OI. Amigo eu desejo que tu fique bem e com saúde.
Os contos que estou transcrevendo são de livros muito antigos que ganhei de meu querido pai. Quando percebi que eles estavam ficando velhos e amarelados, fiquei com medo de perdê-los. Resolvi então salvá-los para sempre, digitando letra por letra e me envolvendo em cada história. Obrigada pai e mãe, amo vocês! E um obrigada às novas tecnologias que me permitirão salvar meus livros e dar a outras pessoas a oportunidade de se emocionarem com Os Contos de Grimn e Andersen como eu me emocionei.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021
Orígenes Lessa - SHONOSUKÉ Obras primas do Conto Brasileiro
Clemente Vidal deixou o carro à porta do bar e entrou para um rápido aperitivo. Sempre era melhor estar ali à vontade solitário na sua mesa, do que ouvir o matracar odioso e pretensioso dos seus colegas de clubes encharutados e maledicentes. Passeou o olhar preguiçoso pela modéstia do bar, pelos bebedores esparsos, bebendo pelo gosto simples de beber, sem imposições sociais, sem determinismos elegantes.
Surge uma figurinha amarela. Dois traços telegráficos, fingindo olhos. Uma ligeira elevação, com dois furinhos, fazendo nariz. Boca larga e branca, os dentes salientes.
- Retrato, senhor?
Clemente Vidal examinou-o com atenção, enquanto a figurinha estranha, sem colarinho, camisa suja, paletó enrolado, um bonezinho sobre o cabelo pretíssimo,insistia, mostrando uns calungas.
- Retrato,, senhor?
Clemente mediu-o com um sorriso.
- Quanto?
- Cinco mil-reis.
- Faça...
O japonesinho retirou do bolso o crayon, pôs sobre o joelho uma folha de papel, fixou um olhar apertadinho no cavaleiro elegante, e começou a riscar rapidamente no papel fumaça. Um , dois, tês riscos. Zás, zás, zás...Lá saía o homem, com a curva aquilina do nariz, as olheiras empapuçadas, o ar desdenhosos de olhar e sorrir, o charuto grande a ajudar o jeito orgulhosos da boca.
Enquanto riscava, Clemente Vidal o examinava. Era uma figura comum de caricaturista internacional, a cinco ou dez mil-réis a careta, desses vagabundos que se aguentem por qualquer coisa e em qualquer terra, armados com um crayon barato e uma folha barata de papel cartão.
- Gosta, senhor?
Clemente gostou. Pelo preço...Pela extravagância da ideia....Aquilo seria Natural num bar ou num cabaré de Paris ou de Londres. Num de São Paulo, à hora movimentada do triângulo, era uma originalidade sua que havia de ser comentada com sucesso no seu clube...
- Você quer beber?
- Obrigado, senhor.
Ele insistiu. Pôs o japonesinho a seu lado, fez vir um "americano", começou a correr os outros desenhos que ele trazia, como amostra. Curiosos, um traço interessante, uma certa originalidade, uma linha muito pessoal. Quem seria ele? Indagou. O rapazinho informou, sumariamente com um sorriso. Filho de operários. Seis anos de Brasil. Família faminta. Antigo pasteleiro, ex- vendedor de amendoim, aprendiz fracassado de pedreiro, garção sem sucesso. Um grande amor pela arte. Sem estudos, sem dinheiro. Um amigo desesperado dos livros. Um pouquinho de inglês. Um português bastante desenvolto. Leituras. Uma coleção inútil de desenhos. Agora, como artista ambulante, geralmente almoçando e jantando, coisa que muito tempo desconhecera.
Clemente Vidal, interessado, começou a ver na cara sem expressão do rapaz a possibilidade de uma blague(piada) formidável. Riquíssimo, culto, várias viagens à Europa, várias cópulas em Paris, várias bebedeiras em Roma e Veneza. Vidal era um Mecenas em São Paulo. Conhecia e discutia arte. Centenas de quadros e estátuas da sua galeira haviam alimentado muito artista patrício e provocaram a admiração e o espanto dos amigos. Fazia estudar dois cantores pobres em Paris, alimentava e vestia, em Roma, três futuros gênios da pintura indígena. Isso, do seu bolso.À custa do estado, quando senador precoce e preclaro, facilitara os estudos de dezenas de outros, e era olhando como pai da futura arte brasileira, como um animador , como um Médicis ou figurão da Renascença, espantosamente surgido no país da maledicência. Papai Vidal, como o chamavam. Seu nome patrocinava todas as mostras de arte, seu dinheiro financiava concertos, sua palava estimulava os estreantes, sua adega embebedava artistas, críticos e admiradores. Tudo aquilo fora feito a sério. Não estimulava por pilhéria, não animava por blague. Quando falava em arte, estrangeira e mesmo nacional, quando discutia cubismo, dadaísmo, futurismo, surrealismo, coisas da Rússia, de Paris ou da favela, era sempre como entendido, como autoridade, como crente. Mas olhando aquele japonesinho, que devorava muito canhestro as empadas que fizera vir, Clemente Vidal começou a imaginar uma blague, a primeira que se aninhava nos seu cérebro desenhador prematuro. E se lançasse aquele rapaz? E se lançasse mãos daquele garoto para pregar uma peça infinita, um bluff imortal na papalvice incomensurável do público? Vidal sabia, no fundo, que as admirações literárias e artísticas, como as glórias mais incondicionais, são efeito simplesmente da sugestão e do esnobismo.
Ele mesmo admirara assim muita gente e fora forçado a pagar milhares de francos por obras de arte em que francamente nada havia senão uma obrigação esnobe de admirar. Era coisa assinada por fulano,por sicrano. Paris dizia que fulano era gênio. Beltrano clamara, em Roma, que sicrano compendiava e empacotava a história da arte.E lá ele e os outros conhecedores se haviam forçados ao "colosso", "extraordinário", "genial", ao desembolso dos pacotes de liras ou de francos. Um pouco de vaidade pessoal acariciavam ainda o seu pensamento. Ele tinha prestígio. Ele era ouvido. Lançara artistas de valor. Parte por mérito seu, parte maior pelo mérito deles. Mas aquele japonesinho, sem valor pessoal, se ele o fizesse, era obra sua.pilhéria inconfundível.
Sorria, enquanto falava o rapaz. A ideia tomava vulto. Havia de lançá-lo. Dentro de um ano, ele seria famoso, seria aclamado como gênio, venderia quadros por fortunas e então Clemente Vidal contaria a toda gente a extensão e eo sentido da peça que pregara ao público.
- Como se chama você?
- Shonosuké Shini...
- Basta Shonosuké. Não é preciso mais. Escute: Você é um grande artista. Apareça amanhã em minha casa....
Deixou-lhe um cartão e saiu.
Clemente Vidal vestiu o rapaz, fotografando-o antes com os seus trajes miseráveis e, antegozando a pilhéria, chamou três amigos de confiança, contou-lhes os planos expôs a forma de ação, instalou o japonês num " atelieir" e iniciou a publicidade.
Dias depois começaram a sair as notícias. Um jornal da tarde publicava uma longa reportagem romanceada sobre o artista estranho e original que passara fome, que vendera pasteis, que fora garção, mas trazia em si a posse de uma arte vigorosa, fortíssima, pessoal, liberta de todos os moldes clássicos( era tão fácil quem não os conhecia...) diferentes de tudo o que faziam, de Apele a Foujita, com todos os altos e baixo da escala, todos os artistas presentes e passados.
O jornalista era do conchavo. Agia de acordo com o plano traçado. Lançara a coisa como uma reportagem imprevista, cheia de afirmações vagas, sem responsabilidade, falando em coisas gerais,, arte pessoal, ausência de influência clássicas, fuga aos modelos, tradicionais, traço original.
Uma semana depois vinha um crítico. dizia ter visitado o "atelier" de Shonosuké. Não se comprometia também, mas aproveitara a ocasião para desancar violentamente a arte nacional, insinuar perfídias sobre a mulher de um pintor em voga, ridicularizar a Academia Nacional de Belas Artes, e maldizer o público pela sua indiferença das coisas do espírito. Sobre Shonosuká, mesmo, pouca coisa. Mas o leitor desprevenido ficava imaginando que o artista humilde era tudo aquilo que os outros não eram.
O diretor de um terceiro jornal, e terceiro iniciado na tramoia, aceitou logo algumas ilustrações em página nobre feitas pelo rapaz.
Começaram a aparecer as notas de redação, as sugestões aos cronistas desprevenidos, por parte da direção. Na crônica social, na página de arte, nas mundanidades surge o nome de Shonosuké.
Um cronista de coração sensível, sabendo-lhe das horas de fome e da origem humilde, aclamou-o, sem lhe ter visto os quadros, um futuro Foujita, o Foujita brasileiro. O jornal tem grande circulação. O homem tem admiradores. A bobagem é lida. A frase pega.
E Clemente Vidal e seus amigos, de acordo com a combinação prévia, começam a falar com seriedade no pintor, que trabalha com entusiasmo, inspirado e surpreso, produzindo febrilmente.
Dentro de um ano - garantira Vidal - dentro dum ano, Shonoskè será tido como gênio por todo São Paulo...
A profecia prometia realizar-se. Por parte pela sugestão, parte pela necessidade de agradar, toda a imensa confraria da sua galeria de arte e especialmente da sua adega começava a concordar. Comentava-se as ilustrações publicadas. Apresentações assinadas por Vidal abriram ao moço as portas de poucas revistas da cidade. Os representantes das revistas cariocas enviavam para o Rio reproduções de desenhos seus. D. fulana, d. fulaninha, que entendiam de arte, falavam com reserva, mas já falavam no japonês.
- Ele promete...
Quem ouvia dizer " ele promete" ia dizer mais adiante que ouvira: "ele é um colosso".
E os jornais insistindo. E as notas sucedendo-se. E a seriedade dos conjurados. E o japonesinho trabalhando.
@@@
Veio a exposição. Foi um escândalo, um clamor. Vidal ordenara preços altíssimos nos quadros. Os estudos mais modestos custavam seiscentos, oitocentos mil réis. o preço impunha....E, para dar o exemplo, no dia da inauguração Vidal adquiria dois quadros, um de 15 e outro de 12 contos, que o artista, como era natural não cobraria. Mas a notícia correu, a massa acreditou, a exposição encheu-se, os comentários foram rumorosos, a imprensa acorreu, e as notícias, as críticas, as discussões, multiplicaram-se.
- Para o Vidal pagar aquela fortuna...
- Para o jornal dizer aquilo...
Choveram os compradores. Ninguém queria ficar atrás. A galeria de d. fulana, as paredes de d, fulaninha tinham que se ornamentar com outros contos de reis em poucos dias estava tudo vendido. Shonosuké enriquecera espantado boquiaerto sem poder compreender
E as discussões em torno de seu nome. - O jogo das cores na arte de Shonosuké ...Shonosuké e as mulheres...Os coelhos de Shonosuké...O preto e o branco no pincel de Shonosuké...a expressão de sentimentos na obras de um pintor nipônico....Ainda é possível o gênio? - e outros temas e problemas atulhavam jornais e revistas.
Havia detratores, é claro. Artistas, críticos, professores. Mas via-se bem: invejosos, despeitados, passadistas, fósseis, cérebros obtusos, impotentes do espírito, eunucos da arte..
Fulano falava porque nunca vendera um quadro por 500. Aquele outro berrava porque tivera a exposição às moscas. O crítico tal protestara porque não lhe ofereceram dinheiro.
E assim os verdadeiros entendidos se encarregavam de defender a obra do artista imprevisto e vitorioso.
Um ano depois, já não havia mais dúvidas. O Foujita nacional vencera em toda a linha. Não somente São Paulo, todo o país acreditava. Até de Paris o chamavam. Foi quando Clemente Vidal e seus amigos resolveram desmascarar a troça. Contar tudo. Revelar a pilhéria. Mostrar que haviam passado uma peça infinita, memorável, na papalvice do público. provar que pouquíssimos não haviam caído. Mostrar que até Paris fora no conto... Clemente Vidal aguardava com uma volúpia sem nome o dia da revelação, que chegara mesmo a assustá-lo. A glória criada era realmente impressionante. Não ficava bem a um homem como ele, cheio de responsabilidades políticas, respeitado nos meios artísticos, zombar do público- que valia dizer: do seu eleitorado - com uma blague assim. Talvez não ficasse bem. Mas a glória de realizar uma partida assim inédita e o respeito pelo seu nome, que ficaria prejudicado quando se estudasse a obra de Shonosuké, deram-lhe a coragem final para revelar. Havia alguns que não tinham concordado. Esses fariam côro em seu favor, aclamando o seu espírito e vingando-se nos otários. Só d. fulana e d. fulaninha não haviam de gostar, mas essas não gostavam nunca de tudo o que o senador prematuro praticava. Não fazia mal...
@@@
Quando a notícia rebentou, o escândalo chegou a Abalar paredes. Houve gargalhadas, insultos e censuras:
- Isso não se faz...- disse um crítico que caíra...
- Isso é um desrespeito para cm o publico...
Um cabo eleitoral que compara quadros deu um murro noa r:
- E pensar que é um senador. Mas o eleitorado há de vingar-se.
- Coisa mais sem graça...- disse d. fulana.
Mas quem mais se divertiu foram os passadistas, impotentes, fósseis, eunucos e outros pejorativos, de acordo com os que haviam admirado. Vingavam-se agora. Humilhavam os compradores, os apologistas, os ingênuos.
- Passadismo, heim? Impotência, não é?
E um rumor de gargalhadas se alastrava pelos salões elegantes, pelos clubes, pelas redações. Tão grande, que deixou quase despercebido o suicídio do japonesinho, no seu "atelier" abandonado.
@@@
O interessante é que Shonosuké era realmente um homem de gênio.
FIM
Sobre a obra do autor: A espontaneidade e frescura da sua prosa, a agudeza das suas observações, a finura da "verve" e habilidade que punha na fidelidade das suas fotografias instantâneas de pedaços da vida diária.
- 1.entusiasmo e inspiração que animam a criação e o desempenho do artista, do orador, do poeta."a v. de Picasso e de suas obras"
- 2.POR EXTENSÃOgraça ou vivacidade que caracterizam uma personalidade, ou o que ela produz.
- Um pouco mais lirismo para suavizar o realismo descaridoso e a ironia perversa com que impregna quase todos os seus trabalhos. Um pouco mais de mentira à dura e áspera realidade.
- indivíduo rico que protege artistas, homens de letras ou de ciências, proporcionando recursos financeiros, ou que patrocina, de modo geral, um campo do saber ou das artes.
- 1.de origem nobre; distinto, ilustre, insigne."vem de p. estirpe"
- 2.que se distingue pelo mérito, pelo saber; ilustre, notável, famoso.
- "p. mestre"
quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
Monteiro Lobato - Colcha de Retalhos Obras- Primas do Conto Brasileiro
Upa!
Cavalgo e parto.
Por estes dias de março a natureza acorda tarde. Passa as manhãs embrulhada num roupão de neblinas e é com espreguiçamentos de mulher vadia que despe os véus da cerração para o banho luminosos do sol.
A névoa esmaia o relevo da paisagem, desbota-lhe as cores. Tudo parece coado através dum cristal despolido.
Vejo a orla de capim tufada como debrum pelo fio dos barrancos; vejo o roxo-terra da estrada descorar passos adiante; e nada mais vejo senão, a espaços, o vulto gotejante dalguns angiqueiros marginais.
Agora, uma porteira.
Ali, a encruzilhada do Labrego.
Tomo à destra, em direitura ao sítio do José Alvorada.
Este sujeito mora-me a jeito de empreitar um roçado no capoeirão do Bilu, nata de terra que pelas bocas do caeté, legítimo, da unha-de-vaca e da caquera está a pedir foice e covas de milho.
Não é difícil a puxada: com cinquenta braças de carreador boto a roça no caminho.
Três alqueires, só do bom. Talvez quatro. A noventa por um - nove vezes quatro trinta e seis: trezentos e seis: trezentos e sessenta alqueires de oito mãos. Descontados as bandeiras(qualquer trecho do milharal) que o porco estraga e o que comem a paca e o rato.
Será a filha do Alvorada?
- Bom-dia, menina. o pai está em casa?
É a filha única. Pelo jeito não vai além de quatorze anos. Que frescura! Lembra os pés d'avenca viçados nas grotas noruegas(grota fria, onde nunca bate o sol). Mas arredia e itê ( sabor agreste, adstringente, ácido) como a fruta do gravatá. Olhem como se acanhou! D'olhos baixos, finge arrumar a rodilha. Veio pegar água a este córrego e é milagre não se haver esgueirado por detrás naquela moita de taquaris, ao ver-me.
- O pai está lá? - insisti.
Respondeu um 'está" enleado, sem erguer os olhos da rodilha.
Como a vida do mato asselvaja estas veadinhas?
Nota-se que os Alvoradas não são caipiras. O velho, quando comprou a situação dos Periquitos, vinha da cidade; lembro-me até que entrava em sua casa um jornal.
Mas a vida lhes correu dura na luta contra terras ensapezadas e secas, que encurtaram as safras por mais que dê de si o homem. Foram-se rareando as idas à cidade e, ao cabo, de todo se suprimiram. Depois que lhes nasceu a menina , rebento floral em anos outoniços, e que a geada queimou o café novo - uma tamina( ninharia, coisa de nada), três mil pés - o velho, amuado, nunca mais espichou o nariz fora do sítio.
Se o marido deu assim em urumbeva, a mulher, essa enraizou de pião para o resto da vida. Costuma dizer: mulher da roça via à vila três vêzes - uma a batizar, outra a casar, terceira a enterrar.
Com tias casmurrices na cabeça dos velhos, era natural que a pobrezinha da Pingo D'Água ( tinha esse apelido a Maria das Dores) se tolhesse na desenvoltura ao extremo de ganhar medo à gente. Fôra uma vez à vila, com vinte dias, a batizar. E já lá ia nos quartoze anos sem nunca mais ter-se arredado dali.
Ler? Escrever? Patacoadas, falta de serviço, dizia a mãe. Que lhe valeu a ela ler e escrever que nem uma professora se des'que casou nunca mais teve jeito de abrir um livro? Na roça, como na roça.
Deixei a menina ás voltas coma rodilha e embrenhei-me por um atalho condicente à morada.
Que ruinaria!...
Da casa antiga aluíra uma ala, e o restante, além da cumeeira selada, tinha o oitão fora do prumo.
O velho pomar, roído de formigas, sucumbira de inanição; na ânsia de sobreviver, três ou quatro na laranjeiras macilentas, furadas de broca, sopesando o polvo retrancado da erva-de-passarinho, abrolhavam ainda rebentos cheios de compridos espinhos. Fora disso, mamoeiros a silvestre goiaba e araçás, promiscuamente com o mato invasor que só repeitava o terreirinho batido, fronteiriço à casa. Tapera, quase,e, enluradas nela, o que é mais triste, almas humanas em tapera.
Bati palmas.
- Ó de casa!
Apareceu a mulher.
- Está seo Zé?
- Inda agorinha saiu, mas não demora. Foi queimar um mel na massaranduva no pasto. Apeie e entre.
Amarrei o cavalo a um moirão de cerca e entrei.
Acabadinha, a Sinh"Ana. Toda rugas na cara - e uma cor...Estranhei isso.
Doença, gemeu. Estou no fim. Estômago, fígado, uma dor aqui no peito que responde na cacunda...Casa velha, é o que é.
- Metade é cisma - disse-lhe, para consolo.
- Eu é que sei! - retrucou-me suspirando.
Entrementes, surgiu na cozinha uma velhota bem apessoada, no cerne, rija e tesa que me saudou e:
- Está espantado do jeito de Nhana? Esta gente de agora não presta pra nada....Olhe: eu com setenta no lombo não me troco por ela...Criei a minha neta e inda lavo, cozinho e coso. Admira-se? Coso sim!....
- Mecê é gobola porque nunca padeceu doença - nem de dor de dente....Mas eu ? Pobre de mim! Só admiro de inda estar fora da cova....Aí vem o Zé.
Chega o Alvorada. Ao ver-me, abriu a cara.
- Ora viva quem se lembra dos pobres! Não pego na sua mão porque estou assim....È só melado. Bonito, hein? Estava difícil, num ôco muito alto e sem jeito. Mas sempre tirei. Não é jiti, não! É mel de pau.
Depois num mochô a cuia dos favos e se foi à janela lavar as mãos sob a cuia d"água que a mulher despejava. Pôs os olhos no meu cavalo:
- Hoje veio no picaço...Bom bicho! Eu sempre digo: animais, aqui no redor, são este picaço e a ruana do Izè de Lima. O mais é eguada de moenda.
Neste momento entrou a menina de pote à cabeça.
Ao vê-la o pai apontou para a cuia de mel.
- Está ai, filha, o doce a aposta. perdi, paguei.
Que aposta? Ah!ah! Brincadeira. À gente cá na roça, quando não tem serviço, com qualquer coisa se diverte. Vinha passando um bando de maritacas. Eu disse, à toa, são mais de dez! Pingo negou: não chega lá! Apostamos. Eram nove. Ela ganhou o doce. Doce da roça mel é. Esta songuinha só vendo, não é o que parece não!
A loquacidade do Alvorada não desmedrara com o atraso da vida. Em se lhe dado corda, ressurgia nela o tagarela da cidade.
Expus-lhe o meu negócio. O homem enrugou a testa e refletiu um bocado, de queixo preso. Depois:
- Eu hoje, franqueza, não valho mais nada. Des"que caí daquela amaldiçoada ponte do Labrego, fiquei assim como quebrado por dentro. Não escoro serviço, e para lidar com camaradas no eito não basta ter boca. Sem puxar a enxada de par com eles, a coisa não vai, não! Lembra-se da empreitada do ano retrasado? Pois saí perdendo dinheiro. O tranca do João Mina me quebrou um machado e furtou uma foice. Com esses prejuízos não livrei o jornal.
Desde então fiz cruz em serviços alheios. Se inda teimo neste sapezeiro é por via da menina; se não, largava tudo e ia viver no mato, como bicho. È pingo que inda me dá um pouco de coragem, concluiu com ternura.
A velhinha sentara-se à luz da janela e, abrindo uma caixa, pusera-se a coser, de óculos no nariz.
Aproximei-me admirativo.
- Sim, senhora! Com setenta anos!
Sorriu-se, lisonjeada.
- É pra ver. E isto aqui tem coisa! É uma colcha de retalhos que venho cosendo há quatorze anos, des"que |Pingo nasceu. Dos vestidinhos dela, vou guardando nesta caixa cada retalho que sobeja e um dia eu os coso. Veja que galantaria de serviço!...
Estendeu-se ante os olhos um pano variegado, de quadradinhos maiores e menores, todos de chita, cada qual de um padrão.
- Esta colcha é o meu presente de noivado. O último,o retalho há de ser o vestido de casamento, não é, Pingo?
Pingo D"Água não respondeu. Metida na cozinha, percebi que nos espiava por uma fresta. Mais dois dedos de prosa, ruim cafezinho ralo - escolha com rapadura - e,
-Está bem - rematei, levantando-me do môcho de três pernas. _ Como não pode ser, paciência. Apesar disso, acho que deve pensar um bocado. Olhe que este ano se estão pagando os raçados a oitenta mil-réís o alqueire. Dá para ganhar, não?
- Que dá, eu sei que dá - mas também sei para quem, dá. Um perrengue como eu não pensa mais nisso, não. Quando era gente, muitas peguei a sessenta, e não me arrependi. Mas hoje....
- Nesse caso....
Transcorreram dois anos sem que eu tornasse aos Periquitos. Nesse intervalo Dona Ana falecei. Era fatal a dor respondia na cacunda. E não mais me aflorava à memoria a imagem daqueles humildes urupês, quando chegou aos meu ouvidos um zunzum corrente no bairro, uma coisa apenas crível: o filho de um sitiante vizinho, rapaz de todo pancada, furtara Pingo D"Água aos Periquitos.
- Como isso? Uma menina tão acanhada!...
- É para ver! Desconfiem das sonsas....Fugiu, e lá rodou com ele para a cidade- não para casar, nem para enterrar. Foi ser "moça" a pombinha....
O incidente ficou a azoinar-se o bestunto. À noite perdi o sono, revivendo cenas da última visita ao sítio, e disse brotou a ideia de lá tornar. para? Confesso: mera curiosidade, para ouvir os comentários da triste velhinha. Que golpe! Desta feita ia-se-lhe a rijeza de cerne.
Fui
Setembro intumescia gomos em cada arbusto.. Nenhuma neblina. A paisagem desenhava-se nítida até as cabeças dos morros distantes.
Poe amor à simetria, montava eu o mesmo picaço. Transpus a mesma porteira. Atalhei pelo mesma trilha.
No córrego vi, com os olhos da imaginação,o vulto da menina envergonhada, com o pote descansado na lage e toda às voltas com a rodilha. Mais uns passos e a tapera antolhou-se-me, deserta. As três árvores do pomar extinto erma já galhaça ressêca e poenta. Só os mamoeiros subsistiam, mais crescidos, sempre apinhados de frutos. O resto piorara, descambando para o lúgrebe. Ruíra o oitão e o terreirinho pintalga-se de moitas de guanxuma, cordão-de-frade e juás.
- Ó de casa.
Silêncio. Três vezes repeti o apelo. Por fim surgiu dos fundos uma senhora, acurvada e trêmula.
- Bom dia, Nhá Joaquina. Está seo Zé?
Não me reconheceu a velhinha. O Zé fora à vila vender a sitioca para mudar de terra.
Fez-me entrar, logo que me dei a conhecer, pedindo escusas da má vista.
Entrei para a saleta vazia.
- Tem coragem de estar aqui sozinha?
- Eu? Sozinha estou em toda a parte...Morrera-me tudo, a filha, a neta...Senta-se - disse, apontando par ao mocho de dois anos atrás.
Sentei-me com um nó na garganta. Não sabia o que dizer. Por fim:
- O que é a vida, Nhá Joaquina! Parece qeu foi ontem que estive aqui. Apesar das doenças, iam vivendo. Hoje...
A velha limpou no canhão da manga uma lágrima.
- Viver setenta e dois anos para acabar assim!.. Felizmente a morte não tarda. Já a sinto cá dentro...
Confrangia-se-me o coração naquele ermo onde tudo era passado - a terra, as laranjeiras, a casa, as vidas, salvo trêmulo espectro encanecida, cujos olhos poucas lágrimas estilavam, tantas chorara.
- Que mais agora? - murmurou, pausadamente, em vez de quem já não é deste mundo. - Até a " desgraça". eu não queria morrer. Velha e inútil, inda gostava da vida. morreu-me a filha, mas restava a neta que é duas vezes filha e era o meu consolo. Desencaminharam a pobrezinha...Agora, que mais? Só peço a Deus que me tire, logo e logo...
Relancei um olhar pela sala vazia. A caixeta de costura inda estava sobre a arca, no lugar de sempre. Meus olhos pousaram nela, marasmados.
A velha advinhou-me o pensamento e, erguendo-se, tomou a caixa nas mãos trêmulas.
Abriu-a. Tirou de dentro a colcha inacabada, contemplou-a longamente. Depois, com tremura na voz, disse:
- Dezesseis anos - e não pude acabar a colcha... Ninguém imagina o que é para mim esta prenda. Cada retalho tem a sua história e me lembra um vestidinho de Pingo d'Água. Aqui leio a vidinha dela des'que nasceu.
Este, olhe foi da primeira camiseta que vestiu...Tão galantinha! Estou a vê-la no meu braço, tentando pegar os óculos, com a mãozinha gorda...
Este azul, de listras, lembra um vestido que lhe deu a madrinha aos três anos. Ela já andava pela casa inteira, armando reinações m, perseguindo o Romão, que um dia, poe sinal lhe meteu as unhas no rostinho. Chamava-me "-óó Aquina".
Este vermelho, de rosinhas, foi quando completou os cinco anos. estava com ele por ocasíão do tombo na pedra do córrego, donde lhe veio aquela marquinha no queixo, não reparou?
Este cá de xadrezinho foi pelos sete anos, e eu mesmo o fiz, e o fiz de saía comprida e paletó de quartinho. Ficou tão engraçada, feita uma mulherzinha!
Pingo D'Água já saiba temperar um virado, quando usou este aqui de argolinhas roxas em fundo branco. Digo isto porque foi com ele que entornou uma panela e queimou as mãos.
Este roxo, usou-o quando tinha dez anos e caiu de sarampo, muito maozinha. Os dia e as noites que passei ao pé dela, a contar histórias" Como gostava de Gata Borralheira!...
A velha enxugou na colcha uma lágrima, e calou-se.
- E este? - perguntei, apontando um retalho amarelo, para avivá-la.
Pausou um bocado a triste avó, em contemplação. Depois:
- Este é novo. Já tinha quinze anos quando o vestiu pela primeira vez, num mutirão do Labrego. Não gosto dele. Parece-me que a desgraça começa aqui. Ficou um vestido muito assetadinho no corpo, e galante, mas, pelas minhas contas, foi o culpado do Labreguinho engraçar-se da coitada. Hoje sei disso. Naquele tempo de nada suspeitava...
- Este - disse-lhe eu, fingindo recordar-me - é oq eu vestia quando cá estive.
- É engano seu. Era, quer ver qual? Era este de pintas vermelhas, repare bem.
- È verdade, é verdade! - menti. - Agora me lembro, era isso mesmo. E estye derradeiro?
Após uma pausa dorida, a pobre criatura sacudiu a cabeça e balbuciou:
- Este é o da desgraça. Foi o último que lhe fiz. Com ele fugiu...e me matou.
Calou-se a lacrimelar, trêmula.
Calei-me também, opresso dum infinito apertão d'alma.
Que quadro imensamente triste, aquele fim de vida, machucado pela mocidade louca!...
E ficamos ambos assim, imóveis, de olhos pregados na colcha.
Ela por fim quebrou o silêncio.
- Era o meu presente de noivado. Deus não quis. Será agora a minha mortalha. já pedi que me enterrassem com ela...
E guardou-a dobradinha na caixa, envolta num suspiro arrancado ao imo do coração.
Um ês depois morria. Soube que lhe não cumpriram a última vontade.
Que importa ao mundo a vontade última duma pobre velhinha da roça~?
Pieguices....
FIM
(CONTOS PESADOS)
- 1.COSTURA•ALFAIATARIAfita que se prega dobrada à margem de um tecido, para ornar e/ou para evitar que a trama se desfaça; vivo.
- 2.POR EXTENSÃOqualquer espécie de ornamento em forma de filete, ger. de cor diferente, us. para margear uma figura, um desenho etc.
O que é Angiqueiro:
É um tipo de árvore que se chama angico e exitem duas espécies, Angico-branco (Anadenanthera colubrina); angico-vermelho (Anadenanthera macrocarpa).
- 1.diz-se de ou homem rude do campo; camponês, vilão.
- 2.POR EXTENSÃO PEJORATIVOque ou aquele que é ignorante.
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
MARQUES REBÊLO - CIRCO DE COELHINHOS
Isabel, Beatriz dos olhos cor de mel, e Loló e Silvino, na farândola infantil dos meu amores, dançaram com Dodô e dois coelhos.
Sim, dois coelhos. Chegaram numa cesta de tampa em certo domingo morno de novembro, quando na casa de tia Bizuca, onde eu morava e que era o Andaraí, apontavam os ramos do pomar os primeiros sapotis inchados.
São de raça - disse seu Manuel, chacareiro, valorizando o presente que me trazia - Angorás legítimos - mostrava, suspendendo-os pelas orelhas, que ao meu protesto por tamanha barbaridade foi explicado ser o processo usual e correto de se pegar coelhos.
Angorás, ou não, jamais houve coelhos tão queridos, lindos que eu os achava, brancos, peludos, olhos vermelhos, orelhas róseas - dois amores.
Minha vida até aí era um suceder de brinquedos e mais brinquedos, pique, cabra-cega, traquinadas na chácara que subia até o morro, barulhentas correrias nas salas vazia do porão habitável, nem eu podia acreditar que outra fosse a finalidade das crianças. Foram eles, aqueles alvíssimos pompons, que me fizeram ver, além do mundo despreocupado dos folguedos, um outro mundo maior, que o colégio desvendava aos outros meninos - o das obrigações. È que a escola para mim fora suave. Longas as férias, poucas as aulas no pavilhão aberto dos menores, que assistia quando bem queria. Nas mãos inteligentes de D. Judite, maternal, paciente, os métodos modernos dulcificavam asperezas. E havia, sobretudo, a ordem expressa dede titia, que "não puxassem" por mim. Foram eles, repita-se, que me trouxeram a noção das primeiras obrigações, mas, longe de me rebelar contra elas, com que amor e alegria a elas me entreguei! " Está na hora de botar água para os coelhos" - e cataclismo nenhum teria a força de me impedir. Penteava-os, catava-os, levava-os a passear no jardim, roseiras, só roseiras, que no reino das flores eram a paixão de titia; recusava ao Taninho passeios dominicais no automóvel de seu pai, uma Bez, que ficava com eles, móveis fontes dos meus meticulosos cuidados. Um escravo, um escravo, confesso, fiquei das suas necessidades, pequeninos tiranos inocentes.
Não só tirano, também de sábios aventurei chamá-los( advinha-se lá sob tanta brancura quantos segredos traziam) tanto assim que não deixaram parar no mundo as obrigações a série de revelações que a mim, naturalmente, se propuseram, e trouxeram-me o amor.
Amei-o com a ternura dum namorado. Enfartava-os de carícias. Aos meus sôfregos abraços desabava a chuva de protestos de titia: "Você, um dia, acaba matando estes bichos de tanto os espremer". Cobria-os de beijos, deixava-os nos quartos solitários da casa, ignorante das horas em intermináveis conversas com eles, respondendo-lhes coisas como se mas perguntassem. Perdi a realidade, deixei de distingui-los, fundia-os num único coelho, um coelho maior que todos os coelhos jamais vistos, quase do meu tamanho, vivendo como gente, falando e rindo como gente, vestindo-se à marinheira como eu.
Veio com o amor e séquito das suas dores. Que torturadas horas da minha meninice vocês, adorados bicharocos, foram a causa! Amava-os demais para não sofrer com o meu amor. O ciúme fez a sua estreia no meu coração e, feroz me consumia. Também não era para menos: tinha um rival, e de que força, anjos do céu - um rival terrível, Silvino, molequinho de dois anos mais velho do que eu, que tia Bizuca tomara para criar, com três dias apenas, por morte da mãe, preta que, fielmente lhe servindo, gastara sem usura a mocidade.
Se na casa eu tinha o prestígio do sangue, ele mantinha o do tempo, de que se servia com sucesso, principalmente entre a criadagem. " Isso se deu antes do senhor ter vindo pra cá`", diziam-me de quando falavam de acontecimentos passados. " O Silvino é que sabe tudo direitinho".Realmente sabia e, olhando-me de lado, um sorriso zombeteiro que mal se percebia, contava tintim por tintim, detalhado, supérfluo, pois não ignorava que assim fazendo me humilhava. Era o antigo, era, não se podia nega aproveitava-se disso. Defendia-se do intruso, afinal, o intruso que era eu, finório e humaníssimo Silvino.
Terrível rival,astuto como passam a sê-lo os mais, rival da oportunidades esquivas como me lembro dele,agora, os olhos bisbilhoteiros.
Doeu-lhe o presente do chacareiro. Por que não ganhara também! Que fizera eu para merecê-lo? Ele, sim, teria direito. Ajudava o Manuel na chácara, carregando estrume no carrinho de mão, varrendo a estufa das begônias, levando-lhe a comida, regando-lhe as plantas,auxiliando-o na podação sistemática dos ficus Benjamim, tapume verde e compacto que defendia o terreno dos olhos devassadores da vizinhança. Era justo. E fora eu quem recebera o presente, eu , grande patife o Manuel, miserável chaleira, " quando tinha raiva de português não era à toa". Só porque eu era o sobrinho, só. Ah! não ganhara? que importa?! saberia disputar a mim o afeto dos bichos. Saberia e soube. Se, por exemplo, eu lhes dava alface, ele a substituía logo pela que corria a buscar, pois que somente ele conhecia, na horta que não lhe guarda segredos, o canteiro que vicejavam as folhas mais frescas, os grelos mais tenros.
Na luta aberta, tomava o meu partido: era meus, não eram? Pois então, tome, bacurau beiçola, e trazia-os ao colo, dia e noite, não consentindo que ele lhes tocasse com um dedo. " Visse com os olhos!" Afagava-os na sua frente para lhe fazer pirraça: " Meus anjinhos". Que ele sofria, sofria, mas não se dava por achado e sorria-me: " Dia virá", pensava. A paciência foi premiada e o dia veio, negro dia em que tive de ir para o colégio, um colégio diferente, sério, rigoroso, com horários a que não podia fugir, pois como dizia tia Bizuca, já estava um marmanjão, era preciso entrar feio e forte no estudo para ser gente na vida.
Como padeci, Deus o sabe. Intermináveis aulas de seu Silva, que ensinava tudo, menos ginástica, explicando sempre, aborrecidamente, numa lição o que iria tomar na outra. Gramática, geografia, que me importava saber verbos e substantivos, se o mundo era redondo ou quadrado, que me importava, se o meu mundo era os meus coelhos! Seu Silva falava alto, eu, porém, não o ouvia; meu pensamento mergulhava-se na dúvida cruel: que estará fazendo o Silvino com os meus coelhos? Devorava com os olhos impacientes o implacável relógio do corredor, infinito corredor sonoro, com dez janelas para o recreio, pista de astúcia onde os bedéis se exercitavam, surgindo inesperadamente na porta das classes, surpreendendo os desprevenidos alunos faltosos. Que estará fazendo? E os ponteiros não andavam. Perdiam-me n labirinto das conjeturas: estará acarinhando-os, coçando-os, levando-os para pastar no quintal!/....Das problemáticas suposições, seu Silva me despertava:
- "De que é que estou tratando seu Francisco?"
Não sabia. Ganhava castigos.
Em casa, mal chegando, sacola para um lado, um beijo apressado em titia, e corria a vê-los. A brancura dos pelos não guardava a marca das pretas mãos odiadas. Os olhos vermelhos nada denunciavam. Batia-lhes, ciúme furioso. Amedrontava-os, queriam fugir, orelhas caídas, eu os abraçava. quase chorando, com loucura.
No serão da sala de jantar, titia tricotando, eu preso aos deveres passados para fazer em casa, era ele, o bandido, que puxava o assunto para me ferir:
- Eu hoje, sabe, seu Francisco?, fui com os seus coelhos até a padaria.
Eu me mordia:
- É?...
Silvino via que a chaga estava aberta, sangrando e remexia-a, deliciando-se com a minha agonia:
- Ta bom, vou até la embaixo ver se eles estão direitinho - e saía devagar, empurrando as mãos nos bolsos, em esgar de vingança satisfeita no canto da boca.
Meu desespero chegava ao auge. Um pouco mais estourava. A caneta na mão nervosa fazia uma letra mil vezes pior do que verdadeiramente era: pulava palavras na cópia do"Coração", trinta e nove menos quinze davam doze no problema das laranjas.
* * *
Maio plácido, ameno, aio das sinetas tocando para a a benção, pelo tombar das tardes, na capela dos asilo, maio trouxe, na casa de titia, além da muda dos canários, algumas tangerinas temporãs e um infausto acontecimento; a morte de Silvino, atropelado pelo caminhão do gelo, quando fora à praça botar uma carta no correio.
Não morreu logo. Veio berrando lancinantemente nos braços de transeuntes solícitos, o caixiero de venda à frente,abrindo caminho, gesticulando, explicando o acidente.
À noite delirou e o delírio fê-lo autor confesso duma infinidade de malandragens miúdas, tijolos de goiabada furtados da despensa, carreteis de linha que voavam da cesta de costura, colherinhas de prata enterradas no terreiro. Mais ainda, fez aclarar o grande mistério das rosas. É, que, durante meses, diariamente aparecia juncado de pétalas o chão do roseiral, sem que nenhum vento noturno tivesse soprado, destruidor. Como o roseiral era fechado por altos muros, a repetição quotidiana do fro preocupava bastante tia Bizuca, que já aceitava a suposição de D. Marocas Silveira, espírita, que fosse obra de algum espírito gaiato e mistificador. E era ele, Silvino, o vândaço das flores, que possuído de não sei que estranha volúpia, ia, na clada das madrugadas, pois acordava com os galos, ocultamente desfolhá-las, sem que ninguém o papanhasse.
Titia chegou a rir com a inesperada desocberta.
- Ah, gibi sonso, então era você, hein, seu pândego?... Deixe ficar bom que vai ver só....- ameaçou-o.
Ela ignorava a gravidade do acidente. Soube-a no diagnóstico do seco Dr. Gouveia, que abanava a cabeça:
- Nada, minha senhora, nada é possível fazer, além do que está feito. Só um milagre - fratura da bacia interessado seriamente a espinha...- só um milagre!- repetia com um nítido acento materialista.
- Mas doutor...
Ele atalhou, piedoso:
- Vou dar-lhe morfina para que sofra menos.
Titia, então, dedicou-se-lhe toda. Incansável, extremosa, dum lado para o outro, vê isto, vê aquilo, o dia inteiro, velou-o quatro noites, sem pregar olho.
Na quinta noite, seriam onze horas, a lâmpada envolta com um papel pardo, porque ele não suportava a luz. Silvino despertou da pesada letargia que lhe provocara a última injeção:
- Madrinha - sussurrou.
- Que é? Estou aqui - e titia, rápida, saiu da sombra , donde, encolhida num banquinho, ficara insone, vigiando-o.
- Sei. Me dá a sua mão.
Deu-lhe e ele levou-a, dificilmente, aos lábios. Lágrimas escorriam-lhe dos olhos que foram tão redondos e espertos e se mostravam naquele instante, tão esbugalhados e baços.
- Benção.
Titia adivinhou qualquer coisa:
- Que tolice, meu filho, dorme.
Filho? Silvino fez um esforço, procurou a boca que se confessava maternal e repetiu:
- Benção. Estou cansado de sofrer, madrinha.
Apertou-lhe a mão com mais força, apertou-lhe, largou-a bruscamente. A cabeça tombara para o lado da parede,
- Francisco! Alexandrina! Meu Deus! Uma vela!
Todos correram. Titia j[á se encontrava ajoelhada. Caímos de joelhos, també rezando. A vela começou a arder, branca, muito branca, trêmula e brilhante na mão crioula do pequenino morto. Titia soluçava alto.
****
Tia Bizuca, olheiras roxas, marcadas, mais magra, mais acabada, no largo vestido preto, nada poupou para o enterro. " Pobre Silvino? - chorava pelos cantos, entre os braços consolativos das vizinha. A casa se encheu, que o traquinas , muito alegre, muito serviçal, era estimado nas redondezas.
Acompanhei-o ao Inhaúma, no primeiro táxi após o côche, levando no rosto o prazer da novidade, através das ruas que os homens descobriam. Lá o deixei para sempre, na tarde tépida, opalina, sorridente, lá o deixei coberto com rosas, com todas as rosas que o roseiral precioso de titia ofereceu naquele dia, rosas brancas irmãs das que el, por tanto tempo, tão prodigamente despetalara.
Na casa deserta das suas gargalhadas, rascantes, comprimidas -hi,hi,hi- me senti único no amor dos meus coelhos. Pouco, porém, durou a alegria da exclusividade. A falta de concorrência me tirou, talvez, o apaixonado estimulo, talvez o futebol a que , então, me entreguei com ardor, não posso dizer, certo foram ficando abandonados os alvos objetos da minha primeira paixão. Aliás já não se mostravam possuidores da famosa brancura dos passados dias de rivalidade. Sujos, maltratados, vagavam esquecidos pelo quintal, pela horta, onde quisessem, livres, se emporcalhando na lama no pó, no depósito de carvão, pegado ao galinheiro.
Deixei de vê-los, nem mais ia ao quintal. O Manuel quando me encontrava na cozinha, não mudava a chapa
- Seu Francisco está ficando um moço. Não quer saber mais de coelhos - e piscava o olho com sobrancelhas carregadas.
- É, é - respondia confuso e, me esquivando pelo corredor, passei a fugir deles às léguas. Morreram, um dia, cegos; os olhos como contas vistosas perderam a cor, se cobriram de um véu opaco. Morreram, um dia cheios de calombos na barriga, que amedrontavam titia: "Será bubônica, Virgem Santíssima?! Não, era velhice, explicou Manuel que, ao que parece, tudo sabia a respeito de semelhantes animais. Morreram. Titia, penalizada, epserou que também me entristecesse, Como, porém, não sentisse tristeza alguma, procurei esconder-lhe este indício de perigosa insensibilidades:
- Foi melhor assim, minha tia. Coitados, estavam sofrendo tanto.
Titia se afastou:
- Tem razão, meu filho. Foi melhor assim.
No íntimo o que eu sentia era uma completa libertação. A bola era minha ideia fixa. Jogava de "back", jogava mal. jogava como criança, mas jogava.
( TRÊS CAMINHOS)
Usura
- 1.juro, renda ou rendimento de capital.
- 2.ECONOMIA•JURÍDICO (TERMO)contrato de empréstimo com cláusula de pagamento de juros por parte do devedor.
Significado de dulcificar
Tornar doce.
Significado de Bicharoco
substantivo masculinoBicho grande.Bicho asqueroso.
Séquito séquito
- 1.conjunto das pessoas que acompanham outra(s); cortejo que acompanha uma pessoa, ger. distinta, para servi-la ou honrá-la; comitiva.
- 2.ANTIGOação ou efeito de seguir; seguimento.
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