sexta-feira, 21 de julho de 2017

A OBRA-PRIMA - CONTOS DE ANDDERSEN

 No ar rosado da alvorada brilha uma grande estrela, a mais clara da madrugada. Tremulam seus raios sobre a parede branca, como se quisessem escrever ali o que ela pode contar - o que observou durante milênios no nosso globo sempre em movimento.
   Queres ouvir uma de suas histórias?
 Há pouco tempo - nota que esse "pouco tempo" da estrela significa "séculos " para nós - há pouco tempo meus raios acompanhavam um moço artista. Era na cidade dos Papas, na metrópole romana.
   Naquele tempo, como ainda hoje, o castelo imperial era uma ruína. Entre as colunas de mármore derribadas vicejavam figueiras e loureiros, que estendiam sua folhagem sobre as termas destruídas, em cujas paredes ainda hoje se vê o ouro dos ornatos. Também o Coliseu era apenas uma ruína. Repicavam os sinos das igrejas, o incenso exalava seu aroma, procissões passavam pelas ruas, com seus círios acesos, seus esplêndidos baldaquins. Reinava ali a santidade da igreja, e a arte era sublime e sagrada.
   Era em Roma que vivia o maior pintor do mundo, Rafael; era lá que vivia o maior escultor da época, Miguel Ângelo. O próprio Papa rendia homenagem aos dois artistas, honrando-os com a sua visita. A arte era reconhecida, venerada, e também recompensada. E, mesmo assim, nem tudo o que era grande e tinha valor chegava a ser conhecido.
  Numa estreita viela, em uma casa velha, que fora outrora um templo, morava um jovem artista, pobre e desconhecido. Tinha, é certo, amigos, moços como ele, como ele artistas, jovens nos ideais e nas esperanças. Diziam-lhe todos eles que tinha talento, e grande capacidade: mas que era um tolo porque não acreditava no próprio valor. Era um tolo, porque destruía as obras que formava no barro, sem nunca se dar por satisfeito, sem jamais terminar nenhuma delas. E, diziam, era aquilo um erro porque uma obra deve ser vista, apreciada - e paga.
   - Não passas de um sonhador - diziam - e é nisso que está o teu mal: ainda não viveste, não viveste a vida como deve ser vivida. E é justamente na juventude que o Eu deve confundir-se com a vida para que forme um todo uno. Olha o grande mestre, Rafael, a quem o Papa honra e o mundo admira: Rafael não despreza o pão, nem o vinho!
   Quanta coisa não diziam eles! Cada um aquilo que a idade e a imaginação lhe ditavam.
   Queriam convencer o moço artista de que devia acompanhá-los, divertindo-se mais e trabalhando e sonhando menos. E o caso é que ele as vezes se sentia meio seduzido. Tinha uma imaginação robusta, e sabia partilhar também de uma palestra alegre, rir de boa vontade com os companheiros.
    Mas aquilo a que eles chamavam" a vida divertida de Rafael" dissipava-se-lhe do espírito como orvalho da madrugada, quando via o esplendor divino que irradiava dos quadros do grande mestre.
  E no Vaticano, quando se achava diante das estátuas de beleza que há milênios os mestres arrancaram do seio dos blocos de mármore, sentia o peito intumescer-se; e no íntimo do seu ser ouvia alguma coisa elevada, santa, sublime, verdadeiramente boa. Então sentia também o desejo de transformar o bloco de mármore em figuras semelhantes; queria criar a imagem daquilo que se elevava do seu coração, em busca do infinito. Mas...como? E que aspecto lhe daria? O barro dúctil ia-se plasmando ao contato dos seus dedos em belas formas; no dia seguinte, porém, o artista despedaçava, como sempre, o que acabara de criar.
    Um dia, passou por um daqueles ricos palácios que abundam em Roma. Parou diante da ampla entrada. Viu arcadas, ornadas de pinturas, cercando um jardinzinho, em que floresciam as mais lindas rosas, da bacia de mármore, onde murmurava a água límpida, brotavam grandes copos-de-leita, entre as folhas viçosas e verdes. De repente passou um vulto; uma mocinha esbelta, maravilhosamente bela, e tão leve, que antes parecia adejar do que andar. Era a filha daquela casa principesca.
    O artista jamais tinha visto aquela figura de mulher; e no entanto reconheceu-a: pintara-a Rafael, na figura de Psique, num dos palácios romanos. Sim! lá figurava a sua imagem; ela, porém, estava ali, cheia de vida!
    Era aquela que vivia no seu pensamento, no seu coração.
   O artista voltou ao seu humilde cubículo e plasmou a Psique em barro. E surgiu dele a nobre donzela que vira.
   Pela primeira vez olhou satisfeito uma obra de suas mãos. Aquela obra significava muita coisa para o artista: era ela! E quando seus amigos a viram exultaram de contentamento, e disseram que era a manifestação do valor do artista, valor que eles já tinham reconhecido, e que agora seria reconhecido também pelo mundo.
    Mas, diziam também eles, embora aquele barro tivesse vida, representasse a carne, não possuía a brancura e a durabilidade do mármore. Era preciso agora que a Psique adquirisse a vida no mármore, e o artista já dispunha de um bloco precioso que jazia no pátio já anos desde o tempo de seus pais. Estava coberto de cacos de vidro, ervas daninhas, talos de verduras, que lhe iam corroendo a superfície; no interior, porém, aquele bloco tinha a alvura das geleiras, e desse mármore devia surgir a Psique.
     Ora, sucedeu um dia - não que a estrela clara o contasse: ela nada disse do caso, mas nós sabemos como se passou - sucedeu um dia que um grupo de nobres romanos se apresentou naquela pobre ruela estreita. Parou a carruagem à embocadura da viela e os passageiros foram a pé até a casa do jovem artista, para examinar o seu trabalho, pois tinham ouvido falar nele.
   E - pobre do artista! Pobre? Não: Feliz, feliz jovem! Lá estava a nobre donzela. E que sorriso lhe abriu os lábios, quando o pai disse:
   - Mas é tu! És tu, em carne e osso!
  O sorriso não pode ser plasmado, o olhar - o maravilhoso olhar que ela fitou no jovem artista - esse olhar não pode ser fixado. Era um olhar que elevava a alma enobrecia-a...e esmagava-a, ao mesmo tempo.
    - Esta Psique deve ser executada em mármore - disse o opulento aristocrata.
   E essas palavras, que deviam animar o barro morto e o mármore pesado, foram palavras de vida para o moço. E o homem rico continuou:
   - Comprarei o obra, quando estiver terminada.
   Foi como se uma nova era tivesse surgido naquela oficina. A vida e a alegria, irradiavam ali, enquanto o artista trabalhava, num esforço febril. E a brilhante estrela-dalva via o trabalho progredir. O próprio barro parecia animado, desde que ela lá entrara; reproduziu-lhe, sublimada, a beleza das feições. E o artista exclamava, exultante:
   - Agora sim, sei o que é viver! Viver é amar! É o abandono sublime de uma união encantadora com a beleza...O que meus colegas chamam vida é coisa efêmera, bolhas da matéria em fermentação: não é, não poderá ser jamais o puro, o celestial vinho do altar que nos consagra para a vida.
    Foi posto de pé o bloco de mármore. O cinzel arrancou-lhe grandes lascas. Foi medido; marcas e sinais se cruzaram nele; a mão do  artificie desbastou-o, até que, aos poucos, a pedra se foi transformando em um corpo, em um vulto formoso de Nossa Senhora. A pedra pesada tornou-se leve, graciosa, aérea - uma esbelta Psique, com um sorriso de inocência celestial a brincar-lhe nos lábios, tal como se gravara no coração do jovem escultor.
   A rosada estrela da manhã via e entendia perfeitamente o que se agitava no íntimo do moço artista; sabia de luz que  lhe brotava dos olhos, quando estava trabalhando - quando dava forma à inspiração que recebera de Deus.
   E os amigos, encantados, diziam-lhe:
   - Tu és um mestre! Um mestre, como o forma os antigos artistas gregos. Dentro em breve o mundo inteiro há de admirar a tua Psique!
   - A minha Psique! Minha! ...Sim: ela deve ser minha. Sou um artista, como os grandes artistas do passado. Dando-me este dom milagroso, elevou-me Deus à altura da donzela nobre.
   Ajoelhando, chorando, cheio de reconhecimento, orava a Deus; e depois tornava a esquecer-se do Criador por causa da moça, por causa da sua imagem de mármore, daquela Psique que se erguia, como se fosse plasmada na neve, corada pela luz da alvorada.
   Mas ia enfim vê-la; ia vê-la na realidade cheia de vida e de graça; ia ver aquela cujas palavras soavam aos seus ouvidos como uma música. Podia finalmente ir levar ao luxuoso palácio a notícia de que estava terminada a Psique de mármore.
  Entrou. Atravessou o pátio descoberto; e água, murmurando, jorrava da boca dos golfinhos para a bacia de mármore; onde os copos-de-leite estavam em for, e rosas frescas desabrochavam, exuberantes. Pisou no amplo vestíbulo, cujas paredes e teto ostentavam escudos e quadros. Criados cheios de ornamentos, arrogantes e afetados, iam e vinham; outros, ociosos e altivos, espreguiçavam-se nos bancos de madeira esculpida, como donos da casa.
   Explicou-lhes o artista o motivo da visita e foi convidado a subir a escada de mármore polido, coberta de tapetes macios e flanqueada de estátuas. Atravessaram salas pavimentadas de moisaicos esplêndidos, e que guardava ricas telas. A princípio, sentiu-se oprimido diante de tanta pompa, de tanto esplendor; mas passou-lhe logo o assombro.
    O acolhimento que lhe dispensou o velho príncipe foi não somente amável, senão que manifestamente cordial; e, ao despedir-se dele, pediu-lhe que entrasse no gabinete da signora, que teria também prazer em vê-lo. Conduziu-o o criado por suntuosas salas até aquelas em que a própria dona representava o esplendor e a magnificência.
   E a moça falou-lhe. Nenhum misere, nenhum coral teria o poder de lhe comover assim o coração, de lhe elevar alma, como aquela voz! O artista tomou-lhe a mão e apetou-a nos lábios: não é mais macia uma rosa delicada, e contudo, daquela rosa saíam chamas!
   Foi sublime a sensação que teve. E brotaram-lhe as palavras da boca...Que palavras? Nem ele próprio o sabia. Sabe acaso a cratera que vomita lavas em brasa? Confessou-lhe o seu amor eis o que disse.
   Plasmada, ofendida, ali estava ela, com ar escarninho e arrogante, olhando para o artista. Pela expressão do rosto, dir-se-ia que tinha tocado, de inopino, em um sapo frio e viscoso. Corou, mas os lábios ficaram brancos. E aqueles olhos, negros como a treva da noite, despediam chamas.
     - Estás louco? - brandou a moça. - Fora daqui! Some-te, some-te daqui!
   E voltou-lhe as costas.
   O rosto da bela moça apresentava agora a expressão daquela máscara petrificada e coroada de serpentes - a Medusa.
   Descendo a escadaria a cambalear, como se fosse uma massa inerte, inanimada, o artista atravessou as ruas e assim chegou à sua morada. Somente lá despertou, tomando de dor e de fúria. pegou em um martelo e brandiu-o no ar, na intenção de despedaçar a bela imagem de mármore. Nem sequer notara que estava ao seu lado o   seu amigo Ângelo, que lhe segurou firmemente o braço.
   - Louco! Que ias fazer?
   Lutaram, mas Ângelo era mais vigoroso; arfando de fadiga, o jovem artista atirou-se sobre uma cadeira.
   - Que aconteceu? Acama-te e fala, afinal!
   Mas que poderia ele dizer? Que tinha para contar? Compreendeu que Ângelo não poderia destrinçar a meada intrincada do seu caso; resolveu pois nada dizer. Mas o outro continuou:
   - São os teus eternos devaneios, bem sei: eles é que te fazem perder a cabeça!
   E de novo procurou desviar o amigo, agora desesperado, para a sua maneira de levar a vida - uma vida cheia de alegrias e sem preocupações. E tanto insistiu que conseguiu tirá-lo de casa.

   De novo se achava o artista no seu quarto. Sentado em uma cadeira, procurava concentrar-se. De repente ouviu, saídas da própria boca, estas palavras:
   - Miserável! Fora daqui! Some-te daqui!
   E um suspiro, profundo e dolorido, escapou-lhe do peito.
  "Fora! Some-te daqui"! Aquelas palavras, que ela a Psique, a Psique viva, lhe dissera, ecoavam-lhe no coração, ressoavam-lhe nos  lábios. Afundou a cabeça no travesseiro; pouco a pouco foram-se-lhe enevoando as ideias, e por fim adormeceu.
   Acordou de madrugada, sobressaltado. Procurou mais uma vez concentrara as ideias. Que lhe acontecera? Sonhara tudo aquilo? Ou estivera mesmo no palácio do nobre?
   Não! Era tudo realidade, realidade!
   No ar rosado da madrugada tremia a clara estrela, iluminado-o, a ele e à Psique de mármore. O artista estremeceu ao dar com a imagem da beleza eterna. Já não queira contemplá-la: lançou um pano sobre a estátua. Depois tentou retirá-lo, para descobri-la de novo, mas sentiu-se incapaz de olhar para a própria obra.
   E durante o dia permaneceu taciturno, sombrio de tudo alheado, sem se aperceber de nada do que se passava ao redor si.
  Ninguém, entretanto, sabia o que se passava dentro daquele peito humano!
   Correram os dias e a semanas. As noites pareciam-lhe intermináveis. Uma manhã viu a estrela cintilante o artista, pálido, agitado pelos calafrios da febre, aproximar-se da imagem de mármore, afastar o pano que a cobria e deitar-lhe um demorado, um doloroso olhar. Depois, mal podendo com aquele peso, arrastou a estátua para o jardim.
     Havia lá um poço, então seco, do qual apenas restava a cova.
   Lançou nessa cova a Psique. Depois deitou terra sobre a estátua, cobrindo enfim tudo com galhos e urtigas.
   - Fora! Fora!...somete-te!
    Foi o breve necrólogo que concedeu à sua obra.
   No ar rosado da manhã a estrela via tudo. Seus raios refletiam-se, trêmulos, em duas lágrimas, duas grandes lágrimas que deslizavam pelas faces exangues(sem forças) do moço artista, agitado pela febre, mortalmente enfermo. Pelo menos assim disseram, quando ele entrou no hospital.
   Foi visitá-lo, como amigo e como médico, o monge Inácio, que lhe levava o consolo da religião, falando-lhes da paz e da beatitude da Igreja, falando-lhe do pecado dos homens, e da misericórdia e da paz de Deus.
   - Essas palavras caíram como quentes raios de sol sobre um solo em fermentação. Por entre o nevoeiro, o vapor que se erguia do chão brotavam quandros imaginários, imagens que tinham um fundo de realidade. Foi dali, dessas ilhas flutuantes, que ele lançou um olhar sobre a vida humana. Descobriu nela erros e ilusões, tal e qual como se dera consigo.
   É que a Arte é uma bruxa, que nos arrasta para a vaidade, para os desejos terrenos. Somos então falsos - falsos para com nós mesmos, para com os amigos, para com Deus. É a serpente, que está sempre a nos dizer:
   - Come, e serás igual a Deus!
   Só então lhe pareceu que se compreendia a si próprio, que encontrara enfim, o caminho que conduz à verdade e à paz. Sim, é na Igreja que estão a luz e a claridade de Deus; na cela monacal e que existe a quietação, que permite à arvore da vida humana crescer para a eternidade.
   O irmão Inácio fortaleceu-lhe a alma, e firmou-se nele a decisão. E o homem do mundo tornou-se servidor da Igreja; o jovem artista renunciou ao mundo e entrou para o convento.
   Acolheram-no os Irmãos carinhosamente; o sacramento da Ordem foi-lhe conferido em um belo ofício divino de domingo. Parecia-lhe que Deus estava presente, no brilho do sol que se refletia nele, nas santas imagens e na cruz rutilante.
   E quando, ao pôr-do-sol, se achou na sua cela estreita, abriu a janela e lançou um olhar sobre a velha Roma: viu os templos destruídos, o Coliseu, imenso, mas inanimado, e tudo aquilo trajando as roupagens da primavera - as acácias em flor, as sempre-vivas frescas, as rosas brotando por toda a parte; limoeiros e laranjeiras em pompa, palmeiras abrindo os leques...Sentiu-se comovido; sentiu que sua alma se elevava, como jamais o sentira. Aberta e tranquila, estendia-se a campanha até as montanhas azuis, cobertas de neve, e que pareciam pintadas no espaço. Tudo se confundia, tudo respirava paz e beleza, e flutuava, desvanecendo-se - tudo era sonho!
   Sim, naquele lugar o mundo era mesmo um sonho; e esse sonho dura horas, e pode tornar a voltar, horas depois. Mas a vida no convento é uma vida de anos - longos e numerosos anos.
    Mas ele se sentia entregue à misericórdia, por ela elevado; pois então não tinha lançado para longe de si a vaidade deste mundo? Não era um filho da Igreja?
   E os pensamentos, que o assaltavam em um turbilhão, eram como uma bola de neve que rolava, crescia, esmagava-o, apagava-o.
    Mas a força divina que nele vivia não deixava de lutar e de padecer.
   E ele pensava no dom maravilhoso que de Deus recebera, e que deitara fora, deixando inacabada a sua missão. Porque lhe faltara a força necessária para levá-la a termo. E a imortalidade, a Psique que vivia no seu  peito devia ser sepultada, com aquela outra Psique, o melhor raio de luz da sua vida, que jamais havia de ressurgir do seu túmulo!
    A estrela cintilava no ar rosado, a estrela, que há de se extinguir, que há de parecer, enquanto a alma há de viver e brilhar eternamente. Seus raios trêmulos caíram sobre a parede caiada, mas eles não escreveram ali nada que falasse da magnificência de Deus, nem da sua misericórdia, nem do amor universal, que canta no peito dos crentes.
   - A Psique que vive dentro de mim não morrerá nunca! Pode acontecer o inconcebível. Inconcebível sois Vós, ó Senhor! Todo o Vosso mundo é inconcebível: uma obra miraculosa de poder, de grandeza, de amor!
   Brilhavam os olhos do monge...
   E vidraram-se-lhe os olhos.
   Os sinos da igreja repicavam acima da sua cela, e foi este, o último som que ouviu. Está morto.
   Sepultaram-no em terra trazida de Jerusalém, misturado com os restos de piedosos defuntos.

Século depois continuava a estrela clara a luzir, imutável, cintilante, como luzia há milênios. O ar fulgia fresco como as rosas, purpurino como o sangue.
   Lá, onde outrora serpeava uma estreita ruela, e se viam os restos de um templo, esguia-se agora um convento de freiras. Abria-se no jardim do convento uma sepultura para uma jovem religiosa, quando a pá bateu em uma pedra, de alvura ofuscante. Era mármore. E ia apresentando uma forma arredondada; um ombro ia surgindo da terra. Cavando agora com mais cuidado, descobriram uma cabeça feminina, depois umas asas de borboleta. Aberta a cova, em que pretendiam sepultar a jovem freira, revelou-se à luz deslumbrante da manhã uma esplêndida estátua de Psique, esculpida em mármore branco.
  - Que bela e que perfeita! Uma obra de arte, da melhor época! diziam todos.
   Quem seria o seu autor? Ninguém o sabia. Ninguém, a nãos ser a brilhante estrela que fulgurava há séculos e séculos. Essa sim, sabia a história do artista, conhecia-lhe a vida toda, as provações e as fraquezas. E sabia que fora apenas um ser humano.
  Mas ele morreu e se desfizera em pó. O resultado do seu melhor esforço, porém, o que houvera nele de mais grandioso para dar testemunho da centelha divina que seu ser ocultava - esse ficou e foi visto, reconhecido, admirado e transmitido aqui na terra.
   A brilhante estrela-dalva, no ar rosado, iluminou com seus raios cintilantes a estátua, e também os lábios e os olhos dos admiradores, que sorriam contemplativos, ao ver esculpida em um bloco de mármore - uma alma.
















Titarc Amigos, esta é mais um conto longo, preciso de tempo para digitar. lembra da minha paixão pelos meus livros, para glorifica-los estou digitando letra por letra , lendo e relendo, para resgatar o tempo que não os li,.
É um trabalho com sentimento, gosto muito de copiar os contos no meu blog, para eternizá-los.


 

terça-feira, 18 de julho de 2017

A tradição oral gerou os Contos as fábulas os apólogos as parábolas, lendas e os mitos.



os textos de tradição oral são histórias contadas em voz alta por um narrador a um grupo de ouvintes. Essa é uma tradição que data da Pré-História. Até hoje, nas tribos primitivas da África, da Austrália ou mesmo do Brasil, escutar um narrador contando histórias ainda é um costume comum.... A importância social da narrativa oral, cujas finalidades variam de acordo com as circunstâncias, gerou muitas maneiras de contar uma história. Isso criou vários gêneros de narrativas como o conto (popular, maravilhoso, de fadas),... -as fábulas, os apólogos, as parábolas, as lendas e os mitos.... - Por meio dessa diversidade de narrativas, entra-se em contato com ideias que já fazem parte do patrimônio cultural da humanidade. O advento da escrita ajudou a preservar as narrativas da tradição oral, desde as mais remotas, como ... as do Antigo Egito e da Mesopotâmia, até as mais recentes, como os contos de fadas. A importância de conhecer essa literatura é ampliar o nosso conhecimento de mundo e da história do homem. Abrir horizontes para o universo cultural da humanidade é um forma de crescer tanto pessoal quanto profissionalmente. Mas, além de conhecimentos, essas histórias - em especial por sua engenhosidade - também entretêm e proporcionam diversão.... 

Contos infantis
Alguns dos mais importantes pesquisadores dos contos da tradição oral universal foram o francês Charles Perrault (1628-1703), que recolheu várias histórias ainda muito conhecidas, como "Cinderela" e "O Pequeno Polegar", entre outras.Os alemães Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), que ficaram conhecidos como os Irmãos Grimm, dedicaram grande parte de suas vidas a recolher histórias contadas oralmente por pessoas comuns.
Além de escreverem as histórias, os dois estudiosos também registravam o modo como eram faladas, isto é, a linguagem popular de seu país. Finalmente, pode-se citar o dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875) que registrou muitas estórias da tradição oral de seu país. Seus contos, como "A Menina dos Fósforos" ou "A Pequena Sereia" também continuam a fazer sucesso ainda nos dias de hoje. No Brasil, Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) foi um dos mais importantes pesquisadores da nossa cultura popular brasileira. Autor do "Dicionário do Folclore Brasileiro" registrou diversas narrativas populares, imortalizando personagens como o Saci, a Mula-sem-cabeça e o Curupira.

Histórias que o povo conta O adjetivo "popular" significa, segundo o dicionário Houaiss, "relativo ou pertencente ao povo, especialmente à gente comum ". O conto popular, portanto, é uma narrativa de tradição oral que não possui um autor específico, é anônimo, criado em local e época ignorados, e passado através de gerações Por ser constantemente recontado, sofre modificações ao longo do tempo. É comum nessas narrativas a criação de personagens típicos da região na qual a história se originou. É um dos mais antigos gêneros da tradição oral, uma manifestação cultural que surge de modo espontâneo e não tem um compromisso com a cultura formal. O conto popular possui uma riqueza expressiva e imagética e tende a ser universal, isto é, possui simbolismo e uma estrutura narrativa que é facilmente reconhecida e admirada pela maioria das pessoas, sejam adultas ou crianças, pessoas alfabetizadas ou não-alfabetizadas, gente instruída ou pessoas sem acesso à cultura formal, isto é, à escola. Apesar de nascer do imaginário do homem simples e não ter uma vinculação com regras e normas, o conto popular possui particularidades em sua forma de composição. Por exemplo, em geral, os personagens são pessoas simples que, após muitas aventuras,conseguem vencer na vida, por assim dizer. Nestes contos, em geral apresentam-se muitos enigmas e desafios que exigem dos personagens inteligência e esperteza.   É fantástico "Maravilhoso" é algo que sobrenatural, que nos surpreende e encanta e fascina. O conto maravilhoso é aquele que procura tornar concretas e verossímeis histórias cujo caráter derivam para o devaneio e a fantasia. Nestas narrativas, que se passam num tempo que não é real nem especificamente determinado, tudo pode acontecer. Os espaços onde elas ocorrem, em geral, são misteriosos e sombrios, como grutas e florestas. Os personagens principais passam por conflitos e são auxiliados por seres sobrenaturais, com poderes  e capacidades extraordinárias. Esses seres imaginários muitas vezes surgiram dos "Bestiários", livros da Idade Média que reuniam descrições e histórias de animais reais ou fantásticos. O grande escritor argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) fez um bestiário moderno e reuniu muitos seres fantásticos de diversos países. Veja, por exemplo, no breve trecho que segue, a descrição de um dragão chinês:

 Dragão chinês [...] O Dragão Chinês, o lung, é um dos quatro animais mágicos. No melhor dos casos, o dragão ocidental é aterrorizante, e no pior, ridículo; o lung das tradições chinesas, ao contrário, tem divindade e é como um anjo que fosse também um leão.. 

Contos de fada
 Vimos que nos contos maravilhosos a característica principal são as situações sobrenaturais e a presença de seres e objetos mágicos e encantados. Transformações, metamorfoses e ações extraordinárias de um modo geral podem acontecer a qualquer momento da história. Há também um tipo de narrativa maravilhosa nas quais as transformações, em geral, são particularidades de determinados seres encantados, dotados de grandes poderes mágicos. Trata-se dos contos de fadas. As histórias desses contos, em geral, possuem personagens como príncipes, princesas, camponeses, entre outros, que são auxiliados pelas fadas, ou seus similares do sexo masculino, os magos, gênios etc. 

A palavra fada vem do latim fatum que significa destino. Estes seres encantados orientam ou modificam o destino das pessoas. Por serem muito generosos e terem poderes sobrenaturais, eles surgem na "vida" dos personagens nos momentos de grandes dificuldades, quando parece que é impossível superar os conflitos. Nos contos de fadas, como em muitas narrativas literárias, existem episódios ou situações de equilíbrio e desequilíbrio que vão se modificando, de acordo com os acontecimentos que provocam a passagem de um estado para outro. O que prende a atenção do leitor são estas situações de conflitos e as soluções que vão acontecendo durante a narrativa.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

DAQUI A MILÊNIOS - CONTOS DE ANDERSEN Volume 5

Sim! Daqui a milênios, havemos de atravessar o oceano nas asas do vapor, viajando pelos ares. Os jovens habitantes da América visitarão a velha Europa. Farão a viagem por causa dos monumentos e das cidades que, a essa época, estarão já em ruínas - tal qual como nós peregrinamos hoje em busca da           magnificência caduca da Ásia Meridional.
   Sim!  Daqui a milênios eles hão de vir.
   O Tâmisa, o Danúbio, o Reno continuam a rolar as suas ondas. O Monte Branco ainda ergue nas alturas o seu cume coberto de neve. A Aurora boreal resplandece ainda sobre as terras do Norte. Mas gerações se transformaram em pó, uma após outra; séries inteiras de homens, poderosos na sua época, jazem esquecidas...esquecidas como aqueles que dormem no seio da colina sobre a qual o abastado mercador, seu proprietário, senta-se hoje, para olhar a ondulação dos trigais.
   - Vamos à Europa! - gritarão os jovens filhos da América.             - Vamos ver a terra de nossos antepassados, a terra esplêndida dos monumentos e da imaginação! Vamos à Europa!
   Chega a aeronave, repleta de passageiros; a viagem é assim mais rápida do que por mar. Já o frio eletromagnético, que passa por baixo do oceano, anunciou o número de membros da caravana aérea. Já a Europa está à vista. É a costa da Irlanda. Mas os passageiros ainda dormem. Desejam ser acordados somente quando estiverem voando sobre a Inglaterra. Lá, pisarão o solo da Europa na terra de Shakespeare, dizem os intelectuais; no país da política, ou no das máquinas, afirmam outros.
   Ficarão ali um dia inteiro: é o tempo que aquela raça pressurosa pode despender em uma visita à grande Inglaterra e à Escócia.
  E a viagem continua, através do Canal da mancha, em direção à França, a terra de Carlos Magno e de Napoleão. Ouve-se pronunciar o nome de Molière. Falam os sábios em uma escola clássica, da antiguidade remota. Há grande júbilo. Ouvem-se vivas aos heróis, aos poetas e cientistas que aquela idade não conheceu, e que, segundo a tradição, nasceram na cratera da Europa - Paris.
   Voa a aeronave a vapor sobre o país de onde partiu Colombo, onde nasceu Cortés, onde Calderon criou dramas de versos sonoros. Ainda vivem nos vales floridos mulheres encantadoras; e as canções mais antigas falam de Cid e de Alambra.
   Sempre pelos ares, atravessamos o mar em busca da Itália, do lugar onde existiu a velha e e eterna Roma. Roma desapareceu. A campanha é hoje deserta. Da Igreja de São Pedro o que se vê é somente uma ruína solitária, de cuja autenticidade há quem duvide.
   Vamos à Grécia; dormiremos uma noite no hotel elegante, construído no cimo do Monte Olimpo - assim poderemos dizer que estivemos lá. E a viagem prossegue, agora, em direção ao Bósforo; aí repousaremos algumas horas, e veremos o sítio onde existiu Bizâncio. No lugar em que, segundo a lenda, se erguiam os jardins do harém turco, pescadores estendem suas redes.
  Voarão os viajantes sobre os restos de cidades outrora importantes, no caudaloso Danúbio - cidades que o nossa época hoje  ignora, porque ainda não existem. Mas aqui e ali, nos lugares onde há abundância de monumentos, uns que nascem agora, outros que ainda estão por vir aqui e ali, a caravana aérea pousa, para logo tornar a se elevar nos ares.
      Lá está a Alemanha, outrora envolta em densíssima rede de canais e vias férreas.
     Eis a terra onde pregou Lutero, onde Goethe cantou, onde Mozart empunhou o cetro dos sons! Grandes nomes, espalhando brilho nas artes e nas ciências, são citados - mas nós os ignoramos. Um dia de estada na Alemanha, e mais outro no Norte, na terra de Oersted e de Lineu, e na Noruega, país dos antigos heróis e dos jovens normandos.
   No regresso visitarão a Islândia. Já lá não existe o gêiser; apagou-se o Hecla: mas a ilha, como a eterna tábua petrificada da saga, continua a enraizar seus penedos no mar.
   - Há muita coisa para se ver na Europa - declara o jovem americano. - E vimos tudo em oito dias. Não é tão difícil, quando se observam os preceitos do grande viajante, o Sr...- cita aqui o nome de um dos contemporâneos dessa época futura - na sua famosa obra: A Europa inteira, vista em oito dias..
FIM

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O PACTO DE AMIZADE - CONTOS DE ANDERSEN

   Mal acabamos de fazer uma pequena viagem, e já pensamos em efetuar outra, maior. Mas onde iremos? A Esparta, a Micenas, a Delfos! Há centenas de lugares, cujos nomes nos fazem arfar o coração, no desejo de viajar. Escalamos trilhas escarpadas, por entre brenhas e matagais. Nesses lugares, um único viajante parece uma caravana inteira. Ele vai à frente, seguido do agojat. Uma besta de carga leva as malas, a barraca e as provisões. Mais atrás alguns guarda-civis, que formam a escolta de proteção.
   Ao fim da jornada fatigante não encontra o viajante nenhuma estalagem, com uma cama macia à sua espera. Na maioria dos casos. O agojat prepara o jantar - um prato de arroz com galinha, temperado com curry e a que chama pilau. Ao redor  da barraca, dançam milhares de mosquitos, de sorte que a noite é desagradável.
    Amanhã teremos de atravessar rios que as chuva engrossaram...Se a gente não se firma na sela, pode até ser  arrastada pela correnteza.
   Procurei mostrar, em diversos esboços, um quadro que represente Atenas e seus arredores. Mas pobre de mim! Que mesquinho é o seu colorido! Como esse quadro mostra mal a Grécia - esse gênio enlutado da beleza, cuja grandeza e cuja dor o forasteiro jamais esquece!
  Talvez aquele pastor solitário que lá está naquele penhasco, com uma simples narrativa da sua vida, possa abrir melhor os olhos a quem quiser ver, em rápidos traços, o país dos helenos.
   - Deixa-o, pois, falar! - diz a minha Musa.
   Vá lá que seja! Um belo e característico costume pode fornecer ao pastor do alto do monte, assunto para o seu conto.

    " O PACTO DE AMIZADE

    " A nossa casa era toda rebocada de barro, mas os umbrais foram construídos de cubos de mármore, das colunas encontradas naquele lugar. O beiral do teto vinha dar quase no chão. Apresentava agora uma cor parda e feia, mas quando a casa foi coberta, via-se que eram ramos frescos de eloendro e de loureuro, colhidos além das montanhas. Pouco era o espaço que ficava ao redor da habitação: erguiam-se junto dela as paredes íngremes, escuras e nuas dos montes, em cujos cimos se viam quase constantemente pairar nuvens semelhantes a vultos esbranquiçados e viventes.
   " Jamais ouvi ali o canto de um passarinho; jamais vi os homens daquela região dançando ao som da gaita de foles; mas o lugar era sagrado, desde os tempos antigos. Até o nome o indica: chamaram-no Delfos.
   " Os graves montes tenebrosos estavam cobertos de neve. O mais alto, aquele que por mais tempo refletia as cintilações vermelhas do sol poente, era o Parnaso. O ribeiro que passava perto de nossa casa, e que também em tempos idos fora sagrado, descia vertiginosamente do seu flanco: turva-o burro com as patas, mas em breve a água torna à limpidez anterior.
   " Como me lembro de cada recanto da sua profunda e sagrada solidão! Acendia-se uma fogueira no meio da cabana, e quando a lenha estava reduzida a brasas, em um montão, cozia-se nelas o pão. E minha mãe parecia mais alegre do que nunca quando via a neve amontoar-se em redor da cabana. Tomava-me então a cabeça entre as mãos, beijava-me na testa e cantavam cantava aquelas canções que não cantava nunca, porque os turcos - nossos senhores - não as toleravam. E ela cantava:

   " No cimo do Olimpo, no bosque de pinheiros anões, havia um velho cervo.
    " Seus olhos estava arrasados de lágrima. Chorava lágrimas vermelhas, verdes, ou de um azul desmaiado. Passou por ele um veado novo:
    " - Por que choras tanto? Por que choras lágrimas vermelhas, verdes, e até de um azul desmaiado?
   " - É que o turco entrou na nossa cidade, e trouxe cães selvagens, uma grande matilha de cães de caça!
   " - Vou persegui-los por essas ilhas - disse o veado novo. - Vou persegui-los por essas ilhas, e pelo mar a dentro, pelo mar profundo!
    " Mas antes de chegar a tarde, o veado estava morto; e antes de cair a noite, o cervo fora perseguido e degolado!

  "E enquanto minha mãe cantava assim, seus olhos se umedeciam, e uma lágrima lhe tremia nos longos cílios. Mas minha mãe a ocultava, e ocupava-se em cozer nas brasas o nosso pão preto.
    " Eu então cerrava o punho e dizia:
   " - Vamos matar os turcos!
   " Mas minha mãe  repetia o estribilho da canção

    "- Vou persegui-los por essas ilhas, e pelo mar a dentro, pelo mar profundo!
     " Mas antes de chegar a tarde, o veado estava morto; e antes de cair a noite, o cervo fora perseguido e degolado.

   " Passamos muitos dias e muitas noites sozinhos na nossa cabana; mas afinal meu pai chegou. E eu tinha certeza de que me trazia conchas do Golfo de Lepanto, ou quem sabe até se um canivetinho, bem lustroso e afiado! Mas daquela vez trouxera uma criança, uma meninazinha nua, que escondera sob o casaco de pele de ovelha. Estava também envolta em uma pele, e, uma vez retirada de dentro da pele, e deitadinha no colo da minha mãe, tudo quanto possuía era três moedas de prata, amarradas nos cabelos pretos.
   "O pai contou-nos que os turcos tinham trucidado os pais da menina; contou tantas coisas, que sonhei com elas a noite inteira.
    Também ele fora ferido, e a mãe pensou-lhe o ferimento, que era profundo; o sangue secara sobre o espesso casaco de pele de ovelha, endurecido-o.
    " A meninazinha ia ser agora minha irmã. E que beleza radiante, a dela! Não eram mais meigos, os olhos de minha mãe! Sim, Anastácia seria minha irmã. Nossos pais tinham-se unido por um velho costume, que ainda conservamos: fizeram o pacto da fraternidade, e escolheram a moça mais bela e mais virtuosa de toda a região para consagrá-lo.
   "Eu ouvira falar muitas vezes desse belo estranho costume. E agora, a pequenina era minha irmã. Ela ficava sentadinha nos meus joelhos, bem quietinha. Eu colhia flores para ela, e penas das aves dos rochedos. Bebíamos juntos a água do Parnaso. Dormíamos lado a lado, sob o teto de loureiros da cabana, enquanto minha mãe cantava, no inverno, o cântico das lágrimas vermelhas, verdes e de um azul desmaiado. Mas eu ainda não compreendia que era as múltiplas preocupações do meu próprio povo que se refletiam nessas lágrimas.
   " Um dia chegaram três homens, vestido de maneira diferente dos nossos. Eram francônios. Traziam no dorso dos  cavalos camas e barracas, e acompanhavam-nos mais de vinte turcos, todos armados de sabres e fuzis; porque os francônios eram amigos do paxá, e traziam salvo-condutos assinados por ele. Só o que desejavam era ver os nossos montes; e escalar o Parnaso, por entre a neve e as nuvens; e galgar os estranhos penedos escuros; e ver de perto a nossa cabana. Nesta não havia acomodação para eles, e como não podiam também suportar a fumaça que se enovelava lá dentro e irrompia pela porta baixa, aramaram suas barracas no espaço estreito que ficava ao lado. Ali assavam cordeiros e aves, e bebiam vinhos doces e fortes, que os turcos não podiam beber.
    " Quando partiram, acompanhei-os até certo ponto, levando minha irmãzinha Anastácia, segura dentro de uma pele de cabra, e pendurada à costas. Um dos cavalheiros francônios desenhou-nos assim, e no desenho parecíamos vivos. A aparência era a de uma única criatura. Nunca me tinha ocorrido essa ideia, mas o fato é que eu e Anastácia éramos mesmo um único ser: ela estava sempre deitada no meu colo, ou pendente de meus ombros; e quando eu dormia, ela estava sempre nos meus sonhos.
   " Dali a dois dias apareceram outros homens na nossa choça; vinham armados de facões e fuzis, e eram albaneses - homens cheios de audácia, como disse minha mãe. Não se demoraram muito. Minha irmã Anastácia esteve sentada nos joelhos de um deles, e quando se retiraram, faltava uma das moedas de prata do seu cabelo. Aqueles homens enrolavam fumo em tiras de papel e fumavam-no. O mais velho indagou do caminho que deviam seguir, porque estava em dúvidas:---
   " Se cuspo para o ar, na cara me cai; se cuspo para baixo, me fica na barba - disse ele.
   "Mas era preciso escolher um caminho. Partiram, e meu pai acompanhou-os. Logo depois ouvimos tiros e grande barulho. entraram na nossa choça alguns soldados, que nos prenderam a todos, porque os salteadores tinham acampado na nossa casa, e meu pai lhes servira de guia. Vi os cadáveres dos salteadores; vi o cadáver de meu pai, chorei tanto, que adormeci, de cansado. Quando acordei estava na prisão - que não era pior que a nossa choça. Derem-me cebola eu um vinho resinoso, que tiraram de um surrão alcatroado. Em casa, também não tínhamos nada melhor para comer.
   " Não sei quanto tempo estivemos presos, mas creio que passamos ali muitos dias. Quando nos libertaram, era pela sagrada festa da Páscoa. Eu levava Anastácia às costas, porque minha mãe estava doente e tinha de andar muito devagar. Foi longa a caminhada, até que alcançássemos o mar - o Golfo de Lepanto. Entramos na igreja, toda resplandecente de imagens - eram anjos, sobre um fundo dourado. Eram muito lindos; contudo não me pareceu que o fossem mais do que a nossa Anastácia. No centro da igreja estava um ataúde cheio de rosas. Minha mãe contou-me que Nosso Senhor Jesus Cristo jazia dentro dele como uma bela flor. E sacerdote anunciou:
    "- Cristo ressuscitou!
   " E todas as pessoas que ali estavam abraçaram-se. Cada uma tinha na mão um círio aceso; eu também recebi um, e igualmente a pequena Anastácia. Ressoaram então as gaitas de fole; e os homens, de mãos dadas, saíram da igreja, dançando. Lá fora as mulheres assavam o cordeiro da Páscoa. Convidaram-nos, e sentei-me junto da fogueira. Um menino mais velho que eu abraçou-me, deu-me um beijo, e disse:
   "- Cristo ressuscitou!
   " E foi assim que nos encontramos pela primeira vez, eu e Aftânides.
    " Minha mãe era entendida na fabricação de redes de pesca; naquele lugar, junto do mar, esse trabalho dava bons lucros. Assim ficamos muito tempo à beira-mar - à beira daquele belo mar, que tinha gosto de lágrimas, e cujas cores lembravam as lágrimas do cervo - ora vermelho, ora verde, ora azul desmaiado.
    "Aftânides sabia remar; eu estava sentado um dia, com a pequena Anastácia, dentro do barco, que ia deslizando sobre a água como uma nuvem pelos ares. Ao por do sol, tingiam-se as montanhas de um azul mais profundo. As cadeias de picos erguiam-se, umas acima das outras, e lá, na mais distante, via-se o Parnaso, coberto de neve. Ao Sol poente o cimo do monte luzia como ferro em brasa; diria que a luz vinha de dentro, pois muito depois que o sol desaparecera ainda rutilava no ar azul. As brancas aves marinhas roçavam as águas com as asas. E era só aquele ruído que quebrava o silêncio, tão profundo como entre os penhascos de Delfos. Eu, deitado no fundo do barco, tinha Anastácia sobre o peito. Acima de nós já brilhava as estrelas, ainda mais claras que as lâmpadas da nossa igreja. Eram as mesmas estrelas, e ficavam no mesmo lugar, acima de mim, como se ainda me achasse em Delfos, à frente da nossa cabana. Já eu tinha a impressão de estar lá...
    " Nesse instante ouvi o som de um baque na água, e o bote deu uma sacudidela e ficou balançando. Soltei um grande grito: Anastácia caíra à água. Mas, com a mesma rapidez, Aftânides mergulhou atrás dela. Num momento, ergueu-se acima da água e entregou-me a menina. Então nós a despimos, torcemos a roupa da criança e Aftânides fez o mesmo com a sua, depois ambos tornaram a se vestir. Ficamos no barco, até que toda a roupa molhada secasse no corpo; e ninguém soube do susto que passamos por causa da minha irmãzinha adotiva, de cuja vida dali em diante Aftânides também participava.
   " Chegou o verão. O sol era tão ardente que a folhagem das árvores murchou. Lembrava-me dos nossos frescos montes e da água tão fria que lá bebíamos. Também minha mãe tinha saudades da montanha, e um belo dia partimos de volta.
   "Que sossego, que silêncio! Atravessamos campos cobertos de tomilho, ainda cheiroso, apesar de crestado pelo ardor sol. Não encontramos nenhum pastor; não vimos  cabana alguma. Tudo era tão calmo e solitário. Apenas uma estrela cadente lembrou-nos que lá no céu a vida continuava. Minha mãe fez fogo e assou cebolas, que levara. Eu e minha irmãzinha dormimos no meio do tomilho,     sem medo algum do temível Smidraki, o papão grego, que deita fogo pela boca, nem do lobo ou chacal. Minha mãe estava sentada a nosso lado, e para mim era proteção suficiente.
   "Chegamos à nossa antiga morada; mas a cabana era um montão de ruínas, e tivemos de reconstruí-la. Algumas mulheres ajudaram minha mãe, e em poucos dias se erguiam as paredes, cobertas pelo teto de eloendro. Minha mãe tecia estojos para garrafas, de peles e cascas de árvores; e eu guardava o rebanho dos sacerdotes. Anastásia e algumas tartarugas pequeninas eram os meus companheiros de brinquedos.
  " Um dia apareceu o nosso caro Aftânides, que vinha visitar-nos Sentira muitas saudades, e resolvera ir passar conosco dois dias.
   " Voltou daí um mês, e contou-nos que queria viajar; seguiria em um navio que ia a Patras e Corfu; mas antes quisera despedir-se de nós. Trouxera um grande peixe para minha mãe; sabia muitas histórias, não só dos pescadores do Golfo de Lepanto, mas de reis e heróis que tinham outrora dominado a Grécia, como os turcos a dominavam agora.
    "Vi como a roseira deita um botão, e como este em alguns dias desenvolve, e se transforma em flor; e a flor desabrocha antes que eu pudesse pensar quão grande, bela e vermelha seria ela. Assim foi com Anastácia. Era agora uma moça, e eu um robusto rapagão. As cobertas da cama de minha mãe e de Anastácia eram peles do lobo que eu arrancara do corpo das feras, depois de matá-las a tiro.
   " Passaram-se anos. Eis que uma tarde aparece Aftânides - esbelto como um caniço, vigoroso e crestado do sol. Beijou-nos a todos; e contou da vastidão do mar, e das fortificações de Malta, e dos esquisitos túmulos dos egípcios. Tudo aquilo nos parecia maravilhoso, como uma lenda dos sacerdotes; e eu o olhava com uma espécie de reverência.
   " - Quanta coisa aprendeste! - disse-lhe eu. - E como sabes contar!
    " - Mas noutro tempo tu me contaste coisa muito melhor do que tudo isso - respondeu ele. - Contaste uma coisa que jamais me saiu da memória: o belo costume antigo, do pacto de amizade. Gostaria de observar esse costume...Meu irmão, vamos à igreja. Anastácia, que é a moça mais bela e mais pura, consagrará a união. Nenhum povo no mundo tem costumes mais lindos do que nós, os gregos!
    "Anastácia ficou corada, como uma rosa fresca, e  minha mãe abraçou Aftânides.
   " A uma hora de caminho da nossa cabana, naquele penedo coberto de terra fofa, onde se estende a sombra de alguma árvores, erguia-se a igrejinha. Uma lâmpada de prata ardia em frente ao altar.
   "Vesti minha melhor roupa; o saio branco caía-me em largas pregas sobre os quadris. O gibão vermelho ajustava-se ao corpo, sem uma ruga. A borla do meu fêz era de prata, e levava no cinturão, facas e pistolas. Aftânides vestia um traje azul, como usam os marinheiros gregos. Pendia-lhe ao peito uma medalha, com a imagem de Nossa Senhora. Cingia-o uma banda de grande valor, daquelas que só usam os grande senhores. Todos sabiam, ao ver-nos, que íamos para alguma cerimonia.
    " Entramos na pequenina igreja solitária. Os raios do sol poente, penetrando pela porta, iluminavam a lâmpada  acesa e as imagens multicolores, postas sobre fundo dourado. Ajoelhamos nos degraus do altar, enquanto Anastácia se colocava à nossa frente. Um longo e amplo vestido leve e solto, cobria-lhe o belo corpo. Adornava-lhe o alvo pescoço, caindo sobre o peito, uma corrente feita de moedas antigas e novas, que formavam uma gargantilha. O cabelo um pequeno toucado de moedas de ouro e de prata, encontradas nos templos antigos. Nenhuma moça grega possuiu jóias mais belas. O rosto resplandecia, e os olhos eram duas estrelas.
   "Rezamos todos, em silêncio; depois ela perguntou:
   " - Quereis ser amigos para a vida e para a morte?
   "- Sim! - respondemos.
   " - Quereis, suceda o que suceder, guardar sempre na lembrança estas palavras: Meu irmão faz parte de mim; minha felicidade, meu segredo são seus; abnegação, resistência, tudo quanto em mim houver, lhe pertence, tanto com a mim próprio?
   " E nós repetimos: SIM.
    " Ela uniu nossa mãos, beijou-nos a fronte, e tornamos a rezar em silêncio. Então entrou o sacerdote, pela porta que fica junto ao altar, e abençoou-nos a todos. E de lá detrás da parede do altar,       ergue-se um hino, cantando por um coro de homens. E estava concluído o pacto de eterna amizade. Quando nos erguemos, vi minha mãe, que soluçava à porta da igreja.
   " Que alegria reinava na nossa cabana, à margem das fontes de Delfos! Na véspera da partida de Aftânides, estava ele sentado, pensativo, a meu lado, na escarpa do rochedo. Seu braço cingia-me o corpo, e eu o abraçava pelo pescoço. Falamos da miséria da Grécia, e dos homens em quem ela poderia confiar. Cada pensamento íntimo aparecia-nos nitidamente a ambos. Por fim peguei na mão Aftânides:
   " - Há ainda outra coisa que deve saber; uma coisa que até agora só eu e Deus conhecíamos. Minha alma inteira está cheia de amor! Um amor mais forte do que o que sinto por minha mãe e por ti!
   " - E a quem é que tu amas? - perguntou Aftânides, que corara intensamente, até as orelhas, até o pescoço.
  "- Amo Anastácia.
   " A mão dele tremia na minha. Ficou pálido como um morto. Vi isso e compreendi tudo. Creio que minha mão também tremia. Curvei-me para ele, beijei-lhe a fronte, e disse baixinho:
   " - Eu nunca lhe disse uma única palavra. Pode ser que ela não me ame...Lembra-te, meu irmão: vejo-a todos os dias; ela se criou a meu lado: é una com a minha alma!
   "- E ela deve ser tua - disse ele. - Tua! Não, não quero mentir-te! Eu também a amo. Mas amanhã partirei. Daqui a um ano, voltarei, e então estarão casados, não é? Tenho comigo algum dinheiro, fica tu com ele; deves aceitá-lo!
   "Em silêncio caminhamos pelos rochedos. Era noite cerrada quando chegamos à choça de minha mãe. Anastácia ergueu a lâmpada, quando entramos. Minha mãe não estava ali. Ela lançou sobre Aftânides um olhar cheio de uma tristeza maravilhosa, dizendo-lhe:
   " - Amanhã nos vais deixar, não é ? Como isso me entristece!
    " - A ti também? - exclamou ele.
   " E pareceu-me que havia naquelas palavras uma dor tão grande como a minha. Achava-me incapaz de falar; mas ele pegou na mão de Anastácia e disse:
   "- Nosso irmão ama-te. Sei o que ele representa para ti. Seu silêncio é prova do seu amor.
   "Anastácia estremeceu, e seus olhos se umedeceram. Naquele momento eu só a ela via, só pensava nela. Cingi-lhe os ombros com os braços, e disse-lhe:
   " - Sim, amo-te!
   " Abraçando-me, ela uniu a sua boca à minha. A lâmpada caíra ao chão. E ao redor de nós pairavam trevas - como no coração do pobre Aftânides.
  " Ergue-se ele do leito ao romper do dia. Deu-nos a todos o beijo de despedida e foi-se.
   "Entregara à minha mãe o dinheiro que nos destina.
  "Anastácia era minha noiva, e poucos dias depois era minha mulher." 
FIm

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Amigos uma pausa para um breve recado, com muito carinho! Tita



Boa noite à todos os leitores e amigos , lembrando que estou aqui para aprender e dividir, aprender a ler mais, falar e expressar melhor as palavras e dividir gentilezas.  
Aos amigos que passam a noite acordados desejo uma ótima madrugada, no bom silêncio da vida, se criam muitas bos ideias , é tão gostoso. Se pudesse ficaria acordada, lendo , transcrevendo minhas lindas histórias. 
  Amanhã vou transcrever a última história  do volume 4 dos Contos de Andersen meu filho já adiantou. - Mãe tu vais chorar né, quando terminar. Com certeza que vou me emocionar , pois me apego muito a tudo que gosto de fazer.
 Amo tudo isso! Beijos

O GALHO DA SORTE - CONTOS DE ANDERSEN

 Quero agora contar uma história da Sorte. Todos nós conhecemos a Sorte. Há quem a encontre todos os dias; mas há também aquele que somente a veem de anos em anos, e num único dia. E há até quem a tenha visto apenas uma única vez em toda a vida.
   Não há, entretanto, ninguém que não a tenha jamais encontrado; isso não!

   - Não julgo necessário contar - pois que todo o mundo sabe - que Deus manda as criancinhas para o colo das mães. Tanto no castelo dos ricos e na casa abastada, como nos campos desprotegidos, varridos pelos ventos frios. Mas nem todos sabem- e contudo, e indubitável! - nem todos sabem que Deus, quando manda as criancinhas, as dota com um brinde da Sorte. É certo que esse brinde não fica exposto e visível aos olhos curiosos de todo o mundo não!Fica instalado em algum lugar, no lugar onde menos esperaríamos encontrá-lo, e contudo, é sempre achado no momento oportuno, o que vem a ser muito agradável. Pode estar escondido em uma maça, por exemplo, como sucedeu com um sábio chamado Newton. A maça caiu, e ele encontrou nela a Sorte. Se  não sabes essa história, pede a alguém que te conte a história da maça*. Quanto a mim, vou contar outra - a história de uma pera.
   Era uma vez um homem pobre, que nascera na indigência, criara-se na miséria, e casara sem dela se aparta. Era torneiro de profissão, e torneava de preferencia cabos e argolas para guarda-chuva; mas isso mal dava para o sustento de cada dia. E ele costumava dizer:
   - Eu jamais tive sorte...Nunca a encontrei na vida eu podia dizer o nome do país e até do lugar onde morava aquele homem. Mas isso é coisa que não importa à história.
   A casa era toda rodeado de sorveiras( é uma árvore da família das Rosaceae), vermelhas e acres; eram o maior adorno do pomar, mas havia também ali uma pereira, que não dava pera alguma. E contudo, naquela árvore é que estava escondida a Sorte, oculta nas pera invisíveis.
  Uma noite sobreveio terrível tempestade. O jornal até contou que a diligência, tão pesada, fora erguida pelo vendaval e lançada para dentro da valeta, como um farrapo. Imagine-se pois com que facilidade não seriam partidos os galhos de uma pereira!
   Pois um galho partido foi ter à oficina, e, por mera brincadeira, o torneiro tirou-lhe um toro e torneou dele uma grande pera; depois torneou outra igual; depois outra menor, e afinal afeiçoou outras pequeninas.
   Deu as peras às crianças, para que lhes servissem de brinquedo, e acabou dizendo:
   - Ora, afinal aquela árvore tinha de produzir peras mesmo...
   Em uma terra de nevoeiros, o guarda-chuva faz parte das coisas indispensáveis, certamente. A família inteira possuía um só, para o uso comum. Quando o vento soprava com muita violência, o guarda-chuva chegava a se virar do avesso, e as vezes se partia em dois; mas logo o homem o consertava. O pior era o botão que servia para mantê-lo fechado, depois de enrolado: despregava-se com frequência, e a argola que o mantinha também se quebrava facilmente
   Ora, um dia desprendeu-se o botão. O torneiro procurava-o pelo chão quando deu com uma das perinhas menores, das que dera oas filhos para brinquedo.
   - Não acho o botão, mas isto serve.
  Furou então a pera, enfiou-lhe um cordãozinho, e a pera pequenina prendeu perfeitamente a argola partida- e foi aquele, na verdade, o melhor fecho que já tivera o guarda-chuva.
  No ano seguinte, quando o torneiro remeteu cabos de guarda-chuva para a capital, onde eram vendidos os seus trabalhos, enviou também algumas daquelas peras pequeninas, torneada na madeira, e enfiadas em meia argola; e pediu que as experimentassem, a ver se agradara,. Assim foram elas ter à America. Lá viram logo que a perinha fechava muito melhor do que qualquer outro botão, e daí resultou que pedissem ao fornecedor que dali em diante todas as remessas de guarda-chuva trouxessem uma perinha no fecho.
  É claro que aumentou muito o trabalho. Peras, peras aos milhares! peras de madeira em todos os guarda-chuvas!
   O torneiro tinha muito que fazer. Torneava sem cessar. Toda a pereira se desfez em perinhas. E entravam os xelins, entravam os ducados.
  - Pois a minha Sorte estava escondida na pereira- dizia o homem.
  Possuía agora uma grande oficina, tinha oficiais e aprendizes. Andava sempre muito contente, e costumava dizer:
   - A Sorte pode bem estar escondida em um galho!

  E eu, que contei a história, digo o mesmo.

   Lá diz o rifão: "Põe na boca um galinho branco e ficarás invisível." Mas há de ser o galinho apropriado, o que Deus nos destinou, como brinde da Sorte.
   Eu o achei; e, como aquele homem, posso extrair ouro, ouro fulgurante, o ouro mais puro que existe, aquele que resplandece nos olhos das crianças, e lhes canta na boca, e que também brilha nos olhos dos pais, quando lêem as histórias, e eu estou na sala, entre eles, mas invisível - porque trago na boca o galinho branco.
   E quando percebo que a história que contei lhes traz alegria...então também eu digo:
   - A Sorte pode esconder-se em um galho! Fim






A MENINA JUDIA - CONTOS DE ANDERSENN


Na escola das crianças pobre, entre os outros alunos, achava-se sentada uma menina judia.
   Era uma criança boa e viva, e a mais atilada de toda a classe. Mas tinha de ser excluída de uma aula: não podia tomar parte na lição de religião, porque a escola era cristã.
   Durante aquela aula podia ela abrir o seu compêndio de geografia, ou resolver o problema do dia seguinte. Mas terminado este, e sabida também a lição de geografia, deixava o livro aberto e punha-se a escutar. Ouvia, silenciosa, as palavras do professor cristão; e ele não tardou em notar que ela prestava mais atenção do que as outras crianças.
  - lê o teu livro, Sara - disse um dia o professor com voz branda, mas firme.
   Contudo os olhos da menina, aqueles olhos pretos, tão brilhantes, continuavam fixos nele. e quando um dia lhe fez uma pergunta, viu que Sara sabia responder, e gravara profundamente no coração tudo quanto ele dissera.
   Seu pai era um homem pobre e honesto; ao matricular a menina, impusera a condição de que ficaria excluída do ensino religião cristã. Contudo, para evitar que surgisse alguma perturbação ou alguma dificuldade entre as outras crianças, não a afastavam da classe durante essas lições, permitindo-lhe que ficasse na sala. Agora porém, aquilo não podia continuar assim.
   O professor foi falar com o pai e explicou-lhe que devia retirar a menina daquela escola, senão corria ela o risco de se tornar cristã. E declarou:
   - Já não posso contar como espectadores indiferentes aqueles olhos radiantes da menina; ela demostra grande fervor, e uma alma sedenta das palavras do Evangelho.
   Derramando lágrima, o pai respondeu:
  - Eu mesmo seu muito pouco acerca dos preceitos dos meus antepassados. Mas a mãe de Sara era uma filha de Israel, jurei-lhe que nossa filha nunca se batizaria. Tenho de cumprir o meu juramente, que para mim vale uma união com Deus!
   E a menina judia saiu da escola dos cristão
     Correra anos.
   Em uma cidade pequenina da província, servia numa casa humilde uma pobre moça israelita. Tinha cabelo preto como o ébano e olhos escuros como a noite; mas eram tão cheios de brilho e de luz como costumam ser os olhos da filhas do Oriente. Era Sara. Conservava no rosto aquela mesma expressão da criança que sentava na carteira da classe a escutar, pensativa, as palavras do professor cristão.
   Todos os domingos o som do órgão da igreja e do canto da congregação atravessava a rua e inundava a casa onde a moça judia, em tudo diligente e fiel, se entregava aos seus trabalhos. Uma voz interior dizia-lhe: " Guardarás o sábado." Era a voz da Lei. Mas o seu sábado era para os cristãos um dia útil, e aprecia-lhe que aquilo não bastava. E do íntimo da alma subia uma pergunta:
   - Deus também contará os dias e as horas?
    E depois que essa ideia lhe ocorrera, consolava-se ao pensar que a hora da oração era menos perturbada no domingo dos cristão. E então, quando  entravam pela cozinha onde trabalhava os sons do órgão e dos hinos, até aquele lugar se tornava sagrado para ela. E punha-se a ler naqueles instantes o Velho Testamento, tesouro e esteio de seu povo - mas lia somente o Antigo. O que lhe haviam dito o pai e o professor, quando ela deixou a escola, o juramento que o pai fizera à mãe agonizante - que a filha jamais receberia o batismo cristão, que ela nunca renegaria a fé dos antepassados - tudo isso permanecia gravado no íntimo da alma. O Novo testamento devia ser para ela um livro selado; e contudo sabia tanta coisa daquele livro! O Evangelho ecoava-lhe na alma, justamente com as lembranças da infância.
   Uma noite estava sentada a um canto da sala; o patrão lia em voz alta, e ela podia escutar tranquilamente, pois ele não lia o Evangelho, mas um velho livro de histórias. Tinha pois o direito de ouvir a leitura.
   Contava o livro, a história de um cavalheiro húngaro que fora feito prisioneiro por um paxá turco. O paxá mandou jungir o prisioneiro ao arado, juntamente com os bois, e ordenou que o açoitassem e torturassem, em meio de zombarias, até que caísse de inanição. A esposa leal do cavalheiro vendeu sua joias, penhorou o castelo e as terra; os amigos do cavalheiro reuniram grande somas - pois o resgate exigido era uma quantia quase astronômica. Conseguiram, porém, reuni-la e o cavalheiro foi resgatado da escravidão e da ignomínia. Enfermo e combalido chegou à pátria; mas logo atroou os ares um chamado geral, para o luta contra o inimigo da cristandade. O cavalheiro ouviu o chamado, e nada pode retê-lo. Não descansou um só dia. Ordenou que o montassem no seu cavalo de batalha. Voltou-lhe a cor às faces; parecia que recuperara as forças perdidas, quando partiu para o combate, para a vitória.
    E aquele mesmo paxá que mandara atrelá-lo à charrua caiu-lhe nas mãos, prisioneiro, e foi encarcerado nas masmorras do castelo. Mas menos de uma hora depois, lá ia o cavalheiro falar-lhe:
   - Sabes o que te espera?
  - Sim, a tua vingança.
   - É verdade, mas é a vingança de um cristão. A doutrina do Cristo manda-nos perdoar io inimigo, pois Deus é amor. Vai-te em paz! Parte para a tua terra! Devolvo-te aos teus. Mas daqui em diante procede com humanidade e brandura com os que padecem!
   Ouvindo aquelas palavra, o prisioneiro rompeu em pranto e exclamações:
   - Como poderia eu imaginar que havia no mundo tamanha brandura? Estava certo de que me esperavam tormentos ignominiosos, por isso tomei o veneno que trouxe escondido. Dentro de poucas horas sucumbirei ao seu efeito. Tenho de morrer, não há salvação. Mas antes de morrer desejo que me comuniques a doutrina de que dimana tamanha abundância de amor e de clemência, porque deve ser grande e divina! Deixa-me morrer nessa doutrina, como um cristão!
    E foi feita a sua vontade.

Essa era a lenda que o patrão leu no velho livro de histórias. Todos a escutavam com grande interesse. Mas a que lá estava sentada, em silêncio no seu canto, essa sentia-se inflamada. Grossas lágrimas inundavam-lhe os negros e brilhante olhos. E ali ficou, piedosa e simples, como outrora na carteira da classe, sentido e magnitude do Evangelho, enquanto as lágrimas lhe iam correndo pelas faces.
  Contudo, as últimas palavras da mãe agonizante tornaram a lhe soar dentro do coração:
   "Não permitas que minha filha se torne cristã!"
    E com elas soava também o mandamento:
  "Honrarás pai e mãe!"
    - Não, eu não sou admitida na comunidade dos cristãos - disse ela consigo. - Chamam-me"judia suja". Os meninos do vizinho assim disseram no domingo, quando fiquei parada diante da porta aberta da igreja, vendo os círios chamejarem e ouvindo o canto da congregação. Desde os tempos da escola experimento o poder do Cristianismo, um poder que se assemelha a um raio de sol; por mais que eu cerre os olhos, ele me ilumina o coração! Contudo, não te magoarei no teu túmulo, minha mãe. Não faltarei ao juramento que meu pai fez: não lerei a Bíblia cristã. tenho o Deus dos meu antepassados e ficarei com Ele..
              ***
   Mais uma vez correram anos.
   Morreu o patrão. A viúva fico sem recurso. Queriam despedir a criada, mas Sara não abandonou a casa. Foi um esteio, na miséria; mantinha tudo em ordem, trabalhava até altas horas da noite, ganhando com o seu esforço o pão de cada dia. Não apareceu nenhum parente para ajudar a família, e a viúva ia ficando cada vez mais fraca, e passou na cama meses inteiros. Sara trabalhava e também ia sentar-se ao pé do leito da enferma, dela cuidando, e velando por tudo. Era boa e piedosa - era um anjo de benção, naquela pobre casa.
   Um dia a doente disse-lhe:
    - Ali está a Bíblia, sobre a mesa, Sara. Lê-me um pouco...A noite me parece tão longa, tão longa...e meu coração tem sede da palavra de Deus.
   E Sara, curvando a cabeça, pegou no livro. Uniu as mãos em torno da Bíblia dos cristão, abriu-a e leu para a doente. A cada passo sentia os olhos rasos de lágrima; mas eles luziam e                 cintilavam, enquanto no seu coração ia fazendo-se a luz.
   - Mãe! - disse ela baixinho. - Tua filha não deve receber o batismo dos cristãos; não deve ser recebida na comunhão dele. Assim o determinaste, eu hei de honrar a tua vontade. Quanto à vida neste mundo, estou de acordo contigo. Mas para além desta terra, mais além, existe uma união mais sublime, em Deus, que nos conduz e guia para além da morte. Assim o compreendo. Não sei mensmo como foi que aprendi a compreender, mas foi por intermédio de Cristo.
   Estremeceu ao pronunciar  o nome sagrado, e desceu sobre ela um batismo, como se fossem labaredas de fogo, que se  apoderava de todo o corpo. Ela torcia-se em convulsões; os membros perdiam a força. Caiu desmaiada, mas fraca do que a enferma que estava cuidando.
   - Pobre da Sara! - diziam todos. - Está exausta pelo trabalho e pelas vigílias.
    Levaram-na para o hospital dos pobres. Lá morreu, e foi levada, para o túmulo - não no cemitério dos cristãos, onde não havia lugar para a moça judia. Foi enterrada fora do muro.
   Mas o sol de Deus, que brilha sobre os jazidos dos cristãos, lança sua luz também sobre o túmulo da judia, lá fora, junto do muro. E quando ressoam os salmos no cemitério cristão, vão eles ecoar também por sobre o túmulo solitário.
   Também àquela morta destina-se o chamado da ressurreição, em nome de Cristo, Nosso Senhor, que disse aos seus discípulos:
   " João certamente batizou com água: mas vós sereis batizados com o Espírito Santo." FIM

   

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O SAPO - CONTOS DE ANDERSEN

   A Família Sapo morava no poço. O poço era profundo, por isso a corda tinha de ser muito comprida, e quando a roldana içava o balde cheio até o bocal, ia girando lenta e penosamente. Era clara a água; mas ainda assim o sol nunca podia refletir-se nela, nem mesmo quando estava a pino. Mas até onde chegava a sua luz, viçavam as avencas pelas juntas das pedras que forrava o interior do poço.
   No fundo morava a família de sapos. A dizer aquela gente aparecera lá inesperadamente: gerara-a a mãe-sapo, que ainda vivia. As rãs verdes que residiam ali há muito mais tempo, nadando na água do poço, reconheciam que os sapos eram seus parentes, e chamavam-nos"os hóspedes do poço". Mas o caso é que eles tencionavam ficar por ali, pois era agradável viver em um lugar seco, como chamavam às pedras úmidas.
    A mãe-sapo tinha feito uma viagem, um dia em que entrara no balde quando o puxavam para cima; mas achara a luz muito forte para os seus olhos, que começaram a arder, e tornou a cair no poço, espanando água. Foi uma queda horrível, que a deixou três dias deitada, com dor nas costas.
   Não poderia, na verdade, contar muita coisa da vida lá em cima; mas sabia agora, e toda a sua família ficou sabendo também, que aquele poço não era o mundo inteiro. Talvez soubesse mais alguma coisa, mas a mãe-sapo não gostava que a interrogassem; e como não respondia às perguntas que lhe faziam, acabaram todos por não lhe perguntar mais nada.
   - Como ela é gorda, barriguda e feia! - diziam as rãs.
   E perguntaram-lhe:
   - Teus filhos são assim como tu?
  - Talvez, mas um deles há de ter uma joia na cabeça - se é que não a tenho eu mesma!
   As rãs verdes ouviam-na de olhos arregalados, e, não tendo gostado da resposta, mergulharam na água, fazendo caretas. Mas os sapinhos esticavam as pernas traseiras, cheios de orgulho: cada um supunha que tinha consigo a joia preciosa, e ficavam todos imóveis, sem mover a cabeça. Afinal perguntaram que coisa era aquela, de que tanto se orgulhavam; e em que consistia uma pedra preciosa.
  É uma gema que enche de prazer a quem a carrega, e que irrita os outros. E não me perguntem mais; não poderei responder-lhes.. E não me perguntem mais; não poderei responder-lhes.
   - É claro que a gema não me tocou - disse o menor dos filhotes, que era a criatura mais feia que se possa imaginar. - Como havia eu de possuir uma coisa tão maravilhosa? Mas ela só serve para aborrecer os outros, não me pode dar alegria. Não! O que me deixaria contante era se pudesse subir até a beira do poço, nem que fosse uma única vez, para dar uma olhadela. Lá, por fora, há de ser tudo muito bonito...
   - É melhor que fiques aqui mesmo - disse a velha. - Conheces todos os habitantes, e sabes onde pisas. E olha lá: cuidado com o balde! Mesmo que consigas entrar nele a salvo, podes cair, e nem todos os que sofrem uma queda poderão gabar-se como eu, que saí com os membros e os olhos intatos.
   - Coaxe! Coaxe! - disse o fedelho.
   E aquilo queria dizer: "pois é mesmo!"
    Mas tinha sempre uma ardente desejo de subir ao bocal e dar uma espiadela; queria ver as coisas verdes que havia lá fora. E no dia seguinte, bem cedo, quando içavam o balde já cheio, aproveitou um instante em que este parou pertinho da pedra em que estava sentado e pulou para dentro. Subiu assim, e quando chegou lá fora, foi atirado longe.
   - Apre! - disse o criado que puxara o balde, ao ver o sapo. - Nunca vi coisa tão feia!
   E com o tamanco deu tamanho pontapé no sapinho, que quase o deixou estropiado. Mas conseguiu escapar, e meteu-se numa moita de urtigas que havia junto ao poço. Enxergou diante de si um mar de hastes erguidas, olhou para cima e viu o sol, que brilhava sobre as folhas transparentes. Sentia naquele momento o mesmo que sente um homem, quando entra num grande bosque onde o sol penetra por entre a ramaria.
   - Acho isto muito mais bonito que o poço...Aqui sim, seria bom viver toda a vida! Ficou deitado ali mais de uma hora. Por fim disse consigo:
   - Mas que haverá lá fora? Já que cheguei até aqui, devo ir mais adiante.
         Arrastando-se o mais depressa que pode, foi andando até a estrada real, onde o sol refulgia, e o pó redemoinhava no ar, quando ele ia rastejando.
   - Afinal, vejo-me em lugar seco
   E foi andando para a valeta, onde vicejavam o miosótis e a grinalda-de- noiva; mas além viu ele uma moita  de pilriteiros. Havia também sabugueiros e trepadeiras de flores alvas - enfim, ali havia flores de todos os matizes. Avistou uma borboleta que esvoaçava, e pensou  que era uma flor que se soltara da haste, para ver melhor o mundo.
   - Se ao menos eu pudesse andar assim pelo ar! Coaxe! Que maravilha!
   E ficou morando oito dias e oito noites naquela valeta, onde não escasseavam os alimentos. Mas no nono dia, disse consigo:
   - Vamos! Avante! Ainda posso achar mais coisas belas por aí além!
   Mas que poderia achar de mais lindo e mais grandiosos? Talvez algum sapinho, alguma rã verde...
   Na última noite chegaram-lhe aos ouvidos certos sons, e desconfiou que, por ali perto, poderia encontrar algum parente próximo.
   - Que maravilha é a vida! Que bom foi ter saído daquele poço, e ficar deitado entre as urtigas...e andar rastejando pela estrada poeirenta! Mas vamos! Quero ver se encontro alguma rã ou algum sapinho, que é de companhia que agente precisa: só a contemplação da natureza não basta, não!
   E recomeçou a andejar. Chegou assim a um campo onde havia um grande açude cercado de juncos, e foi entrando na água.
   - Bem-vindo sejas por estas águas! - disseram as rãs. - Vais achar a região muito úmida, certamente. És uma dama ou um cavalheiro? Com tamanha feiura, torna-se difícil adivinhar quem sejas! Mas pouco importa: Se bem-vindo, do mesmo jeito!
   À noite, foi convidado para o concerto - um concerto em família, em que, como de costume, era grande o entusiasmo e pequenas as vozes. Não havia senão água para beber, mas essa era oferecida em vastas proporções.
   Acaba a festa, o sapo declarou:
   - Vou continuar a viagem. Desejo ir adiante!
    É que ansiava sempre por alguma coisa melhor. Via cintilarem as estrelas, tão altas e tão claras. Via a lua nova, tao brilhante. Via erguer-se o sol, e subir, mais alto, mais alto, cada vez alto...
   - Quem sabe se ainda estou no poço? Mas agora é um poço muito mais vasto. Preciso subir, subir mais ainda!
   E quando a lua se enchem, e ficou bem redonda, pensava ainda  a pobre criaturinha:
   - Será o balde que está descendo? E terei de entrar dentro dele para subir mais alto? Ou o balde é aquele sol tão grande? Naquele, todos nós podemos caber, e não quero perder a ocasião. Que grande e brilhante ele é! E que fulgor! Que luz direta sobre a minha cabeça! Nema gema poderia ser mais rutilante! Mas eu não a obtive...Ora, não vou chorar por isso! O que vou fazer é subir ainda mais, sim mas também tenho medo: é um passo difícil...Mas hei de ir para a frente! Para a frente!
    E lá se foi, rastejando; chegou por fim à estrada real, onde ficavam as moradas dos homens, cercadas de hortas e jardins. E parou para descansar.
   - Quanta criatura diferente há sobre a terra, que eu nem conhecia! E que vasto, que belo é o mundo! E que alegre! Mas tenho de ver tudo o que há nele: não posso ficar parado no mesmo lugar.
   E de um salto entrou numa horta.
   - Como é verde! Que coisa linda!
   - Bem sei - disse a lagarta, encarapitada em uma folha de repolho - a minha folha cobre a metade do mundo, mas nem preciso mesmo da outra metade...
   - Cró! Cró! Cró!
   - E as galinhas entraram na horta, aos pulinhos. A que vinha à frente tinha muito boa vista, e deu logo com a lagarta deitada na folha crespa. Deu-lhe uma bicada, e ela caiu ao chão, onde ficou estorcendo-se. A galinha olhou-a, primeiro com um olho, depois com o outro, porque não sabia em que iria dar tanta contorção; depois disse:
   - Parece que ela está com más tenções!
   Levantou então a cabeça, para engolir a lagarta; o sapinho levou tamanho susto, que se arrastou para o lado da ave, que exclamou, admirada:
 - Ora essa! Pois não é que a lagarta tem seus guarda-costas? Olhem aquilo que vem ali! Mas eu é que não vou comer aquela coisinha verde, não! Isso só serviria para arranhar a garganta!
   As outras galinhas foram da mesma opinião , e assim deram volta imediatamente.
   - Afinal, consegui livrar-me! - disse a lagarta. - Não há nada como a gente ter presença de espírito! Mas ainda falta o mais difícil: voltar à minha folha de repolho...Onde fica ela! 
     Foi então que o sapinho se aproximou para dizer à lagarta que lamentava muito o susto porque passara, mas que estava contente por ter espantado as galinhas, que fugiram da sua feiura.
    - Ora essa! Mas que estás pesando? Eu é que me livrei do bico da galinha! É verdade que és mesmo muito desagradável à vista, lá isso é! E não terei acaso a liberdade de ficar em paz na minha propriedade? Já estou sentindo cheiro de repolho...Ah! Agora estou na minha folha! Não há nada como a gente ter a sua propriedade! Mas vou subir mais alto ainda, só para me ver livre de ti. É isso - mais alto, mais alto!
    - Pois é mesmo: mais alto, mais alto!- disse o sapinho. - Ela tem também as suas ambições: as mesmas que eu sinto, É que hoje está de mau humor...há de ser do susto. Todos querem subir - mais alto, mais alto!
   E ao dizer isso, ergueu os olhos. lá estava o pai cegonha, parado junto do ninho, no teto da granja; ele gloterava, e a mãe-cegonha gloterava...E o sapinho pensava:
   - Mas que alto o lugar onde mora aquela gente! Se eu pudesse chegar lá...
   Na granja moravam dois estudantes; um era poeta, o outro naturalista. Um cantava alegremente todas as coisas criadas por Deus, vendo-as tal como se refletem no seu coração; e exprimia seus sentimentos em versos claros, sonoros, cheios de vida. O outro não se dava por satisfeito enquanto não tocava com as mãos nas coisas - e até as dissecava.
   Considerava a criação de Deus como uma imenso problema cheio de cálculos:subtraía, multiplicava; queria aprofundá-lo todo inteiro, e discorria sobre o assunto ponderadamente. E, como era homem talentoso, e sentia prazer no estudo, falava com acerto. E afinal, eram ambos homem bons, e de humor alegre.
    - Olha que belo exemplo de sapo! - exclamou o naturalista. - Vou levá-lo, para o conservar em álcool.----
    - Mas já tens dois iguais - objetou o poeta.- Deixa que este goze a sua vida em paz!
   - Mas é tão espantosamente feio!
   - Sim, isso é...E se soubesse que iria encontrar a gema na sua cabeça, até eu seria capaz de dissecá-lo!
  - Qual gema, qual nada!- replicou o outro. - Nem parece que estudaste História Natural!
    - Mas pensa bem! Não achas linda a crença popular, que diz que o sapo mais horrendo tem, as vezes, na cabeça a pedra mais rara?---E não acontece o mesmo com os homens? Que joia preciosa não tinha Esopo? E Sócrates?
    O sapo não pode ouvir mais nada, nem entendeu sequer a metade do que disseram os dois amigos. Eles prosseguiram seu passeio e o animalzinho escapou à morte e ao vidro de álcool.
    - Aqueles também falaram na gema...Ainda bem que não possuo, senão teria passado agora um mau bocado.
   Naquele mesmo momento, lá em cima do telhado, alava o pai-cegonha; fazia uma preleção para a família, que não via com bons olhos o que se passava na horta.
   - Os homens são criaturas mais presunçosas do mundo! Ouçam, ouçam, como eles tem a língua solta...e ao cabo nem sequer sabem gloterar ( diz-se dos sons emitidos pelas cegonhas, ao bater seus bicos.)  direito! Alardeiam por toda a parte e eloquência da sua língua...Ora, uma língua de trapo, que já ninguém entende no fim de uma viagem qualquer: ao termo dela, o que chega não compreende os que encontra, nem estes o entendem! O nosso idioma si, é falado e entendido em todo o mundo, desde a Dinamarca até o Egito. Além disso, o homem não pode voar. Eles andam agora mais rapidamente, com uma invenção a que chamam via férrea; mas muitos quebram nela o pescoço. tenho arrepios no bico, só de pensar nessas coisas,,,O mundo poderia passar muito bem sem o homem. não precisamos dele para nada! Bastam-nos as rãs e as minhocas!
   - Mas que discurso magnífico! - pensou o sapinho. - E aquele bicho deve ser pessoa muito importante! Também, nunca vi ninguém morara em um lugar tão alto! 
   E, quando viu a cegonha voar, batendo as asas, exclamou, encantado:
   - E como nada bem!
   Lá dentro do ninho falava agora a mãe-cegonha. Falava no Egito, nas águas verdes do Nilo e na lama esplêndida daquele país estrangeiro. E tudo aquilo era novo para os apo, e tão fascinante...E dizia consigo:
  - Preciso viajar...Tenho de ir ao Egito! Que bom seria se a velha cegonha me levasse! Ou quem sabe se um dos filhotes me conduzirá como puder, quando ele casar.Sim, é isso: ieri ao Egito. Oh! Sinto-me tão feliz...E todo este anseio, todo este desejo imenso, vale muito mais do que uma joia na cabeça.
   E todavia ele tinha aquela pedra preciosa, aquele anseio constante, aquele impulso incoercível, que o arrojava para o alto, sempre para o alto! Era uma luz que el possuía, que lhe resplandecia na cabeça- o fulgor da alegria!
   Foi nesse momento que veio a cegonha. Avistara o sapo na grama; desceu e segurou a criaturinha, não com muita delicadeza, é verdade! O enorme bico de pai cegonha apertava-o, o vento silvava, e não era nada agradável, andaste nos ares, lá em cima, apara onde eles iam- para o Egito, pensava o sapinho. E a este pensamento, seus olhos cintilaram, e pareceu até que deles brotava uma chispa...
   - Coaxe!...aaaxe...
   E o sapinho estava morto.
   Si, morto estava o corpo do  apo. Mas a centelha dos seus olhos? Que fora feito dela?
   Levou-a o raio de sol. para onde, porém?
   Ah! Não o perguntes ao naturalista. pergunta antes ao poeta, que te narrará tudo, como se fosse um conto de fadas. E a lagarta, e a família das cegonhas fazem parte do conto. Imagina: a lagarta aparecerá transformada em uma borboleta lindíssima. A família das cegonhas voa por sobre montes e mares, vai até a longínqua África - e para voltar ao seus país: volta para o mesmo ninho, no mesmo telhado.
   Não parecem fantásticos todas estas coisas maravilhosas? E contudo, são verdadeiras! Podes perguntá-lo até ao naturalista, se quiseres. E ele terá de confessar que é assim mesmo; e tu também o sabes, pois que viste  com teus próprios olhos.
   - Mas...e a gema da cabeça do sapo?
   Procura-a no sol; vê se podes vislumbrá-la ali.
   É intenso demais o esplendor. Ainda não temos os olhos que hão de ver dentro de todas as glórias que Deus criou. mas algum dia havemos de possuí-los!
   E será a m,ais bela de todas as histórias de fadas - porque nós mesmos a teremos vivido.
FIM