, finalmente, a um lugar onde havia muitas cadeiras, lindas e preciosas, e ao centro um trono todo de ouro crivado de fulgurantes pedrarias; este, muito mais alto que os outros assentos, tinha à sua frente uma banquetinha para os pés, também de ouro. Era o trono de Deus. Nosso Senhor senta-se nele quando está em casa e dali enxerga tudo o que se passa na Terra. O alfaiate ficou a contemplá-lo durante muito tempo, pois lhe agradava mais que outra coisa qualquer. Finalmente, não conseguindo dominar sua petulância, sentou-se no trono. Passou, então, a ver tudo o que se passava neste mundo e pode assim observar uma mulher muito velha e feia que lavava roupa num arroio e que acabava de esconder duas peças. O alfaiate, notando aquilo, enfureceu-se de tal modo que agarrou a banqueta de ouro e a arremessou, do céu à Terra, contra a velha ladra. Mas, como não pudesse trazer de volta o banquinho, desceu sorrateiramente do trono e foi sentar-se no seu lugar, atrás da porta.
Nosso Senhor, ao regressar com seu séquito celestial, não percebeu o alfaiate no seu esconderijo, mas, quando foi sentar-se no trono, viu que faltava o banquinho e perguntou a Pedro onde estava. O santo não soube lhe responder. E o Senhor, prosseguindo, indagou se não deixara entrar alguém.
- Que eu saiba- respondeu Pedro- a única pessoa que entrou aqui foi um alfaiate coxo que ainda está sentado atrás da porta.
O Senhor então, mandou chamar o alfaiate, muito ancho,- enfureci-me ao ver uma velha roubando duas peças de roupa e atirei-lhe o banquinho na cabeça.
- Grande velhaco! - exclamou Nosso Senhor .- Fosse eu fazer justiça como tu, o que pensas que seria de ti?
Há muito não haveria mais cadeiras, bancos, poltronas e nem mesmo uma pá de fogo por aqui! Eu teria jogado tudo nos pecadores. Daqui por diante não poderás ficar no céu; vê lá onde te metes! Ninguém tem o direito de fazer justiça a não ser eu, o Senhor.
Pedro foi obrigado a levar o alfaiate para fora do céu. E o nosso homem, como tinha os sapatos rasgados e os pés cheios de bolhas, empunhou um bastão e se dirigiu coxeando para a " Terra do Vai Esperando" , onde se encontram os soldados que foram bons e outras pessoas que lá se distraem como podem. FIM
A MOÇA DAS MÃOS CORTADAS -CONTOS DE GRIMM
Um moleiro foi empobrecendo pouco a pouco, até que um dia nada mais lhe restou senão o moinho, atrás do qual havia um grande pé de macieira. Certa vez, indo ao bosque cortar lenha, encontrou um velho a quem nunca tinha visto e que assim lhe falou:
Por que te cansas rachando lenha? Eu te farei rico se prometeres dar-me o que está atrás do teu moinho.
" Que outra coisa pode se se não a macieira?", pensou o moleiro, e, aceitando a proposta, comprometeu-se com o desconhecido. Este soltou uma gargalhada e acrescentou:
- Daqui a três anos virei buscar o que me pertence.
- Dito isto, foi-se embora.
O moleiro, ao chegar em casa, foi recebido por sua mulher, que lhe disse:
- De onde nos vem essa riqueza, assim, tão de repente, homem? Todas as arcas e caixotes estão cheios de dinheiro; entretanto, ninguém o trouxe aqui e não posso saber como isso aconteceu!
Respondeu-lhe o moleiro:
- Encontrei um desconhecido no bosque, que me prometeu grandes tesouros. Eu, em troca, lhe prometi o que está atrás do moinho. A macieira bem vale isso tudo.
- Que fizeste, homem? - exclamou a mulher, horrorizada. - Aquele era o diabo, e não se referia à macieira, mas à nossa filha, que estava varrendo o pátio atrás do moinho.
A filha do moleiro era uma moça bonita e religiosa. Durante três anos que se seguiram ao encontro do pai com o velho do bosque, ela viveu sempre fazendo as suas devoções e livre de pecados. Transcorrido o prazo, quando chegou o dia em que o diabo iria levá-la, lavou-se cuidadosamente e, com giz, traçou um círculo em seu redor. O diabo apresentou-se bem cedo, mas não conseguiu chegar perto dela. Furioso, falou ao moleiro.
- Tira-lhe toda água, que se achar a seu alcance, para que ela não possa lavar-se. Do contrário, não tenho poder sobre ela.
Assustado, o homem obedeceu. Na manhã seguinte, o diabo se apresentou de novo, mas a moça, que havia chorado com as mãos nos olhos, estava com elas bem limpas. Mais uma vez o diabo não pode aproximar-se e disse, furioso,ao moleiro.
Corta-lhe as mãos; do contrário não posso levá-la.
Apavorado, o homem respondeu-lhe;
- Como poderei cortar as mãos de minha própria filha?
O outro, porém, o ameaçou:
- Se não fizeres, serás tu quem me pertencerá e te levarei comigo para as profundezas do inferno.
Amedrontado, o pai prometeu obedecer e, dirigindo-se à moça, disse-lhe:
- Minha filha, se eu não cortar as tuas mãos, o diabo me levará. Assim, em meu desespero, prometi o que ele exigiu. Ajuda-me nesta desgraça e perdoa o mal que te faço.
- Meu pai- respondeu ela- faça comigo o que quiser. Sou sua filha.
E, estendendo-lhe ambas as mãos, deixou que as cortasse. Veio o diabo pela terceira vez. Mas a moça, que havia chorado muito com os tocos dos braços apertados contra as pálpebras, acabou deixando-os limpos. O diabo, então, foi obrigado a retirar-se, perdendo todos os direitos sobre ela.
Dirigindo-se logo à sua filha, o moleiro disse:
- Foste a causa de minha fortuna. Viverás com todas as regalias durante a vida inteira.
Mas a moça lhe respondeu:
- Não posso ficar aqui, quero ir embora. Encontrarei pessoas piedosas que me darão aquilo de que necessito.
Pediu que lhe atasse os braços mutilados à costas e quando o sol saiu, ela se pôs a caminho. Andou todo o dia até que anoiteceu. por fim, chegou à frente de um jardim real e, à luz da lua, pode ver que as suas árvores estavam cheias de belos frutos. Não lhe foi possível, entretanto, entrar nele, pois o jardim era cercado por um canal cheio de água. Como tinha andando o dia inteiro sem comer coisa nenhuma, a moça pensou: "Quem me dera entrar entrar aí e comer dessas frutas para não morrer de fome! " Ajoelhou-se e, invocando a Deus, rezou. De repente apareceu um anjo que fechou a represa, fazendo secar o canal. Ela, então, pode atravessá-lo com os pés enxutos e entrou no jardim, acompanhada pela criatura celestial. Ali viu uma árvore carregada de belas peras. Não sabia que elas estavam todas contadas. Aproximou-se e apanhou uma, diretamente com a boca, apenas uma, só para matar a fome. O jardineiro a estava observando, mas, como anjo estava com ela, não se atreveu a intervir, pensando que a moça era um espírito. Assim conservou-se calado, sem chamá-la nem dirigir-lhe a palavra. Depois de ter comido a pera e sentir-se satisfeita, a moça escondeu-se no mato.
Na manhã seguinte, o rei, a quem pertencia o jardim, foi até lá e, contando as peras, notou que faltava uma. Perguntou ao jardineiro o que acontecera, pois a fruta havia desaparecido e nem ao menos em baixo da árvore estava. Respondeu-lhe o homem:
- À noite passada entrou aqui um espírito que não tinha mãos e apanhou a pera diretamente com a boca.
- E como pode atravessar a água? - perguntou o rei. - E para onde foi, depois de comer a fruta?
- Um ser baixou do céu, com um vestido branco como neve, e fechou a represa, para que o espírito pudesse atravessar o canal. E como só podia ser um anjo, fiquei com medo de chamar e indagar qualquer coisa. Depois de comer a pera, o espírito se retirou.
- Se é como dizes- declarou o rei- ficarei de guarda contigo esta noite.
Ao escurecer, o rei foi ao jardim, acompanhado de um sacerdote, que tinha a incumbência de falar com o espírito. Os três sentaram embaixo da árvore, atentos ao que iria acontecer. à meia-noite, a moça saiu do bosque e, aproximando-se da árvore, apanhou outra pera, diretamente com a boca. A seu lado estava o anjo vestido de branco. O sacerdote, então, apresentou-se e perguntou:
- Vens de Deus ou vens do mundo? És um espírito ou ser humano?
E a moça respondeu:
- Não sou espírito; sou uma pobre criatura humana, abandonada de todos, menos de Deus.
Falou-lhe, então, o rei:
- Se o mundo inteiro te abandonou, eu não o farei. E levou-a consigo a seu palácio. Vendo que era linda de rosto e de coração, enamorou-se dela, mandou fazer-lhe umas mãos de prata e a tomou por esposa.
Ao cabo de um ano, o rei foi obrigado a partir para a guerra e, recomendando a jovem rainha à sua mãe, disse-lhe:
- Quando chegar a hora em que irá dar a luz, cuide bem dela e me mande uma carta em seguida.
A rainha teve um lindo filho e a avó apressou-se em escrever ao rei, dando-lhe a boa nova.O mensageiro,porém, fatigado da longa viagem, resolveu descansar junto a um arroio e ali adormeceu. Apresentou-se, então o diabo, sempre disposto a fazer mal à piedosa rainha, e trocou a carta por outra, na qual dizia que ela trouxera um monstro ao mundo. O rei, ao ler a notícia, ficou chocado a profundamente triste; no entanto escreveu, em resposta, que cuidassem bem da rainha até o seu regresso.
O mensageiro voltou com a carta e pôs-se a sestear exatamente no mesmo lugar junto ao arroio. O diabo apareceu, de novo, e substituiu a carta por outra que continha uma ordem para matar a rainha e seu filho. A avó ficou horrorizada e, não podendo acreditar no que lia, tornou a escrever ao rei. A resposta, porém, foi a mesma, pois todas as vezes o diabo trocava a carta no bolso do mensageiro adormecido. Na última, ordenava até que, em testemunho de haver sido cumprida a ordem, guardassem a língua e os olhos da esposa.
A velha rainha, desolada com o pensamento de que fosse derramado sangue tão inocente, mandou que matassem uma gazela; depois, tirou-lhe os olhos e a língua e os guardou. a seguir, chamou a rainha:
- Não posso mandar que te matem como ordena o rei; mas aqui não podes ficar por mais tempo. Vai com teu filho pelo mundo afora e nunca voltes aqui.
Atou-lhe o menino às costas e a pobre mulher partiu com os olhos cheios de lágrimas. Depois de muito caminhar, chegou a uma floresta enorme. Ali, pôs-se de joelhos e rezou a Deus. Apareceu-lhe então um anjo de Senhor e a conduziu a uma cabana onde se lia numa tabuleta: " Aqui todos moram de graça"
Da casa saiu uma moça, branca como a neve, que disse:
- Bem-vinda seja,senhora rainha! - e acompanho-a ao interior da casa.
Desatando-lhe o filho das costas, ela o pôs no peito da mãe para que esta pudesse dar-lhe de mamar.
Depois, deitou-a num berço. Indagou, então a pobre mãe:
- Como sabes que fui rainha?
E a moça lhe respondeu:
- Sou um anjo enviado por Deus para cuidar de ti e teu filho.
A jovem viveu naquela casa durante sete anos, bem tratada e atendida em tudo e foi tanta a sua devoção que Deus, compadecido,fez com que aparecessem novas mãos.
Depois de muito tempo, o rei, terminada a campanha, regressou ao palácio e logo quis ver a esposa e o filho. A velha rainha começou a chorar, exclamando:
- Oh, malvado! Que foi que me escreveste? Madrasta matar aquelas duas almas inocentes! - E, mostrando-lhe as cartas falsificadas pelo diabo, acrescentou: - cumpri tua ordem- e apresentou-lhe, também, a língua e os olhos que ele mandara arrancar.
Desconsolado, o rei chorou, amargamente, pelo triste destino de sua pobre esposa e de seu filhinho. Diante disso, a velha rainha, compadecida, lhe falou:
- Consola-te, que ela vive. Secretamente, mandei matar uma gazela e guardei isto como prova. Quanto à tua esposa , atei-lhe o menino às costas e mandei que saísse pelo mundo e jamais voltasse aqui, já que estavas tão zangado com ela.
Disse, então o rei:
- Sairei a caminhar sem comer nem beber, até que encontre minha esposa e meu filho, se não tiverem morrido de fome e frio.
A seguir, o rei partiu. Vagou durante sete anos, procurando até nas mais escondidas grutas, mas não os encontrou em parte alguma e já estava convencido de que haviam morrido de fome. Durante todo aquele tempo, não comeu nem bebeu, mas Deus manteve com vida. Por fim, chegou a vasto bosque, onde descobriu a cabana com o letreiro: "Aqui todos moram de graça." A moça branca apareceu e, pegando sua mão, o levou para dentro, dizendo:
- Bem-vindo seja, senhor rei! - indagou de onde vinha.
- Em breve fará sete anos - respondeu ele- que ando, errante, à procura de minha esposa e de meu filho, sem encontrá-los em parte alguma.
O anjo foi ao quarto onde se encontrava a rainha com seu filho, a quem ela dera o nome de Dorido, e disse-lhe:
- Teu esposo chegou. Vai com teu filho para junto dele.
A rainha dirigiu-se à sala onde o rei descansava e, vendo que o lenço lhe caíra do rosto, disse:
- Dorido, apanha o lenço de teu pai e cobre-lhe o rosto.
O menino repôs o lenço, mas orei, que o vira, tornou a deixá-lo cair. Impaciente, o pequeno exclamou:
- Mãezinha, como posso cobrir o rosto de meu pai se nem tenho pai no mundo? Aprendi a rezar: " Pai nosso que estás no céu" e tu disseste que meu pai está no céu e é Deus Nosso Senhor. Como queres que conheça este homem? Ele não é meu pai.
Ouvindo aquelas palavras, orei ergue-se e perguntou quem ela era.
- Sou sua esposa- respondeu a rainha- e este é Dorido, teu filho.
O rei, porém, olhando para suas mãos, disse:
- As mãos de minha esposa são de prata e não de carne e osso.
Ao que ela lhe respondeu:
- Deus misericordioso concedeu-me a graça de fazer com que eu recuperasse as minha mãos naturais.
E o anjo entrou para o quarto e trouxe as que eram de prata, mostrando-as ao rei. Este viu então que se tratava, de fato, da sua mulher e de seu filho. Radiante, abraço-os e beijou-os, dizendo:
- Tirei um peso de minha alma!
O anjo de Deus deu-lhes de comer e , a seguir, retornaram para a casa onde estava a velho avó. Quando chegaram, houve alegria geral e o rei e a rainha tornaram a festejar suas bodas, vivendo satisfeitos e felizes até o fim de seus dias. FIM
Por que te cansas rachando lenha? Eu te farei rico se prometeres dar-me o que está atrás do teu moinho.
" Que outra coisa pode se se não a macieira?", pensou o moleiro, e, aceitando a proposta, comprometeu-se com o desconhecido. Este soltou uma gargalhada e acrescentou:
- Daqui a três anos virei buscar o que me pertence.
- Dito isto, foi-se embora.
O moleiro, ao chegar em casa, foi recebido por sua mulher, que lhe disse:
- De onde nos vem essa riqueza, assim, tão de repente, homem? Todas as arcas e caixotes estão cheios de dinheiro; entretanto, ninguém o trouxe aqui e não posso saber como isso aconteceu!
Respondeu-lhe o moleiro:
- Encontrei um desconhecido no bosque, que me prometeu grandes tesouros. Eu, em troca, lhe prometi o que está atrás do moinho. A macieira bem vale isso tudo.
- Que fizeste, homem? - exclamou a mulher, horrorizada. - Aquele era o diabo, e não se referia à macieira, mas à nossa filha, que estava varrendo o pátio atrás do moinho.
A filha do moleiro era uma moça bonita e religiosa. Durante três anos que se seguiram ao encontro do pai com o velho do bosque, ela viveu sempre fazendo as suas devoções e livre de pecados. Transcorrido o prazo, quando chegou o dia em que o diabo iria levá-la, lavou-se cuidadosamente e, com giz, traçou um círculo em seu redor. O diabo apresentou-se bem cedo, mas não conseguiu chegar perto dela. Furioso, falou ao moleiro.
- Tira-lhe toda água, que se achar a seu alcance, para que ela não possa lavar-se. Do contrário, não tenho poder sobre ela.
Assustado, o homem obedeceu. Na manhã seguinte, o diabo se apresentou de novo, mas a moça, que havia chorado com as mãos nos olhos, estava com elas bem limpas. Mais uma vez o diabo não pode aproximar-se e disse, furioso,ao moleiro.
Corta-lhe as mãos; do contrário não posso levá-la.
Apavorado, o homem respondeu-lhe;
- Como poderei cortar as mãos de minha própria filha?
O outro, porém, o ameaçou:
- Se não fizeres, serás tu quem me pertencerá e te levarei comigo para as profundezas do inferno.
Amedrontado, o pai prometeu obedecer e, dirigindo-se à moça, disse-lhe:
- Minha filha, se eu não cortar as tuas mãos, o diabo me levará. Assim, em meu desespero, prometi o que ele exigiu. Ajuda-me nesta desgraça e perdoa o mal que te faço.
- Meu pai- respondeu ela- faça comigo o que quiser. Sou sua filha.
E, estendendo-lhe ambas as mãos, deixou que as cortasse. Veio o diabo pela terceira vez. Mas a moça, que havia chorado muito com os tocos dos braços apertados contra as pálpebras, acabou deixando-os limpos. O diabo, então, foi obrigado a retirar-se, perdendo todos os direitos sobre ela.
Dirigindo-se logo à sua filha, o moleiro disse:
- Foste a causa de minha fortuna. Viverás com todas as regalias durante a vida inteira.
Mas a moça lhe respondeu:
- Não posso ficar aqui, quero ir embora. Encontrarei pessoas piedosas que me darão aquilo de que necessito.
Pediu que lhe atasse os braços mutilados à costas e quando o sol saiu, ela se pôs a caminho. Andou todo o dia até que anoiteceu. por fim, chegou à frente de um jardim real e, à luz da lua, pode ver que as suas árvores estavam cheias de belos frutos. Não lhe foi possível, entretanto, entrar nele, pois o jardim era cercado por um canal cheio de água. Como tinha andando o dia inteiro sem comer coisa nenhuma, a moça pensou: "Quem me dera entrar entrar aí e comer dessas frutas para não morrer de fome! " Ajoelhou-se e, invocando a Deus, rezou. De repente apareceu um anjo que fechou a represa, fazendo secar o canal. Ela, então, pode atravessá-lo com os pés enxutos e entrou no jardim, acompanhada pela criatura celestial. Ali viu uma árvore carregada de belas peras. Não sabia que elas estavam todas contadas. Aproximou-se e apanhou uma, diretamente com a boca, apenas uma, só para matar a fome. O jardineiro a estava observando, mas, como anjo estava com ela, não se atreveu a intervir, pensando que a moça era um espírito. Assim conservou-se calado, sem chamá-la nem dirigir-lhe a palavra. Depois de ter comido a pera e sentir-se satisfeita, a moça escondeu-se no mato.
Na manhã seguinte, o rei, a quem pertencia o jardim, foi até lá e, contando as peras, notou que faltava uma. Perguntou ao jardineiro o que acontecera, pois a fruta havia desaparecido e nem ao menos em baixo da árvore estava. Respondeu-lhe o homem:
- À noite passada entrou aqui um espírito que não tinha mãos e apanhou a pera diretamente com a boca.
- E como pode atravessar a água? - perguntou o rei. - E para onde foi, depois de comer a fruta?
- Um ser baixou do céu, com um vestido branco como neve, e fechou a represa, para que o espírito pudesse atravessar o canal. E como só podia ser um anjo, fiquei com medo de chamar e indagar qualquer coisa. Depois de comer a pera, o espírito se retirou.
- Se é como dizes- declarou o rei- ficarei de guarda contigo esta noite.
Ao escurecer, o rei foi ao jardim, acompanhado de um sacerdote, que tinha a incumbência de falar com o espírito. Os três sentaram embaixo da árvore, atentos ao que iria acontecer. à meia-noite, a moça saiu do bosque e, aproximando-se da árvore, apanhou outra pera, diretamente com a boca. A seu lado estava o anjo vestido de branco. O sacerdote, então, apresentou-se e perguntou:
- Vens de Deus ou vens do mundo? És um espírito ou ser humano?
E a moça respondeu:
- Não sou espírito; sou uma pobre criatura humana, abandonada de todos, menos de Deus.
Falou-lhe, então, o rei:
- Se o mundo inteiro te abandonou, eu não o farei. E levou-a consigo a seu palácio. Vendo que era linda de rosto e de coração, enamorou-se dela, mandou fazer-lhe umas mãos de prata e a tomou por esposa.
Ao cabo de um ano, o rei foi obrigado a partir para a guerra e, recomendando a jovem rainha à sua mãe, disse-lhe:
- Quando chegar a hora em que irá dar a luz, cuide bem dela e me mande uma carta em seguida.
A rainha teve um lindo filho e a avó apressou-se em escrever ao rei, dando-lhe a boa nova.O mensageiro,porém, fatigado da longa viagem, resolveu descansar junto a um arroio e ali adormeceu. Apresentou-se, então o diabo, sempre disposto a fazer mal à piedosa rainha, e trocou a carta por outra, na qual dizia que ela trouxera um monstro ao mundo. O rei, ao ler a notícia, ficou chocado a profundamente triste; no entanto escreveu, em resposta, que cuidassem bem da rainha até o seu regresso.
O mensageiro voltou com a carta e pôs-se a sestear exatamente no mesmo lugar junto ao arroio. O diabo apareceu, de novo, e substituiu a carta por outra que continha uma ordem para matar a rainha e seu filho. A avó ficou horrorizada e, não podendo acreditar no que lia, tornou a escrever ao rei. A resposta, porém, foi a mesma, pois todas as vezes o diabo trocava a carta no bolso do mensageiro adormecido. Na última, ordenava até que, em testemunho de haver sido cumprida a ordem, guardassem a língua e os olhos da esposa.
A velha rainha, desolada com o pensamento de que fosse derramado sangue tão inocente, mandou que matassem uma gazela; depois, tirou-lhe os olhos e a língua e os guardou. a seguir, chamou a rainha:
- Não posso mandar que te matem como ordena o rei; mas aqui não podes ficar por mais tempo. Vai com teu filho pelo mundo afora e nunca voltes aqui.
Atou-lhe o menino às costas e a pobre mulher partiu com os olhos cheios de lágrimas. Depois de muito caminhar, chegou a uma floresta enorme. Ali, pôs-se de joelhos e rezou a Deus. Apareceu-lhe então um anjo de Senhor e a conduziu a uma cabana onde se lia numa tabuleta: " Aqui todos moram de graça"
Da casa saiu uma moça, branca como a neve, que disse:
- Bem-vinda seja,senhora rainha! - e acompanho-a ao interior da casa.
Desatando-lhe o filho das costas, ela o pôs no peito da mãe para que esta pudesse dar-lhe de mamar.
Depois, deitou-a num berço. Indagou, então a pobre mãe:
- Como sabes que fui rainha?
E a moça lhe respondeu:
- Sou um anjo enviado por Deus para cuidar de ti e teu filho.
A jovem viveu naquela casa durante sete anos, bem tratada e atendida em tudo e foi tanta a sua devoção que Deus, compadecido,fez com que aparecessem novas mãos.
Depois de muito tempo, o rei, terminada a campanha, regressou ao palácio e logo quis ver a esposa e o filho. A velha rainha começou a chorar, exclamando:
- Oh, malvado! Que foi que me escreveste? Madrasta matar aquelas duas almas inocentes! - E, mostrando-lhe as cartas falsificadas pelo diabo, acrescentou: - cumpri tua ordem- e apresentou-lhe, também, a língua e os olhos que ele mandara arrancar.
Desconsolado, o rei chorou, amargamente, pelo triste destino de sua pobre esposa e de seu filhinho. Diante disso, a velha rainha, compadecida, lhe falou:
- Consola-te, que ela vive. Secretamente, mandei matar uma gazela e guardei isto como prova. Quanto à tua esposa , atei-lhe o menino às costas e mandei que saísse pelo mundo e jamais voltasse aqui, já que estavas tão zangado com ela.
Disse, então o rei:
- Sairei a caminhar sem comer nem beber, até que encontre minha esposa e meu filho, se não tiverem morrido de fome e frio.
A seguir, o rei partiu. Vagou durante sete anos, procurando até nas mais escondidas grutas, mas não os encontrou em parte alguma e já estava convencido de que haviam morrido de fome. Durante todo aquele tempo, não comeu nem bebeu, mas Deus manteve com vida. Por fim, chegou a vasto bosque, onde descobriu a cabana com o letreiro: "Aqui todos moram de graça." A moça branca apareceu e, pegando sua mão, o levou para dentro, dizendo:
- Bem-vindo seja, senhor rei! - indagou de onde vinha.
- Em breve fará sete anos - respondeu ele- que ando, errante, à procura de minha esposa e de meu filho, sem encontrá-los em parte alguma.
O anjo foi ao quarto onde se encontrava a rainha com seu filho, a quem ela dera o nome de Dorido, e disse-lhe:
- Teu esposo chegou. Vai com teu filho para junto dele.
A rainha dirigiu-se à sala onde o rei descansava e, vendo que o lenço lhe caíra do rosto, disse:
- Dorido, apanha o lenço de teu pai e cobre-lhe o rosto.
O menino repôs o lenço, mas orei, que o vira, tornou a deixá-lo cair. Impaciente, o pequeno exclamou:
- Mãezinha, como posso cobrir o rosto de meu pai se nem tenho pai no mundo? Aprendi a rezar: " Pai nosso que estás no céu" e tu disseste que meu pai está no céu e é Deus Nosso Senhor. Como queres que conheça este homem? Ele não é meu pai.
Ouvindo aquelas palavras, orei ergue-se e perguntou quem ela era.
- Sou sua esposa- respondeu a rainha- e este é Dorido, teu filho.
O rei, porém, olhando para suas mãos, disse:
- As mãos de minha esposa são de prata e não de carne e osso.
Ao que ela lhe respondeu:
- Deus misericordioso concedeu-me a graça de fazer com que eu recuperasse as minha mãos naturais.
E o anjo entrou para o quarto e trouxe as que eram de prata, mostrando-as ao rei. Este viu então que se tratava, de fato, da sua mulher e de seu filho. Radiante, abraço-os e beijou-os, dizendo:
- Tirei um peso de minha alma!
O anjo de Deus deu-lhes de comer e , a seguir, retornaram para a casa onde estava a velho avó. Quando chegaram, houve alegria geral e o rei e a rainha tornaram a festejar suas bodas, vivendo satisfeitos e felizes até o fim de seus dias. FIM
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