Três operários tinham combinado correr mundo, juntos , e trabalhar sempre na mesma cidade. Mas aconteceu que um dia a situação piorou tanto que seus patrões não lhes puderam pagar e, por isso, ficaram os três sem recursos, até mesmo para comer.
- Disse um deles:
- Que faremos? É impossível continuarmos aqui. Teremos de partir e, se não encontramos trabalho na próxima cidade, combinaremos com o dono da hospedaria para que cada qual lhe escreva dizendo o lugar onde se encontra. Assim, poderemos separar-nos na certeza de cada um ter notícias dos outros.
Os demais acharam ótima a ideia e juntos se puseram a caminho.
Pouco depois encontraram um homem, muito bem trajado, que lhes perguntou quem eram.
- Somos operários à procura de trabalho. Até agora sempre estivemos juntos. Mas infelizmente, se não acharmos emprego para os três, temos de nos separar.
- Não se preocupem por tão pouco. - disse o homem. - Se fizerem o que eu lhes disser, não faltará trabalho nem dinheiro. - Chegarão , até, a ser grandes senhores e só andarão de carruagem.
Respondeu um deles:
- Concordamos, mas com a condição de que não haja prejuízo para nossas almas e nossa salvação eterna.
- Não, - respondeu o desconhecido. - Por esse lado, não tenho interesse nenhum em vocês.
Mas um dos rapazes, olhando-lhe os pés, notou que tinha um pé de cabra e outro de homem e não quis mais saber de conversa. Entretanto, o diabo - pois não era outro senão ele - assegurou-lhes:
- Podem ficar tranquilos. Não pretendo apoderar-me da alma de vocês, mas sim da de outra pessoa, que já quase me pertence. Pouco falta para que ela encha as medidas.
Diante dessa afirmação, os três aceitaram a oferta e o diabo lhes explicou o que queria deles: o primeiro deveria responder, sempre, a todas as perguntas: "Nós três", o segundo: " Por dinheiro" e o último: " Foi justo". Deviam repetir essas frases, pela mesma ordem, abstendo-se de pronunciar uma palavra a mais. Caso não cumprissem, exatamente, tal ordem, ficariam logo sem bolsos cheios. De início o diabo lhes deu tanto dinheiro quanto podiam carregar. E mandou-lhes que, ao chegar à cidade, se dirigissem a determinada hospedaria.
Assim, fizeram e, quando o dono da estalagem saiu para recebê-los e perguntou:
- Desejam algo para comer ? - O primeiro respondeu:
- Nós três.
- Sim, - disse o homem. - Logo imaginei.
O segundo acrescentou:
- Por dinheiro.
- Naturalmente! - exclamou o hospedeiro.
- Foi justo, - disse o terceiro.
- Claro que é justo, - concordou o proprietário.
Depois de terem comido e bebido muito bem, chegou o momento de pagar a conta que o hospedeiro entregou a um deles.
- Nós três, - disse este.
- Por dinheiro, - acrescentou o segundo.
- Foi justo, - terminou o terceiro.
- Claro que foi justo. - disse o estalajadeiro, - paguem os três, que sem dinheiro nada posso dar.
Pagaram-lhe mais do que havia pedido. E, ao ver tal coisa, os outros hóspedes comentaram:
- Esses sujeitos são loucos!
- Creio que são mesmo, -disse o hospedeiro.- Não regulem bem.
Ficaram vários dias ali, sem pronunciar outas palavras a não ser: " Nós três", " por dinheiro" e " foi justo". No entanto, viam e sabiam de tudo o que se passava na hospedaria.
Até que um dia chegou um comerciante rico, que trazia muito dinheiro consigo e que disse ao dono da casa:
- Senhor hospedeiro, guarde esta importância para mim, pois aqueles três operários me parecem suspeitos; tenho medo que me roubem.
O hospedeiro levou a maleta do viajante para o seu quarto e verificou que estava cheia de ouro. Deu então, aos três operários, um aposento no andar térreo e acomodou o negociante no de cima.
À meia-noite, quando viu que todos dormiam, entrou com sua mulher no quarto do homem e o matou. Cometido o crime, tornaram a deitar-se.
Na manhã seguinte, houve grande alvoroço no albergue quando encontraram o cadáver do comerciante em sua cama, banhado em sangue. O dono da casa disse a todos os hóspedes, que se haviam reunido no local do crime:
- Isso é obra daqueles três loucos, - o que foi confirmado pelos presentes, que acrescentaram:
- Pois quem mais poderia ter sido?
O hospedeiro mandou chamá-los e perguntou?
- Vocês mataram o comerciante?
- Nós três, - respondeu o primeiro.
- Por dinheiro, - acrescentou o segundo.
- Foi justo, - disse o terceiro.
- Ouviram todos? - indagou o hospedeiro. - Eles mesmos confessaram!
Em consequência, foram conduzidos ao cárcere, para serem julgado. vendo que a coisa estava ficando preta, sentiram muito medo, mas à noite apresentou-se o diabo, que lhes recomendou:
- Aguentem mais um dia e não ponham a sua sorte a perder. Ninguém lhes tocará num só cabelo da cabeça.
Ao amanhecer foram levados ante o tribunal e o juiz procedeu ao interrogatório:
- Vocês são os assassinos?
- Nós três.
- Por dinheiro.
- Bárbaros! - exclamou o juiz. - E não temeram o pecado?
- Foi justo.
- Confessaram o crime e não se arrependeram!- exclamou o juiz. - Quem sejam executados em seguida?
Foram , então levados ao cadafalso, figurando o hospedeiro entre os espectadores. Depois que os fizeram subir ao estrado, onde estava o carrasco de machado em punho, surgiu, de repente, uma carruagem puxada por quatro cavalos de pelo vermelho com sangue e que se aproximava rápida como o vento. da janelinha, um personagem fazia sinais com um lenço branco.
Disse o carrasco.
- Estão pedindo clemência! - E, de fato, gritavam da carruagem:
- Parem! - Parem!
Nisto, o diabo, na figura de um fidalgo magnificamente trajado, saltou do carro e falou:
- Os três são inocentes! - e, dirigindo-se aos operários: - Já podem falar. Digam o que viram e ouviram.
- Falou, então, o mais velho:
- Não assassinamos o comerciante. O culpado está entre os espectadores. - E apontou para o hospedeiro. - Como prova disso, procurem no porão de sua casa, que encontrarão outras vítimas.
O juiz ordenou que alguns guardas fossem à hospedaria e estes verificaram que tudo era verdade. Em vista disso, levaram o hospedeiro ao cadafalso e o decapitaram.
Disse, então, o diabo aos três companheiros:
- Agora apanhei a alma que eu queria. estão livres e com dinheiro para o resto da vida. FIM
Os contos que estou transcrevendo são de livros muito antigos que ganhei de meu querido pai. Quando percebi que eles estavam ficando velhos e amarelados, fiquei com medo de perdê-los. Resolvi então salvá-los para sempre, digitando letra por letra e me envolvendo em cada história. Obrigada pai e mãe, amo vocês! E um obrigada às novas tecnologias que me permitirão salvar meus livros e dar a outras pessoas a oportunidade de se emocionarem com Os Contos de Grimn e Andersen como eu me emocionei.
domingo, 29 de maio de 2016
A LUZ AZUL - CONTOS DE GRIMM
Era uma vez um soldado que, durante longos anos, servira lealmente a seu rei. Terminada a guerra, o rapaz foi chamado à presença do soberano, pois havia recebido tantos ferimentos durante as batalhas que não podia continuar no serviço militar. Disse-lhe o rei:
- Podes ir para casa que já não preciso de ti. Dinheiro não te dou ; só pago a quem me serve.
E o soldado, não sabendo como ganhar a vida, partiu aflito e cheio de preocupações. Andou o dia todo e, ao anoitecer, penetrou numa floresta. A escuridão era completa, mas ele avistou uma luz e se encaminhou para ela. E foi assim que chegou à casa de uma bruxa.
- Dá-me pousada e alguma coisa para comer e beber,- pediu o soldado, - senão morrerei de fome.
- Ora essa! - exclamou a feiticeira. - Quem alimentará um soldado errante? Mas vou ser boa contigo e te acolherei, se me fizeres o que eu te pedir.
- Que desejas que eu faça? - indagou o soldado.
- Que amanhã cavoques a terra do meu jardim.
O soldado aceitou e no dia seguinte pôs-se a trabalhar, com afinco. Apesar disso, não conseguiu terminar antes da noite.
- Estou vendo que hoje não aguenta mais, - disse a bruxa. - Fica outra noite, mas amanhã tens de cortar uma carrada de lenha.
O soldado trabalhou o dia todo e, à tarde, a velha propôs que ficasse uma terceira noite.
- O trabalho de amanhã é fácil, - disse-lhe , - Atrás da minha casa há um velho poço, seco, onde caiu minha lâmpada. Essa lâmpada tem uma chama azul que nunca se apaga; terás de ir buscá-la.
No outro dia a bruxa o levou ao poço e o fez descer dentro de um cesto. O rapaz encontrou a luz e fez sinal para que a velha o içasse. Ela puxou a corda e, quando ele já se encontrava quase na beirada do poço, estendeu a mão para apanhar a lâmpada.
- Não, - disse o rapaz, adivinhando suas más intenções, - não te darei a lâmpada até que eu esteja com os pés na terra.
A bruxa enfureceu-se e soltou a corda, deixando-o cair no fundo do poço, e ali o deixou abandonado.
O pobre soldado caiu no chão úmido, mas sem sofrer nenhum dano e sem que a luz azul se extinguisse. Mas de que adiantava aquilo? Compreendeu logo que não escaparia à morte. Por algum tempo ficou ali sentado, cheio de tristeza. Depois, metendo por acaso a mão no bolso, encontrou o cachimbo, que ainda estava com fumo pela metade. " Será meu último prazer"- pensou. Acendeu-o na chama azul e começou a fumar. Quando a fumaça principiou a espalhar-se pelo poço, apareceu, de repente, um homenzinho escuro, que lhe perguntou:
- Que mandas?
- Que posso eu mandar? - retrucou o soldado, atônito.
- Sou obrigado a fazer tudo o que mandares, - disse o anãozinho.
- Bem, nesse caso ajuda-me, antes de tudo, a sair deste maldito poço.
O homenzinho tomou-lhe a mão e o conduziu por um corredor subterrâneo, sem esquecer de levar, também, a lâmpada de luz azul. Pelo caminho, mostrou-lhe os tesouros que a feiticeira tinha escondido ali durante muitos e muitos anos. E o soldado levou tanto ouro quanto podia carregar.
Logo que saíram do túnel, o rapaz disse ao homenzinho:
- Agora amarra a velha feiticeira e leva-a para os juízes a condenarem.
Pouco depois, viu passar a bruxa, montada num gato- do- mato, correndo como o vento e dando gritos medonhos. Não demorou muito, o anãozinho estava de volta.
- Tudo feito! - disse ele. - A bruxa já está pendurada na forca. Que mandas agora, meu senhor?
- De momento, nada! - respondeu o soldado. - Podes voltar para casa, mas fica atento para quando te chame.
- Só precisas acender o cachimbo na chama azul para me teres em tua presença, - disse o anão e desapareceu de sua vista.
O soldado regressou à cidade de onde havia saído. Instalou-se na melhor hospedaria e comprou belos trajes. Depois pediu ao hospedeiro que lhe preparasse um quarto com o maior luxo possível. Quando tudo estava pronto e o rapaz se instalou no aposento, chamou o homenzinho negro e lhe disse:
- Servi, lealmente, ao rei e, em troca, ele me despediu e fez passar fome. Agora quero vingar-me.
- Que devo fazer? - perguntou o anãozinho.
- Tarde da noite, quando a filha do rei estiver na cama, vê se a trazes para cá, adormecida. Quero fazê-la trabalhar como criada.
- Para mim isso é facílimo, - observou o homenzinho, - mas para ti é perigosos. Tu vais te sair mal, se isso for descoberto.
À meia-noite em ponto abriu-se a porta, de repente, e o anãozinho entrou com a princesa.
- Vieste, bem? - exclamou o soldado. - Pois vamos ao trabalho! Traz a vassoura e varre o quarto.
Depois que ela terminou aquele serviço, ordenou que se aproximasse de sua poltrona, estendeu as pernas e disse:
- Tira-me as botas, - , tendo ela obedecido, atirou-as para ela. A jovem teve de apanhá-las, limpá-las e dar-lhes brilho. A princesa fez tudo isso sem resistência, sem abrir a boca e com os olhos semicerrados, pois, a falar verdade, ela ainda estava dormindo. Ao primeiro canto do galo, o anãozinho transportou-a para o palácio, deixando-a em sua cama.
Quando, na manhã seguinte, a princesa se levantou, foi ao pai e lhe contou que tivera um sonho estranho.
- Levaram-me pelas ruas com a velocidade do raio, até o quarto de um soldado, onde tive que servir de criada, fazendo os trabalhos mais baixos, como varrer o chão e limpar botas. Foi um sonho, apenas, mas estou cansada como se, de fato, tivesse feito todas aquelas coisas horríveis.
- Esse sonho...- murmurou o rei pensativo - esse sonho poderá ter sido realidade. Olha! Vou te dar um conselho: enche de ervilhas o teu bolsinho, mas deixa nele um pequeno buraco. Se vierem buscar-te outra vez, os grãos cairão e ficará uma pista na rua.
Enquanto o rei dizia isso, o anãozinho estava, invisível, ouvindo tudo. à noite, quando a princesa, adormecida, foi novamente transportada pelas ruas, caíram, de fato, alguma ervilhas de seu bolso, mas não puderam formar uma pista, porque o esperto homenzinho espalhara ervilhas em todas as ruas. E a filha do rei teve de servir de criada, novamente, até o galo cantar.
De manhã, o rei mandou que seus soldados saíssem à procura da pista. Mas isso foi inútil! Todas as ruas estavam cheias de crianças juntando ervilhas e gritando.
- Esta noite choveu ervilhas!
- Teremos de pensar noutra coisa, - disse o rei - Quando fores dormir, não tires teus sapatos e, antes que voltes de lá, esconde um deles: tratarei de encontrá-lo.
O homenzinho ouviu, também, aquele plano e quando, à noite, o soldado tornou a ordenar-lhe que trouxesse a princesa, tratou de dissuadi-lo, dizendo que o contra aquele plano astucioso não conhecia nenhum recurso, e que , se encontrassem o sapato em seu quarto, ele iria passar mau bocado.
- Faz o que te ordeno! - retrucou o soldado.
E a filha do rei teve de servir de criada uma terceira noite. Mas antes de a levarem de volta, escondeu um sapato embaixo da cama.
No dia seguinte, o rei mandou procurar por toda a cidade o sapato de sua filha. Foi achado no quarto do soldado e este, a pedido do anãozinho, já ia mesmo saindo pela porta da cidade quando foi detido e lançado ao cárcere.
Com a pressa da fuga, esquecera os maiores tesouros, a lâmpada azul e o ouro, restando-lhe, apenas, uma moeda no bolso. Quando, acorrentado, olhava tristemente pela janelinha da prisão, viu passar um de seus antigos companheiro de armas. O soldado o chamou e, ao aproximar-se o homem, disse-lhe baixinho:
- Por favor, vai buscar um pequeno embrulho que deixei na hospedaria, que eu te darei uma moeda de ouro.
O companheiro saiu depressa e trouxe o que lhe pedira o soldado. Este, a sós, acendeu o cachimbo e chamou o homenzinho.
- Não tenhas medo, - disse o anão a seu amo. - Vai onde te levarem e não te preocupes. Só não te esqueças da luz azul.
No dia seguinte, o soldado entrou em julgamento e os juízes o condenara à morte. Quando o levavam para o lugar da execução, pediu ao rei que lhe concedesse uma última graça.
- Qual? - perguntou o soberano.
- Que me deixes fumar um último cachimbo, durante o caminho.
- Podes fumar três, - respondeu o rei. - desde que não queiras que eu te poupe a vida.
O soldado tirou o cachimbo; também tirou do bolso a pequena lâmpada, que todos julgaram apenas um isqueiro, e acendeu o cachimbo na chama azul. Mal uns anéis de fumo subiram ao ar. o homenzinho apresentou-se, tendo nas mãos um cacete mair do que ele.
- Que ordenas, meu amo?
- Dá uma boa surra nesses juízes e seus carrascos e também não perdoe o rei, que tão mal me tratou.
E eis que o anãozinho saiu, zás-trás, como um raio, a distribuir bordoadas à direita e à esquerda. E os que atingia com seu cacete, caíam ao chão sem arriscar a mover um dedo. O rei ficou tão aterrorizado que implorou perdão. E, para não perder a vida, deu ao soldado o reino e sua filha como esposa. FIM
- Podes ir para casa que já não preciso de ti. Dinheiro não te dou ; só pago a quem me serve.
E o soldado, não sabendo como ganhar a vida, partiu aflito e cheio de preocupações. Andou o dia todo e, ao anoitecer, penetrou numa floresta. A escuridão era completa, mas ele avistou uma luz e se encaminhou para ela. E foi assim que chegou à casa de uma bruxa.
- Dá-me pousada e alguma coisa para comer e beber,- pediu o soldado, - senão morrerei de fome.
- Ora essa! - exclamou a feiticeira. - Quem alimentará um soldado errante? Mas vou ser boa contigo e te acolherei, se me fizeres o que eu te pedir.
- Que desejas que eu faça? - indagou o soldado.
- Que amanhã cavoques a terra do meu jardim.
O soldado aceitou e no dia seguinte pôs-se a trabalhar, com afinco. Apesar disso, não conseguiu terminar antes da noite.
- Estou vendo que hoje não aguenta mais, - disse a bruxa. - Fica outra noite, mas amanhã tens de cortar uma carrada de lenha.
O soldado trabalhou o dia todo e, à tarde, a velha propôs que ficasse uma terceira noite.
- O trabalho de amanhã é fácil, - disse-lhe , - Atrás da minha casa há um velho poço, seco, onde caiu minha lâmpada. Essa lâmpada tem uma chama azul que nunca se apaga; terás de ir buscá-la.
No outro dia a bruxa o levou ao poço e o fez descer dentro de um cesto. O rapaz encontrou a luz e fez sinal para que a velha o içasse. Ela puxou a corda e, quando ele já se encontrava quase na beirada do poço, estendeu a mão para apanhar a lâmpada.
- Não, - disse o rapaz, adivinhando suas más intenções, - não te darei a lâmpada até que eu esteja com os pés na terra.
A bruxa enfureceu-se e soltou a corda, deixando-o cair no fundo do poço, e ali o deixou abandonado.
O pobre soldado caiu no chão úmido, mas sem sofrer nenhum dano e sem que a luz azul se extinguisse. Mas de que adiantava aquilo? Compreendeu logo que não escaparia à morte. Por algum tempo ficou ali sentado, cheio de tristeza. Depois, metendo por acaso a mão no bolso, encontrou o cachimbo, que ainda estava com fumo pela metade. " Será meu último prazer"- pensou. Acendeu-o na chama azul e começou a fumar. Quando a fumaça principiou a espalhar-se pelo poço, apareceu, de repente, um homenzinho escuro, que lhe perguntou:
- Que mandas?
- Que posso eu mandar? - retrucou o soldado, atônito.
- Sou obrigado a fazer tudo o que mandares, - disse o anãozinho.
- Bem, nesse caso ajuda-me, antes de tudo, a sair deste maldito poço.
O homenzinho tomou-lhe a mão e o conduziu por um corredor subterrâneo, sem esquecer de levar, também, a lâmpada de luz azul. Pelo caminho, mostrou-lhe os tesouros que a feiticeira tinha escondido ali durante muitos e muitos anos. E o soldado levou tanto ouro quanto podia carregar.
Logo que saíram do túnel, o rapaz disse ao homenzinho:
- Agora amarra a velha feiticeira e leva-a para os juízes a condenarem.
Pouco depois, viu passar a bruxa, montada num gato- do- mato, correndo como o vento e dando gritos medonhos. Não demorou muito, o anãozinho estava de volta.
- Tudo feito! - disse ele. - A bruxa já está pendurada na forca. Que mandas agora, meu senhor?
- De momento, nada! - respondeu o soldado. - Podes voltar para casa, mas fica atento para quando te chame.
- Só precisas acender o cachimbo na chama azul para me teres em tua presença, - disse o anão e desapareceu de sua vista.
O soldado regressou à cidade de onde havia saído. Instalou-se na melhor hospedaria e comprou belos trajes. Depois pediu ao hospedeiro que lhe preparasse um quarto com o maior luxo possível. Quando tudo estava pronto e o rapaz se instalou no aposento, chamou o homenzinho negro e lhe disse:
- Servi, lealmente, ao rei e, em troca, ele me despediu e fez passar fome. Agora quero vingar-me.
- Que devo fazer? - perguntou o anãozinho.
- Tarde da noite, quando a filha do rei estiver na cama, vê se a trazes para cá, adormecida. Quero fazê-la trabalhar como criada.
- Para mim isso é facílimo, - observou o homenzinho, - mas para ti é perigosos. Tu vais te sair mal, se isso for descoberto.
À meia-noite em ponto abriu-se a porta, de repente, e o anãozinho entrou com a princesa.
- Vieste, bem? - exclamou o soldado. - Pois vamos ao trabalho! Traz a vassoura e varre o quarto.
Depois que ela terminou aquele serviço, ordenou que se aproximasse de sua poltrona, estendeu as pernas e disse:
- Tira-me as botas, - , tendo ela obedecido, atirou-as para ela. A jovem teve de apanhá-las, limpá-las e dar-lhes brilho. A princesa fez tudo isso sem resistência, sem abrir a boca e com os olhos semicerrados, pois, a falar verdade, ela ainda estava dormindo. Ao primeiro canto do galo, o anãozinho transportou-a para o palácio, deixando-a em sua cama.
Quando, na manhã seguinte, a princesa se levantou, foi ao pai e lhe contou que tivera um sonho estranho.
- Levaram-me pelas ruas com a velocidade do raio, até o quarto de um soldado, onde tive que servir de criada, fazendo os trabalhos mais baixos, como varrer o chão e limpar botas. Foi um sonho, apenas, mas estou cansada como se, de fato, tivesse feito todas aquelas coisas horríveis.
- Esse sonho...- murmurou o rei pensativo - esse sonho poderá ter sido realidade. Olha! Vou te dar um conselho: enche de ervilhas o teu bolsinho, mas deixa nele um pequeno buraco. Se vierem buscar-te outra vez, os grãos cairão e ficará uma pista na rua.
Enquanto o rei dizia isso, o anãozinho estava, invisível, ouvindo tudo. à noite, quando a princesa, adormecida, foi novamente transportada pelas ruas, caíram, de fato, alguma ervilhas de seu bolso, mas não puderam formar uma pista, porque o esperto homenzinho espalhara ervilhas em todas as ruas. E a filha do rei teve de servir de criada, novamente, até o galo cantar.
De manhã, o rei mandou que seus soldados saíssem à procura da pista. Mas isso foi inútil! Todas as ruas estavam cheias de crianças juntando ervilhas e gritando.
- Esta noite choveu ervilhas!
- Teremos de pensar noutra coisa, - disse o rei - Quando fores dormir, não tires teus sapatos e, antes que voltes de lá, esconde um deles: tratarei de encontrá-lo.
O homenzinho ouviu, também, aquele plano e quando, à noite, o soldado tornou a ordenar-lhe que trouxesse a princesa, tratou de dissuadi-lo, dizendo que o contra aquele plano astucioso não conhecia nenhum recurso, e que , se encontrassem o sapato em seu quarto, ele iria passar mau bocado.
- Faz o que te ordeno! - retrucou o soldado.
E a filha do rei teve de servir de criada uma terceira noite. Mas antes de a levarem de volta, escondeu um sapato embaixo da cama.
No dia seguinte, o rei mandou procurar por toda a cidade o sapato de sua filha. Foi achado no quarto do soldado e este, a pedido do anãozinho, já ia mesmo saindo pela porta da cidade quando foi detido e lançado ao cárcere.
Com a pressa da fuga, esquecera os maiores tesouros, a lâmpada azul e o ouro, restando-lhe, apenas, uma moeda no bolso. Quando, acorrentado, olhava tristemente pela janelinha da prisão, viu passar um de seus antigos companheiro de armas. O soldado o chamou e, ao aproximar-se o homem, disse-lhe baixinho:
- Por favor, vai buscar um pequeno embrulho que deixei na hospedaria, que eu te darei uma moeda de ouro.
O companheiro saiu depressa e trouxe o que lhe pedira o soldado. Este, a sós, acendeu o cachimbo e chamou o homenzinho.
- Não tenhas medo, - disse o anão a seu amo. - Vai onde te levarem e não te preocupes. Só não te esqueças da luz azul.
No dia seguinte, o soldado entrou em julgamento e os juízes o condenara à morte. Quando o levavam para o lugar da execução, pediu ao rei que lhe concedesse uma última graça.
- Qual? - perguntou o soberano.
- Que me deixes fumar um último cachimbo, durante o caminho.
- Podes fumar três, - respondeu o rei. - desde que não queiras que eu te poupe a vida.
O soldado tirou o cachimbo; também tirou do bolso a pequena lâmpada, que todos julgaram apenas um isqueiro, e acendeu o cachimbo na chama azul. Mal uns anéis de fumo subiram ao ar. o homenzinho apresentou-se, tendo nas mãos um cacete mair do que ele.
- Que ordenas, meu amo?
- Dá uma boa surra nesses juízes e seus carrascos e também não perdoe o rei, que tão mal me tratou.
E eis que o anãozinho saiu, zás-trás, como um raio, a distribuir bordoadas à direita e à esquerda. E os que atingia com seu cacete, caíam ao chão sem arriscar a mover um dedo. O rei ficou tão aterrorizado que implorou perdão. E, para não perder a vida, deu ao soldado o reino e sua filha como esposa. FIM
quinta-feira, 26 de maio de 2016
O CAÇADOR PROFISSIONAL - CONTOS DE GRIMM
Era uma vez um rapazinho que tinha aprendido o ofício de serralheiro. Certo dia falou ao pai que desejava correr mundo para tentar a sorte.
- Está bem, - concordou o velho, e deu-lhe um pouco de dinheiro para a viagem. O rapaz partiu em busca de trabalho mas, passando algum tempo, cansou-se da profissão e teve vontade de variar. Numa de suas andanças encontrou um caçador com seu traje verde, que lhe perguntou de onde vinha e para onde ia. O rapaz contou-lhe que era serralheiro, mas que isso já não lhe agradava como no princípio; gostaria de ser caçador e pediu que o tomasse como aprendiz.
- Se quiseres acompanhar-me, com muito prazer, - disse o homem.
O rapaz trabalhou muitos anos a seu lado, aprendendo a arte de caçar. O mestre deu-lhe em pagamento apenas uma espingarda. parece pouco? Mas acontece que aquela arma tinha a qualidade de nunca errar um tiro. Assim, o jovem partiu sozinho, até que chegou a uma floresta muito grande que não podia ser atravessada num dia só. Ao anoitecer, trepou numa árvore alta, para que as feras não pudessem atacá-lo. perto da meia-noite, pareceu-lhe ver brilhar, ao longe, uma luzinha através das ramagens. Para orientar-se, prestou bem atenção. Resolveu descer. Mas antes, tirou o chapéu e seguiu avançando em linha reta. À medida que andava, a luz ia se tornando mais forte, quando chegou perto, viu que se tratava de uma fogueira, junto à qual três gigantes estavam sentados, assando um boi no espeto. Dizia um deles:
- Vou provar a carne para ver se já está boa,- e arrancou um naco, que se dispôs a levar à boca.
Nisto, o caçador, com um tiro, fez saltar a carne de sua mão.
- Ora essa! - exclamou o gigante. - O vento levou meu pedaço de carne! - E serviu-se de novo. Mas, no momento em que levava outro naco à boca, o caçador o arrancou com um tiro certeiro. Irritado, o gigante deu uma bofetada no que estava a seu lado, dizendo-lhe:
- Por que me tiraste meu pedaço de carne?
- Não tirei coisa alguma, - replicou o outro. - Com certeza foi algum bom atirador.
O gigante apanhou um terceiro pedaço, mas não conseguiu ficar com ele; o caçador o arrebatou de suas mãos com um tiro. Disseram, então, os gigantes:
- Puxa! Dever ser um atirador extraordinário, capaz até de arrancar, a tiros, a comida da boca dos outros. Um sujeito assim é que nos servia. - E gritaram: - Aproxima-te, caçador, senta-te junto ao fogo e regala-te que não te faremos mal. Mas, se não vieres e nós te apanharmos, tu estarás perdido.
O rapaz, então, aproximou-se, dizendo-lhes que era caçador profissional e que sua arma acertava sempre o alvo. Os gigantes logo o convidaram para que os acompanhasse. Disseram-lhe que seria bem tratado e contaram-lhe que, à saída do bosque, havia um rio muito grande e que na outra margem se erguia uma torre, onde morava uma bela princesa que eles, os três gigantes, tencionavam raptar.
- De pleno acordo, - respondeu o caçador. - Isso é muito fácil.
Mas os gigantes não achavam tão fácil assim.
- Há uma coisa que deve ser levada em conta,- disseram eles. - Existe ali um cachorro que se põe a ladrar e desperta toda a corte quando alguém se aproxima. Por essa razão, ainda não conseguimos entrar lá. serás capaz de matar o diabo desse animal?
- Claro! - respondeu o caçador. - É brinquedo de criança.
Em seguida tomou um barco e atravessou o rio. logo que chegou à terra, o cãozinho veio na sua direção, mas, antes que começasse a latir, ele o derrubou com um tiro. Vendo isso, os gigantes se alegraram, imaginando que já eram donos da princesa. Mas o rapaz quis ver primeiro como estavam as coisas e lhes disse que ficassem do lado de fora até que ele os chamasse. Entrou no palácio onde reinava profundo silêncio, pois todos dormiam. Abrindo a porta da primeira sala, viu um sabre pendurado na parede, todo de prata, com uma estrela gravada e o nome do rei. Ao lado, sobre uma mesa, havia uma carta lacrada. Abriu-a e leu que quem dispusesse daquele sabre poderia tirar a vida a qualquer ente vivo, quando bem quisesse. Desprendeu a arma da parede e a colocou à cinta. Seguindo adiante, chegou a um quarto onde estava dormindo a princesa. A moça era lindíssima e ele ficou a contemplá-la, como que petrificado. Pensou consigo: "Como permitirei que essa moça inocente caia em poder de uns gigantes bárbaros, cheios de más intenções! " Olhando em redor, descobriu, embaixo da cama, um par de chinelinhos. O pé direito tinha bordado o nome do rei e uma estrela, e o pé esquerdo o da princesa, também, com uma estrela. A moça trazia no pescoço um lenço de seda, com os nomes, em letras bordadas a ouro, do rei e o seu, à direita e esquerda respectivamente. O caçador apanhou uma tesoura e cortou a ponta direita do lenço, que meteu na sua mochila: depois pegou o chinelo do pé direito com o nome do rei e o pôs ali também. a princesa continuava dormindo, tranquilamente. O rapaz cortou dali um pedacinho da fazenda, que juntou aos outros objetos, com todo cuidado, para não despertá-la e, ao chegar à porta, encontrou os gigantes, que o esperavam, certos de ele já vinha trazendo a princesa. Disse-lhes que entrassem, que ela já estava em seu poder, só não poderia abrir-lhes a porta; teriam de se introduzir por um subterrâneo que havia ali. Quando o primeiro apareceu na abertura, o caçador agarrou-o pelos cabelos e lhe cortou a cabeça num golpe só: depois puxou o corpo para dentro. Em seguida chamou o segundo e repetiu a façanha. Fez o mesmo com o terceiro e sentiu-se feliz por ter podido salvar a jovem de seus inimigos. Finalmente, cortou a língua dos três gigantes e as guardou na mochila. " Voltarei para casa e contarei a meu pai o que fiz," - pensou ele. - "Depois vou correr mundo e estou certo de encontrar a felicidade."
Ao despertar o rei do palácio, viu os corpos dos três gigantes degolados. Dirigiu-se ao quarto de sua filha, acordou-a e lhe perguntou quem teria dado morte àqueles monstros.
- Não sei, meu pai, - respondeu ela. - Dormi a noite inteira.
Saltou da cama e, quando ia calçar os chinelos, notou que o pé direito desaparecera. Percebeu, também, que fora cortada uma ponta de seu lenço e que faltava um pedacinho de sua camisa. O rei mandou reunir toda a Corte, inclusive os soldados do palácio, e perguntou quem havia salvo sua filha, matando os gigantes.
Entre os soldados, havia um capitão, que era homem muito feio e, além disso, caolho. Este adiantou-se e afirmou ser ele o autor da façanha. Declarou, então, o velho rei que, em pagamento do seu heroísmo, se casaria com a princesa. A moça, porém, disse, horrorizada:
- Meu pai, em vez de casar com esse homem, prefiro sair a vagar pelo mundo até onde as pernas puderem aguentar.
A moça tirou seus vestidos luxuoso, foi à casa do oleiro e lhe pediu, a crédito, certa quantidade de objetos de barro, prometendo pagá-los naquela mesma noite, se conseguisse vender. O rei determinou que ela se instalasse em uma esquina e depois ordenou a alguns camponeses que passassem com suas carroças por cima de sua mercadoria e a reduzissem a cacos. E, assim, quando a princesa estava expondo seus artigos na rua, chegaram as carroças e reduziram tudo a mil pedaços. A jovem rompeu em prantos, exclamando:
- Meu Deus, como pagarei, agora , ao oleiro?
O rei mandara fazer aquilo tudo para obrigar sua filha a aceitar o capitão. Em vez disso, a princesa procurou, de novo, o dono da mercadoria e pediu que lhe fiasse outra partida. O homem negou-se, dizendo que pagasse, antes, a primeira. A moça recorreu, então, a seu pai, e, entre gritos e lágrimas, disse-lhe que queria sair pelo, mundo afora. Respondeu-lhe o rei:
- Mandarei construir para ti uma casinha na floresta e nela passarás a tua vida cozinhando para todos os viajante, mas sem aceitar dinheiro de ninguém.
Pronta a casinha, penduraram à porta uma tabuleta, onde se lia: " Hoje grátis, amanhã pagando."
Por muito tempo a princesa viveu ali e correu a notícia de que na floresta vivia uma linda moça que cozinhava de graça, segundo anunciava uma tabuleta pendurada à porta. A coisa chegou aos ouvidos do nosso caçador, que pensou: " Isso me convém, pois sou pobre, não tenho dinheiro."
Apanhou a espingarda e a mochila onde continuava guardando o que levara do palácio e encaminhou-se para o bosque. Não tardou em descobrir a casinha com letreiro: "Hoje grátis, amanhã pagando." Levava à cintura o sabre com que cortara a cabeça dos gigantes e assim entrou na casa e pediu a comida. Ficou encantando com o aspecto da moça, que era mesmo muito linda, e quando ela lhe perguntou de onde vinha e para onde ia, respondeu-lhe o caçador.
- Ando viajando pelo mundo.
A moça, depois, indagou de onde tirara aquele sabre que tinha gravado o nome de seu pai, e o caçador, por sua vez, quis saber se era a filha do rei.
- Sim, - confirmou a princesa.
- Pois com este sabre - falou, então, o caçador- cortei a cabeça a três gigantes - e, como prova, tirou da mochila as três línguas; depois mostrou-lhe o chinelo, o canto do lenço e o pedaço da camisa. Diante disso, a princesinha, louca de alegria, disse-lhe que era ele o seu salvador. Juntos foram ao palácio do velho rei, onde ela contou ao pai que o caçador era o homem que a salvara dos gigantes. O rei quando viu as provas, não pode mais duvidar e, depois de saber como tudo havia acontecido, disse muito se alegrava e que concedia ao jovem a mão de sua filha. A princesa então, mandou que o vestissem como se fosse um nobre estrangeiro e o rei organizou um banquete, Na mesa dispuseram os lugares de modo que o capitão ficasse à esquerda da princesa e o caçador à sua direita. O homem estava convencido de que se tratava de algum forasteiro que viera em visita ao palácio.
Depois de terem comido e bebido, o velho rei disse ao capitão que queria apresentar-lhe um caso para resolver, Se um indivíduo, que afirmava haver dado morte a três gigantes, tivesse de declarar onde estavam as línguas de suas vítimas, que diria ao verificar que não se encontravam nas respectivas bocas? Respondeu-lhe o capitão:
- Pois, de certo, não tinham línguas.
- Isso não é possível, - replicou o rei. - Até os animais tem língua.
Depois, perguntou-lhe o que merecia aquele que o enganasse. E a isso o capitão retrucou:
- Merece ser esquartejado!
Disse, então, o rei, que acabava de pronunciar, ele mesmo, a sua sentença e, assim, o homem foi detido e logo esquartejado, enquanto a princesa se casava com o caçador. Este mandou vir seus pais, que viveram felizes ao lado do filho. Após a morte do rei, o jovem herdou o reinado inteiro. FIM
- Por que me tiraste meu pedaço de carne?
- Não tirei coisa alguma, - replicou o outro. - Com certeza foi algum bom atirador.
O gigante apanhou um terceiro pedaço, mas não conseguiu ficar com ele; o caçador o arrebatou de suas mãos com um tiro. Disseram, então, os gigantes:
- Puxa! Dever ser um atirador extraordinário, capaz até de arrancar, a tiros, a comida da boca dos outros. Um sujeito assim é que nos servia. - E gritaram: - Aproxima-te, caçador, senta-te junto ao fogo e regala-te que não te faremos mal. Mas, se não vieres e nós te apanharmos, tu estarás perdido.
O rapaz, então, aproximou-se, dizendo-lhes que era caçador profissional e que sua arma acertava sempre o alvo. Os gigantes logo o convidaram para que os acompanhasse. Disseram-lhe que seria bem tratado e contaram-lhe que, à saída do bosque, havia um rio muito grande e que na outra margem se erguia uma torre, onde morava uma bela princesa que eles, os três gigantes, tencionavam raptar.
- De pleno acordo, - respondeu o caçador. - Isso é muito fácil.
Mas os gigantes não achavam tão fácil assim.
- Há uma coisa que deve ser levada em conta,- disseram eles. - Existe ali um cachorro que se põe a ladrar e desperta toda a corte quando alguém se aproxima. Por essa razão, ainda não conseguimos entrar lá. serás capaz de matar o diabo desse animal?
- Claro! - respondeu o caçador. - É brinquedo de criança.
Em seguida tomou um barco e atravessou o rio. logo que chegou à terra, o cãozinho veio na sua direção, mas, antes que começasse a latir, ele o derrubou com um tiro. Vendo isso, os gigantes se alegraram, imaginando que já eram donos da princesa. Mas o rapaz quis ver primeiro como estavam as coisas e lhes disse que ficassem do lado de fora até que ele os chamasse. Entrou no palácio onde reinava profundo silêncio, pois todos dormiam. Abrindo a porta da primeira sala, viu um sabre pendurado na parede, todo de prata, com uma estrela gravada e o nome do rei. Ao lado, sobre uma mesa, havia uma carta lacrada. Abriu-a e leu que quem dispusesse daquele sabre poderia tirar a vida a qualquer ente vivo, quando bem quisesse. Desprendeu a arma da parede e a colocou à cinta. Seguindo adiante, chegou a um quarto onde estava dormindo a princesa. A moça era lindíssima e ele ficou a contemplá-la, como que petrificado. Pensou consigo: "Como permitirei que essa moça inocente caia em poder de uns gigantes bárbaros, cheios de más intenções! " Olhando em redor, descobriu, embaixo da cama, um par de chinelinhos. O pé direito tinha bordado o nome do rei e uma estrela, e o pé esquerdo o da princesa, também, com uma estrela. A moça trazia no pescoço um lenço de seda, com os nomes, em letras bordadas a ouro, do rei e o seu, à direita e esquerda respectivamente. O caçador apanhou uma tesoura e cortou a ponta direita do lenço, que meteu na sua mochila: depois pegou o chinelo do pé direito com o nome do rei e o pôs ali também. a princesa continuava dormindo, tranquilamente. O rapaz cortou dali um pedacinho da fazenda, que juntou aos outros objetos, com todo cuidado, para não despertá-la e, ao chegar à porta, encontrou os gigantes, que o esperavam, certos de ele já vinha trazendo a princesa. Disse-lhes que entrassem, que ela já estava em seu poder, só não poderia abrir-lhes a porta; teriam de se introduzir por um subterrâneo que havia ali. Quando o primeiro apareceu na abertura, o caçador agarrou-o pelos cabelos e lhe cortou a cabeça num golpe só: depois puxou o corpo para dentro. Em seguida chamou o segundo e repetiu a façanha. Fez o mesmo com o terceiro e sentiu-se feliz por ter podido salvar a jovem de seus inimigos. Finalmente, cortou a língua dos três gigantes e as guardou na mochila. " Voltarei para casa e contarei a meu pai o que fiz," - pensou ele. - "Depois vou correr mundo e estou certo de encontrar a felicidade."
Ao despertar o rei do palácio, viu os corpos dos três gigantes degolados. Dirigiu-se ao quarto de sua filha, acordou-a e lhe perguntou quem teria dado morte àqueles monstros.
- Não sei, meu pai, - respondeu ela. - Dormi a noite inteira.
Saltou da cama e, quando ia calçar os chinelos, notou que o pé direito desaparecera. Percebeu, também, que fora cortada uma ponta de seu lenço e que faltava um pedacinho de sua camisa. O rei mandou reunir toda a Corte, inclusive os soldados do palácio, e perguntou quem havia salvo sua filha, matando os gigantes.
Entre os soldados, havia um capitão, que era homem muito feio e, além disso, caolho. Este adiantou-se e afirmou ser ele o autor da façanha. Declarou, então, o velho rei que, em pagamento do seu heroísmo, se casaria com a princesa. A moça, porém, disse, horrorizada:
- Meu pai, em vez de casar com esse homem, prefiro sair a vagar pelo mundo até onde as pernas puderem aguentar.
A moça tirou seus vestidos luxuoso, foi à casa do oleiro e lhe pediu, a crédito, certa quantidade de objetos de barro, prometendo pagá-los naquela mesma noite, se conseguisse vender. O rei determinou que ela se instalasse em uma esquina e depois ordenou a alguns camponeses que passassem com suas carroças por cima de sua mercadoria e a reduzissem a cacos. E, assim, quando a princesa estava expondo seus artigos na rua, chegaram as carroças e reduziram tudo a mil pedaços. A jovem rompeu em prantos, exclamando:
- Meu Deus, como pagarei, agora , ao oleiro?
O rei mandara fazer aquilo tudo para obrigar sua filha a aceitar o capitão. Em vez disso, a princesa procurou, de novo, o dono da mercadoria e pediu que lhe fiasse outra partida. O homem negou-se, dizendo que pagasse, antes, a primeira. A moça recorreu, então, a seu pai, e, entre gritos e lágrimas, disse-lhe que queria sair pelo, mundo afora. Respondeu-lhe o rei:
- Mandarei construir para ti uma casinha na floresta e nela passarás a tua vida cozinhando para todos os viajante, mas sem aceitar dinheiro de ninguém.
Pronta a casinha, penduraram à porta uma tabuleta, onde se lia: " Hoje grátis, amanhã pagando."
Por muito tempo a princesa viveu ali e correu a notícia de que na floresta vivia uma linda moça que cozinhava de graça, segundo anunciava uma tabuleta pendurada à porta. A coisa chegou aos ouvidos do nosso caçador, que pensou: " Isso me convém, pois sou pobre, não tenho dinheiro."
Apanhou a espingarda e a mochila onde continuava guardando o que levara do palácio e encaminhou-se para o bosque. Não tardou em descobrir a casinha com letreiro: "Hoje grátis, amanhã pagando." Levava à cintura o sabre com que cortara a cabeça dos gigantes e assim entrou na casa e pediu a comida. Ficou encantando com o aspecto da moça, que era mesmo muito linda, e quando ela lhe perguntou de onde vinha e para onde ia, respondeu-lhe o caçador.
- Ando viajando pelo mundo.
A moça, depois, indagou de onde tirara aquele sabre que tinha gravado o nome de seu pai, e o caçador, por sua vez, quis saber se era a filha do rei.
- Sim, - confirmou a princesa.
- Pois com este sabre - falou, então, o caçador- cortei a cabeça a três gigantes - e, como prova, tirou da mochila as três línguas; depois mostrou-lhe o chinelo, o canto do lenço e o pedaço da camisa. Diante disso, a princesinha, louca de alegria, disse-lhe que era ele o seu salvador. Juntos foram ao palácio do velho rei, onde ela contou ao pai que o caçador era o homem que a salvara dos gigantes. O rei quando viu as provas, não pode mais duvidar e, depois de saber como tudo havia acontecido, disse muito se alegrava e que concedia ao jovem a mão de sua filha. A princesa então, mandou que o vestissem como se fosse um nobre estrangeiro e o rei organizou um banquete, Na mesa dispuseram os lugares de modo que o capitão ficasse à esquerda da princesa e o caçador à sua direita. O homem estava convencido de que se tratava de algum forasteiro que viera em visita ao palácio.
Depois de terem comido e bebido, o velho rei disse ao capitão que queria apresentar-lhe um caso para resolver, Se um indivíduo, que afirmava haver dado morte a três gigantes, tivesse de declarar onde estavam as línguas de suas vítimas, que diria ao verificar que não se encontravam nas respectivas bocas? Respondeu-lhe o capitão:
- Pois, de certo, não tinham línguas.
- Isso não é possível, - replicou o rei. - Até os animais tem língua.
Depois, perguntou-lhe o que merecia aquele que o enganasse. E a isso o capitão retrucou:
- Merece ser esquartejado!
Disse, então, o rei, que acabava de pronunciar, ele mesmo, a sua sentença e, assim, o homem foi detido e logo esquartejado, enquanto a princesa se casava com o caçador. Este mandou vir seus pais, que viveram felizes ao lado do filho. Após a morte do rei, o jovem herdou o reinado inteiro. FIM
quinta-feira, 19 de maio de 2016
O ALFAIATE INTELIGENTE - CONTOS DE GRIMM
Era uma vez uma princesa muito orgulhosa. Quando lhe aparecia algum pretendente, dava-lhe um enigma para adivinhar e, se o coitado não acertasse, mandava-o embora, enquanto ela ria, divertida. Fizera apregoar que se casaria com aquele que descobrisse a primeira adivinha que ela apresentasse, fosse ele quem fosse.
Um dia, três alfaiates se reuniram para ir ao palácio. Os dois mais velhos diziam que, tendo já acertado na sua profissão, tantos pontos difíceis, haveriam, também de acertar o problema. O terceiro, entretanto, era um cabeça de vento que não servia para nada; nem ao menos entendia de sua profissão. Confiava, porém, na sorte. Pois em que outra coisa poderia, mesmo, confiar?
- Será melhor que fiques em casa, - disseram-lhe os outros dois. - Não arranjarás nada com a tua patetice.
Mas o alfaiatezinho não se deixou perturbar e respondeu que metera na cabeça tentar a sorte e que , de qualquer modo, se arranjaria. partiu com ele, somo se o mundo inteiro lhe pertencesse.
Os três se apresentaram à princesa e pediram que lhe desse seu enigma. Disseram-lhe ser os homens indicados, de fina inteligência, tão fina que era capaz até de passar pelo buraco de uma agulha.
A princesa, então, lhes disse:
- Esta linda coifa sempre me cobre todo o penteado. Mas, para ajudar a vocês, adianto que tenho, na cabeça, cabelo de duas cores. Quais são elas?
- Se é isso, - respondeu o primeiro, - digo que é preto e branco como o pano a que chamam sal e pimenta.
- Não acertaste, - retrucou a princesa. - Que adivinhe o segundo.
- Se não é preto e branco, - disse o outro, - deve ser castanho e vermelho como o traje de festas de meu pai.
- Muito menos! - exclamou a princesa. - Que responda o terceiro. Este, sim, tem jeito de quem sabe..
Adiantando-se corajosamente, disse-lhe o alfaiatezinho:
- A princesa tem o cabelo de prata e de ouro; e estas são as duas cores.
Quando a princesa ouviu estas palavras, empalideceu e quase desmaiou, pois seus cabelos eram de um loiro prateado, coisa tão linda mas tão rara que era difícil de adivinhar.
Refazendo-se do choque, ela disse:
- Ainda não venceste, pois terás de fazer outra coisa. Embaixo, no estábulo, há um urso. passarás a noite com ele e se amanhã, quando eu me levantar, ainda estiveres vivo, eu me casarei contigo.
Desse modo pensava livrar-se do alfaiate, pois ainda ninguém dos que tinham caído nas garras do urso havia saído delas com vida. O nosso homenzinho, porém, não se amedrontou e disse alegremente:
- Quem não arrisca, não petisca!
Ao anoitecer, o alfaiatezinho foi conduzido ao estábulo do urso. O animal, imediatamente, quis atacá-lo, para dar-lhe as boas-vindas com as suas garras.
- Devagar, devagar! - exclamou o alfaiate. - Logo te acalmarei!
E muito tranquilamente, como se nada o preocupasse, tirou do bolso umas nozes, que partiu com os dentes e começou a comer. Vendo isso, o urso também ficou com vontade de comer nozes e o alfaiatezinho enfiou a mão no bolso e lhe ofereceu um punhado; só que não eram nozes e sim pedrinhas. O urso as meteu na boca e, por mais que mastigasse, não pode quebrá-las. "Ora essa!" - pensou - "Que tipo mais desajeitado sou eu que nem ao menos consigo quebrar umas nozes!" e, dirigindo-se ao alfaiate, disse:
- Quebra essas nozes para mim.
- Por aí podes ver como és formidável! - respondeu o alfaiatezinho. - Tens uma boca tão grande e nem ao menos és capaz de partir uma noz.
Apanhou as pedras e, trocando-as com agilidade, meteu uma noz na boca e: " craque! " estava partida.
- Vou tentar de novo, - disse o urso. - Se tu és capaz de quebrá-la, é claro que eu também sou.-----
Mas o alfaiatezinho tornou a dar-lhe as pedras e o urso se pôs a trincá-las com toda a força que tinha. Vocês podem acreditar: não se saiu nada bem!
Deixaram daquilo e então o alfaiatezinho tirou um violino debaixo do casaco e começou a tocar uma bonita melodia. O urso, ao ouvir a música, não resistiu, pôs-se a dançar e achou a coisa tão divertida que perguntou:
- Escuta! É muito difícil tocar violino?
- Facílimo! Olha bem. Ponho aqui os dedos da mão esquerda e, com a direita, passo o arco pelas cordas. Repara como é divertido: tralalá...tralalá...
- Pois gostaria de tocar assim violino para dançar quando tivesse vontade...- disse o urso. - Que dizes a isso? Queres ensinar-,me?
- Com todo prazer. - retrucou o alfaiatezinho - se mostrares jeito para a coisa. Mas deixa-me ver essas garras. Hum! São muito compridas. Vou ter de cortar-te as unhas.
Arranjaram um torno de carpinteiro e o urso pôs nele as garras. O alfaiatezinho as atarraxou bem depois disse:
- Agora espera que eu vou buscar a tesoura.
Deixou que o urso grunhisse à vontade e foi deitar-se num canto, sobre um monte de palha, onde adormeceu.
A princesa, ouvindo, durante a noite, os grunhidos do urso, acreditou que ele havia feito picadinho do alfaiate e estava gritando de alegria. Na manhã seguinte levantou-se tranquila e contente, mas, ao ir dar uma olhada no estábulo, encontrou nosso homenzinho alegre e saudável como peixe na água. Já não pode, e então, continuar negando-se, pois havia feito a promessa publicamente e o rei mandou vir uma carruagem em que o alfaiate foi conduzido com ela à igreja para se casarem. Enquanto isso, os dois outros alfaiates, que tinham um coração mau e invejavam a sorte de seu companheiro, desceram ao estábulo e puseram urso em liberdade. Este, enfurecido, lançou-se em perseguição da carruagem . A princesa, ao ouvi-lo grunhir e resfolegar, teve medo e exclamou:
- Ai! O urso nos persegue e vem te pegar!
Mas o alfaiatezinho, com muita agilidade, pôs as pernas fora da janelinha e gritou:
- Estás vendo este torno? Se não te retirares logo, serás novamente atarraxado a ele.
O urso, ouvindo aquilo, deu volta e deitou a correr. Nosso homenzinho entrou, calmamente, na igreja, onde o casaram com a princesa e junto a ela viveu alegre e feliz como os pássaros. E quem quiser acreditar, paga prenda.
FIM
Um dia, três alfaiates se reuniram para ir ao palácio. Os dois mais velhos diziam que, tendo já acertado na sua profissão, tantos pontos difíceis, haveriam, também de acertar o problema. O terceiro, entretanto, era um cabeça de vento que não servia para nada; nem ao menos entendia de sua profissão. Confiava, porém, na sorte. Pois em que outra coisa poderia, mesmo, confiar?
- Será melhor que fiques em casa, - disseram-lhe os outros dois. - Não arranjarás nada com a tua patetice.
Mas o alfaiatezinho não se deixou perturbar e respondeu que metera na cabeça tentar a sorte e que , de qualquer modo, se arranjaria. partiu com ele, somo se o mundo inteiro lhe pertencesse.
Os três se apresentaram à princesa e pediram que lhe desse seu enigma. Disseram-lhe ser os homens indicados, de fina inteligência, tão fina que era capaz até de passar pelo buraco de uma agulha.
A princesa, então, lhes disse:
- Esta linda coifa sempre me cobre todo o penteado. Mas, para ajudar a vocês, adianto que tenho, na cabeça, cabelo de duas cores. Quais são elas?
- Se é isso, - respondeu o primeiro, - digo que é preto e branco como o pano a que chamam sal e pimenta.
- Não acertaste, - retrucou a princesa. - Que adivinhe o segundo.
- Se não é preto e branco, - disse o outro, - deve ser castanho e vermelho como o traje de festas de meu pai.
- Muito menos! - exclamou a princesa. - Que responda o terceiro. Este, sim, tem jeito de quem sabe..
Adiantando-se corajosamente, disse-lhe o alfaiatezinho:
- A princesa tem o cabelo de prata e de ouro; e estas são as duas cores.
Quando a princesa ouviu estas palavras, empalideceu e quase desmaiou, pois seus cabelos eram de um loiro prateado, coisa tão linda mas tão rara que era difícil de adivinhar.
Refazendo-se do choque, ela disse:
- Ainda não venceste, pois terás de fazer outra coisa. Embaixo, no estábulo, há um urso. passarás a noite com ele e se amanhã, quando eu me levantar, ainda estiveres vivo, eu me casarei contigo.
Desse modo pensava livrar-se do alfaiate, pois ainda ninguém dos que tinham caído nas garras do urso havia saído delas com vida. O nosso homenzinho, porém, não se amedrontou e disse alegremente:
- Quem não arrisca, não petisca!
Ao anoitecer, o alfaiatezinho foi conduzido ao estábulo do urso. O animal, imediatamente, quis atacá-lo, para dar-lhe as boas-vindas com as suas garras.
- Devagar, devagar! - exclamou o alfaiate. - Logo te acalmarei!
E muito tranquilamente, como se nada o preocupasse, tirou do bolso umas nozes, que partiu com os dentes e começou a comer. Vendo isso, o urso também ficou com vontade de comer nozes e o alfaiatezinho enfiou a mão no bolso e lhe ofereceu um punhado; só que não eram nozes e sim pedrinhas. O urso as meteu na boca e, por mais que mastigasse, não pode quebrá-las. "Ora essa!" - pensou - "Que tipo mais desajeitado sou eu que nem ao menos consigo quebrar umas nozes!" e, dirigindo-se ao alfaiate, disse:
- Quebra essas nozes para mim.
- Por aí podes ver como és formidável! - respondeu o alfaiatezinho. - Tens uma boca tão grande e nem ao menos és capaz de partir uma noz.
Apanhou as pedras e, trocando-as com agilidade, meteu uma noz na boca e: " craque! " estava partida.
- Vou tentar de novo, - disse o urso. - Se tu és capaz de quebrá-la, é claro que eu também sou.-----
Mas o alfaiatezinho tornou a dar-lhe as pedras e o urso se pôs a trincá-las com toda a força que tinha. Vocês podem acreditar: não se saiu nada bem!
Deixaram daquilo e então o alfaiatezinho tirou um violino debaixo do casaco e começou a tocar uma bonita melodia. O urso, ao ouvir a música, não resistiu, pôs-se a dançar e achou a coisa tão divertida que perguntou:
- Escuta! É muito difícil tocar violino?
- Facílimo! Olha bem. Ponho aqui os dedos da mão esquerda e, com a direita, passo o arco pelas cordas. Repara como é divertido: tralalá...tralalá...
- Pois gostaria de tocar assim violino para dançar quando tivesse vontade...- disse o urso. - Que dizes a isso? Queres ensinar-,me?
- Com todo prazer. - retrucou o alfaiatezinho - se mostrares jeito para a coisa. Mas deixa-me ver essas garras. Hum! São muito compridas. Vou ter de cortar-te as unhas.
Arranjaram um torno de carpinteiro e o urso pôs nele as garras. O alfaiatezinho as atarraxou bem depois disse:
- Agora espera que eu vou buscar a tesoura.
Deixou que o urso grunhisse à vontade e foi deitar-se num canto, sobre um monte de palha, onde adormeceu.
A princesa, ouvindo, durante a noite, os grunhidos do urso, acreditou que ele havia feito picadinho do alfaiate e estava gritando de alegria. Na manhã seguinte levantou-se tranquila e contente, mas, ao ir dar uma olhada no estábulo, encontrou nosso homenzinho alegre e saudável como peixe na água. Já não pode, e então, continuar negando-se, pois havia feito a promessa publicamente e o rei mandou vir uma carruagem em que o alfaiate foi conduzido com ela à igreja para se casarem. Enquanto isso, os dois outros alfaiates, que tinham um coração mau e invejavam a sorte de seu companheiro, desceram ao estábulo e puseram urso em liberdade. Este, enfurecido, lançou-se em perseguição da carruagem . A princesa, ao ouvi-lo grunhir e resfolegar, teve medo e exclamou:
- Ai! O urso nos persegue e vem te pegar!
Mas o alfaiatezinho, com muita agilidade, pôs as pernas fora da janelinha e gritou:
- Estás vendo este torno? Se não te retirares logo, serás novamente atarraxado a ele.
O urso, ouvindo aquilo, deu volta e deitou a correr. Nosso homenzinho entrou, calmamente, na igreja, onde o casaram com a princesa e junto a ela viveu alegre e feliz como os pássaros. E quem quiser acreditar, paga prenda.
FIM
sexta-feira, 13 de maio de 2016
OS DOIS ANDARILHOS - CONTOS DE GRIMM
Os vales e as montanhas nunca se encontraram, mas apenas os homens, especialmente os bons com os maus. Assim sucedeu que, certa vez, um sapateiro e um alfaiate que haviam saído a correr mundo, se encontraram . O alfaiate era baixinho, simpático, sempre alegre e bem disposto. Ao ver o sapateiro, que se aproximava, vindo de direção oposta e percebendo-lhe o ofício pela sacola que carregava, gritou-lhe estes versinhos zombeteiros:
Sapateiro, não amola!
Bota fora a presunção!
Bata sola, bate sola,
Faz a tua obrigação!
Mas o sapateiro não gostava de brincadeiras e, franzindo a cara como se tivesse tomado vinagre, fez o gesto de quem ia esgoelar o outro. O alfaiatezinho, no entanto, começou a rir e, alcançando-lhe sua garrafa de vinho, disse:
- Não leves a mal. Bebe um pouco que te passará esse mau humor.
O sapateiro tomou um bom gole e seu rosto começou a desanuviar-se. Devolvendo a garrafa ao alfaiate, disse-lhe:
- Prestei boa homenagem ao vinho. Fala-se muito dos que bebem, mas não dos que tem sede. que achas da ideia de seguirmos juntos?
- Estou de acordo, - respondeu-lhe o alfaiate,- desde que queiras ir a uma cidade grande, onde não falte trabalho.
- Era essa, exatamente, a minha vontade, - retrucou o sapateiro. - Num lugarejo qualquer não se ganha nada e, no campo, as pessoas preferem andar descalças.
Assim, prosseguiram juntos seu caminho, sempre em frente, um pé adiante do outro, que o mundo é coisa grande para quem sabe andar.
Tempo, eles tinham de sobra, mas pouca coisa para mastigar. Sempre que chegavam a uma cidade, cada um ia para o seu lado a cumprimentar os mestres de seus respectivos ofícios. O alfaiatezinho, com seu gênio alegre, seu ar saudável, suas bochechas coradas, era bem acolhido em toda parte e todos lhe davam alguma coisa, e até às vezes tinha a sorte de ganhar uma beijoca da filha do mestre, atrás da porta. Quando se encontrava, de novo, com o sapateiro, sua mochila sempre estava mais cheia que a do outro, O sapateiro, com seu ar rabugento, fazia uma cara feia e comentava:
- Quanto mais velhaco, mais sorte!
Mas o alfaiate se punha a rir e a cantar e repartia com seu companheiro tudo o que lhe haviam dado. Se acontecia tilintarem alguma moedas em seu bolso, ele as gastava na taverna e, de tão contente, batia com o punho na mesa, estremecendo os copos. Fazia como diz o povo: " Fácil de ganhar, fácil de gastar."
Já tinham viajado juntos por algum tempo, quando chegaram, um dia, a uma floresta muito grande por onde passava o caminho da capital do reino. Tinham de escolher duas estradas: uma que se percorria em sete dias e ao outra em apenas dois. Mas eles não sabiam qual era a mais curta, Os dois andarilhos sentaram-se à sombra de um cavalho para discutir o caso e resolver para quantos dias deveriam levar pão. Disse o sapateiro:
É melhor gemer de peso que de necessidade. Eu vou levar pão para sete dias.
O que?! - exclamou o alfaiate. - Carregar, que nem burro, pão no lombo para sete dias, sem poder ao menos virar a cabeça, para dar uma olhada no caminho? Tenho fé em Deus e não me preocupo. O dinheiro que tenho no bolso vale o mesmo, tanto no verão como no inverno, mas o pão, com este calor, ficará seco e ainda por cima vai embolar. Por que fazer a manga mais comprida que o braço? Por que não iríamos dar no caminho certo? Pão para dois dias, e nada mais!
E, assim, cada qual comprou sua quantidade de pão e embrenharam-se na floresta, contando com a sorte.
No interior da mata havia um silêncio grande como numa igreja. Não corria uma brisa; não se ouvia o rumor de um arroio nem o gorjeio de um pássaro ao menos um raio de sol. O sapateiro não pronunciava uma só palavra, pois a grande carga de pão lhe pesava tanto nos ombros que os suor corria como água pelo seu rosto carrancudo e feio. O alfaiate, porém, caminhava alegremente, pulando e tocando numa folha enrolada, como se fosse uma flauta ou, então, cantava, enquanto ia pensando: "Deus Nosso Senhor deve estar contente por me ver tão alegre."
Durante dois dias as coisas continuaram assim. Mas quando, ao fim do terceiro, o alfaiate viu que não chegavam ao fim da floresta e que ele já tinha comido toda a sua parte, sentiu um baque no coração. Mesmo assim, não perdeu a coragem: tinha confiança em Deus e na sua boa sorte. Naquela noite deitou-se, faminto, ao pé de uma árvore e, na manhã seguinte, despertou com mais fome ainda. Assim passou também o quarto dia e, quando o sapateiro se sentava no tronco de alguma árvore para fazer sua refeição, a única coisa que restava ao alfaiate era ficar olhando, olhando...Se lhe pedia um pedacinho de pão, o outro ria e lhe retrucava:
- Sempre foste tão alegre! Pois fica sabendo agora o que é a tristeza...Os passarinhos que cantam de madrugada são comidos , à noite, pelo gavião.
- Hoje te darei um pedacinho de pão, mas, em troca, vou tirar-te o olho direito.
O infeliz alfaiate, desejoso de viver mais um pouco não teve outro remédio senão concordar. Chorou, pela ultima vez, com os dois olhos e depois ofereceu-se ao sapateiro, que tinha um coração de pedra e que lhe tirou, com uma faca bem afiada, o direito.
O alfaiate, então, lembrou-se do que a mãe sempre lhe dizia quando o encontrava a empanturrar-se de doces na despensa: " Come, come, mas depois aguente as consequências!" Assim, pode ter devorado o pão que lhe saíra caro, ele conseguiu pôr-se novamente de pé. E esquecendo sua desgraça, procurou consolar-se com a ideia de que com um olho só ainda enxergava o bastante. Mas no sexto dia, voltou a atormentá-lo a fome que o fazia desfalecer. À noite, caiu junto a uma árvore e, na manhã do sétimo dia, não conseguiu mais erguer-se e sentiu que a morte se aproximava. Disse-lhe, então, o sapateiro:
- Vou ser camarada contigo e te darei outro pão. Mas não o terás de graça. Em troca, vou tirar-te o outro olho.
Diante disso, o alfaiate reconheceu sua conduta leviana e, pedindo perdão a Deus, disse ao seu companheiro:
- Seja o que bem quiseres! Tenho de sofrer as consequências da minha imprevidência. Não te esqueças, porém que Deus Nosso Senhor julga quando menos se espera. Chegará a hora em que terás de prestar contas do que fazes, exatamente a mim, que, durante os dias bons, reparti contigo tudo o que possuía. Para exercer minha profissão é necessário que um ponto siga o outro; uma vez que eu tiver perdido a vista, não poderei mais costurar e não me restará outro recurso senão esmolar o meu pão. Só te peço que, quando cego, não me abandones neste lugar, onde morreria de fome.
O sapateiro, que já não tinha lugar para Deus no seu coração, pegou faca e lhe tirou o outro olho. Feito isso, deu-lhe um pão para comer, alcançou-lhe um bastão e deixou que o alfaiate o seguisse.
Quando o sol ia desaparecer, os dois saíram da floresta. No campo em frente, e erguia-se uma forca. O sapateiro guiou o alfaiate até ali e depois o abandonou, seguindo ele seu caminho. O infeliz adormeceu de cansaço, de dor e fome. Ao despontar do dia, acordou sem saber onde se encontrava. Da forca pendiam os corpos de dois pobres pecadores e sobre a cabeça de cada um deles estava pousado um corvo. De repente, um dos enforcados começou a falar. Disse, dirigindo-se ao outro:
- Irmão, estás acordado?
- Sim - respondeu o companheiro.
- Pois então vou te dizer uma coisa, - prosseguiu o primeiro, - o orvalho que esta noite caiu em cima de nós, eu sei que tem um poder mágico: devolve a vista a quem se lavar com ele. Ah! se os cegos soubessem disso...
Ao ouvir aquelas palavra, o alfaiate pegou o lenço, molhou-o no orvalho que havia sobre o capim e lavou com ele as cavidades dos olhos. No mesmo instante, aconteceu o que acabara de dizer o enforcado e um par de olhos sãos nasceu-lhe no lugar onde só havia os buracos. Pouco depois, o alfaiate viu o sol nascer atrás das montanha e, à sua frente, na planície, a cidade, com seus magníficos portões e centenas de torres encimadas por cruzes de ouro que brilhavam à distância. Pode distinguir cada folha nas árvores. Pode ver os pássaros que passavam voando. E até os pequenos insetos que dançavam no ar. Tirou do bolso uma agulha e viu - ó milagre! - que podia enfiá-la melhor do que antes. Caiu de joelhos, agradecendo a Deus a graça obtida e rezou sua oração da manhã, sem esquecer de encomendar a Nosso Senhor as almas dos dois pobres pecadores ali enforcados e que o vento fazia bater um contra o outro. Em seguida, pôs aos ombros a mochila e, esquecendo as penas passadas, retomou o caminho, cantando e assobiando.
Eis senão, quando, avistou um lindo potro tordilho, que saltava alegremente pelo campo. Agarrando-o pela crina, quis montar nele para entrar a cavalo na cidade. Mas o animal rogou-lhe que não privasse de sua liberdade:
- Sou demasiado jovem, - disse, - e, mesmo um alfaiatezinho leve como tu, me quebraria a espinha. Deixa-me correr livremente pelos campos até que esteja mais forte. Talvez chegue o dia em que eu possa pagar-te.
- Pois sai correndo, - disse -lhe o alfaiate. - Bem vejo que és, também, um maluquinho.
Deu-lhe um golpe de leve no lombo, com a vara, e o animalzinho saiu a galopar, alegre, pelo campo, saltando cercas e valas.
O alfaiate não havia comido nada desde a véspera.
- É verdade que o sol me enche os olhos, - dizia,- mas agora preciso de alguma coisa que me encha a boca. O que eu primeiro encontre para comer, não deixarei escapar!
Nisto, viu uma cegonha que andava, muito sim-senhora, pelo campo.
- Alto, alto! - gritou o alfaiate, pegando-a pela perna. - Não sei se és uma boa comida, mas minha fome não me permite escolha. Tenho de torcer-te o pescoço e transformar-te num assado.
- Não faças isso! - respondeu a cegonha. - Sou uma santa ave que não faz mal a ninguém e que traz grande benefício à humanidade. Se me poupas a vida, talvez um dia eu possa pagar-te.
- Pois, então, vai andando, perna-fina! - disse o alfaiate. E a cegonha, alcançando voo, afastou-se tranquilamente.
- Que farei agora? - perguntou o alfaiate a si mesmo. - Minha fome cresce como um balão e tenho o estômago cada vez mais vazio. O primeiro que cruzar o meu caminho estará perdido.
Nisto, olhou para um lago e viu dois patinhos nadando.
- Vocês vem muito a propósito! - disse ele. E, agarrando um dos bichinhos, dispôs-se a torcer-lhe o pescoço. Naquele momento, uma pata velha, que estava metida entre os juncos, pôs-se a grasnar e, aproximando-se, a nado, lhe implorou que tivesse pena dos seus filhinhos.
- Não pensas - falou - no que sentiria tua mãe se alguém viesse para te comer?
- Tranquiliza-te, respondeu-lhe o bondoso alfaiate. - Fica com teus filhos. - E pôs na água o patinho que havia apanhado.
Ao voltar-se, notou à sua frente uma velha árvore, meio oca, e muitas abelhas silvestres que entravam e saiam do tronco.
- Finalmente recebo o prêmio pela minha boa ação, - disse, - este mel me confortará.
Mas a rainha das abelhas apresentou-se, ameaçado-o:
- Se tocas em meu povo e nos destróis o ninho, nossos ferrões se cravarão em teu corpo como dez mil agulhas de fogo. Em troca, se nos deixares em paz e seguires o teu caminho, nós te prestaremos um serviço quando menos esperares.
O alfaiatezinho viu que também por aquele lado não iria saciar sua fome.
- Três pratos vazios. - disse consigo - e o quarto, sem coisa nenhuma; isto é que se chama fazer dieta!
Arrastou-se até a cidade, sem nada no estômago. Mas, como chegasse justamente ao meio-dia e tivesse algumas moedas, pode afinal matar a fome. Depois, pensou: " Bem, agora é preciso trabalhar!"
Percorrer a cidade em busca de um mestre- alfaiate e não tardou a encontrar um bom emprego. Como era muito hábil em seu ofício, em pouco tempo estava famoso. Todas as pessoas de importância queriam seus trajes confeccionados pelo alfaziatezinho, que era agora o rei da moda.
- Não posso melhorar mais a minha arte, - dizia ele, - e, no entanto, cada dia as coisas vão melhorando.
Tanto assim, que o rei o nomeou alfaiate da Corte.
Mas vejam como são as coisas neste mundo: no mesmo dia era nomeado sapateiro da Corte o seu velho companheiro de viagem. Este, ao ver alfaiate e notando que havia recuperado os olhos, ficou muito preocupado. ! "Tenho de preparar-lhe uma cilada antes que ele se vingue de mim" - pensou. Mas aquele que faz uma armadilha para outrem, acaba caindo nela.
Certa ocasião, ao anoitecer, depois de terminar o trabalho, o sapateiro apresentou-se ao rei e lhe disse:
- Majestade, o alfaiate é um sujeito atrevido, Ele anda a gabar-se de que seria capaz de encontrar a coroa de ouro que se perdeu há tanto tempo.
- Isso muito me agradaria, - respondeu o rei.
Na manhã seguinte, chamou o alfaiate à sua presença e lhe disse que das duas uma: ou fizesse aparecer a coroa ou então deixasse a cidade para sempre. " Bem, - pensou o alfaiatezinho, - só um tolo dá mais do que tem. Se o rei exige de mim o que ninguém pode fazer, é melhor que eu nem espere o dia de amanhã e saia da cidade hoje mesmo." Arrumou sua mochila. E, quando ia atravessando as portas da cidade, sentiu uma grande tristeza por ter de renunciar à sua boa sorte, a abandonando os lugares onde passara tão belos dias. Chegou ao lago onde tinha os patos. Ali estava a pata velha, limpando as penas com o bico. Ela o reconheceu logo e lhe perguntou por que andava tão acabrunhado.
- Não te espantarás quando souberes o motivo, - respondeu o alfaiate e contou-lhe o seu azar.
- Se é só isso, - disse a pata, - poderemos ajudar-te. A coroa caiu na água e está no fundo do lago. Logo a traremos à tona. Estende o teu lenço no chão, junto à margem.
E, junto com os seus doze patinhos, mergulhou para reaparecer dali a cinco minutos com a coroa no lombo, rodeada dos doze pequerruchos que, nadando a seu redor, ajudavam-na a carregar a coroa com os bicos. Nadaram até a margem e depositaram a coroa sobre o lenço. Não podem imaginar como ela era inda! Quando os raios de sol a atingiam, cintilava como cem mil brilhantes. O alfaiate atou o lenço pelas quatro pontas e levou a coroa ao rei. Este, contentíssimo, condecorou ele mesmo ao alfaiate, com um belo colar de ouro.
Quando o sapateiro viu que seu plano havia falhado, pensou noutro e, dirigindo-se ao rei, disse:
- Majestade, o alfaiate continua muito atrevido. Ele anda a gabar-se de que pode reproduzir em cera todo o palácio real, com todos os pertences, por dentro e por fora.
O rei mandou chamar o alfaiate e ordenou-lhe que reproduzisse em cera o palácio, com tudo o que dele fizesse parte, exatamente , tanto no interior como no exterior. Mas avisou-o de que, se não fosse capaz disso e se faltasse um só prego na parede, seria lançado a um calabouço para o resto da vida. Pensou o alfaiate: " As coisas estão piorando cada vez mais; isso ninguém aguenta." E, pondo a mochila aos ombros, saiu pela estrada. Quando chegou à árvore oca, sentou-se embaixo para descansar, triste e aborrecido. As abelhas saíram voando e a rainha lhe perguntou se estava sentindo alguma dor, pois nem levantava a cabeça.-------------------------------------
- Oh, não! - respondeu o alfaiate, - a minha dor é outra.
E contou o que o rei havia exigido dele. puseram-se as abelhas a zumbir entre si e depois a rainha lhe disse:
- Volta para casa e amanhã, a esta mesma hora, vem aqui, trazendo um pano bem grande, que tudo saíra bem.
Enquanto ele regressava à cidade, as abelhas voaram até o palácio real e, entrando pelas janelas, meteram-se por todos os cantos, observando tudo em seus menores detalhes. Feito isso, de volta à colmeia, fizeram uma reprodução, em cera, do palácio, e isto com uma rapidez que vocês nem podem imaginar. À noite o trabalho estava concluído. E quando, na manhã seguinte, o alfaiate se apresentou, conforme o combinado, viu ali o magnífico palácio, sem que faltasse um prego na parede nem uma telha no telhado. Além disso, era delicado como um bolo de noiva, branco como a neve e desprendia o cheiro suave de mel. o alfaiate o arrumou, cuidadosamente, dentro do pano que trouxera e o levou ao rei. Este não soube como expressar sua admiração. mandou que o colocassem no salão mais espaçosos do palácio. E presentou o alfaiate com uma casa muito grande e muito bonita.
O sapateiro, porém, não desistiu e pela terceira vez foi ao rei, dizendo:
- Majestade, o alfaiate bem sabe que no pátio do palácio não há meios de fazer brotar água. Mas ele anda a gabar-se de que é capaz de fazê-la jorrar no centro do pátio, em um esguicho da altura de um homem, e límpida como um cristal.
O rei ordenou que se apresentasse o alfaiate e lhe disse:
- Se amanhã não jorrar um esguicho de água no pátio, conforme prometeste, mandarei que o carrasco te corte a cabeça ali mesmo.
O pobre alfaiatezinho não se demorou em pensar muito tempo no assunto. Apressou-se a sair da cidade e, como desta vez não se tratava de expulsão nem de prisão, mas de sua própria vida, as lágrimas lhe rolavam pelas faces. Enquanto caminhava, cheio de tristeza, aproximou-se dele, saltando, o antigo potro a quem um dia ele concedera a liberdade e que, já crescido, era agora um belo e forte animal.
- Chegou a hora, - disse ele, - em que poderei pagar tua boa ação. Já sei o se que passa e logo te ajudarei. Monta em mim, pois agora posso carregar dois como tu.
O alfaiate criou alma nova e saltou para o lombo do animal, que entrou a galope na cidade, dirigindo-se, diretamente, ao pátio do palácio. Ali deu três voltas completas com a velocidade do raio e, por fim, deixou-se cair no chão. no mesmo instante ouviu-se um tremendo estalo. Do centro do pátio, saltou um pedaço de terra. Elevou-se um jato de água até a altura de um homem a cavalo. E a água era límpida como um cristal e os raios dos sol dançavam em suas gotas. Quando o rei viu esse maravilhoso espetáculo, levantou-se cheio de da admiração e foi ele mesmo abraçar o alfaiatezinho, na presença de toda a Corte.
A felicidade, porém, durou pouco. O rei tinha várias filhas, cada qual mais linda, mas nenhum filho homem. E, pela quarta vez, o sapateiro maldoso foi ao rei e falou:
- Majestade, o alfaiate continua cada vez mais atrevido. Ele anda agora a gabar-se de que será capaz de fazer com que tragam, pelos ares, um filho para a rainha.
Novamente o rei mandou chamar o alfaiate e lhe disse:
- Se, dentro de nove dias, fizeres com que me tragam um herdeiro menino, eu te darei minha filha mais velha em casamento.
"Realmente, a recompensa é grande" - pensou o alfaiatezinho, - " e vale a pena fazer um esforço. mas, quando a esmola é demais, o pobre desconfia."
Foi para casa; instalou-se de pernas cruzadas sobre a sua mesa de trabalho e pôs-se a refletir no assunto. "Não é possível!" - acabou exclamando, - " eu me vou embora para sempre; aqui não poderei viver em paz".
Arrumou a mochila e apressou-se a sair da cidade. Quando chegou ao campo, avistou sua velha amiga, a cegonha, que passeava, filosofando, de um lado para outro, e que de vez em quando parava para examinar uma rã, que ela acabava engolindo mesmo. A cegonha aproximou-se e saudou-o.
- Vejo - começou a falar - que tens a mochila às costa. por que pretendes sair da cidade?
O alfaiate contou o que o rei lhe havia exigido e que lhe era impossível satisfazê-lo.
- Não vás criar cabelo branco por tão pouco,- disse a cegonha. - Eu te ajudarei. - Há muito tempo que trago bebes para a cidade e não me custa tirar do poço um pequeno príncipe. Vai para casa descansado. Daqui a nove dias apresenta-te no palácio, que lá estarei também.
O alfaiatezinho voltou para casa e no dia combinado foi ao palácio. Não demorou muito, apresentou-se a cegonha e bateu à janela. O alfaiate abriu e a senhora cegonha entrou, com todo o cuidado caminhando solenemente sobre o mármore liso. Trazia no bico um menininho, lindo com um anjo, que estendia as mãos para a rainha. Depositou o nenê no seu colo e ela pôs-se a beijá-la, doida de alegria. Antes de afastar-se. a cegonha tirou seu saco de viagem e o alcançou à rainha. Dentro havia balas e doces diversos que foram distribuídos entre as princesinhas. Só a mais velha nada recebeu. Já era muito grande para ganhar doces. Deram-lhe, em vez disso, o alegre alfaiate para esposo. " Sinto-me como se houvesse tirado a sorte grande. Minha mãe sempre dizia que, quem confia em Deus e tem sorte, nada lhe faltará."
O sapateiro foi obrigado a fazer os sapatos que o nosso alfaiatezinho usaria no baile de casamento. Depois, ordenaram-lhe que abandonasse a cidade. O caminho para o mato passava pela forca. Abafado pelo calor e com a alma cheia de ódio, deitou-se ali. Quando ia fechar as pálpebras para dormir um pouco, os dois corvos que estavam pousados na cabeça dos enforcados atiraram-se, grasnando, sobre ele e lhe arrancaram seus dois olhos. Louco de dor, levantou-se e entrou correndo na floresta, onde decerto morreu ao desamparo, pois nunca mais se viu ou ouviu coisa alguma a seu respeito. FIM
Sapateiro, não amola!
Bota fora a presunção!
Bata sola, bate sola,
Faz a tua obrigação!
Mas o sapateiro não gostava de brincadeiras e, franzindo a cara como se tivesse tomado vinagre, fez o gesto de quem ia esgoelar o outro. O alfaiatezinho, no entanto, começou a rir e, alcançando-lhe sua garrafa de vinho, disse:
- Não leves a mal. Bebe um pouco que te passará esse mau humor.
O sapateiro tomou um bom gole e seu rosto começou a desanuviar-se. Devolvendo a garrafa ao alfaiate, disse-lhe:
- Prestei boa homenagem ao vinho. Fala-se muito dos que bebem, mas não dos que tem sede. que achas da ideia de seguirmos juntos?
- Estou de acordo, - respondeu-lhe o alfaiate,- desde que queiras ir a uma cidade grande, onde não falte trabalho.
- Era essa, exatamente, a minha vontade, - retrucou o sapateiro. - Num lugarejo qualquer não se ganha nada e, no campo, as pessoas preferem andar descalças.
Assim, prosseguiram juntos seu caminho, sempre em frente, um pé adiante do outro, que o mundo é coisa grande para quem sabe andar.
Tempo, eles tinham de sobra, mas pouca coisa para mastigar. Sempre que chegavam a uma cidade, cada um ia para o seu lado a cumprimentar os mestres de seus respectivos ofícios. O alfaiatezinho, com seu gênio alegre, seu ar saudável, suas bochechas coradas, era bem acolhido em toda parte e todos lhe davam alguma coisa, e até às vezes tinha a sorte de ganhar uma beijoca da filha do mestre, atrás da porta. Quando se encontrava, de novo, com o sapateiro, sua mochila sempre estava mais cheia que a do outro, O sapateiro, com seu ar rabugento, fazia uma cara feia e comentava:
- Quanto mais velhaco, mais sorte!
Mas o alfaiate se punha a rir e a cantar e repartia com seu companheiro tudo o que lhe haviam dado. Se acontecia tilintarem alguma moedas em seu bolso, ele as gastava na taverna e, de tão contente, batia com o punho na mesa, estremecendo os copos. Fazia como diz o povo: " Fácil de ganhar, fácil de gastar."
Já tinham viajado juntos por algum tempo, quando chegaram, um dia, a uma floresta muito grande por onde passava o caminho da capital do reino. Tinham de escolher duas estradas: uma que se percorria em sete dias e ao outra em apenas dois. Mas eles não sabiam qual era a mais curta, Os dois andarilhos sentaram-se à sombra de um cavalho para discutir o caso e resolver para quantos dias deveriam levar pão. Disse o sapateiro:
É melhor gemer de peso que de necessidade. Eu vou levar pão para sete dias.
O que?! - exclamou o alfaiate. - Carregar, que nem burro, pão no lombo para sete dias, sem poder ao menos virar a cabeça, para dar uma olhada no caminho? Tenho fé em Deus e não me preocupo. O dinheiro que tenho no bolso vale o mesmo, tanto no verão como no inverno, mas o pão, com este calor, ficará seco e ainda por cima vai embolar. Por que fazer a manga mais comprida que o braço? Por que não iríamos dar no caminho certo? Pão para dois dias, e nada mais!
E, assim, cada qual comprou sua quantidade de pão e embrenharam-se na floresta, contando com a sorte.
No interior da mata havia um silêncio grande como numa igreja. Não corria uma brisa; não se ouvia o rumor de um arroio nem o gorjeio de um pássaro ao menos um raio de sol. O sapateiro não pronunciava uma só palavra, pois a grande carga de pão lhe pesava tanto nos ombros que os suor corria como água pelo seu rosto carrancudo e feio. O alfaiate, porém, caminhava alegremente, pulando e tocando numa folha enrolada, como se fosse uma flauta ou, então, cantava, enquanto ia pensando: "Deus Nosso Senhor deve estar contente por me ver tão alegre."
Durante dois dias as coisas continuaram assim. Mas quando, ao fim do terceiro, o alfaiate viu que não chegavam ao fim da floresta e que ele já tinha comido toda a sua parte, sentiu um baque no coração. Mesmo assim, não perdeu a coragem: tinha confiança em Deus e na sua boa sorte. Naquela noite deitou-se, faminto, ao pé de uma árvore e, na manhã seguinte, despertou com mais fome ainda. Assim passou também o quarto dia e, quando o sapateiro se sentava no tronco de alguma árvore para fazer sua refeição, a única coisa que restava ao alfaiate era ficar olhando, olhando...Se lhe pedia um pedacinho de pão, o outro ria e lhe retrucava:
- Sempre foste tão alegre! Pois fica sabendo agora o que é a tristeza...Os passarinhos que cantam de madrugada são comidos , à noite, pelo gavião.
- Hoje te darei um pedacinho de pão, mas, em troca, vou tirar-te o olho direito.
O infeliz alfaiate, desejoso de viver mais um pouco não teve outro remédio senão concordar. Chorou, pela ultima vez, com os dois olhos e depois ofereceu-se ao sapateiro, que tinha um coração de pedra e que lhe tirou, com uma faca bem afiada, o direito.
O alfaiate, então, lembrou-se do que a mãe sempre lhe dizia quando o encontrava a empanturrar-se de doces na despensa: " Come, come, mas depois aguente as consequências!" Assim, pode ter devorado o pão que lhe saíra caro, ele conseguiu pôr-se novamente de pé. E esquecendo sua desgraça, procurou consolar-se com a ideia de que com um olho só ainda enxergava o bastante. Mas no sexto dia, voltou a atormentá-lo a fome que o fazia desfalecer. À noite, caiu junto a uma árvore e, na manhã do sétimo dia, não conseguiu mais erguer-se e sentiu que a morte se aproximava. Disse-lhe, então, o sapateiro:
- Vou ser camarada contigo e te darei outro pão. Mas não o terás de graça. Em troca, vou tirar-te o outro olho.
Diante disso, o alfaiate reconheceu sua conduta leviana e, pedindo perdão a Deus, disse ao seu companheiro:
- Seja o que bem quiseres! Tenho de sofrer as consequências da minha imprevidência. Não te esqueças, porém que Deus Nosso Senhor julga quando menos se espera. Chegará a hora em que terás de prestar contas do que fazes, exatamente a mim, que, durante os dias bons, reparti contigo tudo o que possuía. Para exercer minha profissão é necessário que um ponto siga o outro; uma vez que eu tiver perdido a vista, não poderei mais costurar e não me restará outro recurso senão esmolar o meu pão. Só te peço que, quando cego, não me abandones neste lugar, onde morreria de fome.
O sapateiro, que já não tinha lugar para Deus no seu coração, pegou faca e lhe tirou o outro olho. Feito isso, deu-lhe um pão para comer, alcançou-lhe um bastão e deixou que o alfaiate o seguisse.
Quando o sol ia desaparecer, os dois saíram da floresta. No campo em frente, e erguia-se uma forca. O sapateiro guiou o alfaiate até ali e depois o abandonou, seguindo ele seu caminho. O infeliz adormeceu de cansaço, de dor e fome. Ao despontar do dia, acordou sem saber onde se encontrava. Da forca pendiam os corpos de dois pobres pecadores e sobre a cabeça de cada um deles estava pousado um corvo. De repente, um dos enforcados começou a falar. Disse, dirigindo-se ao outro:
- Irmão, estás acordado?
- Sim - respondeu o companheiro.
- Pois então vou te dizer uma coisa, - prosseguiu o primeiro, - o orvalho que esta noite caiu em cima de nós, eu sei que tem um poder mágico: devolve a vista a quem se lavar com ele. Ah! se os cegos soubessem disso...
Ao ouvir aquelas palavra, o alfaiate pegou o lenço, molhou-o no orvalho que havia sobre o capim e lavou com ele as cavidades dos olhos. No mesmo instante, aconteceu o que acabara de dizer o enforcado e um par de olhos sãos nasceu-lhe no lugar onde só havia os buracos. Pouco depois, o alfaiate viu o sol nascer atrás das montanha e, à sua frente, na planície, a cidade, com seus magníficos portões e centenas de torres encimadas por cruzes de ouro que brilhavam à distância. Pode distinguir cada folha nas árvores. Pode ver os pássaros que passavam voando. E até os pequenos insetos que dançavam no ar. Tirou do bolso uma agulha e viu - ó milagre! - que podia enfiá-la melhor do que antes. Caiu de joelhos, agradecendo a Deus a graça obtida e rezou sua oração da manhã, sem esquecer de encomendar a Nosso Senhor as almas dos dois pobres pecadores ali enforcados e que o vento fazia bater um contra o outro. Em seguida, pôs aos ombros a mochila e, esquecendo as penas passadas, retomou o caminho, cantando e assobiando.
Eis senão, quando, avistou um lindo potro tordilho, que saltava alegremente pelo campo. Agarrando-o pela crina, quis montar nele para entrar a cavalo na cidade. Mas o animal rogou-lhe que não privasse de sua liberdade:
- Sou demasiado jovem, - disse, - e, mesmo um alfaiatezinho leve como tu, me quebraria a espinha. Deixa-me correr livremente pelos campos até que esteja mais forte. Talvez chegue o dia em que eu possa pagar-te.
- Pois sai correndo, - disse -lhe o alfaiate. - Bem vejo que és, também, um maluquinho.
Deu-lhe um golpe de leve no lombo, com a vara, e o animalzinho saiu a galopar, alegre, pelo campo, saltando cercas e valas.
O alfaiate não havia comido nada desde a véspera.
- É verdade que o sol me enche os olhos, - dizia,- mas agora preciso de alguma coisa que me encha a boca. O que eu primeiro encontre para comer, não deixarei escapar!
Nisto, viu uma cegonha que andava, muito sim-senhora, pelo campo.
- Alto, alto! - gritou o alfaiate, pegando-a pela perna. - Não sei se és uma boa comida, mas minha fome não me permite escolha. Tenho de torcer-te o pescoço e transformar-te num assado.
- Não faças isso! - respondeu a cegonha. - Sou uma santa ave que não faz mal a ninguém e que traz grande benefício à humanidade. Se me poupas a vida, talvez um dia eu possa pagar-te.
- Pois, então, vai andando, perna-fina! - disse o alfaiate. E a cegonha, alcançando voo, afastou-se tranquilamente.
- Que farei agora? - perguntou o alfaiate a si mesmo. - Minha fome cresce como um balão e tenho o estômago cada vez mais vazio. O primeiro que cruzar o meu caminho estará perdido.
Nisto, olhou para um lago e viu dois patinhos nadando.
- Vocês vem muito a propósito! - disse ele. E, agarrando um dos bichinhos, dispôs-se a torcer-lhe o pescoço. Naquele momento, uma pata velha, que estava metida entre os juncos, pôs-se a grasnar e, aproximando-se, a nado, lhe implorou que tivesse pena dos seus filhinhos.
- Não pensas - falou - no que sentiria tua mãe se alguém viesse para te comer?
- Tranquiliza-te, respondeu-lhe o bondoso alfaiate. - Fica com teus filhos. - E pôs na água o patinho que havia apanhado.
Ao voltar-se, notou à sua frente uma velha árvore, meio oca, e muitas abelhas silvestres que entravam e saiam do tronco.
- Finalmente recebo o prêmio pela minha boa ação, - disse, - este mel me confortará.
Mas a rainha das abelhas apresentou-se, ameaçado-o:
- Se tocas em meu povo e nos destróis o ninho, nossos ferrões se cravarão em teu corpo como dez mil agulhas de fogo. Em troca, se nos deixares em paz e seguires o teu caminho, nós te prestaremos um serviço quando menos esperares.
O alfaiatezinho viu que também por aquele lado não iria saciar sua fome.
- Três pratos vazios. - disse consigo - e o quarto, sem coisa nenhuma; isto é que se chama fazer dieta!
Arrastou-se até a cidade, sem nada no estômago. Mas, como chegasse justamente ao meio-dia e tivesse algumas moedas, pode afinal matar a fome. Depois, pensou: " Bem, agora é preciso trabalhar!"
Percorrer a cidade em busca de um mestre- alfaiate e não tardou a encontrar um bom emprego. Como era muito hábil em seu ofício, em pouco tempo estava famoso. Todas as pessoas de importância queriam seus trajes confeccionados pelo alfaziatezinho, que era agora o rei da moda.
- Não posso melhorar mais a minha arte, - dizia ele, - e, no entanto, cada dia as coisas vão melhorando.
Tanto assim, que o rei o nomeou alfaiate da Corte.
Mas vejam como são as coisas neste mundo: no mesmo dia era nomeado sapateiro da Corte o seu velho companheiro de viagem. Este, ao ver alfaiate e notando que havia recuperado os olhos, ficou muito preocupado. ! "Tenho de preparar-lhe uma cilada antes que ele se vingue de mim" - pensou. Mas aquele que faz uma armadilha para outrem, acaba caindo nela.
Certa ocasião, ao anoitecer, depois de terminar o trabalho, o sapateiro apresentou-se ao rei e lhe disse:
- Majestade, o alfaiate é um sujeito atrevido, Ele anda a gabar-se de que seria capaz de encontrar a coroa de ouro que se perdeu há tanto tempo.
- Isso muito me agradaria, - respondeu o rei.
Na manhã seguinte, chamou o alfaiate à sua presença e lhe disse que das duas uma: ou fizesse aparecer a coroa ou então deixasse a cidade para sempre. " Bem, - pensou o alfaiatezinho, - só um tolo dá mais do que tem. Se o rei exige de mim o que ninguém pode fazer, é melhor que eu nem espere o dia de amanhã e saia da cidade hoje mesmo." Arrumou sua mochila. E, quando ia atravessando as portas da cidade, sentiu uma grande tristeza por ter de renunciar à sua boa sorte, a abandonando os lugares onde passara tão belos dias. Chegou ao lago onde tinha os patos. Ali estava a pata velha, limpando as penas com o bico. Ela o reconheceu logo e lhe perguntou por que andava tão acabrunhado.
- Não te espantarás quando souberes o motivo, - respondeu o alfaiate e contou-lhe o seu azar.
- Se é só isso, - disse a pata, - poderemos ajudar-te. A coroa caiu na água e está no fundo do lago. Logo a traremos à tona. Estende o teu lenço no chão, junto à margem.
E, junto com os seus doze patinhos, mergulhou para reaparecer dali a cinco minutos com a coroa no lombo, rodeada dos doze pequerruchos que, nadando a seu redor, ajudavam-na a carregar a coroa com os bicos. Nadaram até a margem e depositaram a coroa sobre o lenço. Não podem imaginar como ela era inda! Quando os raios de sol a atingiam, cintilava como cem mil brilhantes. O alfaiate atou o lenço pelas quatro pontas e levou a coroa ao rei. Este, contentíssimo, condecorou ele mesmo ao alfaiate, com um belo colar de ouro.
Quando o sapateiro viu que seu plano havia falhado, pensou noutro e, dirigindo-se ao rei, disse:
- Majestade, o alfaiate continua muito atrevido. Ele anda a gabar-se de que pode reproduzir em cera todo o palácio real, com todos os pertences, por dentro e por fora.
O rei mandou chamar o alfaiate e ordenou-lhe que reproduzisse em cera o palácio, com tudo o que dele fizesse parte, exatamente , tanto no interior como no exterior. Mas avisou-o de que, se não fosse capaz disso e se faltasse um só prego na parede, seria lançado a um calabouço para o resto da vida. Pensou o alfaiate: " As coisas estão piorando cada vez mais; isso ninguém aguenta." E, pondo a mochila aos ombros, saiu pela estrada. Quando chegou à árvore oca, sentou-se embaixo para descansar, triste e aborrecido. As abelhas saíram voando e a rainha lhe perguntou se estava sentindo alguma dor, pois nem levantava a cabeça.-------------------------------------
- Oh, não! - respondeu o alfaiate, - a minha dor é outra.
E contou o que o rei havia exigido dele. puseram-se as abelhas a zumbir entre si e depois a rainha lhe disse:
- Volta para casa e amanhã, a esta mesma hora, vem aqui, trazendo um pano bem grande, que tudo saíra bem.
Enquanto ele regressava à cidade, as abelhas voaram até o palácio real e, entrando pelas janelas, meteram-se por todos os cantos, observando tudo em seus menores detalhes. Feito isso, de volta à colmeia, fizeram uma reprodução, em cera, do palácio, e isto com uma rapidez que vocês nem podem imaginar. À noite o trabalho estava concluído. E quando, na manhã seguinte, o alfaiate se apresentou, conforme o combinado, viu ali o magnífico palácio, sem que faltasse um prego na parede nem uma telha no telhado. Além disso, era delicado como um bolo de noiva, branco como a neve e desprendia o cheiro suave de mel. o alfaiate o arrumou, cuidadosamente, dentro do pano que trouxera e o levou ao rei. Este não soube como expressar sua admiração. mandou que o colocassem no salão mais espaçosos do palácio. E presentou o alfaiate com uma casa muito grande e muito bonita.
O sapateiro, porém, não desistiu e pela terceira vez foi ao rei, dizendo:
- Majestade, o alfaiate bem sabe que no pátio do palácio não há meios de fazer brotar água. Mas ele anda a gabar-se de que é capaz de fazê-la jorrar no centro do pátio, em um esguicho da altura de um homem, e límpida como um cristal.
O rei ordenou que se apresentasse o alfaiate e lhe disse:
- Se amanhã não jorrar um esguicho de água no pátio, conforme prometeste, mandarei que o carrasco te corte a cabeça ali mesmo.
O pobre alfaiatezinho não se demorou em pensar muito tempo no assunto. Apressou-se a sair da cidade e, como desta vez não se tratava de expulsão nem de prisão, mas de sua própria vida, as lágrimas lhe rolavam pelas faces. Enquanto caminhava, cheio de tristeza, aproximou-se dele, saltando, o antigo potro a quem um dia ele concedera a liberdade e que, já crescido, era agora um belo e forte animal.
- Chegou a hora, - disse ele, - em que poderei pagar tua boa ação. Já sei o se que passa e logo te ajudarei. Monta em mim, pois agora posso carregar dois como tu.
O alfaiate criou alma nova e saltou para o lombo do animal, que entrou a galope na cidade, dirigindo-se, diretamente, ao pátio do palácio. Ali deu três voltas completas com a velocidade do raio e, por fim, deixou-se cair no chão. no mesmo instante ouviu-se um tremendo estalo. Do centro do pátio, saltou um pedaço de terra. Elevou-se um jato de água até a altura de um homem a cavalo. E a água era límpida como um cristal e os raios dos sol dançavam em suas gotas. Quando o rei viu esse maravilhoso espetáculo, levantou-se cheio de da admiração e foi ele mesmo abraçar o alfaiatezinho, na presença de toda a Corte.
A felicidade, porém, durou pouco. O rei tinha várias filhas, cada qual mais linda, mas nenhum filho homem. E, pela quarta vez, o sapateiro maldoso foi ao rei e falou:
- Majestade, o alfaiate continua cada vez mais atrevido. Ele anda agora a gabar-se de que será capaz de fazer com que tragam, pelos ares, um filho para a rainha.
Novamente o rei mandou chamar o alfaiate e lhe disse:
- Se, dentro de nove dias, fizeres com que me tragam um herdeiro menino, eu te darei minha filha mais velha em casamento.
"Realmente, a recompensa é grande" - pensou o alfaiatezinho, - " e vale a pena fazer um esforço. mas, quando a esmola é demais, o pobre desconfia."
Foi para casa; instalou-se de pernas cruzadas sobre a sua mesa de trabalho e pôs-se a refletir no assunto. "Não é possível!" - acabou exclamando, - " eu me vou embora para sempre; aqui não poderei viver em paz".
Arrumou a mochila e apressou-se a sair da cidade. Quando chegou ao campo, avistou sua velha amiga, a cegonha, que passeava, filosofando, de um lado para outro, e que de vez em quando parava para examinar uma rã, que ela acabava engolindo mesmo. A cegonha aproximou-se e saudou-o.
- Vejo - começou a falar - que tens a mochila às costa. por que pretendes sair da cidade?
O alfaiate contou o que o rei lhe havia exigido e que lhe era impossível satisfazê-lo.
- Não vás criar cabelo branco por tão pouco,- disse a cegonha. - Eu te ajudarei. - Há muito tempo que trago bebes para a cidade e não me custa tirar do poço um pequeno príncipe. Vai para casa descansado. Daqui a nove dias apresenta-te no palácio, que lá estarei também.
O alfaiatezinho voltou para casa e no dia combinado foi ao palácio. Não demorou muito, apresentou-se a cegonha e bateu à janela. O alfaiate abriu e a senhora cegonha entrou, com todo o cuidado caminhando solenemente sobre o mármore liso. Trazia no bico um menininho, lindo com um anjo, que estendia as mãos para a rainha. Depositou o nenê no seu colo e ela pôs-se a beijá-la, doida de alegria. Antes de afastar-se. a cegonha tirou seu saco de viagem e o alcançou à rainha. Dentro havia balas e doces diversos que foram distribuídos entre as princesinhas. Só a mais velha nada recebeu. Já era muito grande para ganhar doces. Deram-lhe, em vez disso, o alegre alfaiate para esposo. " Sinto-me como se houvesse tirado a sorte grande. Minha mãe sempre dizia que, quem confia em Deus e tem sorte, nada lhe faltará."
O sapateiro foi obrigado a fazer os sapatos que o nosso alfaiatezinho usaria no baile de casamento. Depois, ordenaram-lhe que abandonasse a cidade. O caminho para o mato passava pela forca. Abafado pelo calor e com a alma cheia de ódio, deitou-se ali. Quando ia fechar as pálpebras para dormir um pouco, os dois corvos que estavam pousados na cabeça dos enforcados atiraram-se, grasnando, sobre ele e lhe arrancaram seus dois olhos. Louco de dor, levantou-se e entrou correndo na floresta, onde decerto morreu ao desamparo, pois nunca mais se viu ou ouviu coisa alguma a seu respeito. FIM
terça-feira, 10 de maio de 2016
GENTE SABIDA - CONTOS DE GRIMM
Um dia, certo camponês tirou do lugar seu bastão e disse à mulher:
-Vou viajar e só volto daqui a três dias, Se, nesse meio tempo, vier o tropeiro e quiser comprar nossas três vacas, poderás vendê-las por duzentos moedas. Mas nem um tostão a menos, entendeste?
-Vai com Deus! - respondeu a mulher. - Farei tal e qual tu disseste.
- Sim, bem te conheço! - comentou o homem. - Quando criança, caíste de ponta-cabeça no chão e o resultado ainda está se vendo até hoje... Mas uma coisa te digo: se fizeres bobagens, eu te pinto o lombo de azul, e não com tinta e pincel, mas com este bastão aqui: e te garanto que essa pintura não desaparecerá antes de um ano.
Dito isto, o homem se pôs a caminho.
Na manhã seguinte, apresentou-se o tropeiro e a mulher não precisou falar muito. Depois de examinar as vacas e saber o preço, disse:
- Estou disposto a pagar o que pedes, que elas bem valem isso. Vou levar os animais agora mesmo.
Soltou-os da correia e os tirou do estábulo; mas. quando ia saindo com eles pela porta da granja, a mulher, pegando-o pela manga do casaco, disse:
- Terás que me dar primeiro as duzentas moedas; do contrário não poderás levar as vacas.
- Tens toda razão, - respondeu o negociante.- Esqueci a minha bolsa em casa. Mas não te preocupes, que te darei uma boa garantia. levarei duas vacas e te deixarei a terceira em penhor; assim terás uma boa fiança.
A mulher achou ótima a proposta e deixou que o negociante partisse com duas vacas. Ficou pensando: " Que contente não irá ficar o João quando souber que agi com tanta inteligência!"
Três dias depois, o camponês regressou, como havia anunciado, e sua primeira pergunta foi a respeito da venda das vacas.
- Sim, meu marido, - disse a mulher, - vendi-as por duzentos moedas, como recomendaste. Mal valem isso, mas o homem as levou sem pechinchar.
- Onde está o dinheiro?
- O dinheiro ainda não recebi, porque o negociante havia se esquecido da bolsa; mas na certa vai trazê-lo sem demora, pois me deixou uma boa fiança.
- Que fiança?
- Uma das três vacas. Essa ele não levará antes de ter pago as outras duas. Fui inteligente e fiquei com a menorzinho, que é a que come menos.
O homem ficou furioso e, levantando o bastão, preparou-se para dar-lhe a surra prometida. Mas, de repente, parou e disse:
- És a criatura mais idiota que Deus pôs na terra; chegas até a me dar pena. Vou ficar esperando três dias na estrada para ver se encontro alguém ainda mais bobo do que tu. Se achar uma pessoa assim, ficarás livre da surra; caso contrário, receberás a paga que te prometi sem o menor desconto.
Saiu e sentou-se numa pedra à espera do que desse e viesse. Nisto viu aproximar-se uma carreta, onde estava uma mulher, de pé, em vez de ficar sentada no monte de palha ou ir ao lado dos bois, conduzindo-os. Pensou o homem: "Essa, pelo visto, é uma das que estou procurando." Levantou-se de um salto e se pôde a correr de um lado para outro, diante da carreta, como alguém que não fosse bem certo da cabeça.
- Que há, compadre? - indagou a mulher. - De onde vens que não te conheço?
- Caí do céu, - respondeu o homem - e não sei como voltar para lá. não poderias levar-me?
- Não, - retrucou a mulher, - não sei o caminho. mas, se vens do céu, podes dar-me notícias do meu marido, que morreu há três anos. Com certeza o viste por lá.
- Claro que o vi; mas nem todos levam ali uma boa vida. teu marido cuida das ovelhas e os bons animaizinhos lhe dão muito trabalho, trepando nas montanhas e se perdendo pelas matas. É obrigado a correr atrás delas para juntá-las. Além disso, sua roupas estão em farrapos e, mais dia menos dia, lhe cairão do corpo. Não há alfaiates no céu. São Pedro, como bem sabes pelo que dizem, não deixa entrar nenhum.
- Quem imaginaria uma coisa dessas! - disse a mulher. - Sabes o que mais? Irei buscar seu traje de domingo, que ainda está guardado no armário e que ele lá poderá usar com muito orgulho. Podes fazer-me o favor de levá-lo?
- Impossível! - retrucou o camponês. - é proibido levar trajes de domingo para o céu. Eles os tiram da pessoa antes de passar pela porta.
- Escuta! - disse a mulher. - Ontem vendi meu trigo por uma boa quantia, que vou enviar a ele. se meteres o dinheiro no bolso, ninguém notará.
- Se não há outro remédio, - respondeu o camponês, - estou disposto a fazer-te esse favor.
- Então fica aí sentado, - disse ela- que vou em casa buscar a bolsa e não demoro a voltar. Estou de pé na carroça, em vez de sentar-me na palha, para que os bois não tenham de levar tanto peso.
E pôs em marcha os animais, enquanto o camponês pensava: "Esta criatura é doida varrida e se, de fato, trouxer o dinheiro, minha mulher pode considerar-se muito feliz por se ter livrado da surra."
Não demorou muito a camponesa voltou, correndo , e meteu o dinheiro, ela mesmo, no bolso do homem. Antes de se despedir, agradeceu-lhe muitas e muitas vezes por sua gentileza.
Quando a boba mulher chegou, enfim, à sua casa, encontrou o filho que acabava de regressar do campo. Contou-lhe as coisas espantosas que lhe haviam acontecido e acrescentou:
- Alegro-me tanto de haver encontrado uma oportunidade para enviar algo ao meu pobre marido! Quem havia de imaginar que, lá no céu, lhe faltasse alguma coisa?
O filho ficou pasmo.
- Meu Deus! - exclamou ele. - Isso de uma pessoa baixar do céu não acontece todos os dias. Sairei à procura desse homem. Gostaria de saber como andam de trabalho por lá.
Encilhou o cavalo e partiu a toda pressa. Encontrou o camponês, à sombra de um salgueiro, a contar as suas moedas.
- Não viste o homem que caiu do céu? - perguntou-lhe o rapaz.
- Sim, - respondeu o camponês, - mas já está de volta para lá; tomou a estradinha que sobe aquela montanha e que encurta um pouco o caminho. Mas, se fores a galope, ainda poderás alcançá-lo.
- Ah! - exclamou o rapaz.. - Estou cansado de trabalhar o dia todo e a cavalgada até aqui me deixou moído. mas tu conheces o homem; bem poderias montar o meu cavalo e ir atrás dele para convencê-lo de que volte aqui.
"Hum! aqui está outro que não regula bem- pensou o camponês. E, dirigindo-se ao jovem assim lhe disse:
- É mesmo! Por que iria eu negar-te esse favor?
Montou e saiu a todo galope. o rapaz ficou esperando até de noite, mas o camponês não voltou. "De certo- pensou ele- o homem do céu estava com pressa e não quis dar volta; e o bom do camponês lhe deu o cavalo para ser entregue a meu pai."
Foi para casa e contou à mãe, muito satisfeito, que tinha enviado o cavalo ao pai, para que ele não precisasse andar a pé lá no céu.
- Fizeste muito bem! - respondeu a mãe. - Tens boas pernas e não é necessário que andes a cavalo.
Quando o camponês chegou em casa, pôs o animal na estrebaria junto com a vaca; depois foi para onde estrava a mulher e lhe disse:
- Catarina, tiveste sorte! Encontrei dois ainda mais bobos que tu. por esta vez te livraste da surra, que fica adiada para a próxima ocasião.
E, acendendo o cachimbo, sentou-se na cadeira de balanço. Depois prosseguiu:
- Foi um bom negócio. por duas vacas magras, obtive um cavalo bem gordo e uma bolsa cheia de dinheiro. Se a burrice fosse tão proveitosa, eu teria o máximo respeito pelos burr
Assim pensou o camponês, mas eu estou certo e que vocês hão de preferir as pessoas inteligentes.
-Vou viajar e só volto daqui a três dias, Se, nesse meio tempo, vier o tropeiro e quiser comprar nossas três vacas, poderás vendê-las por duzentos moedas. Mas nem um tostão a menos, entendeste?
-Vai com Deus! - respondeu a mulher. - Farei tal e qual tu disseste.
- Sim, bem te conheço! - comentou o homem. - Quando criança, caíste de ponta-cabeça no chão e o resultado ainda está se vendo até hoje... Mas uma coisa te digo: se fizeres bobagens, eu te pinto o lombo de azul, e não com tinta e pincel, mas com este bastão aqui: e te garanto que essa pintura não desaparecerá antes de um ano.
Dito isto, o homem se pôs a caminho.
Na manhã seguinte, apresentou-se o tropeiro e a mulher não precisou falar muito. Depois de examinar as vacas e saber o preço, disse:
- Estou disposto a pagar o que pedes, que elas bem valem isso. Vou levar os animais agora mesmo.
Soltou-os da correia e os tirou do estábulo; mas. quando ia saindo com eles pela porta da granja, a mulher, pegando-o pela manga do casaco, disse:
- Terás que me dar primeiro as duzentas moedas; do contrário não poderás levar as vacas.
- Tens toda razão, - respondeu o negociante.- Esqueci a minha bolsa em casa. Mas não te preocupes, que te darei uma boa garantia. levarei duas vacas e te deixarei a terceira em penhor; assim terás uma boa fiança.
A mulher achou ótima a proposta e deixou que o negociante partisse com duas vacas. Ficou pensando: " Que contente não irá ficar o João quando souber que agi com tanta inteligência!"
Três dias depois, o camponês regressou, como havia anunciado, e sua primeira pergunta foi a respeito da venda das vacas.
- Sim, meu marido, - disse a mulher, - vendi-as por duzentos moedas, como recomendaste. Mal valem isso, mas o homem as levou sem pechinchar.
- Onde está o dinheiro?
- O dinheiro ainda não recebi, porque o negociante havia se esquecido da bolsa; mas na certa vai trazê-lo sem demora, pois me deixou uma boa fiança.
- Que fiança?
- Uma das três vacas. Essa ele não levará antes de ter pago as outras duas. Fui inteligente e fiquei com a menorzinho, que é a que come menos.
O homem ficou furioso e, levantando o bastão, preparou-se para dar-lhe a surra prometida. Mas, de repente, parou e disse:
- És a criatura mais idiota que Deus pôs na terra; chegas até a me dar pena. Vou ficar esperando três dias na estrada para ver se encontro alguém ainda mais bobo do que tu. Se achar uma pessoa assim, ficarás livre da surra; caso contrário, receberás a paga que te prometi sem o menor desconto.
Saiu e sentou-se numa pedra à espera do que desse e viesse. Nisto viu aproximar-se uma carreta, onde estava uma mulher, de pé, em vez de ficar sentada no monte de palha ou ir ao lado dos bois, conduzindo-os. Pensou o homem: "Essa, pelo visto, é uma das que estou procurando." Levantou-se de um salto e se pôde a correr de um lado para outro, diante da carreta, como alguém que não fosse bem certo da cabeça.
- Que há, compadre? - indagou a mulher. - De onde vens que não te conheço?
- Caí do céu, - respondeu o homem - e não sei como voltar para lá. não poderias levar-me?
- Não, - retrucou a mulher, - não sei o caminho. mas, se vens do céu, podes dar-me notícias do meu marido, que morreu há três anos. Com certeza o viste por lá.
- Claro que o vi; mas nem todos levam ali uma boa vida. teu marido cuida das ovelhas e os bons animaizinhos lhe dão muito trabalho, trepando nas montanhas e se perdendo pelas matas. É obrigado a correr atrás delas para juntá-las. Além disso, sua roupas estão em farrapos e, mais dia menos dia, lhe cairão do corpo. Não há alfaiates no céu. São Pedro, como bem sabes pelo que dizem, não deixa entrar nenhum.
- Quem imaginaria uma coisa dessas! - disse a mulher. - Sabes o que mais? Irei buscar seu traje de domingo, que ainda está guardado no armário e que ele lá poderá usar com muito orgulho. Podes fazer-me o favor de levá-lo?
- Impossível! - retrucou o camponês. - é proibido levar trajes de domingo para o céu. Eles os tiram da pessoa antes de passar pela porta.
- Escuta! - disse a mulher. - Ontem vendi meu trigo por uma boa quantia, que vou enviar a ele. se meteres o dinheiro no bolso, ninguém notará.
- Se não há outro remédio, - respondeu o camponês, - estou disposto a fazer-te esse favor.
- Então fica aí sentado, - disse ela- que vou em casa buscar a bolsa e não demoro a voltar. Estou de pé na carroça, em vez de sentar-me na palha, para que os bois não tenham de levar tanto peso.
E pôs em marcha os animais, enquanto o camponês pensava: "Esta criatura é doida varrida e se, de fato, trouxer o dinheiro, minha mulher pode considerar-se muito feliz por se ter livrado da surra."
Não demorou muito a camponesa voltou, correndo , e meteu o dinheiro, ela mesmo, no bolso do homem. Antes de se despedir, agradeceu-lhe muitas e muitas vezes por sua gentileza.
Quando a boba mulher chegou, enfim, à sua casa, encontrou o filho que acabava de regressar do campo. Contou-lhe as coisas espantosas que lhe haviam acontecido e acrescentou:
- Alegro-me tanto de haver encontrado uma oportunidade para enviar algo ao meu pobre marido! Quem havia de imaginar que, lá no céu, lhe faltasse alguma coisa?
O filho ficou pasmo.
- Meu Deus! - exclamou ele. - Isso de uma pessoa baixar do céu não acontece todos os dias. Sairei à procura desse homem. Gostaria de saber como andam de trabalho por lá.
Encilhou o cavalo e partiu a toda pressa. Encontrou o camponês, à sombra de um salgueiro, a contar as suas moedas.
- Não viste o homem que caiu do céu? - perguntou-lhe o rapaz.
- Sim, - respondeu o camponês, - mas já está de volta para lá; tomou a estradinha que sobe aquela montanha e que encurta um pouco o caminho. Mas, se fores a galope, ainda poderás alcançá-lo.
- Ah! - exclamou o rapaz.. - Estou cansado de trabalhar o dia todo e a cavalgada até aqui me deixou moído. mas tu conheces o homem; bem poderias montar o meu cavalo e ir atrás dele para convencê-lo de que volte aqui.
"Hum! aqui está outro que não regula bem- pensou o camponês. E, dirigindo-se ao jovem assim lhe disse:
- É mesmo! Por que iria eu negar-te esse favor?
Montou e saiu a todo galope. o rapaz ficou esperando até de noite, mas o camponês não voltou. "De certo- pensou ele- o homem do céu estava com pressa e não quis dar volta; e o bom do camponês lhe deu o cavalo para ser entregue a meu pai."
Foi para casa e contou à mãe, muito satisfeito, que tinha enviado o cavalo ao pai, para que ele não precisasse andar a pé lá no céu.
- Fizeste muito bem! - respondeu a mãe. - Tens boas pernas e não é necessário que andes a cavalo.
Quando o camponês chegou em casa, pôs o animal na estrebaria junto com a vaca; depois foi para onde estrava a mulher e lhe disse:
- Catarina, tiveste sorte! Encontrei dois ainda mais bobos que tu. por esta vez te livraste da surra, que fica adiada para a próxima ocasião.
E, acendendo o cachimbo, sentou-se na cadeira de balanço. Depois prosseguiu:
- Foi um bom negócio. por duas vacas magras, obtive um cavalo bem gordo e uma bolsa cheia de dinheiro. Se a burrice fosse tão proveitosa, eu teria o máximo respeito pelos burr
Assim pensou o camponês, mas eu estou certo e que vocês hão de preferir as pessoas inteligentes.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
O MINGAU DOCE - CONTOS DE GRIMM
Era uma vez uma meninazinha bem comportada, mas muito pobre, que vivia com sua mãe. Chegaram a tal estado de pobreza que não tinham nada para comer. Um dia a menina foi ao bosque e lá encontrou uma velha que, sabendo da sua miséria, lhe deu uma panela de presente. Vocês acham pouco? Mas era só dizer: " Ferve, panelinha", para que ela se pusesse a cozinhar um gostoso mingau. E, quando a gente lhe dizia: " Para, panelinha!" , ela deixava de cozinhar.
A meninazinha levou o presente para sua mãe e assim ficaram livres de passar fome, pois tinham sempre mingau doce à vontade.
Certa ocasião em que a menina havia saído, sua mãe disse: " Ferve, panelinha" , e esta se pôs a cozinhar e a mulher comeu até fartar-se. Depois quis que a panela parasse de cozinhar. Mas a pobre da velha estava tão empanturrada de mingau que não houve meio de se lembrar das palavras mágicas. De modo que a panela continuava cozinhando até que o mingau chegou à borda e caiu para fora. E assim, cozinhando, cozinhando, encheu toda a cozinha e a casa, e depois a casa ao lado e a rua, como se quisesse acabar com a fome de todo mundo. Até que ninguém mais sabia o que fazer e o desespero era grande.
Quando já faltava só uma casa para ser inundada, a menina voltou e disse, apenas: " Para, panelinha", e a panela parou de cozinhar.
Mas todos os que queriam entrar na cidade eram obrigados a abrir caminho comendo mingau! FIM
A meninazinha levou o presente para sua mãe e assim ficaram livres de passar fome, pois tinham sempre mingau doce à vontade.
Certa ocasião em que a menina havia saído, sua mãe disse: " Ferve, panelinha" , e esta se pôs a cozinhar e a mulher comeu até fartar-se. Depois quis que a panela parasse de cozinhar. Mas a pobre da velha estava tão empanturrada de mingau que não houve meio de se lembrar das palavras mágicas. De modo que a panela continuava cozinhando até que o mingau chegou à borda e caiu para fora. E assim, cozinhando, cozinhando, encheu toda a cozinha e a casa, e depois a casa ao lado e a rua, como se quisesse acabar com a fome de todo mundo. Até que ninguém mais sabia o que fazer e o desespero era grande.
Quando já faltava só uma casa para ser inundada, a menina voltou e disse, apenas: " Para, panelinha", e a panela parou de cozinhar.
Mas todos os que queriam entrar na cidade eram obrigados a abrir caminho comendo mingau! FIM
A AVÓ DO DIABO - CONTOS DE GRIMM
Houve, certa vez, uma grande guerra. O rei tinha muitos soldados, mas como lhes pagava um soldo muito baixo, os homens não podiam viver dele. Um dia três soldados combinaram desertar.
Disse um deles:
- Se nos pegam, seremos enforcados. Que vamos fazer?
Respondeu o segundo:
- Estão vendo aquele campo, grande, de trigo? Se nos ocultarmos nele, ninguém nos encontrará. o exército não pode entrar ali e, de mais a mais, prossegue marcha amanhã.
Meteram-se, pois, entre o trigal. As tropas, porém, não partiram e sim ficaram acampadas ao redor do campo, contrariando suas esperanças. Os desertores permaneceram ocultos durante dois dias e duas noites e, depois desse tempo, ficaram a ponto de morrer de fome. Se, no entanto, saíssem dali, sua morte seria certa.
- De que nos serviu a fuga? - comentarem. - De qualquer maneira, morreremos miseravelmente.
Nisto, apareceu no ar um dragão cuspindo fogo, que pousou junto a eles e perguntou por que se haviam escondido ali.
- Somos soldados, - responderam, - e fugimos por causa do soldo que era pouco. Mas, se continuarmos aqui, morreremos de fome, e se sairmos, nos enforcarão.
- Se quiserem servir-me durante 7 anos, - disse o dragão - eu os conduzirei através do exército, de modo que não sejam vistos por ninguém.
- Não nos resta outra escolha. Temos de aceitar, - responderam eles.
O dragão apanhou os três com suas garras, levantou-os e, voando por cima do exército, foi depositá-lo no chão, a grande distância. Acontece que aquele dragão não era outro senão o diabo. Deu a eles um pequeno chicote e falou:
- Quando fizerem estalar este chicotezinho, choverá tanto dinheiro quanto quiserem. Poderão viver como grandes senhores, manter cavalos e andar de carruagem. mas quando os sete anos tiverem passado, vocês serão meus.
Apresentou um livro, que abriu, e todos os três tiveram de por ali suas assinaturas.
- Em todo caso - continuou, como quem não queria nada - eu darei um enigma para vocês adivinharem; se forem capazes de decifrá-los, ficarão livres e fora do meu poder.
Em seguida o dragão afastou-se, voando, e os soldados partiram com o chicotezinho. Logo tiveram dinheiro à vontade; compraram roupas luxuosas e saíram a viajar pelo mundo. Em toda parte viviam alegres e satisfeitos. Tinham cavalos e carruagens, comiam e bebiam bem, mas nunca procediam mal. Os anos foram passando, rapidamente,e, quando o prazo foi chegando ao fim, dois deles começaram a ficar com medo. O terceiro, porém, não se afligiu, dizendo:
- Não tenham medo, irmãos. Não sou tolo e adivinharei o enigma.
Saíram para o campo, onde se sentaram, um deles muito senhor de si e os outros com suas caras aborrecidas, De repente veio uma velha e perguntou qual o motivo de sua tristeza.
- Ora, para que contar? De qualquer maneira, não poderás ajudar-nos.
- Quem sabe? - respondeu a velha. - Conte-me as suas mágoas.
Disseram-lhe, então, que haviam sido criados do diabo pelo espaço de quase sete anos, recebendo dele grande quantidade de dinheiro. Em troca, ele os obrigara a assinar um compromisso de lhe entregarem suas lamas, caso não decifrassem um enigma que lhes ia apresentar.
Disse, então, a velha:
- Se quiserem que os ajude, um de vocês terá de ir ao bosque. Chegará a uma cabana de pedras, em ruínas. Entrando ali, encontrará ajuda.
Os dois pessimistas pensaram: " Isso não nos salvará", e continuaram sentados.O terceiro, porém, sempre animado, pôs-se a caminho pelo bosque a dentro, até que achou a cabana de pedras. Em seu interior havia uma mulher mais velha que Matusalém. Era a avó do diabo. Ela perguntou de onde vinha e o que queria ali. O jovem contou tudo o que acontecera. Falou com tanto jeito que caiu na simpatia da velha. . Esta se compadeceu dele e lhe disse que iria ajudá-lo. Tirou uma pedra grande que fechava a entrada de um porão e ordenou-lhe:-----
- Esconda-te aqui e poderás ouvir tudo o que falarmos. Só terás de ficar quieto, sem te moveres. Quando vier o dragão, perguntarei qual o enigma. A mim ele conta tudo. Presta atenção nas suas respostas.
À meia-noite em ponto chegou voando o dragão e exigiu sua janta. A avó pôs a mesa e serviu-lhe boa comida e bebidas para deixa-lo de bom humor. Depois sentou-se também e comeram e beberam juntos. Durante a conversa a velha perguntou como tinha passado o dia e quantas almas havia conquistado.
- Hoje não tive sorte, - respondeu ele, mas há três soldados que não me escaparão.
- Ah! Três soldados? - replicou a velha. - Os soldados não são bobos e ainda poderão passar-te a perna.
O diabo, então, disse, com um risada:
- Mas esses já estão no papo! Vou dar-lhes um enigma que nunca poderão decifrar.
- E que enigma é? - perguntou ela.
- É este que eu vou dizer. Numa praia do Mar do Norte há um macaco morto: será o assado deles. E uma costela de baleia: a sua faca de prata. E um velho casco de cavalo: o seu cálice de vinho.
Quando o diabo foi para a cama dormir, a velha retirou a pedra, deixando sair o soldado.
-Tomaste nota de tudo? - perguntou.
- Sim, - respondeu ele. - Sei o suficiente e saberei agir.
Em seguida saiu pela janela, sorrateiramente, e foi logo unir-se a seus amigos.
Contou-lhes como o diabo fora enganado por sua avó e como ouvira de seus próprios lábios a solução do enigma. Os três ficaram tão alegres que apanharam o chicotezinho e o estalaram tanto que o dinheiro saltou e rolou por toda parte.
No momento em que terminaram os sete anos, o diabo apresentou-se com seu livro, mostrou-lhes suas assinaturas e disse:
- Agora levarei vocês para o inferno, onde os espera um banquete, Se forem capazes de adivinhar qual o assado que irão saborear ficarão livres e ainda lhes deixarei o chicotezinho.
Respondeu o primeiro soldado:
- Numa praia do Mar do Norte há um macaco morto. este deve ser o assado.
O diabo irritou-se e fez: Hum! Hum!
- E qual será a faca de vocês?
- A costela de uma baleia será nossa faca de prata, - respondeu o segundo.
O diabo fez uma careta e resmungou: Hum! Hum! Hum!
A seguir dirigiu-se ao terceiro:
- E sabem, também, qual será o cálice em que beberão o vinho?
- Um velho casco de cavalo; esse será o nosso cálice.
Ao ouvir isso, o diabo soltou um grito e saiu voando pelos ares. Havia perdido todo o poder sobre eles. Os soldados ficaram de posse do chicotezinho, com o que tiveram tanto dinheiro quanto desejavam.E assim viveram felizes pelo resto da vida. FIM
Disse um deles:
- Se nos pegam, seremos enforcados. Que vamos fazer?
Respondeu o segundo:
- Estão vendo aquele campo, grande, de trigo? Se nos ocultarmos nele, ninguém nos encontrará. o exército não pode entrar ali e, de mais a mais, prossegue marcha amanhã.
Meteram-se, pois, entre o trigal. As tropas, porém, não partiram e sim ficaram acampadas ao redor do campo, contrariando suas esperanças. Os desertores permaneceram ocultos durante dois dias e duas noites e, depois desse tempo, ficaram a ponto de morrer de fome. Se, no entanto, saíssem dali, sua morte seria certa.
- De que nos serviu a fuga? - comentarem. - De qualquer maneira, morreremos miseravelmente.
Nisto, apareceu no ar um dragão cuspindo fogo, que pousou junto a eles e perguntou por que se haviam escondido ali.
- Somos soldados, - responderam, - e fugimos por causa do soldo que era pouco. Mas, se continuarmos aqui, morreremos de fome, e se sairmos, nos enforcarão.
- Se quiserem servir-me durante 7 anos, - disse o dragão - eu os conduzirei através do exército, de modo que não sejam vistos por ninguém.
- Não nos resta outra escolha. Temos de aceitar, - responderam eles.
O dragão apanhou os três com suas garras, levantou-os e, voando por cima do exército, foi depositá-lo no chão, a grande distância. Acontece que aquele dragão não era outro senão o diabo. Deu a eles um pequeno chicote e falou:
- Quando fizerem estalar este chicotezinho, choverá tanto dinheiro quanto quiserem. Poderão viver como grandes senhores, manter cavalos e andar de carruagem. mas quando os sete anos tiverem passado, vocês serão meus.
Apresentou um livro, que abriu, e todos os três tiveram de por ali suas assinaturas.
- Em todo caso - continuou, como quem não queria nada - eu darei um enigma para vocês adivinharem; se forem capazes de decifrá-los, ficarão livres e fora do meu poder.
Em seguida o dragão afastou-se, voando, e os soldados partiram com o chicotezinho. Logo tiveram dinheiro à vontade; compraram roupas luxuosas e saíram a viajar pelo mundo. Em toda parte viviam alegres e satisfeitos. Tinham cavalos e carruagens, comiam e bebiam bem, mas nunca procediam mal. Os anos foram passando, rapidamente,e, quando o prazo foi chegando ao fim, dois deles começaram a ficar com medo. O terceiro, porém, não se afligiu, dizendo:
- Não tenham medo, irmãos. Não sou tolo e adivinharei o enigma.
Saíram para o campo, onde se sentaram, um deles muito senhor de si e os outros com suas caras aborrecidas, De repente veio uma velha e perguntou qual o motivo de sua tristeza.
- Ora, para que contar? De qualquer maneira, não poderás ajudar-nos.
- Quem sabe? - respondeu a velha. - Conte-me as suas mágoas.
Disseram-lhe, então, que haviam sido criados do diabo pelo espaço de quase sete anos, recebendo dele grande quantidade de dinheiro. Em troca, ele os obrigara a assinar um compromisso de lhe entregarem suas lamas, caso não decifrassem um enigma que lhes ia apresentar.
Disse, então, a velha:
- Se quiserem que os ajude, um de vocês terá de ir ao bosque. Chegará a uma cabana de pedras, em ruínas. Entrando ali, encontrará ajuda.
Os dois pessimistas pensaram: " Isso não nos salvará", e continuaram sentados.O terceiro, porém, sempre animado, pôs-se a caminho pelo bosque a dentro, até que achou a cabana de pedras. Em seu interior havia uma mulher mais velha que Matusalém. Era a avó do diabo. Ela perguntou de onde vinha e o que queria ali. O jovem contou tudo o que acontecera. Falou com tanto jeito que caiu na simpatia da velha. . Esta se compadeceu dele e lhe disse que iria ajudá-lo. Tirou uma pedra grande que fechava a entrada de um porão e ordenou-lhe:-----
- Esconda-te aqui e poderás ouvir tudo o que falarmos. Só terás de ficar quieto, sem te moveres. Quando vier o dragão, perguntarei qual o enigma. A mim ele conta tudo. Presta atenção nas suas respostas.
À meia-noite em ponto chegou voando o dragão e exigiu sua janta. A avó pôs a mesa e serviu-lhe boa comida e bebidas para deixa-lo de bom humor. Depois sentou-se também e comeram e beberam juntos. Durante a conversa a velha perguntou como tinha passado o dia e quantas almas havia conquistado.
- Hoje não tive sorte, - respondeu ele, mas há três soldados que não me escaparão.
- Ah! Três soldados? - replicou a velha. - Os soldados não são bobos e ainda poderão passar-te a perna.
O diabo, então, disse, com um risada:
- Mas esses já estão no papo! Vou dar-lhes um enigma que nunca poderão decifrar.
- E que enigma é? - perguntou ela.
- É este que eu vou dizer. Numa praia do Mar do Norte há um macaco morto: será o assado deles. E uma costela de baleia: a sua faca de prata. E um velho casco de cavalo: o seu cálice de vinho.
Quando o diabo foi para a cama dormir, a velha retirou a pedra, deixando sair o soldado.
-Tomaste nota de tudo? - perguntou.
- Sim, - respondeu ele. - Sei o suficiente e saberei agir.
Em seguida saiu pela janela, sorrateiramente, e foi logo unir-se a seus amigos.
Contou-lhes como o diabo fora enganado por sua avó e como ouvira de seus próprios lábios a solução do enigma. Os três ficaram tão alegres que apanharam o chicotezinho e o estalaram tanto que o dinheiro saltou e rolou por toda parte.
No momento em que terminaram os sete anos, o diabo apresentou-se com seu livro, mostrou-lhes suas assinaturas e disse:
- Agora levarei vocês para o inferno, onde os espera um banquete, Se forem capazes de adivinhar qual o assado que irão saborear ficarão livres e ainda lhes deixarei o chicotezinho.
Respondeu o primeiro soldado:
- Numa praia do Mar do Norte há um macaco morto. este deve ser o assado.
O diabo irritou-se e fez: Hum! Hum!
- E qual será a faca de vocês?
- A costela de uma baleia será nossa faca de prata, - respondeu o segundo.
O diabo fez uma careta e resmungou: Hum! Hum! Hum!
A seguir dirigiu-se ao terceiro:
- E sabem, também, qual será o cálice em que beberão o vinho?
- Um velho casco de cavalo; esse será o nosso cálice.
Ao ouvir isso, o diabo soltou um grito e saiu voando pelos ares. Havia perdido todo o poder sobre eles. Os soldados ficaram de posse do chicotezinho, com o que tiveram tanto dinheiro quanto desejavam.E assim viveram felizes pelo resto da vida. FIM
quinta-feira, 5 de maio de 2016
O TICO-TICO E O URSO - CONTOS DE GRIMM
Certa vez, num belo dia de verão, um urso e um lobo saíram a passear pela floresta. ouvindo o canto de uma ave, o urso disse:
- Irmão lobo, que pássaro é esse que canta bonito?
- É o rei das aves, -disse o lobo, - diante dele temos de nos curvar.
O passarinho era um tico-tico.
- Sendo assim, - falou o urso - gostaria de ver o palácio real. Leva-me até lá.
- Isso não é tão fácil assim, - respondeu-lhe o lobo. - Terás de esperar até que venha Sua Majestade a rainha.
Pouco depois apareceu a a rainha, seguida do rei, trazendo no bico a comida para seus filhinhos.
O urso teria gostado de ir logo atrás, mas o lobo segurou-o pelo braço e lhe disse:
- Não; agora terás de esperar até que o senhor rei e a senhora rainha tenham saído.
Tomaram nota do lugar onde estava o ninho e se afastaram. Mas o urso não se conformou com a espera. Queria ver, o quanto antes, o palácio real e, pouco depois, voltaram lá novamente. o rei e a rainha estavam fora e ele resolveu dar uma espiada no ninho. Viu lá entro uns cinco ou seis filhotes.
- Ah! então é este o palácio real?! - exclamou o urso. - Mas que palácio mais à toa! E vocês também não são príncipes; não passam de uns embromadores!
Quando os tico-tiquinhos ouviram aquilo, ficaram furiosos e gritaram:
- Não, não somos nenhuns embromadores! Nossos pais são gente muito direita. Você vai nos pagar, seu urso mentiroso!
O urso e o lobo deram volta, assustados, e foram sentar-se nas suas cavernas.
Os pequenos tico-ticos, porém, continuaram gritando, fazendo uma algazarra dos diabos. Quando seus pais trouxeram a comida, eles declararam:
- Não tocaremos nem numa perninha de môsca, estamos dispostos até a morrer de fome, enquanto não ficar provado se somos ou não uns embromadores. O urso esteve aqui e nos disse uma porção de desaforos.
- Fiquem descansados, - disse o velho rei, - que eu vou tirar isso a limpo.
Ele e a senhora rainha saíram voando até à entrada da caverna do urso e o rei gritou:
- Velho resmungão! Por que insultaste meus filhos? Isso te saíra caro. vai dar numa guerra tremenda!
E assim ficou declarada a guerra ao urso. E ele então chamou em seu auxílio todos os quadrúpedes: o boi, o burro, o veado, o tigre e todos os demais que andam de quatro pés por este mundo em fora. O tico- tico, por sua vez,convocou tudo o que voa. Não só os pássaros grandes e pequenos, mas também os mosquitos, marimbondos, abelhas e moscas tiveram de acudir.
Quando chegou a data em que a guerra deveria começar, o tico-tico enviou seus espias para descobrir quem era o general comandante das tropas inimigas. O mosquito, que era o mais esperto, saiu pelo mato onde estavam reunidos os adversários e escondeu-se entre as folhagens da árvore a cuja sombra os inimigos discutiam os planos de guerra. Ali estava o urso, que chamou a raposa e lhe disse:
- Raposa, tu és o mais esperto de todos os bichos. Quero que sejas o nosso general. É preciso que no guies durante a batalha.
- Bem, - disse a raposa, - mas que senha combinaremos, para eu dar as ordens a vocês?
Ninguém atinava com uma senha que o inimigo não pudesse descobrir. Aí a raposa continuou falando:
- Tenho uma bela cauda comprida e bem peluda, que se parece com um penacho vermelho. Se eu a mantiver em pé, sera sinal de que tudo corre bem, e vocês deverão continuar avançando. Mas se eu abaixar a cauda, saiam disparando o mais depressa possível.
Quando o mosquito ouviu aquela combinação, regressou voando e contou tudo, direitinho, ao tico-tico.
Na madrugada em que seria travada a batalha, via-se, de longe, o exercito dos quadrúpedes correr em grande velocidade, fazendo um barulhão que estremecia a terra. O tico-tico, por sua parte, vinha pelo ar, à frente de seu exército, em tremenda algazarra; era um gritar e um zumbir que dava medo. E os dois exércitos investiram com furor.
Aí então o tico-tico enviou o marimbondo, com ordem de ficar embaixo do rabo da raposa e de picá-la com toda a força que tinha. Na primeira ferroada a raposa estremeceu e levantou uma perna. Mas resistiu, mantendo a cauda de em pé. A segunda picada a obrigou a abaixá-la um momento e, à terceira, não podendo mais aguentar a dor soltou um berro e meteu o rabo entre as pernas . Quando os animais viram o sinal, acreditaram que tudo estava perdido e começaram a fuga, procurando cada qual esconder-se em suas covas. E assim as aves ganharam a batalha.
O senhor rei e a senhora rainha voaram, então, ao ninho dos seus filhotes e lhes disseram:
- Alegrem-se, pequenos; comam e bebam à vontade. Ganhamos a guerra!
Mas os filhotes replicaram:
- Não comeremos até que o urso venha ao nosso ninho pedir desculpas e reconheça que não somos impostores.
O tico-tico voou até a gruta do urso e gritou na entrada:
- Urso resmungão, tens de ir até o ninho de meus filhos, pedir-lhes perdão e dizer que são crianças direitinhas; do contrário, teremos de quebrar todos esses teus ossos!
O urso, assustado, apresou-se em ir apresentar desculpas. Só então os pequenos tico-ticos ficaram satisfeitos, comeram e beberam como nunca e ficaram festejando até uma hora em que as crianças já deviam estar deitadas. FIM
- Irmão lobo, que pássaro é esse que canta bonito?
- É o rei das aves, -disse o lobo, - diante dele temos de nos curvar.
O passarinho era um tico-tico.
- Sendo assim, - falou o urso - gostaria de ver o palácio real. Leva-me até lá.
- Isso não é tão fácil assim, - respondeu-lhe o lobo. - Terás de esperar até que venha Sua Majestade a rainha.
Pouco depois apareceu a a rainha, seguida do rei, trazendo no bico a comida para seus filhinhos.
O urso teria gostado de ir logo atrás, mas o lobo segurou-o pelo braço e lhe disse:
- Não; agora terás de esperar até que o senhor rei e a senhora rainha tenham saído.
Tomaram nota do lugar onde estava o ninho e se afastaram. Mas o urso não se conformou com a espera. Queria ver, o quanto antes, o palácio real e, pouco depois, voltaram lá novamente. o rei e a rainha estavam fora e ele resolveu dar uma espiada no ninho. Viu lá entro uns cinco ou seis filhotes.
- Ah! então é este o palácio real?! - exclamou o urso. - Mas que palácio mais à toa! E vocês também não são príncipes; não passam de uns embromadores!
Quando os tico-tiquinhos ouviram aquilo, ficaram furiosos e gritaram:
- Não, não somos nenhuns embromadores! Nossos pais são gente muito direita. Você vai nos pagar, seu urso mentiroso!
O urso e o lobo deram volta, assustados, e foram sentar-se nas suas cavernas.
Os pequenos tico-ticos, porém, continuaram gritando, fazendo uma algazarra dos diabos. Quando seus pais trouxeram a comida, eles declararam:
- Não tocaremos nem numa perninha de môsca, estamos dispostos até a morrer de fome, enquanto não ficar provado se somos ou não uns embromadores. O urso esteve aqui e nos disse uma porção de desaforos.
- Fiquem descansados, - disse o velho rei, - que eu vou tirar isso a limpo.
Ele e a senhora rainha saíram voando até à entrada da caverna do urso e o rei gritou:
- Velho resmungão! Por que insultaste meus filhos? Isso te saíra caro. vai dar numa guerra tremenda!
E assim ficou declarada a guerra ao urso. E ele então chamou em seu auxílio todos os quadrúpedes: o boi, o burro, o veado, o tigre e todos os demais que andam de quatro pés por este mundo em fora. O tico- tico, por sua vez,convocou tudo o que voa. Não só os pássaros grandes e pequenos, mas também os mosquitos, marimbondos, abelhas e moscas tiveram de acudir.
Quando chegou a data em que a guerra deveria começar, o tico-tico enviou seus espias para descobrir quem era o general comandante das tropas inimigas. O mosquito, que era o mais esperto, saiu pelo mato onde estavam reunidos os adversários e escondeu-se entre as folhagens da árvore a cuja sombra os inimigos discutiam os planos de guerra. Ali estava o urso, que chamou a raposa e lhe disse:
- Raposa, tu és o mais esperto de todos os bichos. Quero que sejas o nosso general. É preciso que no guies durante a batalha.
- Bem, - disse a raposa, - mas que senha combinaremos, para eu dar as ordens a vocês?
Ninguém atinava com uma senha que o inimigo não pudesse descobrir. Aí a raposa continuou falando:
- Tenho uma bela cauda comprida e bem peluda, que se parece com um penacho vermelho. Se eu a mantiver em pé, sera sinal de que tudo corre bem, e vocês deverão continuar avançando. Mas se eu abaixar a cauda, saiam disparando o mais depressa possível.
Quando o mosquito ouviu aquela combinação, regressou voando e contou tudo, direitinho, ao tico-tico.
Na madrugada em que seria travada a batalha, via-se, de longe, o exercito dos quadrúpedes correr em grande velocidade, fazendo um barulhão que estremecia a terra. O tico-tico, por sua parte, vinha pelo ar, à frente de seu exército, em tremenda algazarra; era um gritar e um zumbir que dava medo. E os dois exércitos investiram com furor.
Aí então o tico-tico enviou o marimbondo, com ordem de ficar embaixo do rabo da raposa e de picá-la com toda a força que tinha. Na primeira ferroada a raposa estremeceu e levantou uma perna. Mas resistiu, mantendo a cauda de em pé. A segunda picada a obrigou a abaixá-la um momento e, à terceira, não podendo mais aguentar a dor soltou um berro e meteu o rabo entre as pernas . Quando os animais viram o sinal, acreditaram que tudo estava perdido e começaram a fuga, procurando cada qual esconder-se em suas covas. E assim as aves ganharam a batalha.
O senhor rei e a senhora rainha voaram, então, ao ninho dos seus filhotes e lhes disseram:
- Alegrem-se, pequenos; comam e bebam à vontade. Ganhamos a guerra!
Mas os filhotes replicaram:
- Não comeremos até que o urso venha ao nosso ninho pedir desculpas e reconheça que não somos impostores.
O tico-tico voou até a gruta do urso e gritou na entrada:
- Urso resmungão, tens de ir até o ninho de meus filhos, pedir-lhes perdão e dizer que são crianças direitinhas; do contrário, teremos de quebrar todos esses teus ossos!
O urso, assustado, apresou-se em ir apresentar desculpas. Só então os pequenos tico-ticos ficaram satisfeitos, comeram e beberam como nunca e ficaram festejando até uma hora em que as crianças já deviam estar deitadas. FIM
PELE DE URSO- CONTOS DE GRIMM
Era uma vez um rapaz que se alistou como soldado, Portava-se com valentia e era sempre o primeiro nas arrancadas guerreiras, quando começava a chover bala. Tudo ia às mil maravilhas enquanto durou a guerra, mas, quando a paz voltou a reinar, dispensaram-no do serviço militar e seu capitão lhe disse que poderia ir para onde bem quisesse. Seus pais já haviam morrido e ele não tinha onde ficar. Dirigiu-se, então, à casa de seus irmãos, pedindo que o acolhessem até que houvessem uma nova guerra. Mas seus irmãos eram duros de coração e lhe disseram:
- Que faremos contigo? Não te necessitamos para nada. Arranja-te como puderes.
O soldado, que nada mais possuía senão um fuzil, colocou-o a tiracolo e saiu a correr mundo. Nisto chegou a um descampado onde não se via mais que um grupo de árvores em círculo. Sentou-se à sombra e ali ficou a meditar, tristemente, na sorte que o esperava. " Não tenho dinheiro", - pensava ele - " não aprendi outro ofício senão o das armas e, agora, em tempos de paz, não precisam mais de mim. Serei obrigado a morrer de fome". Eis senão quando ouviu um zunido como de vento forte e, ao voltar-se, avistou um homem de jaqueta verde. Seu aspecto era imponente, embora tivesse um feio pé de cavalo.
- Já sei o que se passa contigo, - disse-lhe o homem. - Terás tanto dinheiro e tantos bens quanto quiseres, Mas antes devo saber se conheces o medo. para que eu não empregue mal o meu dinheiro.
- Como pode um soldado ter medo? - respondeu o jovem. - Se queres, submeter-me a uma prova.
- Pois bem, assentiu o homem. - Olha para trás.
O soldado voltou-se e viu um enorme urso, que avançava , grunhindo, em sua direção.
- Este é pra mim! - exclamou o soldado. - Vou te fazer cócegas no focinho para que te passe a vontade de grunhir. - E, apontando-lhe o fuzil disparou uma bala em pleno focinho da fera, que caiu e não se mexeu mais.
- Coragem que não te falta, - disse o desconhecido.- Mas há outra condição que deves satisfazer.
- Se não for em prejuízo de minha alma, estou disposto a tudo, - replicou o soldado, pois percebera com quem estava lidando.
- Está bem! - propôs o da jaqueta verde. - Nos próximos sete anos não deves lavar-te, nem pentear o cabelo, nem fazer a barba, nem cortar as unhas , nem rezar um só Pai Nosso. Eu te darei um casaco e uma capa que deverás vestir durante todo esse tempo. Se morreres antes de sete anos, serás meu. Se continuares vivendo, ficarás livre e rico para o resto da tua vida.
O soldado pensou na grande pobreza em que se encontrava e, como já tinha enfrentado tantas vezes a morte, decidiu-se a arriscar de novo a pele. Uma vez mais não era nada... E aceitou a proposta.
O diabo tirou seu casaco e o entregou a ele, dizendo:
- Quando o tiveres vestido e sempre que meteres a mão no bolso, hás de tirá-la cheia de dinheiro.
A seguir tirou a pele do urso e entregando-a ao soldado, acrescentou:
- Esta será tua capa e a tua cama. Só poderás dormir em cima dela e nunca deitarás num leito igual aos outros. Por causa desse teu agasalho, tu te chamarás "Pele de Urso".
Dito isto, o diabo desapareceu.
O soldado vestiu a jaqueta verde, meteu logo a mão no bolso e viu que o diabo não tinha mentido. Colocou, então, a pele de urso sobre os ombros e saiu a correr mundo. E nunca deixava de conseguir tudo aquilo que fizesse bem a ele e mal ao dinheiro. O primeiro ano correu às mil maravilhas, Mas, no segundo ano, o seu aspecto era o de um monstro. O cabelo lhe cobria quase todo o rosto. A barba era que nem barba de milho e, ainda por cima suja. Os dedos terminavam em verdadeiras garras. E tinham o rosto tão encardido de pó que, se a gente ali semeasse agrião, decerto brotaria logo. Todos os que o viam se punham a correr. mas como dava bastante dinheiro aos pobres a fim de rezarem para que não viesse a morrer antes dos sete anos, e como pagava tudo regiamente, nunca lhe faltou um pouso. No quarto ano, chegou ele a uma hospedaria, mas o dono negou-se a recebê-lo. Nem quis deixar que dormisse no estábulo, com medo que seus cavalos se assustassem. no entanto, quando Pele de Urso meteu no bolso e tirou um punhado de moedas de ouro, o hospedeiro resolveu dar-lhe um quarto no pátio dos fundos, com a condição de que ele não se mostrasse a ninguém, para não desmoralizar a casa.
Na tarde daquele dia, Pele de Urso estava sentado no quarto, sozinho, ansiando que terminasse aqueles sete anos de prova, quando ouviu que alguém se lamentava alto no quarto vizinho. Como tinha bom coração, abriu a porta e viu um velho que chorava, desconsoladamente, com a cabeça entre as mãos. Pele de Urso aproximou-se dele, mas o homem levantou-se de um salto e quis fugir. Entretanto, acalmou-se ao ouvir uma voz humana e, então, com palavras amigas, Pele de Urso conseguiu que lhe contasse o motivo de sua tristeza. E ficou sabendo que o velho pouco a pouco perdera toda a sua fortuna. Ele e suas filhas haviam caído em tal miséria que nem podia pagar o pouso. E o hospedeiro, por isso, ia metê-lo na prisão.
- Se é só esse o teu problema, - disse-lhe Pele de Urso, - dinheiro tenho de sobra.
E, chamando o hospedeiro, pagou-lhe a dívida, dando ainda uma bolsa cheia de ouro ao pobre velho.
Livre de suas aflições, o homem nem sabia como agradecer a seu benfeitor.
- Vem comigo, - disse ele afinal, - minhas filhas são verdadeiros milagres de beleza. Escolhe uma delas para tua esposa. Quando souberem tudo o que fizeste por mim, não te recusarão. É verdade que te falta muito para ser bonito, mas a que escolheres tratará de dar um jeito nisso.
O oferecimento agradou a Pele de Urso e ele acompanhou o homem. Quando a filha mais velha o avistou, assustou-se tanto que fugiu para os fundos da casa, aos gritos. A segunda ficou parada, contemplou-o dos pés à cabeça e logo disse:
- Como posso aceitar por marido um homem que perdeu a figura de gente? Preferiria aquele urso de barba feita que um dia andava por aqui, querendo se fazer passar por homem; ao menos estava vestido de oficial de cavalaria e usava luvas brancas. Se fosse apenas feio, ainda poderia acostumar-me. Mas, assim... Deus me livre e guarde!
A mais jovem das três, disse, no entanto:
- Querido pai, ele deve ser um a pessoa muito boa para socorrer-te quando mal te conhecia. E, já que lhe prometeste uma noiva, terás de cumprir tua promessa.
Foi uma pena que o rosto de Pele de Urso estivesse tão coberto de sujeira e pelos; do contrário, todos teriam visto refletida ali a alegria de seu coração, ao escutar aquelas palavras. Tirando um anel do bolso, ele o partiu em duas metades. Deu à jovem e guardou a outra. Na parte que entregou a ela, escreveu seu nome, pedindo que a guardasse com cuidado. E na que guardou consigo, ele gravou o nome dela. Depois disse, despedindo-se:
- Ainda tenho de viajar durante três anos. Se não voltar aqui, estarás livre, porque então eu já terei morrido. Mas pede a Deus que me conserve a vida..
A pobre noiva se cobriu de luto e, cada vez que pensava no noivo, lhe vinham lágrimas aos olhos. Suas irmãs zombavam dela.
- Cuidado!- dizia-lhe a mais velha. - Quando lhe deres a mão, ele é capaz de te arranhar.
- Acautela-te, - acrescentava a segunda - os ursos gostam de doces e, se lhe agradares, ele te devorará.
- Terás de fazer-lhe sempre as vontades, - recomeçou a primeira, - do contrário ele começará a grunhir.
E a outra continuava:
- Mas o casamento será muito alegre, pois os ursos dançam bem.
A noiva, porém, mantinha-se calada e fiel a seus compromissos. Enquanto isso, Pele de Urso continuava errando pelo mundo, fazendo o bem a todos e dando muita esmola aos pobres para que rezassem por ele. Afinal, quando chegou o último dia dos sete anos, voltou ao descampado e sentou-se embaixo do grupo de árvores em círculo. Não demorou muito, veio uma lufada de vento e o diabo apresentou-se à sua frente com um ar de aborrecimento no rosto. Atirou-lhe a velha túnica de soldado e reclamou sua jaqueta verde.
- Calma, calma! - disse-lhe o soldado. - Antes terás que me limpar, E bem direitinho!
E, quisesse ou não, o diabo teve de ir buscar água, lavar Pele de Urso, pentear-lhe o cabelo e cortar-lhe as unhas. feito isso, o jovem apareceu de novo como um garboso guerreiro, ainda mais bonito do que antes.
Depois que o diabo se retirou de uma vez por todas. Pele de Urso sentiu um grande alívio. Foi à cidade, comprou um magnífico uniforme de veludo e, instalando-se numa carruagem puxada por quatro cavalos brancos, encaminhou-se à casa de sua noiva. Ninguém ali o reconheceu. o pai o tomou por um distinto capitão e o conduziu à sala onde estavam as filhas. Fizeram-no sentar-se entre as duas irmãs mais velhas, que lhe serviram vinho e os melhores petiscos. As duas estavam certas de jamais terem visto um rapaz tão bonito. A noiva, no entanto, permaneceu sentada à sua frente, toda de preto, olhos baixos e sem dizer palavra. quando, finalmente, o rapaz perguntou ao pai se lhe daria a mão de uma de suas filhas, as duas mais velhas correram a seus quartos para se enfeitarem o melhor possível, cada qual com a esperança de ser a escolhida.
O forasteiro, vendo-se a sós com a noiva, apanhou a metade do seu anel e o pôs dentro de uma taça de vinho, que ofereceu à moça. Ela bebeu e, quando a taça ficou vazia, encontrou no fundo a metade do anel. Sentindo que seu coração começava a bater apressado, tirou a outra parte do anel que levava ao redor do pescoço, atada numa fita, e a juntou à primeira; viu-se então, que as duas metades coincidiam exatamente. Disse o rapaz:
- Sou teu noivo, a quem viste na figura de Pele de Urso e que, pela graça de Deus, recuperou a forma humana e se purificou.
E, aproximando-se dela, enlaçou-a nos braços e lhe deu um beijo. Naquele momento entraram as duas irmãs mais velhas, vestidas com todo o aparato. Mas, ao verem que o belo rapaz se declarara à mais moça e quando souberam que ele era Pele de Urso, saíram correndo, loucas de raiva e despeito. A primeira jogou-se a um poço e morreu afogada; a outra enforcou-se numa árvore.
Ao anoitecer, bateram à porta e, quando o noivo foi abrir, apresentou-se o diabo com sua jaqueta verde e lhe disse:
- Está vendo? Agora ganhei duas almas em troca da tua! FIM
- Que faremos contigo? Não te necessitamos para nada. Arranja-te como puderes.
O soldado, que nada mais possuía senão um fuzil, colocou-o a tiracolo e saiu a correr mundo. Nisto chegou a um descampado onde não se via mais que um grupo de árvores em círculo. Sentou-se à sombra e ali ficou a meditar, tristemente, na sorte que o esperava. " Não tenho dinheiro", - pensava ele - " não aprendi outro ofício senão o das armas e, agora, em tempos de paz, não precisam mais de mim. Serei obrigado a morrer de fome". Eis senão quando ouviu um zunido como de vento forte e, ao voltar-se, avistou um homem de jaqueta verde. Seu aspecto era imponente, embora tivesse um feio pé de cavalo.
- Já sei o que se passa contigo, - disse-lhe o homem. - Terás tanto dinheiro e tantos bens quanto quiseres, Mas antes devo saber se conheces o medo. para que eu não empregue mal o meu dinheiro.
- Como pode um soldado ter medo? - respondeu o jovem. - Se queres, submeter-me a uma prova.
- Pois bem, assentiu o homem. - Olha para trás.
O soldado voltou-se e viu um enorme urso, que avançava , grunhindo, em sua direção.
- Este é pra mim! - exclamou o soldado. - Vou te fazer cócegas no focinho para que te passe a vontade de grunhir. - E, apontando-lhe o fuzil disparou uma bala em pleno focinho da fera, que caiu e não se mexeu mais.
- Coragem que não te falta, - disse o desconhecido.- Mas há outra condição que deves satisfazer.
- Se não for em prejuízo de minha alma, estou disposto a tudo, - replicou o soldado, pois percebera com quem estava lidando.
- Está bem! - propôs o da jaqueta verde. - Nos próximos sete anos não deves lavar-te, nem pentear o cabelo, nem fazer a barba, nem cortar as unhas , nem rezar um só Pai Nosso. Eu te darei um casaco e uma capa que deverás vestir durante todo esse tempo. Se morreres antes de sete anos, serás meu. Se continuares vivendo, ficarás livre e rico para o resto da tua vida.
O soldado pensou na grande pobreza em que se encontrava e, como já tinha enfrentado tantas vezes a morte, decidiu-se a arriscar de novo a pele. Uma vez mais não era nada... E aceitou a proposta.
O diabo tirou seu casaco e o entregou a ele, dizendo:
- Quando o tiveres vestido e sempre que meteres a mão no bolso, hás de tirá-la cheia de dinheiro.
A seguir tirou a pele do urso e entregando-a ao soldado, acrescentou:
- Esta será tua capa e a tua cama. Só poderás dormir em cima dela e nunca deitarás num leito igual aos outros. Por causa desse teu agasalho, tu te chamarás "Pele de Urso".
Dito isto, o diabo desapareceu.
O soldado vestiu a jaqueta verde, meteu logo a mão no bolso e viu que o diabo não tinha mentido. Colocou, então, a pele de urso sobre os ombros e saiu a correr mundo. E nunca deixava de conseguir tudo aquilo que fizesse bem a ele e mal ao dinheiro. O primeiro ano correu às mil maravilhas, Mas, no segundo ano, o seu aspecto era o de um monstro. O cabelo lhe cobria quase todo o rosto. A barba era que nem barba de milho e, ainda por cima suja. Os dedos terminavam em verdadeiras garras. E tinham o rosto tão encardido de pó que, se a gente ali semeasse agrião, decerto brotaria logo. Todos os que o viam se punham a correr. mas como dava bastante dinheiro aos pobres a fim de rezarem para que não viesse a morrer antes dos sete anos, e como pagava tudo regiamente, nunca lhe faltou um pouso. No quarto ano, chegou ele a uma hospedaria, mas o dono negou-se a recebê-lo. Nem quis deixar que dormisse no estábulo, com medo que seus cavalos se assustassem. no entanto, quando Pele de Urso meteu no bolso e tirou um punhado de moedas de ouro, o hospedeiro resolveu dar-lhe um quarto no pátio dos fundos, com a condição de que ele não se mostrasse a ninguém, para não desmoralizar a casa.
Na tarde daquele dia, Pele de Urso estava sentado no quarto, sozinho, ansiando que terminasse aqueles sete anos de prova, quando ouviu que alguém se lamentava alto no quarto vizinho. Como tinha bom coração, abriu a porta e viu um velho que chorava, desconsoladamente, com a cabeça entre as mãos. Pele de Urso aproximou-se dele, mas o homem levantou-se de um salto e quis fugir. Entretanto, acalmou-se ao ouvir uma voz humana e, então, com palavras amigas, Pele de Urso conseguiu que lhe contasse o motivo de sua tristeza. E ficou sabendo que o velho pouco a pouco perdera toda a sua fortuna. Ele e suas filhas haviam caído em tal miséria que nem podia pagar o pouso. E o hospedeiro, por isso, ia metê-lo na prisão.
- Se é só esse o teu problema, - disse-lhe Pele de Urso, - dinheiro tenho de sobra.
E, chamando o hospedeiro, pagou-lhe a dívida, dando ainda uma bolsa cheia de ouro ao pobre velho.
Livre de suas aflições, o homem nem sabia como agradecer a seu benfeitor.
- Vem comigo, - disse ele afinal, - minhas filhas são verdadeiros milagres de beleza. Escolhe uma delas para tua esposa. Quando souberem tudo o que fizeste por mim, não te recusarão. É verdade que te falta muito para ser bonito, mas a que escolheres tratará de dar um jeito nisso.
O oferecimento agradou a Pele de Urso e ele acompanhou o homem. Quando a filha mais velha o avistou, assustou-se tanto que fugiu para os fundos da casa, aos gritos. A segunda ficou parada, contemplou-o dos pés à cabeça e logo disse:
- Como posso aceitar por marido um homem que perdeu a figura de gente? Preferiria aquele urso de barba feita que um dia andava por aqui, querendo se fazer passar por homem; ao menos estava vestido de oficial de cavalaria e usava luvas brancas. Se fosse apenas feio, ainda poderia acostumar-me. Mas, assim... Deus me livre e guarde!
A mais jovem das três, disse, no entanto:
- Querido pai, ele deve ser um a pessoa muito boa para socorrer-te quando mal te conhecia. E, já que lhe prometeste uma noiva, terás de cumprir tua promessa.
Foi uma pena que o rosto de Pele de Urso estivesse tão coberto de sujeira e pelos; do contrário, todos teriam visto refletida ali a alegria de seu coração, ao escutar aquelas palavras. Tirando um anel do bolso, ele o partiu em duas metades. Deu à jovem e guardou a outra. Na parte que entregou a ela, escreveu seu nome, pedindo que a guardasse com cuidado. E na que guardou consigo, ele gravou o nome dela. Depois disse, despedindo-se:
- Ainda tenho de viajar durante três anos. Se não voltar aqui, estarás livre, porque então eu já terei morrido. Mas pede a Deus que me conserve a vida..
A pobre noiva se cobriu de luto e, cada vez que pensava no noivo, lhe vinham lágrimas aos olhos. Suas irmãs zombavam dela.
- Cuidado!- dizia-lhe a mais velha. - Quando lhe deres a mão, ele é capaz de te arranhar.
- Acautela-te, - acrescentava a segunda - os ursos gostam de doces e, se lhe agradares, ele te devorará.
- Terás de fazer-lhe sempre as vontades, - recomeçou a primeira, - do contrário ele começará a grunhir.
E a outra continuava:
- Mas o casamento será muito alegre, pois os ursos dançam bem.
A noiva, porém, mantinha-se calada e fiel a seus compromissos. Enquanto isso, Pele de Urso continuava errando pelo mundo, fazendo o bem a todos e dando muita esmola aos pobres para que rezassem por ele. Afinal, quando chegou o último dia dos sete anos, voltou ao descampado e sentou-se embaixo do grupo de árvores em círculo. Não demorou muito, veio uma lufada de vento e o diabo apresentou-se à sua frente com um ar de aborrecimento no rosto. Atirou-lhe a velha túnica de soldado e reclamou sua jaqueta verde.
- Calma, calma! - disse-lhe o soldado. - Antes terás que me limpar, E bem direitinho!
E, quisesse ou não, o diabo teve de ir buscar água, lavar Pele de Urso, pentear-lhe o cabelo e cortar-lhe as unhas. feito isso, o jovem apareceu de novo como um garboso guerreiro, ainda mais bonito do que antes.
Depois que o diabo se retirou de uma vez por todas. Pele de Urso sentiu um grande alívio. Foi à cidade, comprou um magnífico uniforme de veludo e, instalando-se numa carruagem puxada por quatro cavalos brancos, encaminhou-se à casa de sua noiva. Ninguém ali o reconheceu. o pai o tomou por um distinto capitão e o conduziu à sala onde estavam as filhas. Fizeram-no sentar-se entre as duas irmãs mais velhas, que lhe serviram vinho e os melhores petiscos. As duas estavam certas de jamais terem visto um rapaz tão bonito. A noiva, no entanto, permaneceu sentada à sua frente, toda de preto, olhos baixos e sem dizer palavra. quando, finalmente, o rapaz perguntou ao pai se lhe daria a mão de uma de suas filhas, as duas mais velhas correram a seus quartos para se enfeitarem o melhor possível, cada qual com a esperança de ser a escolhida.
O forasteiro, vendo-se a sós com a noiva, apanhou a metade do seu anel e o pôs dentro de uma taça de vinho, que ofereceu à moça. Ela bebeu e, quando a taça ficou vazia, encontrou no fundo a metade do anel. Sentindo que seu coração começava a bater apressado, tirou a outra parte do anel que levava ao redor do pescoço, atada numa fita, e a juntou à primeira; viu-se então, que as duas metades coincidiam exatamente. Disse o rapaz:
- Sou teu noivo, a quem viste na figura de Pele de Urso e que, pela graça de Deus, recuperou a forma humana e se purificou.
E, aproximando-se dela, enlaçou-a nos braços e lhe deu um beijo. Naquele momento entraram as duas irmãs mais velhas, vestidas com todo o aparato. Mas, ao verem que o belo rapaz se declarara à mais moça e quando souberam que ele era Pele de Urso, saíram correndo, loucas de raiva e despeito. A primeira jogou-se a um poço e morreu afogada; a outra enforcou-se numa árvore.
Ao anoitecer, bateram à porta e, quando o noivo foi abrir, apresentou-se o diabo com sua jaqueta verde e lhe disse:
- Está vendo? Agora ganhei duas almas em troca da tua! FIM
O IRMÃO SUJO DO DIABO - CONTOS DE GRIMM
Um soldado que dera baixa do serviço militar não tinha com que viver nem descobria como dar um jeito na vida. Até que, andando um dia pela floresta, encontrou um anão que não era outro senão o diabo, Disse-lhe o homenzinho:
- Que há contigo, que estás tão triste?
E o soldado lhe respondeu:
- Estou com fome e sem dinheiro.
- Se quiseres me servir e ser meu criado - propôs o diabo, - jamais te faltará qualquer coisa. Sete anos durará teu serviço, depois estarás livre. Mas de uma coisa te previno: ficas proibido de lavar-te, pentear-te e de assoar o nariz; não cortarás as unhas nem o cabelo e, além disso, não limparás teus olhos.
- Vá lá que seja, se não há outro remédio! - respondeu o soldado.
E partiu com o anão, que o levou, diretamente, ao inferno. Lá chegados, deu-lhe instruções sobre seu trabalho: avivar o fogo debaixo das caldeiras em que eram fervidos os condenados; manter a casa limpa; deitar o lixo fora e conservar tudo bem arrumado. Recomendou-lhe que não se atrevesse a olhar, uma só vez, para dentro das caldeiras; se o fizesse, o azar seria dele.
- Está bem; cuidarei de tudo, - garantiu o soldado.
O velho diabo partiu em viagem e o soldado começou seu trabalho. Atiçou o fogo, varreu e levou o lixo para fora da porta. Numa palavra, fez tudo o que o patrão lhe ordenara. De regresso, o diabo foi ver se as coisas tinham sido feitas direitinho. Declarou-se satisfeito e partiu pela segunda vez. O soldado lançou um olhar em redor. Ali estavam as caldeiras,cozinhando e borbulhando, dispostas em circulo, cada qual com um fogo enorme embaixo. Sentiu um desejo louco de ver o que havia nelas. Ah, se não fosse a proibição do diabo! Por fim, não podendo mais resistir, levantou um pouquinho a tampa da primeira caldeira e deu uma espiada. dentro estava fervendo o seu antigo sargento.
- Ah! Estás aí, hein? Antes eu é quem estava em tuas mãos, agora tu estás nas minhas!
Soltou a tampa, rapidamente, atiçou bem o fogo e lhe deitou mais lenha. Passou depois à caldeira seguinte, Levantou a tampa e viu que continha o seu alferes.
Ah! Estás aí, heim? Antes, eu estava em tuas mãos, agora és tu que estás nas minhas! - E, empunhando o fole, se pôs a atiçar o fogo até que se elevasse em grandes labaredas.
Deste modo cumpriu os sete anos de serviço no inferno, sem lavar-se nem pentear-se; sem cortar cabelos nem unhas e sem limpar os olhos; e aqueles sete anos lhe pareceram tão curtos como se houvesse transcorrido, apenas, a metade de um.
Terminado o prazo, veio o diabo e lhe disse:
- Bem, João. Que fizeste?
- Avivei o fogo debaixo das caldeiras, varri e levei o lixo para fora da porta.
E eu sei que também espiaste o que havia nas caldeiras. Tua sorte foi teres posto mais lenha no fogo; do contrário estarias perdido. terminou teu tempo. Queres voltar voltar para casa?
- Sim. Gostaria de ver meu pai.
- Como pagamento de teus serviços,enche a mochila com lixo e leva-o para casa. Mas tens de partir sem tomar banho nem te penteares, com cabelos e barba grandes, de unhas compridas e olhos remelentos. E quando te perguntarem de onde vens, responderás: " Do inferno"; e se quiserem saber quem és, dirás:" O irmão sujo do diabo, que é também o meu rei."
O soldado escutou-o em silêncio e fez o que lhe disse, embora não estivesse nada satisfeito de receber apenas lixo como pagamento.
Mal havia chegado à floresta, tirou a mochila do ombro para entornar seu conteúdo. Mas, ao abri-la, viu que o lixo se havia convertido em outro puro.
- Não esperava isso! - exclamou - e, muito satisfeito da vida, encaminhou-se a passos largos para a cidade.
À frente da hospedaria estava o dono que, ao vê-lo aproximar-se, levou um susto deste tamanho, pois o aspecto de João era mesmo horrível, muito pior que um espantalho.
- De onde vens? - perguntou-lhe.
- Do inferno.
- Quem és?
- O irmão sujo do diabo, que é também meu rei!
O hospedeiro não quis recebê-lo, mas, ao ver o mundão de ouro que trazia, correu para abrir-lhe a porta, pessoalmente. João pediu o melhor quarto que havia e mandou que lhe servissem do bom e do melhor. Comeu e bebeu, mas não tomou banho nem nada, como lhe ordenara o diabo. Por fim deitou-se a dormir.
Mas o hospedeiro não parava de pensar na mochila atulhada de ouro e não sossegou até que, no escuro da noite, entrou pé ante pé no quarto e a roubou.
Na manhã seguinte, quando João se levantou e quis pagar a conta para seguir caminho, a mochila havia desaparecido. João não perdeu tempo em lamentações. "Não tenho culpa do que me aconteceu" - pensou e, dando volta, foi direitinho até o inferno. Ali, explicou seu infortúnio ao velho diabo e pediu que o ajudasse.
- Senta-te aí - disse o diabo - que vou te lavar e assoar esse teu nariz; e também cortar teus cabelos e unhas e limpar teus olhos.
Fez isso, o diabo voltou a encher-lhe outra mochila e falou:
- Vai dizer ao hospedeiro que te devolva o o ouro, senão irei buscá-lo e ele terá de substituir-te no trabalho de atiçar o fogo do inferno.
João saiu e voltou à hospedaria, onde disse ao dono:
- Roubaste o meu ouro. Devolve-o ou irás para o inferno ocupar meu posto e ficar do jeito medonho que eu tinha.
Cheio de medo, o hospedeiro devolveu-lhe o ouro e mais outro tanto, suplicando que não o denunciasse. João partiu e era, agora, um homem muito rico.
A caminho da casa de seu pai, comprou para si uma roupa de pano ordinário, para disfarçar, e, enquanto ia andando, entretinha-se tocando música. Aprendera essa arte no inferno, com o diabo. E encantava a todos os que ouviam. Tanto assim que o rei do seu país, que era velho e vivia muito aborrecido, mandou chamá-lo para que tocasse para ele. E de tal modo lhe agradou a sua música que lhe ofereceu a mão de sua filha mais velha. Mas a princesa, quando viu que deveria casar-se com um indivíduo de classe tão baixa, exclamou: " Prefiro atirar-me no poço, mais fundo!"
O rei deu-lhe, então, a filha mais moça, que o aceitou por amor a seu pai. E, deste modo, o irmão sujo do diabo casou-se com uma princesinha e, ao morrer o velho rei, herdou o trono. FIM
Alferes - é um posto ou graduação militar existente nas forças armadas de alguns países.patente de oficial abaixo de tenente (no Brasil, a designação foi substituída pela de segundo-tenente).
- Que há contigo, que estás tão triste?
E o soldado lhe respondeu:
- Estou com fome e sem dinheiro.
- Se quiseres me servir e ser meu criado - propôs o diabo, - jamais te faltará qualquer coisa. Sete anos durará teu serviço, depois estarás livre. Mas de uma coisa te previno: ficas proibido de lavar-te, pentear-te e de assoar o nariz; não cortarás as unhas nem o cabelo e, além disso, não limparás teus olhos.
- Vá lá que seja, se não há outro remédio! - respondeu o soldado.
E partiu com o anão, que o levou, diretamente, ao inferno. Lá chegados, deu-lhe instruções sobre seu trabalho: avivar o fogo debaixo das caldeiras em que eram fervidos os condenados; manter a casa limpa; deitar o lixo fora e conservar tudo bem arrumado. Recomendou-lhe que não se atrevesse a olhar, uma só vez, para dentro das caldeiras; se o fizesse, o azar seria dele.
- Está bem; cuidarei de tudo, - garantiu o soldado.
O velho diabo partiu em viagem e o soldado começou seu trabalho. Atiçou o fogo, varreu e levou o lixo para fora da porta. Numa palavra, fez tudo o que o patrão lhe ordenara. De regresso, o diabo foi ver se as coisas tinham sido feitas direitinho. Declarou-se satisfeito e partiu pela segunda vez. O soldado lançou um olhar em redor. Ali estavam as caldeiras,cozinhando e borbulhando, dispostas em circulo, cada qual com um fogo enorme embaixo. Sentiu um desejo louco de ver o que havia nelas. Ah, se não fosse a proibição do diabo! Por fim, não podendo mais resistir, levantou um pouquinho a tampa da primeira caldeira e deu uma espiada. dentro estava fervendo o seu antigo sargento.
- Ah! Estás aí, hein? Antes eu é quem estava em tuas mãos, agora tu estás nas minhas!
Soltou a tampa, rapidamente, atiçou bem o fogo e lhe deitou mais lenha. Passou depois à caldeira seguinte, Levantou a tampa e viu que continha o seu alferes.
Ah! Estás aí, heim? Antes, eu estava em tuas mãos, agora és tu que estás nas minhas! - E, empunhando o fole, se pôs a atiçar o fogo até que se elevasse em grandes labaredas.
Deste modo cumpriu os sete anos de serviço no inferno, sem lavar-se nem pentear-se; sem cortar cabelos nem unhas e sem limpar os olhos; e aqueles sete anos lhe pareceram tão curtos como se houvesse transcorrido, apenas, a metade de um.
Terminado o prazo, veio o diabo e lhe disse:
- Bem, João. Que fizeste?
- Avivei o fogo debaixo das caldeiras, varri e levei o lixo para fora da porta.
E eu sei que também espiaste o que havia nas caldeiras. Tua sorte foi teres posto mais lenha no fogo; do contrário estarias perdido. terminou teu tempo. Queres voltar voltar para casa?
- Sim. Gostaria de ver meu pai.
- Como pagamento de teus serviços,enche a mochila com lixo e leva-o para casa. Mas tens de partir sem tomar banho nem te penteares, com cabelos e barba grandes, de unhas compridas e olhos remelentos. E quando te perguntarem de onde vens, responderás: " Do inferno"; e se quiserem saber quem és, dirás:" O irmão sujo do diabo, que é também o meu rei."
O soldado escutou-o em silêncio e fez o que lhe disse, embora não estivesse nada satisfeito de receber apenas lixo como pagamento.
Mal havia chegado à floresta, tirou a mochila do ombro para entornar seu conteúdo. Mas, ao abri-la, viu que o lixo se havia convertido em outro puro.
- Não esperava isso! - exclamou - e, muito satisfeito da vida, encaminhou-se a passos largos para a cidade.
À frente da hospedaria estava o dono que, ao vê-lo aproximar-se, levou um susto deste tamanho, pois o aspecto de João era mesmo horrível, muito pior que um espantalho.
- De onde vens? - perguntou-lhe.
- Do inferno.
- Quem és?
- O irmão sujo do diabo, que é também meu rei!
O hospedeiro não quis recebê-lo, mas, ao ver o mundão de ouro que trazia, correu para abrir-lhe a porta, pessoalmente. João pediu o melhor quarto que havia e mandou que lhe servissem do bom e do melhor. Comeu e bebeu, mas não tomou banho nem nada, como lhe ordenara o diabo. Por fim deitou-se a dormir.
Mas o hospedeiro não parava de pensar na mochila atulhada de ouro e não sossegou até que, no escuro da noite, entrou pé ante pé no quarto e a roubou.
Na manhã seguinte, quando João se levantou e quis pagar a conta para seguir caminho, a mochila havia desaparecido. João não perdeu tempo em lamentações. "Não tenho culpa do que me aconteceu" - pensou e, dando volta, foi direitinho até o inferno. Ali, explicou seu infortúnio ao velho diabo e pediu que o ajudasse.
- Senta-te aí - disse o diabo - que vou te lavar e assoar esse teu nariz; e também cortar teus cabelos e unhas e limpar teus olhos.
Fez isso, o diabo voltou a encher-lhe outra mochila e falou:
- Vai dizer ao hospedeiro que te devolva o o ouro, senão irei buscá-lo e ele terá de substituir-te no trabalho de atiçar o fogo do inferno.
João saiu e voltou à hospedaria, onde disse ao dono:
- Roubaste o meu ouro. Devolve-o ou irás para o inferno ocupar meu posto e ficar do jeito medonho que eu tinha.
Cheio de medo, o hospedeiro devolveu-lhe o ouro e mais outro tanto, suplicando que não o denunciasse. João partiu e era, agora, um homem muito rico.
A caminho da casa de seu pai, comprou para si uma roupa de pano ordinário, para disfarçar, e, enquanto ia andando, entretinha-se tocando música. Aprendera essa arte no inferno, com o diabo. E encantava a todos os que ouviam. Tanto assim que o rei do seu país, que era velho e vivia muito aborrecido, mandou chamá-lo para que tocasse para ele. E de tal modo lhe agradou a sua música que lhe ofereceu a mão de sua filha mais velha. Mas a princesa, quando viu que deveria casar-se com um indivíduo de classe tão baixa, exclamou: " Prefiro atirar-me no poço, mais fundo!"
O rei deu-lhe, então, a filha mais moça, que o aceitou por amor a seu pai. E, deste modo, o irmão sujo do diabo casou-se com uma princesinha e, ao morrer o velho rei, herdou o trono. FIM
Alferes - é um posto ou graduação militar existente nas forças armadas de alguns países.patente de oficial abaixo de tenente (no Brasil, a designação foi substituída pela de segundo-tenente).
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